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2 Frase

FLUSSER, Vilém. Da dúvida. São Paulo: É Realizações, 2018

1. Como elemento do pensamento, o conceito carece de definição clara, carência reveladora de uma fé inconfessa no intelecto que o concebe ora como fundamento inarticulado do qual surge a palavra legítima, ora como traço deixado pela coisa no intelecto, de modo que, situado entre palavra e coisa apenas para transpor o abismo entre ambas, o conceito se mostra supérfluo, pois não há conceito sem palavra nem, a rigor, palavra sem conceito, mas apenas palavras incompreensíveis, o que torna conceito e palavra logicamente sinônimos, distintos só emocionalmente, e permite, por economia, substituir um pelo outro e definir o pensamento como organização de palavras.

2. Essa reformulação desloca a consideração do pensamento e do intelecto do terreno psicológico ou metafísico para seu lugar adequado entre as disciplinas, que é o estudo da língua, de modo que o pensamento passa a ser organização linguística e o intelecto, o campo no qual ocorrem organizações linguísticas.

3. Como processo, o pensamento é articulação de palavras que dispensa órgãos e instrumentos, empregados apenas posteriormente na articulação secundária da língua falada ou escrita, enquanto a articulação primária, a língua não expressa, coincide com a teia dos pensamentos, cujas regras de formulação e propagação são as regras da língua, tornando lógica e gramática sinônimas e língua e intelecto equivalentes, e convertendo o estudo do intelecto em disciplina rigorosa.

4. Os estudos linguísticos atuais confundem língua primária e secundária, pura e aplicada, tratando a palavra ora como símbolo, ora como grupo de fonemas, e sua história ora como mudança de significado, ora como mudança de forma sensível, confusão que exige dividir a disciplina, relegando a língua aplicada às ciências naturais, alheias aos problemas do pensamento, e constituindo com a língua pura uma ciência do espírito despsicologizada, ainda em estado nascente, da qual os lógicos formais como Carnap e Wittgenstein e os existencialistas como Heidegger e Sartre oferecem apenas primeiras aproximações, de modo que a investigação do pensamento deve prosseguir sem seu apoio decisivo.

5. Sendo o pensamento organização de palavras e chamando a linguística tais organizações de frases, pensamento e frase são sinônimos, o intelecto é o campo no qual ocorrem frases, e a análise da frase e de suas relações equivale à análise do intelecto.

6. Na frase-padrão distinguem-se cinco órgãos, sujeito, objeto, predicado, atributo e advérbio, sendo os dois últimos complementos dos primeiros, de modo que a frase consiste basicamente em sujeito, objeto e predicado, e o sujeito é o grupo de palavras a respeito do qual a frase fala.

7. O objeto é o grupo de palavras para o qual a frase se dirige e o predicado é o que une sujeito e objeto, descrição certamente simplificada diante de frases complexas compostas de subfrases e complementos ou de frases defectivas em que parecem faltar alguns órgãos, mas que ainda assim revela o aspecto fundamental do processo do pensamento.

8. A frase possui dois horizontes, sujeito e objeto, e é um projeto no qual o predicado, como projétil ou míssil, se lança do sujeito em direção ao objeto, permanecendo estes como partes estáticas do projeto, enquanto o predicado constitui sua verdadeira mensagem e o lugar onde se deve buscar o significado da frase.

9. Definir a frase como projeto enquadra o pensamento na visão existencialista segundo a qual, jogados no mundo, ou se cai passiva e inautenticamente rumo à morte entre as coisas, ou se projeta autenticamente contra as próprias origens, transformando as coisas em testemunhos da própria passagem, e mostra que o pensamento não é apenas um entre esses projetos, mas o projeto mestre segundo o qual todos os outros se realizam, o que livra o existencialismo da pecha de anti-intelectualismo, revela sob novo prisma a absurdidade e a dúvida do pensamento e torna o projeto, para os existencialistas mera vivência acompanhada de um clima, acessível à análise.

10. O sujeito, ponto de partida do projeto, é o detrito de uma frase anterior, elo com o pensamento já realizado que, embora predicado ou alcançado antes, não se esgotou, de modo que cada frase busca predicar sucessivamente tudo a seu respeito até exauri-lo, condição para que uma cadeia de pensamentos se complete e tarefa absurda tanto prática quanto teoricamente.

11. O objeto, meta do projeto, é aquilo contra o qual a frase investe, o que ela procura e investiga, e, se plenamente alcançado, é como que engolido pelo sujeito, podendo figurar como seu atributo numa frase subsequente.

12. O predicado, centro do projeto, une numa síntese dialética a tese do sujeito e a antítese do objeto, e essa síntese é a própria frase, cuja união entre sujeito e objeto se chama significado.

13. A compreensão da função de cada órgão da frase exige que a situação seja visualizada.

14. Na frase “O homem lava o carro”, o sujeito irradia o predicado em direção ao objeto numa forma comparável ao tiro ao alvo ou à projeção cinematográfica, e visualizar essa forma é decisivo para compreender o intelecto, tal como o mundo efetivo da aranha se reduz aos acontecimentos nos fios de sua teia, enquanto os intervalos constituem o fundo caótico e metafísico do vir-a-ser que a aranha filósofa afirma, nega ou duvida, a poeta intui, a criadora tenta precipitar sobre os fios e a mística busca alcançar fundindo-se no todo, de modo que, sendo a teia humana invisível e formada por frases, visualizar a frase é visualizar a estrutura da realidade efetiva do homem.

15. Nos fios da teia acontecem moscas, outras aranhas e catástrofes, e no centro, inalcançável pela teia, a própria aranha que a secreta e nela se desloca, o que define as modalidades ontológicas desse mundo, mas a aranha civilizada à ocidental tende a reduzir a outra aranha a uma espécie de mosca, a explicar as catástrofes como supermoscas que a teia em crescimento um dia suportará e a ver o mundo além da teia como reservatório de moscas, enquanto a aranha materialista concebe a mosca como tese e a aranha como antítese de uma dialética cuja síntese final será a devoração de todas as moscas.

16. A aranha hegeliana vê na devoração da mosca sua realização pela progressiva aracnização do mundo fenomenal, e a heideggeriana vê a mosca como condição da situação aranhal e seu cadáver como testemunho da passagem da aranha, especulações marcadas por um aracnismo extremo que aceita a teia como fundamento da realidade sem discuti-la, aracnismo inevitável, mas não impeditivo de uma discussão da teia capaz de oferecer visão mais apropriada da mosca e da própria aranha.

17. A teia humana, mais complexa por conter palavras de tipos diversos, sujeito, predicado e objeto, mantém o paralelo, pois o mundo efetivo se esgota nessas palavras e o resto é o caos inarticulado do vir-a-ser, intuível talvez poética ou misticamente, mas realizável apenas em frases, de modo que o Sachverhalt de Wittgenstein e a Bewandnis de Heidegger não passam da relação entre sujeito, objeto e predicado, e o cosmos é organizado porque assim são construídas as frases, variando conforme cada língua flexional, sendo o cosmos aqui examinado o da língua portuguesa, aplicável com reservas às demais línguas flexionais.

18. Visualizar a forma da frase como tiro ao alvo ou projeção é visualizar o cosmos da realidade, e afirmar que a frase consiste em sujeito, objeto e predicado assim organizados é afirmar que a realidade consiste em sujeitos, objetos e processos assim organizados, de modo que a análise lógica da frase é análise ontológica da realidade.

19. Como as coisas se comportam na realidade tal como as palavras na frase, toda investigação ontológica deveria partir da análise da frase, assim como a aranha deveria considerar a teia antes das moscas para evitar um aracnismo ingênuo, pois a estrutura da língua é dada tão irrevogavelmente quanto a teia, e querer escapar da ontologia tríplice de sujeito, objeto e predicado, reduzindo a realidade apenas a sujeitos, como na loucura parmenidiana, apenas a objetos, como na platônica, ou apenas a predicados, como na heraclitiana, é precipitar-se num suicídio metafísico pelas malhas da teia, devendo-se aceitar essa ontologia imposta pela língua e reconhecer que o resto é metafísica e, portanto, silêncio.

20. O sujeito, detonador da frase e uma das formas do Ser, carece de significado isoladamente e precisa da frase para enquadrar-se na realidade, sendo detrito de frase anterior carregado de força explosiva que é sua busca de significado e de lugar num Sachverhalt, de modo que, fora da frase, é procura e interrogação que deveria escrever-se com ponto de interrogação, substância no sentido aristotélico e escolástico em busca de um objeto contra o qual possa projetar-se num predicado.

21. O objeto é o obstáculo que barra o projeto do sujeito e dá sua procura por terminada, opondo-se a ela e, nessa oposição, conferindo-lhe sentido, definindo e limitando o sujeito numa situação e realizando-o ao mesmo tempo que se realiza, sendo, fora da frase, algo ainda não encontrado e que deve sê-lo, um imperativo que deveria escrever-se com ponto de exclamação, de modo que, alcançado, o imperativo do objeto funde-se com o interrogativo do sujeito no indicativo do Sachverhalt que é a frase.

22. Vista do ponto de vista do sujeito, numa excentricidade subjetivista característica do romantismo, a realidade aparece como enorme procura e interrogação, e vista do ponto de vista do objeto, numa excentricidade objetivista característica do marxismo, aparece como barreira categórica que determina e impera, dicotomia que se dissolve na visão da frase inteira, em que a realidade é indicação e articulação que supera interrogativo e imperativo, revelando a eterna querela entre deterministas e indeterministas como disputa entre excêntricos nascida de uma falsa gramática.

23. Etimologicamente, sujeito é o que está no fundo do projeto e objeto o que obsta o projeto, mas, retiradas há milênios de seu contexto autêntico, a gramática, essas palavras deram origem a especulações metafísicas, como a distinção entre objeto real e ideal ou a identificação do sujeito com o Eu ou com Deus, que não passam de erros de sintaxe a serem eliminados pela recolocação de ambas na estrutura das línguas flexionais.

24. O predicado supera a oposição entre sujeito e objeto ao estabelecer entre eles o Sachverhalt, ocupando a posição central do projeto, e a própria palavra, derivada de dizer e aparentada a predizer e prédica, exige uma investigação ontológica que ultrapassa largamente o alcance deste livro.

25. Ligado a todos os problemas ontológicos em torno de dizer, falar e língua, o predicado conduz ao âmago da língua, pois, se sujeito e objeto são os horizontes da frase, o predicado é seu centro e essência, cabendo-lhe, dentro da ontologia tríplice imposta pela língua, uma importância ontológica primordial.

26. O predicado esforça-se por integrar sujeito e objeto na estrutura da realidade, esforço por definição absurdo, pois o homem é real apenas enquanto lava e o carro apenas enquanto é lavado, residindo a realidade de ambos no lavar, mas ambos transcendem essa realidade, como mostra a frase “o homem guia o carro”, em que se realizam numa realidade diferente, e a pergunta clássica sobre o que autoriza falar do mesmo sujeito e do mesmo objeto, fonte de inúmeras metafísicas e epistemologias, resolve-se formalmente pela sintaxe, já que as mesmas palavras ocupam essas funções, de modo que sujeito e objeto, participando de inúmeros Sachverhalte, transcendem a realidade, que é o conjunto das frases e cuja efetividade reside nos predicados.

27. A filosofia clássica conhece o pensar predicativo e reconhece que o intelecto capta apenas os predicados e jamais o sujeito, mas, por não situar o problema no contexto gramatical, perde-se em especulações estéreis, quando a limitação do intelecto decorre da estrutura da frase nas línguas flexionais, que concentra a realidade de cada Sachverhalt em seu predicado, de modo que a realidade é a soma dos predicados de todas as frases articuláveis.

28. Sujeito e objeto, como horizontes da frase, formam os elos entre frases e garantem a continuidade da realidade, pois frases que compartilham o mesmo sujeito e objeto participam do mesmo contínuo, e encarado gramaticalmente o fluxo da realidade, a eterna querela entre Parmênides e Heráclito fica superada.

29. Sujeito e objeto, os entes imutáveis da especulação pré-socrática, transcendem o rio heraclitiano, participando dele apenas para garantir seu fluxo, sem fazer parte dele nem ser reais nesse sentido, e justamente por serem imutáveis, isto é, não totalmente predicáveis, não são propriamente entes, mas limites e metas dos predicados.

30. O predicado significa sujeito e objeto, transformando-os em signos, pois fora da frase são símbolos sem significado em busca de significação, e na frase adquirem o significado do predicado, de modo que como símbolos transcendem o Sachverhalt e como signos dele participam, sendo a realidade o processo que transforma símbolos em signos ao predicá-los, e sujeito e objeto o vir-a-ser da realidade enquanto vir-a-ser da frase em que serão significados.

31. Vicente Ferreira da Silva, um dos mais poderosos pensadores brasileiros, defende a reconquista da visão simbólica das coisas contra o pensamento racional que as violenta ao inseri-las em contextos manipuláveis, propondo reconhecê-las em vez de conhecê-las, mas isso equivale a abandonar o intelecto e a realidade dada pelas frases das línguas flexionais e a cair no caos dos símbolos ainda não significados, um pensar sem frases e, portanto, sem pensar, impossível, tentativa fáustica e nobre de alcançar sujeito e objeto fora da frase por um atalho para a realidade que, consciente da frustração do esforço predicativo mas inconsciente da impossibilidade de contorná-lo, deve passar pelo balbuciar de símbolos e desembocar num mutismo metafísico.

32. A frase é a única maneira, ainda que frustrada, pela qual os símbolos se realizam, porque é a única pela qual adquirem significado.

33. A frase é a única maneira porque assim é construído o intelecto e é frustrada porque sujeito e objeto são inesgotáveis, de modo que o intelecto avança de predicado em predicado e de significado parcial em significado parcial rumo a um significado total inalcançável, sendo o pensamento uma única frase inacabada e jamais significante, um enorme predicado emitido por um sujeito jamais predicável rumo a um objeto jamais atingível, mas ainda assim a única via para que o sujeito adquira significado e alcance o objeto, residindo toda a realidade nesse avanço da língua, cujos significados parciais formam o cosmos conquistado ao caos dos símbolos, o que torna o intelecto um esforço frustrado porém produtivo, o único produtivo, em que a soma dos predicados já articulados é a conversação que se é, sendo nós sinônimo de língua, e os predicados por articular, o próprio significado.

34. A análise da frase, ainda que baseada num exemplo excepcionalmente simples, revela o essencial do pensamento: o intelecto é o campo onde ocorrem pensamentos, que são frases de uma língua flexional analisáveis em palavras cujas funções ontologicamente decisivas são sujeito, objeto e predicado, transcendendo os dois primeiros a frase como símbolos e dela participando como signos significados pelo predicado, de modo que o intelecto se redefine como campo da busca predicativa de significado do sujeito rumo ao objeto, explicitando a definição do intelecto como campo da dúvida, cujo caráter é a atividade linguística de predicar e cujos limites são sujeito e objeto, isto é, nomes, o que faz dos nomes os limites do intelecto, da dúvida e da língua e conduz, como próximo passo, à consideração dos nomes.

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