estudos:fedier:avenance
Avenance (Ereignis)
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Dificuldade inicial da tradução reside em não se ter percebido suficientemente que, em certo sentido, traduzir é impossível.
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Este sentido paradoxal é o desenvolvimento até suas últimas consequências do que comumente se entende por tradução.
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É necessário, portanto, reconhecer desde o início que há, por toda necessidade, um outro sentido de tradução.
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Este outro sentido deve ser constantemente mantido presente ao espírito quando se aborda o trabalho de Heidegger.
Termo central utilizado por Heidegger desde meados dos anos 1930 para designar o que busca desde o início de seu itinerário filosófico é das Ereignis.-
Heidegger especifica em vários lugares que este termo é um singulare tantum, um termo que simplesmente não pode ter plural.
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A existência de tais vocábulos e sua incontestável pertinência podem por si só fornecer uma ajuda considerável a quem deseja começar a pensar.
Compreensão espontânea de ein Ereignis por um alemão corresponde ao francês événement (acontecimento).-
Esta palavra não só sofre, mas exige o plural.
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Um evento é o que, no meio de tudo o que ocorre, atrai particularmente a atenção.
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Mesmo se se postular que das Ereignis não deve ser confundido com um evento e deve ser entendido como o Evento dos eventos, desvia-se da direção para a qual Heidegger busca fazer sinal.
Primeira tentativa de tradução: das Ereignis por o apropriamento.-
Justificação: neste termo pode-se ouvir aquilo por meio do que qualquer coisa se torna propriamente o que é.
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Das Ereignis seria então compreendido a partir do adjetivo eigen (próprio), que fala quase exclusivamente na área das línguas germânicas.
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Radical muito antigo aik-, encontrado em gótico aigan (ter para si), inglês own.
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Verbo inglês to owe (dever) reconstituído a partir de own, nomeia o tipo de dependência daquele que é devedor por ter recebido de outrem algo de que não era previamente proprietário.
Por um lado, há a propriedade; por outro, o que precede e funda toda propriedade: o procedimento ritual pelo qual algo passa a mãos próprias.-
Só pode passar a mãos próprias o que primeiro está em mãos próprias em outrem.
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Acepção primeira de eigen: ser de, como forma germinal de todo ter, implicando uma dupla relação com o que se tem.
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O que é meu só é verdadeiramente meu se eu não cesso de verificar que está, em mim, em mãos próprias.
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Esta coisa que tenho assim, posso a cada instante cedê-la a outrem, em quem estará melhor em mãos próprias.
Apropriação não é um ato simples de transformar algo em meu; é um processo complexo de reciprocidade.Apropriamento, termo antigo, deixava entrever esta reciprocidade inerente a tudo o que é próprio e a necessidade de se reapropriar sem cessar o que nunca se pode possuir de uma vez por todas.Apropriar-se significaria, então, tornar-se apto a ter relação com a coisa que se vai ter, tanto quanto com a que já se tem.Limitação crucial desta abordagem etimológica: das Ereignis não tem relação real, além da homonímia, com o adjetivo eigen.-
Heidegger toma cuidado em recordar que das Ereignis é originalmente das Eräugnis, onde murmura a palavra das Auge (o olho).
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O verbo eräugen (também escrito ereigen) significa: fazer ver ao levar a abrir os olhos.
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O sufixo -nis em Eräugnis-Ereignis serve para dizer o que eclata uma vez que, tendo sido levado a abrir os olhos, um ser humano está em estado de ver o que há para ver.
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Portanto, Ereignis não tem, na origem, a menor parentesco lexical com eigen ou eignen.
Problema da tradução de das Ereignis persiste.-
Obstáculo formidável: convicção absurda de que a cada palavra de uma língua deve corresponder uma única palavra em outra.
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Mesmo dentro de uma língua, há várias maneiras de dizer o ser.
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Heidegger afirma: A linguagem é muito mais pensante, isto é, muito mais apta a nos abrir o espírito do que nós próprios o somos.
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Isto se aplica a toda língua, desde que a escutemos dizer o que diz, em vez de tomar a palavra em seu lugar.
Das Ereignis, tal como Heidegger o escuta, diz: aquilo que faz ver ao nos levar a abrir os olhos.A tarefa do tradutor: olhar na direção que a palavra da outra língua indica e ver se em nossa língua algo, à sua maneira, se aproxima do que Ereignis dá a pressentir.Isto não pode faltar em nenhuma língua, pois o ser fala, de fato, nas modalidades mais diversas e constantemente, através de toda língua.Pista importante: a maneira como Heidegger ele mesmo traduz um termo alemão para o francês na Carta sobre o Humanismo.-
Frase: Das Denken ist auf das Sein als das Ankommende [l’avenant] bezogen.
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Tradução: Pensar, não é menos que se reportar ao ser como ao avenant.
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Das Ankommende, superficialmente, é o que chega (evento). Heidegger o ouve de outro modo, dando peso ao prefixo An- (aproximação, contato).
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Significa: o que vem até nós, quase a nos tocar.
Tradução por l’avenant testemunha uma fina compreensão do francês.-
O avenant é mais do que o que simplesmente chega; é o que vem até nós porque esta vinda nos concerne, nos regarda.
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Nomear o ser de avenant é dizer que não seríamos quem somos se não acabássemos por reconhecer a graça que nos é feita ao vir o ser até nós, tocando-nos no mais profundo.
Gênese da tradução avenance para das Ereignis.-
Possibilidade surgiu em conversa com Henri Crétella.
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Crétella preferia l’avenant, mas o particípio presente precedido de artigo em francês alivia e personaliza demasiado, perdendo o neutro.
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Opção por avenance: o sufixo -ance responde exatamente ao sufixo -nis de Ereignis.
Definição fenomenológica do que Ereignis nomeia.-
O ser, tal como aparece quando não mais o pensamos centrados no que é, é algo que se desloca, quer se elevar, algo que se teria desancorado, a uma grande profundidade (Proust).
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Heidegger acrescenta: algo cujo deslocamento, uma vez desancorado do peso de tudo o que é, vem até nós, se dirige a nós e nos convida a lhe responder.
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Das Ereignis é o vocábulo que, em resposta ao ser (ao ser mesmo, não ao ser do ente; ao ser percebido em seu próprio movimento), Heidegger ousa ouvir nomear: aquilo que faz ver ao nos levar a abrir os olhos.
Proposta de avenance como tradução constitui, em nossa língua, uma saudação adequada (seyante [esserante]) ao que o ser não cessa de fazer.-
Fazer: vir até nós como aquilo que nos “regarde” como nenhuma outra coisa nos “regarde”.
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