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estudos:franck:1981:7

7 Solipsismo

FRANCK, Didier. Chair et corps. Sur la phénoménologie de Husserl. Paris: Minuit, 1981:50-59

A Objeção do Solipsismo

1. A discussão inicial do problema do outro põe em questão o idealismo fenomenológico, pois a definição da subjetividade transcendental como algo concreto parece proibir para sempre a posição de outro ego, tornando o mundo objetivo fenomenologicamente impensável e minando o próprio projeto filosófico, já que a objetividade não pode mais fundar-se na veracidade divina, e, estando em jogo, sob a figura do outro, o ser da objetividade e da própria intencionalidade, Husserl chega a considerar uma retratação em favor do realismo transcendental.

  • A veracidade divina é “motivo de aflição” não só por apelar a uma metafísica submetida à redução, mas por pressupor o que está em questão, a constituição de uma subjetividade alheia, seja ela concebida como subjetividade infinita, seja como subjetividade total e infinita que, à maneira leibniziana, unifica simultaneamente todas as subjetividades monádicas.
  • Husserl pergunta se não se cometeu injustiça contra o realismo transcendental, doutrina talvez desprovida de fundamento fenomenológico, mas essencialmente correta por buscar um caminho da imanência do ego à transcendência do outro.
  • Pergunta ainda se não seria preciso admitir que a natureza e o mundo constituídos “imanentemente” no ego são apenas “ideias” minhas, atrás das quais existe o mundo em si, cujo caminho ainda deve ser buscado.
  • Indaga, por fim, se a questão da possibilidade de um conhecimento efetivamente transcendente, sobretudo da saída do ego rumo a outros egos, que não estão efetivamente em mim mas apenas conscientemente visados em mim, não escaparia a uma formulação puramente fenomenológica, sendo evidente (selbstverständlich) desde o início que o campo do conhecimento transcendental não ultrapassa a esfera da experiência transcendental e está incluído sem resíduo no ego transcendental próprio.

2. O primeiro resultado da redução é vincular o eu ao fluxo de seus vividos conscientes puros e às unidades constituídas por suas atualidades e potencialidades, fazendo aparecer a identidade profunda entre o fluxo e o ego monádico, de modo que tudo o que pode ser constituído pertence ao eu e é inseparável dele, e a vida egológica constituinte é uma vida infinita sob uma lei absoluta de fechamento, restando a questão dos outros egos, que não são mera representação e representado em mim (blosse Vorstellung und Vorgestelltes in mir), meras unidades sintéticas de verificação possível em mim, mas, segundo seu sentido, precisamente outros.

3. O sentido dessa questão implica uma compreensão da constituição como sempre referida ao ego, o que tornaria a fenomenologia incapaz de pensar a transcendência, uma compreensão do outro como objeto excepcional cujo sentido contradiria o da constituição, em rebelião contra a origem do sentido, e a atribuição ao alter ego do peso de toda exterioridade e transcendência, de modo que a análise de sua constituição seria a análise da transcendência originária, da origem da transcendência e, em suma, da origem do mundo, o que suscita questões sobre a proveniência dessa compreensão do outro, sobre as leis, senão as da gramática lógica pura, pelas quais o sentido do outro contradiria o sentido do sentido, e sobre se o recurso à doação de sentido da subjetividade transcendental para evidenciar o sentido paradoxal do outro não indica que ele já foi constituído em mim.

4. A única maneira de romper esse “círculo” é empreender e levar a cabo, em trabalho concreto, a explicitação fenomenológica indicada pelo “alter ego”, procedimento que implica a decisão de que o outro só pode ser um sentido com origem em mim, repetindo a decisão inaugural da fenomenologia de que todo objeto concebível é formação de sentido da subjetividade pura, e, embora se arrisque assim perder o outro como irredutível e operar a mais sutil e violenta das reduções, a do próprio fenômeno, denunciar essa perda exigiria um acesso prévio ao outro, de modo que só ao termo de uma análise intencional a estranheza do ser-para-nós do outro pode ser reconhecida em sua plena legitimidade, e só uma fenomenologia pode dizer que o outro escapa à sua jurisdição e converter essa inconformidade numa estrutura essencial e positiva.

  • A objeção repousa no mesmo princípio errôneo das teorias que substituem a percepção da doação encarnada pela consciência de um signo ou de uma imagem.
  • O ser-para-nós do outro é “algo muito estranho que todos sentimos”.
  • Segundo Husserl, é preciso compreender a intencionalidade explícita e implícita na qual o alter ego se manifesta e se verifica no domínio do ego transcendental, descobrindo em que intencionalidades, sínteses e motivações o sentido “outro ego” se forma em mim e, sob o título de experiência concordante do outro, se verifica como existente e mesmo como presente à sua maneira.
  • Essas experiências e suas obras são fatos da esfera fenomenológica própria, e somente examinando-as é possível explicitar em todos os seus aspectos o sentido “outros existentes”.

5. O único ponto de partida da fenomenologia é, como sempre, o modo de doação tomado como fio condutor transcendental, sendo o outro um noema constituído em e por noeses específicas, às quais o estudo genético poderá remontar após a análise estática, e, embora o outro só possa ser percebido numa percepção singular cujo noema é uma noese, isso não parece exigir, nesse estágio, transformação de princípios, pois o outro aparece na cena da percepção sem contribuir para sua instauração nem participar de seu funcionamento, o que, fazendo do outro um noema, o exclui da constituição do ego e mantém a pureza do fechamento egológico-monádico, pureza que Husserl será mais tarde forçado a alterar.

6. Na primeira descrição exemplar, os outros são experimentados, em multiplicidades cambiantes e concordantes de experiência, como efetivamente existentes, de um lado como objetos do mundo, não meras coisas físicas da natureza, embora o sejam sob um aspecto, mas como regendo psiquicamente seus respectivos organismos naturais e, assim peculiarmente entrelaçados (verflochten) com a carne, como objetos “psicofísicos” no mundo, e, de outro lado, ao mesmo tempo como sujeitos para esse mesmo mundo, que o experimentam e, ao fazê-lo, experimentam também o eu, assim como o eu experimenta o mundo e os outros nele, podendo-se explicitar noematicamente diversos outros momentos.

7. A característica mais fundamental da percepção do outro é sua ambiguidade em vários níveis: o outro é dado como objeto no mundo, numa multiplicidade sintética de esboços, e como sujeito fora do mundo, segundo um modo de doação inteiramente distinto, sendo este último, como outra origem do mundo dada tal como o eu se dá a si mesmo, o que constitui toda a dificuldade; o outro é objeto psicofísico mundano de duas faces, uma “física”, coisa da natureza, corpo (Körper) individualizado por sua posição no contínuo homogêneo do espaço e do tempo, e outra “psíquica”, à qual não há acesso direto, pois então seria minha; e o corpo do outro é também carne, diferença ainda não claramente marcada por Husserl nessa descrição.

  • O homem que o eu é constitui a autoobjetivação do sujeito transcendental que o eu é.
  • Em sentido estrito, a unidade psicofísica não se confunde com a unidade psicossomática, e a carne individualiza-se de modo diferente do corpo.

8. Sendo difícil unificar imediatamente essas ambiguidades sob uma mesma lei sistemática, pode-se ao menos destacar, deixando de lado a diferença entre carne e corpo (chair/corps), que o outro, como objeto no mundo e corpo físico, pode ser dado diretamente na intuição, enquanto como sujeito transcendental e psique isso está excluído por princípio, de modo que o fenômeno é ambíguo por dar-se a uma intuição preenchida sob um aspecto e recusá-la sob outro, traço decisivo que instala os mecanismos operativos e as aporias mais complexas do que se segue, embora a descrição visasse apenas estabelecer que na vida consciente pura e reduzida o mundo é experimentado como intersubjetivo, dotado de sentido objetivo que pertence, porém, ao “meu” fenômeno de mundo, restando compreender como pode estar presente em mim um sentido que me excede se todo sentido é obra de minha vida intencional.

9. O problema pode ser formulado de outro modo: a epoché dá um eu existente em solidão, cuja radicalidade corresponde às exigências da própria filosofia e não pode ser medida por ela, tornando o eu absolutamente indeclinável, mas Husserl observa uma dificuldade, uma incompreensibilidade, no fato de que o eu apela apenas a si mesmo e de que, ao dizer eu, todos os pronomes pessoais já estão presentes como correlatos, e, quanto ao que se diz ao dizer eu, afirma que no discurso solitário a significação de “eu” se realiza essencialmente na representação imediata da própria personalidade, que é também a significação da palavra no discurso comunicado, de modo que, tendo cada homem sua própria representação do eu, a significação da palavra difere de pessoa para pessoa.

10. As investigações husserlianas sobre a idealidade da significação deveriam proibir tal afirmação, pois, se a significação é ideal, a palavra “eu” deve poder ser compreendida na ausência de quem a profere, de modo que só se pode dizer “eu” e compreender o que se diz no horizonte da própria morte, e, sendo a significação omnitemporal e intersubjetiva, também no horizonte de um nós, isto é, de uma declinação do eu, remetendo o valor testemunhal de toda significação à própria morte e aos outros, pois ao dizer “eu” dirige-se a própria morte aos outros e dela se é expropriado (en exproprie), o que levanta as questões de se a relação com a própria morte se confunde com a relação ao outro, se o ego não estaria estruturalmente expropriado de si mesmo e o que seria então da propriedade e do fechamento egológico.

11. A resposta de Husserl consiste em afirmar que, para fundar a solução de todas as questões dotadas de sentido nesse domínio e para que elas possam ser formuladas e resolvidas passo a passo, é necessário começar por uma explicitação sistemática da intencionalidade manifesta e implícita na qual o ser dos outros para mim se “faz” e se explicita segundo seu conteúdo legítimo, isto é, seu conteúdo de preenchimento.

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