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Ontologia Fundamental
FIGAL, G. Introdução à Martin Heidegger. Tradução: Tr Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita Editora, 2016.
A ontologia fundamental: um intermezzo rico em consequências
A destruição de Aristóteles
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A afirmação de que Ser e tempo, publicado em 1927, representa uma crise na filosofia de Heidegger não é, à primeira vista, evidente
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A própria compreensão que Heidegger tem de sua obra confirma essa leitura, como revela a carta ao literato Max Kommerell de 1942, na qual afirma que Ser e tempo foi um acidente, e a carta a Elisabeth Blochmann de 1935, em que fala de uma pasta intitulada Crítica a Ser e tempo, reconhecendo a grande imprudência subjacente ao livro e a necessidade de repor a mesma pergunta de modo mais originário
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A condição fragmentária do livro se comprova independentemente dos testemunhos heideggerianos, pois das duas partes planejadas, cada uma com três seções, apenas as duas primeiras seções da primeira parte vieram a público
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A publicação foi motivada por razões externas: a proposta da faculdade de filosofia de Marburgo, indicando Heidegger como catedrático sucessor de Nicolai Hartmann, fora recusada pelo Ministério de Berlim por falta de publicações desde a tese de habilitação, e mesmo as provas do livro enviadas em 1926 haviam retornado como insuficientes, embora em 1927 a cátedra tenha sido finalmente concedida
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A pressão externa sob a qual nasceu Ser e tempo confere-lhe caráter de projeto programático, com problemas substanciais apenas indicados e remetidos à segunda parte, que deveria trazer os argumentos decisivos
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Duas seções da segunda parte são reconstituíveis: o material de uma delas tornou-se o livro Kant e o problema da metafísica (1929), e o da outra está acessível nas lições do semestre de verão de 1927, Os problemas fundamentais da fenomenologia
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O fracasso do projeto sistemático não se deve a motivações externas, mas à impossibilidade de conduzi-lo tal como planejado, o que exige considerar o esquema da obra apresentado no parágrafo 8 de Ser e tempo, dividido em duas partes com três seções cada
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A primeira parte trata da interpretação do ser-aí na temporalidade (Zeitlichkeit) e da explicitação do tempo como horizonte transcendental da pergunta pelo ser, compreendendo a análise preparatória fundamental do ser-aí, ser-aí e temporalidade, e tempo e ser
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A segunda parte trata dos traços fundamentais de uma destruição fenomenológica da história da ontologia a partir do fio condutor da problemática da temporalidade do ser (Temporalität), compreendendo a doutrina kantiana do esquematismo e do tempo, o fundamento ontológico do cogito sum de Descartes, e o tratado aristotélico sobre o tempo como linha divisória da base fenomênica e dos limites da ontologia antiga
O discurso do ser-aí na primeira parte do projeto, associado ao tempo e remetendo ao programa do conhecimento histórico, já é familiar após a análise do projeto sobre AristótelesO quinto capítulo do livro, intitulado Temporalidade e historicidade, expressa apenas marginalmente o conhecimento histórico da filosofia, e a historicidade do ser-aí não é mais compreendida como execução da técnica de destruição, reservada agora à segunda parteA distinção heideggeriana entre tempo, temporalidade e temporalidade do ser aparece esclarecida nas lições sobre os problemas fundamentais da fenomenologia, onde o tempo é conceito superior que compreende tanto a temporalidade quanto a temporalidade do ser, sendo esta a latinização de Zeitlichkeit, e ambas designando dois modos diferentes de experenciar o tempoA intenção sistemática dessas diferenciações permanece obscura numa primeira análise, mas revela que o empreendimento heideggeriano já não visa realizar a filosofia como hermenêutica da faticidade, mas antes uma análise fundamental do ser-aí de caráter preparatório, propedêutica à destruição da tradição reservada à segunda parteA distinção entre a análise preparatória fundamental do ser-aí e a destruição tem consequências sobre a própria destruição, que conduz a Aristóteles partindo de Kant e passando por Descartes, dependente da ontologia medieval, mantendo o modelo de uma história da filosofia regressiva-
O tratamento aristotélico do tempo, na Física (livro IV), é caracterizado agora como linha divisória da base fenomênica e dos limites da ontologia antiga, dissipando-se a ênfase anterior sobre o filósofo grego, que cai vítima da destruição
A ironia do destino consiste em que a mudança na consideração heideggeriana de Aristóteles se realiza justamente graças aos pressupostos que a própria filosofia aristotélica forneceu a Heidegger, cujos primeiros traços já se encontram no projeto sobre AristótelesAs remissões à interpretação aristotélica seguem fielmente a direção indicada pela noção de destruição, segundo a qual a filosofia, sendo expressão e descrição do ser-aí desde o início da tradição, deve ser expressão e descrição do ser-aíAs testemunhas da expressão e descrição do ser-aí encontram-se sobretudo no sexto livro da Ética a Nicômaco, cujas afirmações iniciais enumeram cinco disposições pelas quais a alma diz o verdadeiro: arte, ciência, sabedoria prática, sabedoria e intelecto, distintas do juízo e da opinião, sujeitos a erroA tradução heideggeriana dessa passagem estabelece cinco modos pelos quais a alma conhece e custodia o ente enquanto não velado: o agir técnico-produtivo, o determinar que demonstra observando e julgando, o olhar ao redor próprio do cuidado (a prudência), o compreender que em sentido próprio vê, e o puro perceber, excluindo o conjecturar e o opinar, que não apresentam necessariamente o ente como não veladoAs traduções heideggerianas, famosas entre os filólogos por seu afastamento do texto original, são reconhecidas pelo próprio Heidegger como derivadas da interpretação concreta e contidas nela em germe, funcionando como iluminações que fazem sobressair o que o texto não diz de modo imediatoA distinção heideggeriana entre tomar e portar o ente como desvelado em custódia, de um lado, e afirmar ou negar, de outro, separa o modo de efetivação do afirmar e negar daquilo que primariamente não se realiza pela linguagem, distinção retomada em Ser e tempo na discussão da inautenticidadeO interesse principal de Heidegger recai sobre a inteligência prática (phrónesis) e a sabedoria (sophia), ligadas ao intelecto (noûs), cuja relação constitui uma das descobertas mais importantes de Aristóteles, ao estabelecer a correspondência entre o saber que guia o agir cotidiano e a filosofiaA phrónesis, segundo Aristóteles, consiste em refletir sobre o que é bom e vantajoso para si mesmo em relação ao viver bem em sentido total, sendo compreensão que se mostra no próprio agir, e não reflexão sobre o agirA compreensão da phrónesis caracteriza-se pela presença imediata do sentido das reflexões e decisões, distinta do conhecimento adquirido pela experiência, intervindo aqui o noûs, o puro perceberA estratégia aristotélica na Ética a Nicômaco consiste em valorizar o saber que guia o agir cotidiano de modo a evidenciar sua correspondência com o saber filosófico, fazendo depender o filosofar da própria vida apesar do distanciamento que a filosofia operaO saber filosófico, descrito nas obras que depois receberam o título de Metafísica, tem por objeto o ente enquanto ente, sendo a essentidade do ente (ousia) aquilo que deve estar já presente no saber filosófico, unindo intelecto (noûs) e ciência (episteme)A comunhão entre phrónesis e sophia não se deve apenas à presença do noûs em ambas, mas também a um modo de realização semelhante: a phrónesis lida com ações circunscritas e concluídas, mas é mais propriamente uma atitude constante em face da vida; do mesmo modo o filosofar é realização contínua, distanciada da cotidianidade e voltada ao que constitui o mundo em sua essentidadeA intuição heideggeriana de que phrónesis e sophia partilham o caráter comum de movimento (motilidade) constitui, para Heidegger, a nova posição problemática fundamental da filosofia aristotélica, embora Heidegger acentue essa relação de modo radicalmente distinto de Aristóteles, preparando sua destruiçãoA distinção aristotélica entre filosofia prática e teorética, apesar dos elementos comuns entre phrónesis e sophia, é literalmente transformada por Heidegger, que caracteriza a phrónesis como custódia autêntica do em-vista-de-que da prática cotidiana da vida humana, ou seja, como autocompreensãoA demonstração heideggeriana de que o próprio Aristóteles, nos dois primeiros capítulos do primeiro livro da Metafísica, desenvolve a filosofia teorética a partir do saber prático conduz à conclusão de que o ser da vida humana só é compreendido orientando-se para as determinações da filosofia teorética-
A citação afirma que, na prudência do agir prático, a vida está concretamente em relação a um com-que, cujo ser é determinado apenas formalmente, como aquilo que pode ser também de outro modo, contrapondo-se negativamente a um outro ser autêntico, cuja estrutura categorial deriva de uma radicalização ontológica da ideia do ente em movimento
O saber prático é determinado por Aristóteles apenas negativamente, como o possível e não como o que está em ato, sendo o ser, para Aristóteles, o ser cumprido, o ser em que o movimento chegou a seu término, orientando-se a vida humana segundo essa mesma ideia de cumprimento no puro perceber contínuoA ordem superior atribuída por Aristóteles à sophia em relação à phrónesis se justifica porque na sophia se revela de modo puro e cumprido o que na phrónesis permanece incompleto: a percepção de algo que permanece-
Aristóteles, seguido por Hegel, segue uma lógica de desenvolvimento que julga a gênese a partir do resultado, enquanto Heidegger segue uma lógica da origem, fazendo depender a forma desenvolvida da filosofia teorética da forma originária da filosofia prática
O movimento retrospectivo desse pensamento define o programa da destruição, mas a lógica da origem conduz agora além daquilo que era considerado o início, ganhando com a phrónesis um começo que já não é acessível ao conhecimento histórico: o início da autocompreensão cotidianaA hermenêutica historicamente destrutiva da faticidade transforma-se em análise fundamental do ser-aí não filosófico ou pré-ontológico, do qual deve poder ser compreendida a possibilidade da filosofia, já que o ser-aí pré-ontológico possui originariamente a compreensão do serA análise fundamental do ser-aí não filosófico constitui, do ponto de vista da história dos efeitos, a elaboração heideggeriana de maior repercussão, permanecendo, contudo, um acidente, que conduz o programa da destruição a novas e grandes dificuldadesA análise fundamental do ser-aí
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A análise do ser-aí é fundamental por elaborar as estruturas fundamentais do ser-aí, retomando o discurso anterior sobre as estruturas fundamentais da subjetividade ou da vida
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A análise do ser-aí é fundamental também por fundar-se em sua própria condução, realizando-se no próprio ser-aí, que ao realizar-se descobre suas próprias possibilidades como fundamento
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A análise do ser-aí é fundamental por mostrar o fundamento da ciência e da filosofia em geral, dado que as ciências são modos de ser do ser-aí, e a filosofia, desde Aristóteles, só pode ser compreendida a partir das estruturas fundamentais do ser-aí
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A análise do ser-aí é fundamental, por fim, por esclarecer a filosofia descobrindo o fundamento de toda filosofia, tendo o caráter de uma ontologia fundamental que motiva toda outra ontologia
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A afirmação heideggeriana, ao final da parte publicada de Ser e tempo, de que o esclarecimento da constituição de ser do ser-aí é apenas um caminho, e que o fim é a elaboração do problema do ser em geral, surpreende à luz da posição anterior
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A pergunta pelo ser em geral não pode visar apenas reencontrar em toda ontologia tradicional a estrutura do ser-aí, mas exige interrogar os conceitos ontológicos tramandados quanto à sua singularidade ontológica própria, insinuando-se a dúvida sobre se é possível reconduzir a destruição da filosofia tradicional ao início da compreensão que o ser-aí tem do ser; a segunda parte do projeto editorial nunca será publicada
A estrutura fundamental do ser-aí deve ser estudada antes de se compreender por que o projeto de Ser e tempo não pôde ser completado, mostrando-se que Heidegger tende a inscrever cada instância do ser-aí numa estrutura tripartida, refletindo a tripartição da temporalidade em ter-sido, presente e futuroO ser-aí em um mundo
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O ser-aí, enquanto nosso modo de ser, pertence essencialmente à compreensão do ser, indicando o valor ontológico do saber prático já presente em Aristóteles como saber imediato da própria vida
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A análise do saber usar (Zeug, utensílio) em Ser e tempo refina esse pensamento aristotélico partindo da observação de que agir exige conhecer aquilo de que nos servimos, ao que se ligam o saber usar, o saber modificar e o produzir
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A diferença de Heidegger em relação a Aristóteles está em que este orienta-se ao saber produzir uma obra (érgon), enquanto Heidegger volta-se ao saber usar do artesão, para o qual a modificação ou produção de algo está regularmente subordinada ao seu uso
O saber usar não se refere a uma coisa isolada, mas a um contexto de utensílios — a escrivaninha, a lâmpada, a estante de livros, a caneta — que constitui um ambiente de trabalho, permanecendo esse contexto, na maior parte do tempo, sem atenção explícitaA familiaridade com um contexto determinado não é traço isolado, pois a obviedade cotidiana depende também de nos compreendermos a nós mesmos nesses contextos, sendo o próprio contexto, e não nosso trato com as coisas, o que nos faz ser de certo modoO mundo é o nome heideggeriano para o contexto em que se tem familiaridade com as coisas, distinguindo-se âmbitos singulares, sendo o ser-aí sempre ser-no-mundo, dado que ser-aí e mundo se copertencemA determinação daquilo que queremos ser se cumpre no agir, sempre no contexto do mundo, que ao mesmo tempo prescreve possibilidades e constitui o espaço livre do agir, mostrando-se as coisas que deixamos estar como dotadas de conveniência (Bewandtnis) na medida em que podem satisfazer-nos-
A conveniência e a significatividade são as determinações fundamentais do mundo, sendo este, ao mesmo tempo, determinado e indeterminado, pois não podemos atender a tudo o que deixamos estar de infinitos pontos de vista
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A indeterminação do mundo é nossa própria indeterminação, e por ser o mundo o espaço livre do agir, essa indeterminação constitui nossa liberdade, superior tanto ao conceito de liberdade do agir em Aristóteles quanto ao conceito de liberdade da vontade em Kant
A maior parte de nossas atividades depende essencialmente dos outros, sendo o mundo, segundo a análise do ser-aí, essencialmente um mundo compartilhado (Mitwelt), que oferece também espaço livre de possibilidades de ser-aí a favor ou contra os outrosO papel essencial dos outros na constituição de como podemos e queremos ser é o aspecto mais importante do mundo compartilhado, pois ninguém inventa inteiramente o que é e faz, orientando-se sempre por possibilidades já realizadas por outros-
Aristóteles já apontava, na Ética a Nicômaco, a honra de estar na consideração dos outros como finalidade da vida política, embora reconhecesse que o verdadeiro fim da vida só se alcança na condução autônoma da própria existência
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Heidegger radicaliza esse aspecto, afirmando que dependemos dos outros mesmo ao conduzir nossa própria vida, tanto o oportunista quanto o opositor
O mundo compartilhado, por moldar possibilidades determinadas de ser e agir, constitui um âmbito de não liberdade, cuja anonimidade Heidegger caracteriza com o termo célebre “se” (das Man)O discurso heideggeriano sobre o “se” não deve ser entendido primariamente como crítica cultural, embora ecoe motivos do escrito de habilitação sobre a vastidão plana da vida moderna, tratando-se apenas de motivos de acompanhamento, já que o presente histórico recua na exigência sistemática de Ser e tempoA descrição do mundo compartilhado lembra a compreensão heideggeriana da tradição no projeto sobre Aristóteles, sendo agora o reino das sombras não mais dos conceitos, mas das avaliações e juízos cotidianos-
O caráter determinante do mundo compartilhado surge da própria indeterminação do ser-aí, vivida como ameaça, devendo a experiência autêntica do ser-aí explicitar essa indeterminação para relativizar a determinação e liberar também os outros
A indeterminação do ser-aí decorre de deixarmos sempre estar o que está no mundo, de não podermos abarcar todas as possibilidades de ações e relações, e de não sermos apenas aquilo em que nos damos a ver aos outros, reunindo-se esses três aspectos no conceito de abertura (Erschlossenheit)-
A escolha desse termo esclarece-se por sua proximidade com desvelamento (Aufgeschlossenheit), discutido em Ser e tempo em relação ao noûs aristotélico, sendo a abertura saber imediato, percepção do ser possível
As três formas de abertura examinadas por Heidegger são a situação afetiva (Befindlichkeit), a compreensão (Verstehen) e o discurso (Rede)-
A situação afetiva designa o modo como somos afetivamente situados, experimentando-se nas tonalidades afetivas a abertura do mundo, exemplificada pelo tédio, a que Heidegger dedica análise detalhada em outro ciclo de lições, e pela tonalidade afetiva elevada, em que se experimenta a abertura do mundo como liberdade de impedimentos
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A compreensão é o sentido da possibilidade sob outro ponto de vista, sendo percepção imediata do ser-possível sem determinação ponderada, termo reservado por Heidegger, para esta última, à interpretação (Auslegung)
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O discurso, terceira forma de abertura, é caracterizado não como o ato de falar, mas como estrutura da linguagem em suas possibilidades de comunicação e coexistência, sendo o escutar constitutivo do discurso e o silêncio sua possibilidade essencial
A tripartição da análise da abertura reflete a arquitetura de Ser e tempo, sem que as três formas se tornem autônomas, pois coconstituem uma experiência unitária do próprio serA experiência da abertura não é inteiramente explícita, sendo o ser-aí levado a fechá-la em sua motilidadeO fechamento da abertura significa querer ser o mais determinado possível, retomando Heidegger o conceito de decaimento (Verfallen), já presente no projeto sobre Aristóteles, movimento do ser-aí de sua indeterminação à determinação, ligado à tagarelice (Gerede)-
A distinção, feita no projeto sobre Aristóteles, entre as formas do saber e sua articulação linguística explica-se porque essa articulação tende a submeter-se ao predomínio do “se”, decaindo na tagarelice
A resolução (Entschlossenheit), na concepção de Ser e tempo, substitui a filosofia como via de saída do reino das sombras do já-dito, não sendo repetição de um perguntar originário, mas a análise fundamental do ser-aí que torna compreensível a possibilidade desse perguntar filosófico, sendo a resolução a negação do fechamento próprio do decaimentoAs análises da angústia, do precursar a morte e da consciência atraíram mais que qualquer outra a atenção dos leitores e a polêmica dos críticos, pois é nelas que Heidegger promete resgatar sua tese de uma compreensão pré-ontológica do serA angústia é experiência da possibilidade, tema já destacado por Sören Kierkegaard em O conceito de angústia, obra à qual Heidegger deve muito, mostrando-se na vertigem diante do precipício a incapacidade de agir diante de uma mera possibilidadeO precursar a morte (Vorlaufen zum Tode) não se resume à incerteza radical da morte antes de qualquer certeza, tema já anunciado no lema das lições do semestre de inverno de 1921/22, que reúne uma citação de Kierkegaard e uma frase da exegese luterana ao livro do Gênesis afirmando que desde o ventre materno começamos a morrer-
A morte é pura possibilidade, e o saber sobre ela, obtido sempre a partir da morte alheia, não é essencial ao precursar a morte, que é antes o precursar da indeterminação do ser que está diante de nós
A análise da consciência (Gewissen) tem em Aristóteles, na observação de que não há esquecimento da phrónesis, uma fonte decisiva, análoga ao papel de Kierkegaard para a angústia e de Lutero para a morteA consciência, correlata à abertura do discurso, tem papel central na resolução, pois ao silêncio pertence a interrupção da tagarelice e das comparações que ignoram a singularidade de cada homem, representando o chamado da consciência uma cesura na tagareliceA resolução, reunindo as três formas — compreensão sob o signo da angústia, liberta da tagarelice pelo chamado da consciência — aproxima-se da determinação aristotélica da phrónesis, ainda que agora o que está em jogo seja o próprio ser em sua indeterminação, e não a condução da vida em sua totalidadeO deslocamento de acento decisivo de Heidegger em relação à ontologia aristotélica consiste em inverter a relação entre possibilidade e realidade, entre indeterminação e determinação, reconhecendo à possibilidade e à indeterminação uma ordem mais alta, liberando com isso a destruição de toda a tradição de Platão a Nietzsche, que mais tarde, a partir dos Beiträge zur Philosophie (GA65 1936-1938), será chamada de metafísicaO tempo: temporalidade e temporalidade do ser
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A compreensão heideggeriana evidencia que a análise fundamental do ser-aí vive do pensamento da composição temporal do ser-aí, mostrando-se o futuro imediatamente no compreender e o caráter temporal também na situação afetiva, sempre presente num “ter-sido” (Gewesenheit), distinto do “passado” enquanto forma temporal de resultados vistos isoladamente
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O caráter temporal do discurso é mais difícil de apreender, partilhando com a compreensão o caráter de futuro enquanto abertura para os outros, mas oferecendo também possibilidades de relação realizadas em atos linguísticos como promessas, favores, ordens, desejos ou asserções
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A presentificação tem função privilegiada e constitutiva no discurso, associação que o próprio Heidegger considera pouco satisfatória, como mostra sua posterior revisão da concepção de linguagem
As três formas temporais — futuro, passado, presente — copertencem-se essencialmente, constituindo sua interação a experiência temporal, caracterizada por Heidegger como êxtase (Ekstase), conceito derivado de uma observação aristotélica da Física sobre a mudança (metabolé) como ekstatikónO tempo, segundo Aristóteles, na Física (livro IV), não é, pois um ser não pode ser atribuído nem ao passado nem ao futuro; Heidegger acompanha essa argumentação, mas não sua motivação, considerando que o tempo não é porque o ser, o ser-aí, só pode ser compreendido de modo temporalA primeira parte do projeto, caracterizada como interpretação do ser-aí em referência à temporalidade, refere-se às duas primeiras seções, ficando a explicitação do tempo como horizonte transcendental reservada à terceira seçãoA interpretação da relação entre ser-aí e temporalidade não segue mais definitivamente a compreensão do ser própria da cotidianidade pré-filosófica e pré-ontológica, tendo o caráter de uma comunicação que não é acessível à compreensão cotidiana do serO futuro indeterminado do compreender tem primado sobre o futuro determinado, relacionando-se ambos de modo que o futuro indeterminado apresenta-se, na cotidianidade, como pergunta à qual se responde escolhendo uma possibilidade determinada — jogo de pergunta e resposta que remonta à análise aristotélica da phrónesisO discurso ocupa posição particular nesse jogo de determinação e indeterminação, sendo meio do decaimento, ainda que a resolução recoloque o determinado na indeterminação sem eliminá-laA interpretação filosófica do ser-aí em referência à temporalidade pode parecer não mais sujeita à cotidianidade, mas Heidegger muda de rumo num ponto substancial: já não se trata de interrogar retrospectivamente o início da história, mas o início que é a existência cotidiana, da qual a filosofia surge sem, contudo, permanecer sujeita à sua perspectiva de açãoA concepção filosófica do tempo exige compreender antes como a filosofia é compreendida na existência cotidiana, retomando-se as três “estases” da temporalidade, que se transformam diretamente umas nas outrasO futuro compreendido como “tempo do ser indeterminado que está diante” testemunha alto grau de transparência da existência cotidiana, mas permanece forjado pela direção do olhar cotidiano, o que Heidegger designa como “esquemas horizontais” (horizontale Schemata) das estases, termo emprestado da Crítica da razão pura de KantA resposta sobre o caráter esquemático do horizonte do tempo é dada pelas lições Os problemas fundamentais da fenomenologia (semestre de verão de 1927), caracterizadas pelo próprio Heidegger como nova elaboração da terceira seção da primeira parte de Ser e tempoA análise aprofunda-se sobretudo em relação ao esquema horizontal do presente, mostrando que tudo o que se encontra no presente está sujeito ao esquema horizontal da presença (Praesenz), que compreende tanto o estar-presente (Anwesenheit) quanto o estar-ausente (Abwesenheit)-
A tradução do termo central da ontologia aristotélica, ousia, por “estar-presente” (Anwesenheit), remetendo à propriedade fundiária (Anwesen) no sentido pré-filosófico, indica a intuição subjacente ao programa de destruição de Ser e tempo
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A citação afirma que os gregos, assim como Kant, não tiveram consciência de que interpretavam o ser a partir do tempo, seguindo antes a tendência imediata do ser-aí existente, que compreende o ser do ente de modo implicitamente temporal
A ausência, nas lições de 1927, de esquemas análogos para passado e futuro não pode ser casual, colocando em risco a continuidade do programa da temporalidade tripartidaO motivo pelo qual Heidegger orienta a questão da temporalidade do ser ao presente, e não ao futuro, relaciona-se à caracterização da filosofia como “objetivação do ser” nas lições sobre os Problemas fundamentais da fenomenologia, retomando um pensamento já presente nas últimas páginas de Ser e tempo sobre a “coisificação” da ontologia antigaA coisificação ou objetivação significa presentificação linguística e origina-se do presente, estando também as determinações conceituais de Ser e tempo sujeitas à presença, o que ameaça a própria concepção da temporalidade tripartidaA introdução do esquema horizontal da presença reforma a estrutura da temporalidade em sua tripartição, tornando impossível explicar a filosofia a partir da estrutura do ser-aí cotidiano, o que assinala o fracasso do programa da ontologia fundamentalA revisão heideggeriana dos conceitos de Ser e tempo, posterior a esse impasse, reinterpreta os resultados da análise do ser-aí de modo que a filosofia passe a ser compreendida na própria estrutura do ser-aí, que se torna substancialmente filosófico, permanecendo Heidegger fiel ao pensamento de uma filosofia histórica que acompanhou seu percurso desde o inícioestudos/figal/heidegger/ontologia-fundamental.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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