Memória coletiva
DURT, Christoph; FUCHS, Thomas; TEWES, Christian (ORGS.). Embodiment, enaction, and culture: investigating the constitution of the shared world. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2017.
17 Memórias corporais coletivas
1. Embora os corpos humanos apresentem semelhanças em todo o mundo, seus hábitos, posturas e comportamentos são amplamente moldados pela cultura, cujas práticas, regras, papéis e rituais inscrevem disposições afetivas e relações sociais nas técnicas corporais, sobretudo mediante uma educação infantil implícita que transmite princípios éticos, cosmológicos e políticos por meio de orientações aparentemente insignificantes.
2. A ligação entre cultura e corporeidade depende de uma memória corporal constituída por hábitos e habilidades adquiridos que escapam à recordação consciente, pois as interações recorrentes formam um habitus individual no qual normas e regras culturais se incorporam como um saber-fazer implícito, distinto do conhecimento declarativo e da rememoração explícita do passado.
3. As interações sociais que constituem a memória corporal individual seguem padrões, estilos e ritmos orientados frequentemente para objetivos compartilhados, como nas brincadeiras, refeições e saudações, de modo que sua realização necessariamente diádica ou grupal permite reconhecer um nível supraindividual de formação da memória, complementar à memória coletiva entendida predominantemente como tradição verbal ou comemoração explícita.
4. A base intercorporal da memória coletiva manifesta-se nas performances e nos movimentos ritualizados e sincronizados que sustentam a cooperação humana, pois o trabalho ritmado, a dança, o canto e os exercícios militares produzem sensações e afetos compartilhados cuja ressonância enfraquece as fronteiras psicológicas entre indivíduo e grupo, favorecendo a comunidade e a identidade por meio de processos de coordenação dotados de dinâmica própria.
5. A memória corporal coletiva desenvolve-se mediante interações reiteradas em díades e grupos, predispondo seus integrantes a comportamentos coordenados e suscitando a questão de uma experiência intercorporal do “nós” ou de um corpo coletivo, cuja compreensão articula a fenomenologia às abordagens enativas e dos sistemas dinâmicos, abrangendo desde a memória individual e intercorporal até os jogos, os rituais e os padrões de interação sedimentados no habitus.
1 Memória corporal individual, diádica e coletiva
(a) Memória corporal
1. A memória não se esgota na recordação episódica consciente, uma vez que grande parte das experiências e aprendizagens permanece disponível como um conjunto de disposições e habilidades atualizadas pelo corpo vivido nas práticas cotidianas, compreendendo movimentos, manejo de instrumentos, reconhecimento perceptivo, orientação espacial e interações habituais que reativam implicitamente o passado sem representá-lo como acontecimento anterior.
2. A memória corporal constitui o conjunto de hábitos e capacidades que fundamenta a experiência do “eu posso” e a intencionalidade operante do corpo, permitindo dançar, digitar ou reconhecer situações sem recuperar conscientemente as aprendizagens correspondentes, pois as experiências sedimentam-se em padrões perceptivos e práticos que sustentam o ser-no-mundo e conservam, juntamente com o passado individual vivido, as práticas, os papéis e os artefatos de uma história cultural compartilhada.
3. A memória corporal não pode ser adequadamente compreendida como informação armazenada em um depósito cerebral, pois, embora dependa de padrões de ativação neural formados pela experiência, sua efetivação ocorre no acoplamento dinâmico entre corpo e ambiente, mediante circuitos potenciais de interação que somente se completam funcionalmente quando encontram as condições ambientais correspondentes.
4. As antecipações implícitas do peso de uma ferramenta ou do percurso de uma escada integram a intencionalidade operante do corpo e abrem, em sua relação com o ambiente, um campo procedimental de possibilidades, oportunidades de ação e probabilidades que se estende diante do sujeito como orientação corporal para o mundo, em vez de constituir uma representação localizada em seu interior.
5. Entendida como capacidade de atualizar disposições adquiridas, a memória depende do acoplamento contínuo entre corpo e ambiente, como evidencia a digitação em um teclado sem letras, na qual o saber emerge imediatamente do contato das mãos com as teclas, permitindo compreender a memória corporal como propriedade disposicional do sistema organismo-ambiente e como processo dinâmico de formação e reatualização flexível de hábitos e habilidades.
(b) Memória intercorporal
1. Entre as modalidades procedimentais, espaciais, situacionais e traumáticas da memória corporal, a memória intercorporal corresponde à sedimentação da sintonia corporal recíproca e pré-reflexiva entre sujeitos, constituindo uma condição para a formação e a transmissão de padrões coletivos de interação.
2. O desenvolvimento infantil incorpora práticas compartilhadas que integram habilidades motoras, afetivas e sociais em esquemas de interação, de modo que as experiências de acolhimento, consolo, orientação e resposta dos cuidadores se sedimentam como conhecimento relacional implícito, organizando uma memória temporal e quase musical dos ritmos, das dinâmicas e das tonalidades afetivas que permitem buscar atenção, compartilhar prazer, evitar rejeição e restabelecer vínculos.
3. As interações primárias transformam-se em estilos relacionais implícitos que estruturam a personalidade e se expressam conjuntamente em posturas, movimentos, emoções e comportamentos, como ocorre na submissão diante da autoridade, cujos gestos, distâncias, modulações vocais e sentimentos constituem disposições incorporadas que se tornam uma segunda natureza e integram o habitus e a identidade pessoal.
4. As práticas compartilhadas incorporadas na infância delimitam o espaço das relações possíveis ao longo da vida, pois as disposições do corpo vivido remetem sempre a outros efetivos ou imaginários e constituem campos procedimentais de possibilidades que se ativam no encontro, tornando as estruturas corporificadas da personalidade especialmente acessíveis na relação concreta entre sujeitos corporais.
© Memória corporal diádica
1. A memória corporal diádica constitui-se quando a história das interações entre duas pessoas sedimenta padrões específicos de comunicação, humor, gestualidade e expressão que reaparecem em seus reencontros, unindo suas memórias intercorporais em um campo procedimental compartilhado no qual os esquemas corporais se sintonizam e reativam conjuntamente uma história relacional própria.
2. Na dança, no trabalho com uma serra manejada por duas pessoas ou no remo em dupla, as capacidades individuais articulam-se em uma coordenação corporal que somente existe na interação, pela qual os participantes incorporam reciprocamente seus movimentos e formam uma configuração dinâmica abrangente, permitindo reconhecer uma intencionalidade operante do “nós” orientada para objetivos comuns mediante ajustes habituais e amplamente pré-reflexivos.
3. A coordenação dos movimentos, gestos e olhares pode adquirir uma dinâmica suficientemente intensa para sobrepor-se às intenções individuais, pois a capacidade corporal de incorporar instrumentos e outros corpos permite a formação de um corpo estendido cuja ressonância, especialmente favorecida pelo ritmo e pela melodia, confere autonomia relativa à interação e possibilita a emergência de uma produção participativa de sentido.
4. Embora o corpo estendido não possua um substrato biológico próprio de armazenamento e dependa das disposições inscritas nos organismos participantes, essas disposições encontram-se reciprocamente ajustadas e somente podem ser plenamente atualizadas na interação, justificando compreender a memória compartilhada como propriedade disposicional emergente do sistema diádico.
(d) Memória corporal coletiva
1. Uma parcela decisiva da memória e da identidade coletivas transmite-se entre gerações por meio de práticas performativas e de corpos socializados, nos quais os valores e as categorias considerados essenciais pelo grupo se conservam como automatismos e hábitos sedimentados.
2. O reconhecimento antropológico das técnicas corporais tornou possível compreender o corpo como portador da memória cultural, enquanto a fenomenologia cultural ultrapassa tanto a ideia de um corpo puramente natural quanto sua redução a símbolo de ideologias, destacando as qualidades experienciais e expressivas pré-reflexivas pelas quais a corporeidade constitui o fundamento existencial da cultura e do si mesmo.
3. A memória corporal coletiva compreende o conjunto de disposições comportamentais e interativas que os integrantes de um grupo adquiriram em experiências compartilhadas e que prefiguram novas interações coordenadas, formando um campo procedimental cuja atualização depende do grupo em atividade e torna sensíveis tanto o significado de suas práticas quanto sua identidade comum.
4. A memória corporal coletiva distingue-se da memória coletiva entendida como conhecimento tradicional compartilhado e da memória cultural que inclui documentos, monumentos e outros suportes objetivos, aproximando-se do habitus sem se reduzir a ele, pois também abrange as realizações grupais de jogos e rituais que ultrapassam as disposições consideradas individualmente.
2 Alguns fenômenos da memória corporal coletiva
1. Os jogos, a memória familiar, os rituais e o habitus constituem modalidades pelas quais a memória corporal coletiva se manifesta em práticas e relações compartilhadas.
(a) Jogos
1. Nos esportes coletivos, como o futebol, as regras, os objetivos e os meios do jogo articulam-se às habilidades individuais e à incorporação das dimensões do campo, constituindo uma totalidade indivisível na qual as disposições corporais do jogador se ajustam à configuração espacial em transformação por meio de uma consciência prática do campo.
2. Para o jogador em ação, o campo apresenta-se como um espaço de forças, aberturas e solicitações que orientam diretamente seus movimentos, de modo que sua consciência coincide com a relação dinâmica entre meio e ação, e a direção do gol é sentida corporalmente como termo imanente de suas intenções práticas.
3. Em uma equipe bem ajustada, cada jogador reconhece intuitivamente o posicionamento conjunto, os deslocamentos habituais dos companheiros e as combinações treinadas, participando de um campo procedimental formado pela equipe e pelo espaço de jogo que confere sentido aos movimentos individuais e estabelece uma antecipação corporal compartilhada das possibilidades imediatas da ação coletiva.
4. O sentido prático do jogo permite antecipar, no presente percebido, o desenvolvimento iminente da partida e as antecipações dos demais jogadores, orientando ações como o passe dirigido ao lugar que o companheiro alcançará, em vez de ao ponto em que ele se encontra.
5. O campo procedimental da equipe reúne antecipação corporal e normatividade prática, permitindo avaliar a adequação das ações e estabilizar, pelo treinamento conjunto, uma memória corporal coletiva que reativa automaticamente combinações e movimentos, enquanto as dificuldades impostas pelo adversário podem exigir mudanças táticas nas quais estratégias explícitas e disposições implícitas se complementam.
(b) Memória familiar
1. Mesmo sem regras codificadas, as famílias desenvolvem padrões próprios de interação que atribuem papéis, posições e estilos comportamentais a seus integrantes, inserindo as crianças, desde o nascimento, em estruturas de ressonância corporal e afetiva cujos rituais e relações constituem um campo procedimental pré-reflexivo reativado nos encontros familiares.
2. Nas chamadas constelações familiares, a distribuição espacial de representantes segundo as intuições de um participante procura tornar visível esse campo relacional, explorando as sensações corporais, os sentimentos e as tendências de movimento associados às posições ocupadas como possíveis indicações dos papéis e das dinâmicas familiares.
3. Embora o mecanismo dessa experiência por representação permaneça insuficientemente compreendido, a configuração espacial pode ser interpretada como exteriorização de relações sentidas e sedimentadas no corpo vivido, tornando perceptível uma rede biográfica de pertencimento, distanciamento, autoridade, inferioridade, aliança e exclusão que organiza corporalmente a presença dos familiares.
4. O espaço vivido compreende a totalidade pré-reflexiva das situações, relações, movimentos e possibilidades de uma pessoa, organizando-se em torno dos corpos segundo qualidades de proximidade, distância, amplitude, estreiteza, ligação e separação, bem como por fronteiras físicas e simbólicas que delimitam territórios, esferas de influência e zonas de proibição.
5. As forças de atração, repulsão, elasticidade e resistência que atravessam o espaço vivido articulam condições corporais, sensório-motoras, afetivas e intersubjetivas em uma organização espacial pré-reflexiva, permitindo interpretar as memórias corporais coletivas como campos relacionais vividos cuja estrutura topológica pode tornar-se visível na disposição espacial dos integrantes de uma constelação familiar.
© Rituais
1. Os rituais são atos sociais culturalmente prefigurados, simbolicamente significativos e regidos por formas cerimoniais que regulam a convivência e integram situações críticas a contextos sociais e míticos abrangentes, produzindo a realidade compartilhada por meio de performances corporais cuja repetição multissensorial sedimenta a memória do grupo e fortalece a identidade e o pertencimento de seus integrantes.
2. A comemoração ritual de acontecimentos primordiais e de ações de deuses, heróis ou ancestrais possibilita uma participação mística que renova ciclicamente a origem e reúne passado e presente, apoiando-se experiencialmente na capacidade do corpo vivido de incorporar e reativar experiências anteriores como imediatamente presentes, enquanto a memória corporal coletiva estende essa comunhão ao passado remoto do grupo.
3. Na missa cristã, a presença intemporal possibilitada pela memória corporal articula a reatualização da Última Ceia à presença intercorporal de Cristo, reunindo sua existência histórica e sua transcendência e vinculando os participantes, mediante a ingestão sacramental do pão e do vinho, à unidade do corpo místico da Igreja, pela qual o passado se renova em um presente comunitário compartilhado.
(d) Habitus
1. O habitus constitui um conjunto de disposições, habilidades, estilos, gostos e comportamentos socialmente aprendidos que funciona como senso social pré-reflexivo, resultante da sedimentação de experiências compartilhadas na memória corporal e na personalidade, cuja referência permanente a outros e cuja complementaridade nas interações justificam sua inclusão entre as formas de memória corporal coletiva.
2. Desde a noção aristotélica de hexis até suas formulações antropológicas e sociológicas em Mauss e Bourdieu, o habitus designa a ancoragem corporal da cultura e o sistema de padrões interiorizados que organiza posturas, maneiras, gostos, vestuário e modos de vida, produzindo estilos de pensamento, percepção e ação compartilhados pelos integrantes de uma classe e indicativos de suas posições sociais.
3. Como história incorporada e esquecida enquanto história, o habitus conserva o passado sob a forma de segunda natureza e orienta espontaneamente visões de mundo e estilos de relacionamento, constituindo um inconsciente cultural que naturaliza certas condutas e torna outras impróprias ou impensáveis por meio das distâncias interpessoais, das posturas, das roupas e das possibilidades práticas oferecidas pelo ambiente e por seus artefatos.
4. A aquisição do habitus ocorre pela imersão prática no mundo da vida, mediante experiências interativas reiteradas, aprendizagem mimética e rotinas implícitas que dispensam instrução deliberada, de modo semelhante à aquisição da língua materna, permitindo que as crianças incorporem atitudes e papéis sociais antes de compreendê-los explicitamente e que esses padrões orientem a conduta com maior eficácia justamente por permanecerem inconscientes.
5. A homogeneidade do habitus como memória corporal compartilhada torna as práticas sociais imediatamente compreensíveis e previsíveis, oferecendo um entendimento primário dos outros que dispensa inferências conscientes e tomadas deliberadas de perspectiva, pois a participação em um contexto comum permite reconhecer as regras práticas da convivência e antecipar suas sequências como parte do senso comum incorporado.
Conclusão
1. As memórias corporais coletivas formam-se em díades e grupos por meio de experiências compartilhadas recorrentes que estabelecem padrões espaciais e temporais de comportamento conjunto, manifestando-se fenomenologicamente tanto na história de intercorporeidade vivida como sintonia e fluidez da ação cooperativa quanto no senso social ou habitus que permite o ajuste espontâneo às situações típicas da convivência.
2. Pela perspectiva enativa e dos sistemas dinâmicos, as memórias corporais coletivas constituem uma emergência procedimental na qual os agentes formam um sistema integrado dotado de propriedades irredutíveis às capacidades individuais, cujos padrões se reativam mediante coordenação não deliberada, adquirem autonomia relativa diante das disposições particulares e podem repetir-se ou transformar-se dinamicamente ao longo do tempo.
3. A memória corporal coletiva constitui um caso paradigmático de articulação entre a descrição fenomenológica da experiência e a investigação enativa dos processos de interação.
4. Na dança, no remo, no futebol, nas relações familiares e nos rituais sociais, as memórias intercorporais individuais convergem em campos procedimentais abrangentes cuja dinâmica emergente envolve os participantes em posições e condutas específicas da formação coletiva, reatualizando-se quando o grupo volta a reunir-se em configuração e situação semelhantes.
5. Como forma geral de memória corporal coletiva, o habitus resulta da sedimentação contínua das experiências compartilhadas na estrutura corporificada da personalidade e transmite entre gerações estilos implícitos de interação, conferindo à intercorporeidade uma dimensão histórica pela qual os corpos permanecem entrelaçados em um passado comum conservado em sua memória coletiva.
6. Outras modalidades de memória corporal coletiva podem envolver formas culturais da infância, da adolescência, da sexualidade e do envelhecimento, bem como traumas e tabus compartilhados que dispõem os indivíduos a padrões específicos de interação ou restrição, permanecendo também aberta a investigação dos efeitos retroativos de sistemas externos de memória, como a escrita, os artefatos e as tecnologias computacionais, sobre os hábitos corporais individuais e coletivos.
7. As diferentes formas de memória corporal coletiva mantêm relações recíprocas, pois os rituais podem instituir hábitos compartilhados e conferir-lhes força normativa antes de se sedimentarem como segunda natureza, enquanto novas interações corporais surgidas espontaneamente em díades ou pequenos grupos podem estabilizar-se, difundir-se e converter-se em ritos e normas de comunidades mais amplas.
