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Nova ética

FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.

  • 1. A presença de uma ética no pensamento de Heidegger é frequentemente negada pelos estudiosos, sendo indiscutível que jamais foi redigida uma ética explícita, nem elaborados conceitos como bem e mal, justo e injusto, mantendo-se Heidegger sempre crítico quanto a qualquer tentativa de definir conceitos morais, de elaborar uma teoria dos valores ou de fundamentar em critérios gerais o correto agir do homem.
    • Deixam-se de lado aqui as questões relativas às escolhas do filósofo diante do advento do nazismo, por tratar-se de matéria que solicitaria antes um juízo moral do que a explicação da ausência, em sua vasta produção, de um texto dedicado aos conceitos morais tradicionais.
  • 2. Não obstante essa ausência, é possível falar de uma ética em Heidegger em vários sentidos, havendo a própria literatura secundária evidenciado direções específicas dessa investigação, consistente numa reflexão articulada sobre o agir que, sem chegar à definição de conteúdos específicos a realizar nem à individuação de deveres particulares, analisa antes as condições e as formas de comportamento e estuda os modos pelos quais tais comportamentos podem ser adequadamente atuados, pesquisa que se encontra tanto no pensamento heideggeriano dos anos vinte quanto na investigação posterior aos anos trinta.
  • 3. Ser e Tempo (Sein und Zeit) admite ser considerado também de uma perspectiva ética, encontrando-se entre suas fontes, aplicadas e utilizadas no novo contexto da análise existencial, o estudo aristotélico das estruturas do agir, sendo a Ética a Nicômaco (Etica Nicomachea) responsável por oferecer, no início dos anos vinte, as categorias e argumentos que permitem a Heidegger elaborar o conceito de ser-aí (Dasein), fundindo-se, no tratado de 1927, esse pano de fundo aristotélico com outras problemáticas, entre as quais não se pode esquecer, malgrado a posterior polêmica heideggeriana contra toda forma de existencialismo, o aporte proveniente da concepção da existência elaborada por Kierkegaard, sobretudo da ênfase que este último confere à problemática cristã da escolha.
  • 4. A escolha entre uma existência autêntica, fiel ao poder-ser mais próprio do ser-aí, e uma existência inautêntica, dispersa no mundo, não deve assumir conotações morais, não devendo ser entendida como alternativa entre uma vida boa e uma vida má, de sorte que Ser e Tempo não pretende definir condições para uma existência boa, nem exortar à assunção de determinado modelo de comportamento, mas antes oferecer, em estilo fenomenológico, adequada descrição de tais comportamentos possíveis.
    • Emerge, ainda assim, nas entrelinhas dessa obra, específica atitude valorativa, sobretudo no desenvolvimento da ideia segundo a qual a possibilidade mais autêntica da existência é aquela que o ser-aí realiza ao decidir-se por aquilo que compreendeu de si mesmo — seu caráter de projeto (Entwurf), seu ser mortal, sua temporalidade específica.
  • 5. Delineia-se com clareza essa perspectiva na temática da decisão antecipadora (vorlaufende Entschlossenheit), cujo motivo reside no fato de que, através dela, o ser-aí conforma-se plenamente às suas condições de possibilidade mais próprias, decidindo-se pelo que é — um ser finito, mortal — e, ao mesmo tempo, reconfirmando e pondo em obra tal condição, consistindo nisso o caráter formal daquela ética heideggeriana elaborada em Ser e Tempo: indicar como boa simplesmente a realização daquilo que o ser-aí é, sem definir as formas concretas ou os conteúdos efetivos em que essa realização se cumpre.
    • Anuncia-se aqui o caráter performativo do projeto heideggeriano, ao sublinhar o efetivar-se dos diferentes modos de ser do ser-aí e ao mostrar que tal caráter encontra confirmação justamente em sua constante atuação.
  • 6. Na medida em que o ser-aí é o ente que nós mesmos somos, e as estruturas existenciais evidenciadas são, em cada caso, as minhas próprias, o próprio tratado Ser e Tempo configura-se como obra performativa, não se limitando à simples descrição de uma ética, mas estabelecendo as condições para que ela seja concretamente posta em prática, dirigindo-se ao leitor, envolvendo-o na exposição e solicitando suas decisões, de modo que a decisão antecipadora — a decisão pela própria finitude, pela própria capacidade de escolher, a escolha pela escolha — não apenas se configura como estrutura geral do ser-aí, mas diz respeito a cada um de nós em sua individualidade.
  • 7. Nos anos imediatamente posteriores à publicação de Ser e Tempo, esse enfoque individual da decisão passa a ser desenvolvido em chave comunitária, cabendo então não mais ao indivíduo isolado, mas ao povo — mais precisamente ao povo alemão — a decisão de tornar-se aquilo que propriamente já é, sendo sobre esse convite a decidir-se, o de reconduzir-se às próprias raízes e afirmar a própria missão no concerto dos demais povos, que se centra o discurso pronunciado por Heidegger ao assumir o reitorado da Universidade de Freiburg i.Br., A autoafirmação da universidade alemã (Die Selbstbehauptung der deutschen Universität, 1933).
  • 8. Transferido do plano individual para o do povo alemão, o apelo à decisão arrisca, por sua abstração, legitimar os mais diversos comportamentos, inclusive aqueles orientados e concretamente realizados no quadro das ideologias então dominantes, revelando-se aqui o limite do projeto ético elaborado em Ser e Tempo: o caráter programaticamente formal da escolha, segundo o qual importa decidir-se, pouco importando a que.
    • Karl Löwith, um dos discípulos judeus de Heidegger, comenta ironicamente que, ao final do discurso de reitorado, os estudantes não sabiam se deveriam estudar os pré-socráticos ou alistar-se nas SS.
  • 9. Nos anos imediatamente posteriores a essa experiência, busca-se dar a esses problemas um desenvolvimento mais concreto, no interior da mudança de perspectiva que se impõe ao longo dos anos trinta — a tentativa de fazer experiência da verdade do ser considerado como tal —, podendo-se falar, em relação a esse propósito, de um novo projeto de ética, no âmbito do qual o próprio vocábulo passa a assumir significado em parte distinto daquele próprio da tradição, indicando a condição própria do homem em sua relação com o evento do ser e estabelecendo as diferentes modalidades dessa relação.
  • 10. Trata-se agora de investigação que já nada tem a ver com a descrição do agir humano e dos critérios que o orientam, nem com a individuação de deveres a que este deveria submeter-se, concernindo antes à experiência humana em seu conjunto e desenvolvendo-se de modo análogo e estreitamente ligado àquelas investigações sobre a origem da obra de arte ou os múltiplos sentidos do logos, encontrando-se assim, mais uma vez, teoria e práxis estreitamente unidas no pensamento heideggeriano, situando-se o próprio pensar num nível preliminar em relação à distinção entre teoria e práxis, o que constitui motivo ulterior para o distanciamento em relação aos modos pelos quais a filosofia precedente concebeu o agir humano e para o afastamento daquilo que a tradição chamou propriamente de ética.
  • 11. Tal intento é expresso claramente na Carta sobre o humanismo (Brief über den Humanismus, 1947), na qual, ao lado de crítica ao modo habitual de se pensar a ética, desenvolve-se efetiva ressemantização desse conceito, afirmando-se que ethos significa moradia, lugar do habitar, nomeando a palavra a região aberta onde o homem habita, sendo a abertura de sua morada aquilo que deixa aparecer o que vem ao encontro da essência do homem e, assim ocorrendo, permanece em sua proximidade, contendo e custodiando a morada do homem o advento daquilo que pertence à sua essência — concepção que corresponde, na interpretação heideggeriana, à ideia tradicional de ética.
  • 12. Aprofundando essa concepção tradicional, extrai-se uma acepção nova e mais originária daquilo que tal habitar comporta, afirmando-se que, se em conformidade com o significado fundamental da palavra ethos o termo ética quer dizer que com esse nome se pensa a morada do homem, então o pensamento que pensa a verdade do ser como elemento inicial do homem enquanto ek-sistente (ek-sistierend) já é em si mesmo a ética originária (die ursprüngliche Ethik).
    • O termo ética, em seu significado mais profundo, na concepção que se pretende elaborar, indica mais propriamente a relação que une homem e ser.
  • 13. Quanto ao comportamento mais adequado que o homem é chamado a assumir no interior dessa relação, a resposta já se encontrava presente em Ser e Tempo: trata-se de pensar a ação a partir do deixar-ser (Seinlassen) aquilo que se manifesta, e não a partir da intenção de dominar os entes, retomando-se, na mesma linha, em meados dos anos quarenta, um conceito central do pensamento de Mestre Eckhart, transformado na expressão que identifica de modo mais preciso o comportamento do homem enquanto este responde ao apelo do ser: o termo Gelassenheit, serenidade ou abandono, entendido tanto como abandono às coisas, a seu revelar-se, quanto como abandono das coisas, distanciamento delas para se abrir ao evento do ser.
  • 14. Tomado e envolvido pela relação com o ser, ao homem resta apenas abandonar-se a essa relação, deixar-se conduzir por ela e permanecer-lhe fiel, podendo apenas manter-se em espera de possíveis manifestações do evento, sem pretender antecipá-las pelo pensamento nem determiná-las pela ação, sendo por isso o termo abandono (Gelassenheit) a palavra capaz de exprimir uma ética não objetivante e aberta à autêntica manifestação do outro, na medida em que indica aquele comportamento que, para além de todo querer, predispõe o homem à experiência de sempre novas relações.
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