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Novo pensar
FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.
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1. A partir dos exames conduzidos nos âmbitos que a reflexão filosófica definiu como estética, lógica e ética, verifica-se que Heidegger visa a uma redeterminação dessas disciplinas — atinentes, respectivamente, à experiência em geral e àquela específica da obra de arte, bem como às estruturas próprias do pensar e do agir humanos — na perspectiva de um pensamento mais originário, fiel àquela origem que consiste, em última análise, na relação inelutável entre ser e homem.
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Tal intenção, e a atitude ambígua que comporta em relação à reflexão do passado, poderia ser rastreada igualmente noutros âmbitos tradicionais da investigação filosófica, como a doutrina do ser (ontologia), a investigação sobre o divino (teologia) e a elaboração de uma metafísica em geral.
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Em todos esses casos, constata-se que Heidegger, para alcançar esse fundo originário, dispõe-se a um confronto crítico com a filosofia precedente, não poupando nessa crítica sequer os resultados a que chegara sua própria investigação em Ser e Tempo, visando assim efetivamente à elaboração de um novo pensamento (neues Denken).
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2. A expressão novo pensamento não é de Heidegger, mas foi empregada em 1925 por Franz Rosenzweig como título de ensaio programático destinado a desenvolver, em direção distinta da tradição, ulteriores possibilidades do pensar e do agir humanos, sendo a intenção e os resultados a que chega Rosenzweig, permeado pelas solicitações do judaísmo, em boa parte diversos daqueles a que chega Heidegger, provavelmente desconhecedor da obra principal de Rosenzweig, A estrela da redenção (Der Stern der Erlösung, 1921), à qual o ensaio sobre o Novo pensamento remete.
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Bernhard Casper evidencia, em volume recente, não apenas afinidades de impostação entre os dois pensadores, mas sobretudo a identidade do âmbito problemático em que ambos se movem e que pretendem aprofundar, o que legitima o uso da expressão novo pensamento para definir o esforço heideggeriano.
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3. A instância que impele ao novo, a intenção de refundar a filosofia, ainda que ao custo do afastamento da tradição, reapresenta-se repetidamente no século XX, bastando lembrar as investigações conduzidas por Ludwig Wittgenstein após a publicação do Tractatus logico-philosophicus, inclusive em polêmica com o uso unilateral que dessa obra fizera o Círculo de Viena, bem como o fato de que a convicção de que a filosofia chegou ao seu fim reapresenta-se repetidamente nas últimas décadas do século XX, como na reflexão de Emmanuel Lévinas.
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4. A resposta à questão sobre se a perspectiva de um novo pensamento pode efetivamente realizar-se, e se o último Heidegger pode ser considerado, até o fim, portador de tal novo pensamento, reside naquilo que se denominou a virada linguística (linguistic turn) da filosofia do século XX, jogando-se tudo, também para Heidegger, no terreno da linguagem, a partir dos modos pelos quais é possível exprimir aquilo que se tem a dizer.
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Não se trata mais, tanto, daquela linguagem que interpela o homem e encontra sua expressão mais plena no dizer poético, mas antes da busca daquelas modalidades expressivas verdadeiramente capazes de nomear o que se encontra além do que a tradição filosófica foi capaz de aprofundar, diante de cuja dificuldade se bloqueara já a grandiosa tentativa de Ser e Tempo.
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Toda a reflexão heideggeriana posterior, voltada à elaboração de um novo pensamento, buscou encontrar as palavras adequadas para dizer o originário, o evento do ser, aquilo que dá sentido e que, por isso, precede todo pensar e todo agir do homem.
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5. Resta indagar se, nessa incessante busca de uma linguagem adequada para dizer o além, nessa tentativa que conduz, em definitiva, a atribuir à linguagem que originariamente fala essa adequação, e à palavra humana apenas a faculdade de corresponder a esse dizer originário, Heidegger não seria presa de espécie de encantamento que o obriga a enfrentar de maneira bem determinada as questões da filosofia — o encantamento que o impele à busca de uma palavra pura, livre de todo comprometimento com o passado, encantamento partilhado por boa parte da filosofia do século XX, tanto por aquela que sob tal aspecto ainda se reporta a Heidegger, como Lévinas, quanto por aquela que identifica na construção de uma lógica pura a condição para libertar-se dos falsos problemas da metafísica, como no caso do neopositivismo lógico.
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6. Impõe-se ainda perguntar se essa via, a via da busca de uma linguagem pura, é caminho efetivamente percorrível, visto que a língua comumente usada, inclusive aquela com que se faz filosofia, constitui na realidade língua impura, lugar de contaminações, historicamente determinada e em constante transformação, fato do qual o próprio Heidegger tem plena consciência.
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Por essa razão, ao lado do projeto de ultrapassamento (Überwindung) da metafísica, sobretudo depois de revelar-se este uma utopia, inaugura-se paciente trabalho de escavação nos conceitos da tradição, destinado a mostrar como estes, em sua equivocidade constitutiva, são capazes de dizer muito mais do que disseram no passado.
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A análise da linguagem deixa então de ser ditada pelo desejo de purificação da própria língua, passando a orientar-se pela intenção de nela descobrir pequenos mundos significativos e novas possibilidades a explorar, tratando-se não de buscar além, mas de trabalhar nos interstícios das palavras, como fez, nos últimos anos, Jacques Derrida, também na esteira de peculiar interpretação de Heidegger.
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7. Reconhece-se ser difícil, na atualidade, livrar-se de Heidegger, deixar para trás seus problemas e o modo como explicitamente os enfrentou, não apenas pela profundidade de suas análises, mas também pela ambiguidade de muitas de suas soluções, razão pela qual Heidegger figura entre os poucos autores contemporâneos já passíveis de serem considerados clássicos, e que, justamente por isso, merece ser estudado.
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