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Encarnação

FRANCK, Didier. Chair et corps. Sur la phénoménologie de Husserl. Paris: Minuit, 1981, p. 21-24

1. A intenção pura que atravessa e anima o esforço científico, isto é, a ideia teleológica constitutiva da ciência verdadeira, consiste num encadeamento sistemático de juízos verdadeiros fundados uns sobre os outros, omnitemporais, intersubjetivos e infinitamente iteráveis como os “mesmos”, de modo que a evidência se revela como o próprio sentido da ciência.

2. A análise intencional da evidência, não desenvolvida por si mesma nas Meditações cartesianas, só se torna tema com a abertura da problemática constitutiva, e seu princípio diretor, enunciado no § 21 de Ideias I, estabelece que toda evidência cai sob o conceito de intuição doadora (intuition donatrice), cujo modo originário é, em última instância, a percepção.

  • Ao integrar a realidade à vida do ego, a evidência confirma simultaneamente o solipsismo e o idealismo fenomenológicos.
  • A intuição doadora, ou doação das coisas mesmas, constitui a característica mais geral de toda evidência, anterior às distinções entre adequada e inadequada, assertórica e apodíctica, pura e impura, predicativa e antepredicativa.
  • A evidência judicativa, intuição doadora de estados de coisas, remete sempre à evidência dos substratos sobre os quais o juízo incide.
  • Em Lógica formal e lógica transcendental (§ 59), a evidência é definida como a produção (Leistung) intencional da autodoação, forma geral da consciência de algo em que o objeto é apreendido ele mesmo, originaliter, em contraste com a apreensão por imagem ou com toda pré-visada vazia, sendo a percepção o arquimodo da autodoação.
  • Resta, então, a questão de como a percepção se deixa descrever.

3. A evidência perceptiva, desde a sexta Investigação lógica, é intenção preenchida, preenchimento definitivo e último da intenção por intuições que realizam a verdadeira adequatio rei et intellectus, e a extensão dos conceitos de intuição e percepção à esfera categorial permite que atos categoriais, fundados no sensível, deem seu objeto tal como a percepção sensível dá o seu: em carne (en chair).

4. Toda consciência perceptiva é consciência da autopresença encarnada de um objeto individual, e essa doação encarnada não se restringe aos objetos reais, pois, na segunda edição das Investigações lógicas, contemporânea de Ideias I, Husserl estende o caráter encarnado também à visão de essência, entendida como intuição doadora originária que apreende a essência em sua ipseidade “encarnada”.

  • A primeira edição das Investigações lógicas (1900-1901) ainda não qualificava assim a doação das coisas transcendentes, reservando a encarnação apenas à percepção adequada.
  • Ideias I afirma que a visão de essência, quando não é mera e talvez vaga re-presentação (Vergegenwärtigung), é intuição doadora originária.

5. A doação encarnada que define a evidência em geral não deve ser tomada como metáfora, maneira de dizer ou traço de estilo, pois a carne acompanha cada percepção, sendo ao mesmo tempo dada e doadora, e a autodoação em carne constitui o modo excelente e o telos de toda autodoação, ainda que nem toda autodoação seja necessariamente encarnada.

  • Tal leitura metafórica repousaria sobre duas pressuposições de raiz talvez comum: a de conceitos triviais de metáfora, de dizer e de estilo, que ignoram o papel da carne na análise husserliana da linguagem, e a de um estado de coisas fenomenológico em si, juridicamente desligado de toda relação com a carne.
  • O esboço (esquisse), característico da percepção de uma coisa transcendente, só tem pleno sentido para um sujeito de carne capaz de girar em torno da coisa, de aproximar-se ou afastar-se dela.
  • O horizonte, nesse nível de descrição que exclui a constituição da temporalidade imanente, só tem pleno sentido se o sujeito for um “Eu posso” e este um “Eu me movo”, pois, segundo Ideias II, originariamente o “Eu movo” precede o “Eu faço” e o “Eu posso fazer”.

6. Numa das raras análises dedicadas à fenomenologia husserliana e à constituição fundamental da intencionalidade, Heidegger distingue cuidadosamente autodoação e autodoação encarnada: o percebido enquanto tal possui o caráter de presença em carne (Leibhaftigkeit), sendo dado não apenas como ele mesmo, mas ele mesmo em sua carne, diferença que se esclarece pelo contraste com a simples re-presentação (Vergegenwärtigung), como quando se re-presenta a ponte Weidenhausen, visando a própria ponte e não uma imagem ou fantasia dela, sem que, contudo, ela seja dada em carne, o que só ocorreria descendo até ela para se pôr diante da ponte mesma, donde se segue que o dado em si mesmo não precisa ser dado em carne, mas todo dado em carne é dado em si mesmo, sendo a encarnação um modo excelente da autodoação de um ente.

7. Um pouco adiante, Heidegger reafirma que o momento próprio da perceptibilidade do percebido, a partir da simples percepção, consiste em que o ente percebido está ali em carne, acrescentando-se a esse caráter, como momento adicional de toda percepção concreta de coisa, que a coisa percebida é sempre visada em sua totalidade de coisa (Dingganzheit).

  • No seminário de Le Thor (8 de setembro de 1968), registrado em Questões IV, retoma-se a questão do essencial na percepção, rejeitando-se a resposta pela αἴσθησις com a observação de que, com os gregos, o inferno já começara justamente na distinção entre αἴσθησις e νόησις.
  • O essencial é indicado na noção de Leibhaftigkeit: na percepção, o que entra em presença afeta em carne e osso o próprio corpo.
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