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estudos:fabris:2004:3.5

3.5 O ser-em como tal

FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.

As estruturas do ser-em

  • 3.5.1. Analisado o mundo enquanto contexto de uso próprio do ambiente circundante (Umwelt) e articulados os modos de relação do ser-aí tanto no âmbito instrumental do cuidar-se (Besorgen) quanto na direção do ser-com outros, do aver-cuidado (Fürsorge), impõe-se ainda aprofundar o ser-no-mundo em seu caráter de abertura de todo rapporto do ser-aí, mostrando como este mesmo ente é o lugar em que tal abertura se realiza, denominado ser-em (In-Sein) do ser-no-mundo, dedicando-se o capítulo quinto da primeira seção a essa análise.
  • Retomando o esboço já delineado nos §§ 12 e 13, cabe a este capítulo aprofundar tal impostação preparatória e preparar a subsequente determinação do ser do ser-aí como cuidado, no qual se recolhem os momentos do cuidar-se e do ter-cuidado.
  • Configura-se o ser-aí, no capítulo 5, como aquele ente que é a cada vez seu aí (Da), sendo, por ter sua essência caracterizada pelo ser-no-mundo, constitutivamente aberto, já sempre iluminado em relação a todos os relacionamentos em que pode envolver-se, sendo o ser-aí o lugar (o aí) em que o ser vem a descortinar-se, empregando-se aqui a imagem da clareira (Lichtung), sendo o ser-aí ele mesmo a clareira em que o denso da floresta se dirime (sich lichten) e se abre à luz (Licht).
  • Não sendo propriamente correto dizer que o ser-aí é seu próprio aí ou sua abertura, pois sua essência é sua existência, e ele não tanto é quanto pode ser, aquilo em relação a que o ser-aí pode ser é antes de tudo si mesmo, assumido de forma imprópria, inautêntica, achatada e achatante da esfera pública, ou própria, autêntica.
  • Aprofunda-se assim a estrutura do ser-em em dois momentos: a seção A, A constituição existencial do aí, examina a disposição afetiva (Befindlichkeit, em geral e na modalidade particular do medo, §§ 29-30), a compreensão (Verstehen, também em seus vínculos com o interpretar e a asserção, §§ 31-33) e o discurso (Rede, articulação da compreensibilidade e estrutura de fundo da linguagem, § 34); a seção B, O ser cotidiano do aí e a decadência do ser-aí, investiga modalidades cotidianas de relação — a tagarelice, a curiosidade, a equivocidade (§§ 35-37) — e evidencia o movimento constitutivo de decadência do ser-aí (§ 38).

A “disposição afetiva” em seus caracteres gerais e na modalidade particular do medo

  • 3.5.2. Traduzimos Befindlichkeit por disposição afetiva, indicando o modo pelo qual o ser-aí se encontra aberto ao puro e simples fato de existir, ao nu que ele é, denominando Heidegger este fato da existência, distinto da mera factualidade das coisas simplesmente presentes (Tatsächlichkeit), de faticidade (Faktizität), manifestando a Befindlichkeit primariamente esse caráter do ser do ser-aí, deixando em segundo plano o de onde e o para onde de tal existir, pois o ser-aí se encontra simplesmente lançado (geworfen) em determinada situação sem que lhe seja dado sentido de outro lugar, sendo essa condição chamada de ser-lançado (Geworfenheit).
  • Não apenas percebe o ser-aí tal situação — sentindo-se, por exemplo, peso a si mesmo, na expressão agostiniana retomada por Heidegger —, como também advirte esse próprio perceber, havendo particular reflexividade no próprio sentir, sendo sentir sempre também sentir-de-sentir, sem que isso constitua autoconsciência teorética, readquirindo assim os estados de ânimo, as emoções, as paixões, dignidade filosófica perdida desde Aristóteles.
  • Três caracteres fundamentais constituem essa modalidade de abertura: a individuação daquilo que a disposição afetiva abre (o ser-lançado, a faticidade do ser-aí) e o como isso é descortinado (via desvio, evasão); a impossibilidade de subordiná-la a modalidades cognitivas ulteriores, possuindo antes função abridora cooriginária à da compreensão; e o fato de a própria avisadeza do ser-aí em seu ambiente estar atravessada por afetividade radicada na disposição afetiva, podendo assim o ser-aí ser tocado, afetado, por aquilo que encontra.
  • No § 30, analisa-se o medo em seus três momentos constitutivos: o diante-de-que do medo, o ter-medo como tal, e o por-que (ou por quem) o medo se dá, introduzindo-se ainda modalidades emocionais conexas — susto, horror, terror —, indicando todas elas que o ser-aí, enquanto ser-no-mundo, encontra-se na condição existencial de ser assustadiço.

O compreender como modalidade da abertura. A distinção entre interpretar e asseverar

  • 3.5.3. O compreender (Verstehen), diversamente de sua contraposição tradicional ao explicar (Erklären), típica de Dilthey, não é forma de conhecimento paralela ao explicar, mas modo fundamental do ser do ser-aí pelo qual o ser-no-mundo e a própria existência resultam abertos como tais, devendo a própria explicação ser reconduzida ao compreender em seu sentido originário.
  • Compreender remete, na linguagem cotidiana, ao saber-fazer, ao poder-lidar-com (etwas können), designando o ser-aí como aquele ente capaz de realizar possibilidades e, ao fazê-lo, de realizar-se a si mesmo, caracterizado por seu poder-ser (Sein-können).
  • Distingue-se o âmbito do possível — as possibilidades (Möglichkeiten) que o ser-aí pode realizar, sendo por isso chamado ser-possível (Möglichsein) — da esfera do poder próprio do ser-aí, seja como potencialidade intrínseca ativável, seja como condição de possibilidade de todo relacionamento, constituindo ambos, juntos, o poder-ser.
  • O termo possibilidade assume dois sentidos: existencial, exprimindo o poder-ser do ser-aí, entendido como saber-lidar prático e, mais filosoficamente, como condição de possibilidade e potência fundante inscrita nas estruturas do ser-aí; e ôntico, indicando o suscetível de ser realizado, categoria modal aplicável também às coisas simplesmente presentes como ainda-não-real e nunca necessário.
  • Define-se o ser-aí como ser-possível entregue a si mesmo, possibilidade lançada, possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio, encontrando-se sempre já na situação do poder-ser, capaz de realizar as possibilidades que se lhe apresentam, sendo sempre mais que simples presença, sempre já além de si, no modo do ainda-não, podendo assim dizer a si mesmo: torna-te o que és!
  • A compreensão é o ser existencial do poder-ser próprio do ser-aí, dando-se através dela tanto a abertura do ser-no-mundo quanto a do ser do ser-aí, delineando-se-lhe sempre já aquele complexo de estruturas de possível satisfação próprias da mundidade do mundo, e sendo o ser-aí capaz de relacionar-se consigo mesmo, de tendencialmente saber quem é, ainda que, para ativar tal relação autenticamente, deva contrastar a autointerpretação cotidiana e nivelante do impessoal.
  • O ser-adiante-de-si próprio do poder-ser é chamado projeto (Entwurf), modo em que se atua a compreensão, encontrando-se o ser-aí, em seu compreender, sempre já lançado além de si mesmo, destinado à relação possível com os demais entes e consigo, configurando-se propriamente como projeto lançado (geworfener Entwurf).
  • Introduz-se no § 32 o conceito de interpretação (Auslegen), exercício do compreender pelo qual este, compreendendo, se apropria do compreendido, o que só ocorre supondo-se algo já compreendido que orienta a compreensão, apreendendo-se o fenômeno como (als) algo.
  • A interpretação articula-se segundo a estrutura do como, distinguindo-se três modalidades concretas do rimando nela implícito: a posse prévia, a predisponibilidade que guia a consideração; a perspectiva prévia, a visão preliminar que permite apreender o interpretado de determinado modo; e a concepção prévia, a conceitualidade antecipada que permite elaboração mais ou menos adequada do apreendido, não se dando jamais visão pura e imediata das coisas.
  • Discute-se ainda o problema do sentido e o da circularidade do procedimento interpretativo, sendo sentido aquilo em relação a que algo resulta compreensível como algo, aquilo em que se mantém a compreensibilidade de algo, e não constituindo a necessária assunção preliminar da estrutura do como um círculo vicioso, mas antes revelando que o próprio ser-aí, enquanto aberto ao ser, possui estrutura circular.
  • O § 33 dedica-se à relação entre interpretação e asserção (Aussage), reconduzida esta ao ato de interpretar como modo derivado, distinguindo-se três significados de asserção: manifestação (o logos como apophansis, que faz o ente mostrar-se por si mesmo naquilo que é), predicação (determinação do sujeito pelo predicado) e comunicação, enunciação (compartilhamento expresso do que se mostra), definindo-se assim o asserir como manifestação que determina e comunica, modificação derivada do interpretar avisado, consistindo a derivação na substituição do como hermenêutico originário pelo como apofântico, que achata a pluralidade dos modos de ver sobre a única dimensão da simples presença, transformando-se o próprio ser, como cópula, em mera função de ligação entre sujeito e predicado, anunciando-se assim o projeto específico de uma lógica formal.

O discurso e a linguagem

  • 3.5.4. Cooriginário à disposição afetiva e à compreensão é o discurso (Rede), articulação da compreensibilidade, modo pelo qual a totalidade de remissões do ser-no-mundo, já sempre compreendida pelo ser-aí, resulta expressa e comunicável, não havendo jamais compreensibilidade não articulada.
  • A linguagem, diferentemente do que ocorrerá na reflexão posterior aos anos trinta, funda-se sobre o discurso, sendo sua concretização exterior, determinando-se sucessão precisa de estruturas: discurso, articulação expressiva da compreensibilidade; linguagem, expressão exterior do discurso; e língua concretamente falada, examinável, fragmentando-se sua conexão originária, como série de palavras-coisa simplesmente presentes.
  • Analisados os momentos constitutivos do discurso — aquilo de que se fala, o que é dito enquanto tal, o comunicar e tornar conhecido — e os caracteres do exprimir-se e do comunicar (Mitteilung, compartilhamento da disposição afetiva e da compreensão próprias do ser-com outros), examinam-se o escutar e o silêncio como modalidades do discorrer.
  • Propõe-se, ao final do parágrafo, leitura original da definição aristotélica do homem como zoon logon echon, animal que possui o logos, correspondendo logos ao que se chamou Rede, discurso, significando apresentar o homem como ente que tem o logos orientar-se implicitamente para concepção do ser-aí como ente aberto a compreensibilidade já sempre articulada, orientação encoberta tanto pela tradução latina animal rationale quanto pela própria interpretação grega do logos, considerado apenas na perspectiva da asserção, cabendo à doutrina hermenêutica da linguagem libertar a gramática de tal lógica e questioná-la em sua fundação na ontologia da simples presença.

As modalidades de abertura do ser-aí cotidiano. O constitutivo decair do ser-aí

  • 3.5.5. Recuperando o vínculo com a vida cotidiana para confirmar os resultados alcançados, evidenciam-se, na esfera pública do impessoal, modalidades inautênticas de abertura: a tagarelice (Gerede), modalidade cotidiana do discorrer (§ 35); a curiosidade (Neugier), possibilidade inautêntica da visão (§ 36); e a equivocidade (Zweideutigkeit), modo decaído da interpretação (§ 37), páginas que combinam a investigação da experiência comum com referências filosóficas a Aristóteles e Agostinho e que serviram de modelo a investigações existencialistas posteriores.
  • Sem abandonar atitude não valorativa, busca-se ainda captar o motivo dessa situação cotidiana: a intrínseca tendência do ser-aí à fuga, à decadência, ao rebaixamento, tema do § 38, já anunciado nas lições de 1921-22 sob o nome de ruína (Ruinanz), denominado em Ser e Tempo Verfallen, decair.
  • O decair é o modo de ser cotidiano do ser-aí, o fato de este se encontrar perdido no mundo, extraviado na publicidade (Öffentlichkeit) do impessoal, indicando mais um movimento que um estado — movimento pelo qual o ser-aí se afasta não de situação originária e paradisíaca, mas de si mesmo, daquele que propriamente é —, individuando-se seus caracteres essenciais: a tentação, o aquietamento, a alienação e o aprisionamento.
  • O decair manifesta estrutura ontológica essencial do ser-aí, caracterizando seu modo de ser antes de tudo e na maioria das vezes, representando sobretudo a tentativa de encobrir as próprias potencialidades, achatando o poder-ser sobre o ser fixado do impessoal, exigindo-se contramovimento pelo qual o ser-aí se determina autenticamente como poder-ser e se assume em seu poder-ser mais próprio, tarefa dos dois primeiros capítulos da segunda seção, restando, para completar a primeira seção, captar em sua inteireza, no íntimo vínculo entre os caracteres já emersos, o ser do ser-aí, tema do capítulo sexto.
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