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estudos:franck:2005:8

8: 29/11/2005

FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005

1. A aula trata dos §§ 32 a 34, sobre a explicitação, o discurso e a linguagem, deixando de lado os §§ 35 a 37, que analisam as versões cotidianas e decaídas da fala, com algumas considerações sobre o § 38, prevendo-se o estudo do capítulo 6 na semana seguinte e, com a retomada das aulas em 3 de janeiro e uma ausência na semana seguinte, a conclusão da primeira seção.

2. A compreensão e a explicitação merecem atenção por três razões: a determinação fundamental do Dasein é ser compreensão do ser; nessas páginas Heidegger se demarca da filosofia transcendental, kantiana ou husserliana, que parte do privilégio da teoria e do conhecer; e nelas se define o estatuto, então secundário, reservado à linguagem, muito diferente do que se seguirá.

3. A compreensão é introduzida a partir da locução alemã verstehen können, entender de algo, conhecer seu ofício, um saber não teórico que, referido não a uma techne, mas à própria existência, significa que existir é entender da existência, de suas possibilidades, entender de ser seu ser, como quando se diz que alguém conduz sua vida com inteligência ou com insigne tolice, de modo que a compreensão é o modo segundo o qual a existência é suas possibilidades, sempre possibilização, anterior de direito à compreensão ordinária, podendo por isso mesmo compreender-se mal, e o Dasein, ser-para-suas-possibilidades e poder-ser, nada tem de substancial, numa dessubstancialização tão radical do sujeito que obriga a abandonar o próprio termo.

  • Um “trabalho de ourives” indica cuidado e conhecimento da própria coisa, o que vale até para uma dissertação.
  • Lévinas conservará mais tarde o termo sujeito, mas desontologizando-o.

4. O Dasein, ser compreensivo para possibilidades, pode também não compreender, modalidade privativa, assim como o não-sentido só é compreensível na dimensão do sentido, e esse ser compreensivo pode ele mesmo ser compreendido, isto é, a compreensão pode ser explicitada, como faz todo filósofo e como indica a fórmula husserliana de levar à expressão pura de seu próprio sentido a experiência ainda muda, o que supõe uma relação essencial entre experiência e logos, de modo que a explicitação pertence à essência do compreender, que nela chega a si mesmo, e funda-se existencialmente no compreender.

5. A explicitação é a elaboração, no fundo no enunciado, do que é compreendido, e parte da compreensão do mundo (p. 148), pois o Dasein só encontra um utensílio a partir da totalidade das remissões e da significância do mundo, como o marceneiro que só pega a plaina se a oficina já estiver descoberta e explicitada, e pegar uma caneta é pegá-la enquanto com ela se pode escrever, “enquanto” que exprime o sentido do compreendido e constitui a explicitação, “enquanto” hermenêutico, antepredicativo mas articulado, oposto ao judicativo, que revela um sentido articulado anterior ao enunciado, ao teórico e ao conhecimento dos filósofos transcendentais, de modo que a percepção não é a relação originária com o mundo, pois nada é percebido sem que uma dimensão de sentido esteja aberta, sendo o sentido pré-aberto a todo acesso, em última instância, o sentido do ser, e o olhar teórico apenas uma desmodalização e modificação privativa do “enquanto” hermenêutico.

  • Martineau traduz als por “comme”, o que pode indicar uma comparação em francês.
  • Heidegger parece considerar que em Husserl o antepredicativo é um puro ver não articulado, o que não é tão simples, dadas as sínteses passivas e a dimensão identificadora de toda visada intencional (meinen).
  • Em Sein und Zeit o logos não é constituinte, sinal de que Heidegger ainda é kantiano demais.
  • Quando não se compreende mais o martelo, ele é visto em sua nudez de cabo.

6. A estrutura da explicitação articula-se em três momentos, conforme a tripla estrutura formal que Heidegger frequentemente destaca, pois tudo o que concerne ao Dasein extrai seu sentido da temporalidade e de seus três êxtases, e os três momentos, marcados pelo prefixo vor-, têm sentido temporal, numa temporalidade que, ao contrário do conceito tradicional temporalizado a partir do agora presente, se temporaliza a partir do futuro, como projeção de si para diante e fora de si, de modo que a explicitação se funda num adquirido prévio (Vorhabe), numa visão prévia (Vorsicht) e numa apreensão prévia (Vorgriff), esta remetendo a uma conceitualidade, explícita ou implícita, na qual o sentido se articula.

  • A primazia do futuro já se encontrava, de modo complexo, no eterno retorno de Nietzsche e em Schelling.
  • Vorhabe é traduzido preferencialmente por “adquirido prévio”, pois nada se adquire que antes não se tivesse.
  • Vorgriff deve ser traduzido literalmente por “apreensão prévia”, e não por “antecipação”, próxima demais de visão prévia, já que Heidegger o emprega em paralelo com Begriff na mesma frase em que trata da conceitualidade.
  • Segundo Nietzsche, toda palavra é um preconceito.

7. Adquirido prévio, visão prévia e apreensão prévia significam que a explicitação nada é sem pressupostos, não havendo visão pura nem dado puro livres de sentido que constituíssem um acesso originário, construção fantástica que ignora a estrutura extática do Dasein, com a única exceção da revelação divina, que não tem pressupostos, trazendo Deus consigo, na Trindade, que é o próprio Deus, as condições de sua revelação, banalidade teológica que serve de contraste.

  • Se todas as heresias estão na Igreja, todas as tolices podem estar na filosofia.

8. A estrutura da explicitação corresponde ao que se chamava a priori e funda-se na constituição do Dasein como transcendência, e o que é compreendido no “enquanto” não é propriamente o sentido, mas o próprio ente, aberto em sua possibilidade e modo de ser, sendo o sentido a dimensão na qual se sustenta a compreensibilidade de algo, a estrutura formal-existencial da abertura pertencente ao compreender, retomada numa linguagem alheia à teoria do conhecimento, e, sendo a compreensão um existencial constitutivo do aí, abertura ao ser de que o ser necessita para mostrar-se, segue-se a finitude do ser, correlativa à do Dasein, e a mútua implicação de ser e Dasein, cuja relação é o essencial.

  • O a priori remete ao conhecer e ao sujeito, embora Husserl tenha descoberto um a priori não correlativo a um sujeito.
  • Numa carta a Jean Beaufret que acompanha a Carta sobre o humanismo, ausente das obras completas alemãs, Heidegger sugere “ser-o-aí”, sendo o aí a abertura ao ser, clareira, aletheia.
  • A finitude do Dasein é o poder-morrer, ao passo que a finitude do ser, nunca realmente explicada, só pode significar que o ser precisa (Brauch) do Dasein.
  • Não há ser sem Dasein, embora a fórmula mais justa seja que não há Dasein sem ser, e, sendo o Dasein historicidade, o ser não é invariante e nada é fora de sua história.

9. O final do § 32 mostra que a estrutura tripla da explicitação instaura o círculo hermenêutico, segundo o qual compreender algo supõe já tê-lo compreendido, círculo que não é vicioso, pois é imposto pela estrutura do Dasein.

10. A hermenêutica designou primeiro a interpretação bíblica, cujo princípio, formulado por Santo Agostinho, é crer para compreender e compreender para crer, ordem não indiferente, pois o acento recai sobre a fé, sendo a explicitação da Bíblia a vida do crente e a crença algo recebido e não adquirido.

11. O enunciado (Aussage) é um modo derivado da explicitação, que lhe é anterior, assim como ao juízo e à proposição, que não são o lugar originário do sentido, e as falas do Dasein sobre a ocupação fundam-se no compreender como forma derivada de realização da explicitação, tese, logo abandonada por Heidegger, de que a linguagem é fundada por algo que não é ela.

  • Os gregos não têm palavra para designar a língua.

12. O problema do enunciado é capital porque, desde a ontologia grega, sobretudo em Platão e Aristóteles, o logos foi o fio condutor do estudo do sentido do ser.

  • Os dois cursos sobre Heráclito, reunidos sob o título Lógica, compreendem o logos, a partir de Heráclito, como essência da linguagem.

13. A linguagem sempre foi tida como lugar da verdade, residente no juízo, e enunciar tem três sentidos: mostrar, função apofântica de fazer ver a coisa a partir dela mesma; predicar, determinando um sujeito, que não é o predicado, mas a própria coisa, como o martelo dito pesado demais, o que supõe já tê-lo mostrado; e comunicar, dizer a alguém, o que supõe o ser-com, de modo que o enunciado é definido como mostração comunicativa e determinante (p. 156).

14. Para que o enunciado seja um modo da explicitação, deve conter seus três momentos estruturais, e, primeiro, o enunciado “este martelo é pesado demais, dá-me outro” não flutua no ar, mas mantém-se na abertura do mundo e no ser-no-mundo, exigindo o adquirido prévio dessa abertura para ter sentido.

15. Em segundo lugar, o enunciado determinante implica uma visão prévia, pois o martelo só é pesado demais em relação a uma tarefa que exige certa destreza entravada por seu peso, e não em si, já que para matar alguém ele não seria pesado o bastante.

16. Por fim, enuncia-se sempre numa língua, numa articulação de sentido e numa conceitualidade, pois toda palavra é um preconceito, carregada pela história do que serviu, espessura histórica em relação à qual não se é livre, como mostra a diferença entre dizer que o acesso ao mundo é percepção ou manejo, conceitualidade sempre já presente que constitui uma apreensão prévia.

17. O enunciado pertence à explicitação, mas a modifica (pp. 157-158), pois a proposição predicativa supõe o martelo descoberto como sujeito, hypokeimenon, a um passo da substantia, ao passo que o martelo se mostra no manejo e a ocupação não fala a língua de Aristóteles, de modo que, no enunciado, o utensílio à mão torna-se o sobre-o-quê do enunciado, ele mesmo um utensílio, passando a subsistente, suporte de propriedades, modificação fenomenológica e ontológica em que o “enquanto” hermenêutico se torna “enquanto” apofântico, de modo que o olhar teórico não é falso, mas derivado, e todo conhecimento é relação secundária, relegando ao segundo plano toda interpretação guiada pelo logos.

  • “Passa-me o sal” funciona como utensílio, ao passo que “este sal é particularmente iodado” faz do sal o sujeito de propriedades.
  • O teatro de operações fenomenológico em que o martelo se mostra como martelo é o trabalho da madeira.
  • No curso sobre Nietzsche, Heidegger afirma que por trás da palavra “enquanto” se esconde o próprio ser, e o ser visado no martelo como suporte de propriedades não é o mesmo que na Zuhandenheit.
  • A dedução transcendental das categorias supõe o “enquanto” apofântico e ignora o hermenêutico, assim como a análise cartesiana da cera repousa numa abstração prévia sobre a qual Descartes nada diz.
  • O ente é compreendido não como objeto de saber, mas como coisa de uso, e a interpretação de Aristóteles pode ser consultada no próprio texto.

18. No § 34, Da-sein é escrito com hífen por se tratar de explicitar o aí, e o discurso (Rede), traduzido por Martineau como “parole”, deve distinguir-se da língua (Sprache), sendo o discurso existencial co-originário com a compreensão e a disposição, no fenômeno total do discurso compreensivo afetado, e o fundamento ontológico-existencial da língua, tese insustentável já em Sein und Zeit, como mostra o § 68d, parágrafo vazio que afirma que o discurso não se temporaliza a partir de um êxtase determinado, o que contradiz sua co-originariedade, sendo a língua mais tarde o modo mais alto da própria apropriação.

19. O discurso é a articulação da compreensibilidade, pois o sentido se articula em significações que ele distingue e associa, e funda-se existencialmente no ser-no-mundo, sendo língua por articular significações que já pertencem ao mundo, de modo que, estando a língua sempre já presente como o mundo, estar lançado no mundo e estar lançado na língua caminham juntos, e a língua deveria temporalizar-se a partir do êxtase do passado, lugar ocupado pela disposição, sem poder temporalizar-se no presente, o que revela a inconsistência da análise.

  • Toda a análise repousa sobre o conceito de articulação, do qual nada é dito.

20. O discurso é a articulação significante da compreensibilidade do ser-no-mundo, sempre discurso sobre algo já descoberto (logos tinos, descoberta de Platão), comunicação e expressão de si, podendo acentuar a informação, a partilha ou a expressão, e a poesia é estranhamente definida como comunicação das possibilidades existenciais da disposição (p. 162), posição que Heidegger abandonará, enquanto a questão do modo de ser da língua, que torna possível a fala, é levantada sem que Heidegger saiba o que fazer dela, problema análogo ao da vida por não encontrar lugar na partilha entre Zuhandenheit e Dasein, e ainda mais grave, pois a questão do ser se coloca sempre numa língua.

21. As duas possibilidades do discurso são o ouvir (Hören), questão de compreensão e não de ouvido, pois não se ouvem ruídos configurados, mas algo já dotado de sentido, e se tem ouvidos porque se é compreensivo, e o silêncio, possibilidade mais alta da fala, pois só pode calar-se verdadeiramente quem tem algo a dizer, dizer sem dizer que prepara a crítica do falatório.

  • Há implicitamente uma crítica da percepção, e o corpo aparece como fenômeno fundado, o que Heidegger jamais mostrou.
  • Há silêncios eloquentes, e para Heidegger o essencial deve calar-se: Platão nunca toma a palavra, exceto na Carta VII, para dizer que nunca disse nada.
  • A consciência moral interrompe o falatório e faz silêncio.
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