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estudos:greisch:ot:savoir-voir-les-yeux-de-husserl-ou-l-entree-en-phenomenologie

Saber ver

GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Esquisse d'une interprétation intégrale de Sein und Zeit. Paris: PUF, 1994, Introdução.

1. A nova concepção de filosofia elaborada por Heidegger durante seu período de Privatdozent em Freiburg é dominada por dois autores, Edmund Husserl e Wilhelm Dilthey, sendo o vínculo com Husserl marcado por uma dívida declarada: no momento em que rompe com seu antigo orientador de tese, Rickert, Heidegger descreve Husserl como aquele que lhe implantou os olhos para ver, declaração que se encontra na íntegra no prefácio do curso do semestre de verão de 1923.

2. A fenomenologia é caracterizada antes de tudo como uma questão de olhar, na medida em que as coisas só estão presentes onde há olhos para vê-las, de modo que o saber fenomenológico se confunde com um saber-ver; o lema essencial “retorno às coisas mesmas” funda a tese de que a fenomenologia é a única capaz de tornar efetiva a ideia da filosofia como arqui-ciência, tal como exposto na abertura dos Grundprobleme der Phänomenologie de 1919-1920 (GA58).

3. Já nesse primeiro exposto programático da fenomenologia como arqui-ciência, constata-se que ver é sinônimo de interpretar ou compreender, de modo que saber ver e saber interpretar se equivalem, e desde os cursos de 1919 o qualificativo hermenêutico se enxerta ao termo fenomenologia, uso mantido em Sein und Zeit, o que exige esclarecer o sentido dessa expressão a partir dos cursos de 1919-1923.

4. A ruptura com o neokantismo implica a decisão de questionar se aquilo que se nomeia teoria é capaz de fazer ver os fenômenos tais como efetivamente se dão, questão que Heidegger sente-se só em formular, já que o único pensador inquietado por esse problema, Emil Lask, morreu na guerra.

  • A obsessão profundamente enraizada pelo teórico constitui um dos principais obstáculos à visão dos fenômenos tal como se dão, cabendo reconhecer com ingenuidade que a atitude teórica só se adota em circunstâncias excepcionais.
  • Nos fenômenos há mais do que a simples razão teórica neles discerne, de modo que a teoria, mesmo invocando o sentido do real, amputa a realidade de parte de suas significações por meio de uma abstração que é ao mesmo tempo dessignificação e desvitalização.
  • O vivido do mundo circundante é desvivido até restar apenas o reconhecimento de um real enquanto tal, assim como o eu histórico concreto é des-historializado.

5. A verdadeira questão passa a ser a do método e do olhar que permitem ver os fenômenos tais como se dão, método necessariamente descritivo e não explicativo, o que leva Heidegger a rejeitar a reflexão descritiva preconizada pelo neokantiano Paul Natorp.

  • Natorp procede por reconstrução do ato que tornou possível determinado tipo de objetivação, selando antes o triunfo da lógica, o que desconhece a intenção verdadeira da fenomenologia.
  • À fenomenologia cabe opor ao logicismo a simpatia com a vida.

6. Heidegger reconhece que a dificuldade pode retornar no próprio terreno da fenomenologia, já que o ver fenomenológico poderia ser ele mesmo uma tematização, portanto uma objetivação e, em última instância, uma atividade teórica, dificuldade que ocupa toda a parte final do curso.

  • Para resolver essa questão, propõe-se distinguir dois tipos fundamentalmente diferentes de teorização: o primeiro, no sentido habitual, ocupa lugar determinado no processo de afastamento da vida; o segundo, puramente formal, dá acesso ao pré-mundano essencial, a significações ainda não ancoradas em uma vida determinada.
  • Tais significações exprimem a eventualidade própria da vida sem traí-la, e para compreendê-las é necessária uma intuição hermenêutica, expressão que enxerta a noção fenomenológica de intuição à noção hermenêutica de interpretação.
  • Não se trata de contestar o papel da intuição na fenomenologia, mas de admitir que o nível primeiro da pesquisa fenomenológica é antes o compreender, afirmação que contém o essencial da mutação hermenêutica da fenomenologia, postulando que não há evidência eidética que não seja ao mesmo tempo evidência hermenêutica.

7. Apesar da importância decisiva desse deslocamento, tanto a fenomenologia hermenêutica quanto a husserliana admitem apenas um único critério crítico, a evidência das coisas vistas, de modo que a crítica fenomenológica, como toda crítica autêntica, só pode ser positiva, consistindo na exibição da verdadeira esfera dos problemas.

8. Constatando-se que essa concepção hermenêutica da fenomenologia surge, como algo evidente, já nos primeiros ensinamentos de Heidegger, torna-se difícil falar em uma virada hermenêutica da fenomenologia em seu pensamento, pois a noção de virada supõe uma fase prévia não hermenêutica que se revela inencontrável no período considerado, movendo-se desde o início em uma concepção hermenêutica da fenomenologia.

9. A tarefa verdadeira torna-se então caracterizar essa concepção hermenêutica em sua diferença em relação à ideia husserliana, somando-se ao deslocamento já indicado da intuição para a compreensão outros motivos a serem elencados.

10. Aos olhos de Heidegger, a vontade de compreender os motivos e as conexões históricas faz parte da essência de toda fenomenologia hermenêutica, de modo que esta não está acima da história, devendo retornar a ela para apropriar-se verdadeiramente dos fenômenos, já que autores como Aristóteles, Platão e Kant tiveram por vezes olhos para ver fenômenos que sem seu auxílio dificilmente seriam discernidos.

11. É próprio de uma fenomenologia hermenêutica reconhecer que ver, no sentido de compreender a própria doação dos fenômenos, é uma arte difícil, só sendo possível discernir as modalidades específicas dessa doação dizendo primeiro o que o fenômeno não é.

  • Somente nesse ponto a fenomenologia hermenêutica se compara à dialética hegeliana e ao conceito hegeliano de fenômeno, sentido da expressão diahermenêutica (diaherméneutique) empregada por Heidegger nesse período.
  • Essa aproximação necessária não permite confusão: embora a fenomenologia hermenêutica, tal como a dialética hegeliana, deva apostar em uma produtividade do Não e saber dizer não, não se pode esquecer que a dialética é cega para a doação.

12. O discernimento das significações operado pelo compreender interpretativo não pode mais se guiar pela simples objetividade das significações acessíveis à razão teórica, constituindo aquilo que se nomeia significação de um fenômeno uma estrutura intencional complexa com ao menos três dimensões, designadas por Heidegger como Gehaltsinn, teor de sentido, Bezugssinn, sentido referencial, e Vollzugssinn, sentido da efetuação, cuja articulação determina o conceito, ao mesmo tempo fenomenológico e hermenêutico, de situação.

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13. Esse esquema aplica-se igualmente à ideia heideggeriana de filosofia evocada anteriormente, e no que concerne à caracterização hermenêutica da fenomenologia a resposta situa-se no nível do Vollzugssinn, já que um fenômeno não está verdadeiramente compreendido se não for considerado na perspectiva de sua efetuação, sendo necessário ainda definir a intencionalidade própria a esse modo de comportamento, sob pena de fornecer dele uma descrição puramente comportamentalista ou funcionalista, incapaz de compreender as significações implicadas.

14. Contrariamente ao que se poderia pensar, o Vollzugssinn não é sinônimo de simples primado do prático sobre o teórico, tratando-se antes de reconhecer que o próprio teórico enquanto tal remete a um pré-teórico, sendo nessa esfera originária que a filosofia enquanto arqui-ciência pode se estabelecer.

  • Para isso é necessário descrever essa esfera, a fim de ver como nela se constituem as significações das coisas e segundo qual modo de doação, tarefa própria da fenomenologia consistindo em examinar as modalidades da doação das coisas.
  • Essa questão do modo de doação formula-se de imediato em termos de es gibt, indagando se há apenas uma coisa quando só há coisas, hipótese em que não haveria coisa alguma nem mesmo nada, pois sob o domínio universal da esfera das coisas também não haveria “há”, perguntando-se então se há o “há”.

15. Essa questão, que à primeira vista parece apenas um mau trocadilho professoral, define na realidade o limiar de acesso à determinação da fenomenologia como arqui-ciência pré-teórica, determinação à qual se dedica toda a sequência do curso, travessia que assume o caráter de uma verdadeira conversão filosófica, tornada ainda mais solene pela declaração de que se está diante de uma encruzilhada metódica que decide a vida ou a morte da filosofia enquanto tal, diante de um abismo que conduz ao nada, ao reino absoluto dos fatos, ou permite saltar para outro mundo, mais exatamente para o mundo como tal, configurando a escolha decisiva pela fenomenologia contra o neokantismo.

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