3 Por trás dos fenômenos
NISHIDA, Kitarō. De la chose qui agit au soi qui voit. Tradução: Jacynthe Tremblay. Montréal: Les Presses de l’Université de Montréal, 2023.
O que se encontra por trás dos fenômenos físicos
I. A física das ações imediatas
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A física das ações à distância atribui às coisas uma força pela qual uma moveria diretamente outra; a física das ações imediatas desloca a explicação para o campo de força, no qual o espaço adquire propriedades físicas e seus estados se transformam.
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Mesmo um campo de força só pode ser conhecido por mudanças sensíveis, como o movimento observado numa medição; a atribuição de qualidade física ao espaço exige, portanto, esclarecer sua relação com aquilo que efetivamente se manifesta.
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O movimento é percebido como mudança relativa entre configurações dotadas de qualidades sensíveis, e não como visão de um espaço vazio; nessa perspectiva, o espaço pertence às relações das coisas, em vez de constituir um recipiente independente delas.
II. O auto-despertar voluntário como fundamento do conhecimento da realidade
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A distinção entre conteúdos sensíveis requer uma unidade capaz de abrangê-los: o vermelho e o azul pressupõem o campo da cor, cujo desenvolvimento não se esgota num conceito abstrato, assim como a percepção visual participa de uma atividade que diferencia suas próprias determinações.
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O pensamento reúne atos sensíveis independentes e possui um campo criador próprio, mas a validade de suas formas, tomada isoladamente, não basta para estabelecer a realidade objetiva dos fatos físicos.
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A objetividade do mundo empírico exige que o conteúdo particular da experiência incorpore determinações universais; essa unidade ocorre no auto-despertar voluntário, no qual conhecer e agir pertencem à mesma atividade.
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Tempo e espaço, enquanto categorias da realidade, exprimem a unificação de atos efetivos; o tempo irrepetível da experiência distingue-se, assim, de uma continuidade linear concebida apenas como forma abstrata.
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O si que fundamenta o conhecimento é individual e atuante, pois uma consciência lógica desvinculada de toda vida singular não poderia reunir pensamento e sensação num mundo real.
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A vontade objetiva engloba os atos sensíveis e intelectuais e torna possível sua síntese; reduzir a sensação à passividade e a vontade à preferência subjetiva impede compreender sua participação na constituição do conhecimento.
III. As mudanças das coisas
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Reconhecer uma mudança exige mais do que discriminar qualidades ou reuni-las como predicados de uma coisa estática: é necessário compreender a relação efetiva entre determinações independentes.
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Uma coisa só se transforma em relação com outra sem perder completamente sua independência; caso deixasse de conservar-se ao ser afetada, já não haveria a mesma coisa cujo movimento pudesse ser reconhecido.
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Tempo e espaço constituem o plano em que coisas distintas mantêm relações recíprocas, conservando sua identidade através das transformações que nelas ocorrem.
IV. Estabelecimento dos conceitos das coisas
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A coisa individual não pode ser concebida como suporte imóvel separado do tempo e do espaço, pois isso tornaria suas mudanças incognoscíveis; tampouco se reduz ao conjunto provisório de qualidades que lhe são atribuídas.
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Sua independência implica a possibilidade de relações e predicações indefinidamente numerosas, mas a simples acumulação de julgamentos não basta para constituir o conceito de uma coisa efetivamente existente.
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A objetividade requer uma posição na qual objeto e ato de consciência se impliquem mutuamente, ultrapassando tanto a coisa pensada como conteúdo interior quanto o objeto supostamente alheio a toda atividade do si.
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A unidade dos atos, ao ser objetivada, estabelece a coisa individual como centro de relações que transcende o moi consciente; essa objetivação depende do auto-despertar voluntário, que engloba o auto-despertar meramente intelectual.
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Os juízos sobre cores tornam-se possíveis pelo desenvolvimento do próprio campo da cor, sem que o ato visual seja ele mesmo vermelho ou azul; a unidade que permite julgar também possibilita reconhecer coisas distintas em relação recíproca.
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Ao ultrapassar a posição do si que apenas pensa, a vontade permite conceber as coisas como indivíduos independentes que se movem e, simultaneamente, participam de um mesmo mundo.
V. O caráter inseparável do tempo e do espaço como categorias da realidade; o tempo e o espaço como expressões da vontade
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Tempo e espaço são formas gerais pelas quais se exprime a atividade das coisas e, em última instância, da vontade; abstraí-los completamente das coisas atuantes produz apenas a ideia de coordenadas vazias.
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O espaço efetivo envolve resistência sensível e o tempo efetivo envolve processos atuantes, de modo que sua união pertence internamente à realidade física.
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Os fenômenos de consciência também não podem ser colocados numa sucessão temporal objetiva inteiramente apartada do espaço; o chamado tempo psicológico pertence à vida consciente e não constitui, por si só, o tempo real.
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A independência das coisas deixa de contradizer suas relações espaço-temporais quando tempo e espaço são compreendidos como dimensões concretas de sua atividade, e não como recipientes vazios nos quais elas seriam depositadas.
VI. A percepção interna mediada pela força e pela vontade
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A relação entre campos físicos não pode ser explicada mediante a introdução de mais um espaço vazio; o mundo das forças encontra seu fundamento no auto-despertar voluntário, que nele se exprime sem se reduzir aos fenômenos físicos.
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A percepção interna participa da objetividade do conhecimento factual e permite distinguir sonho e realidade, mas seu próprio fundamento reside na atividade do si, cuja unidade não se confunde com uma sequência de estados no tempo.
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A consciência presente pode remeter-se a experiências passadas e possibilidades futuras, pois a percepção interna reúne os diferentes momentos numa continuidade de atos que se desenvolve e retorna a si.
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Essa percepção contém também uma dimensão espacial: a profundidade de sua atividade permite compreender relações de extensão e não apenas a sucessão de representações temporais.
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O mundo físico exige um princípio que articule tempo, espaço e massa em relações efetivas; sua construção objetiva não resulta da mera descrição introspectiva desses elementos separados.
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O conceito de força exprime essa exigência de articulação e aponta para um nível em que a percepção interna é englobada pela vontade atuante, capaz de conferir unidade à experiência física.
VII. A certeza mediada pela percepção interna e pela consciência da força; certeza e evidência
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A percepção interna acompanha-se de certeza, e a certeza pressupõe uma experiência interna; sua ligação permite que fatos vividos individualmente sejam afirmados como fatos cuja validade pode ser reconhecida por outros.
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A intensidade de uma sensação distingue-se da certeza, que concerne à validade transindividual do pensamento, embora ambas participem dos modos pelos quais o si toma consciência de sua experiência.
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A evidência aprofunda a certeza quando o objeto deixa de ser apenas aquilo de que o si está convencido e passa a impor-se na união entre sujeito e objeto, mediante o ultrapassamento da perspectiva pessoal restrita.
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A repetição de uma atividade pode esclarecer seu conteúdo: na aprendizagem de uma técnica e na criação artística, a certeza adquirida pelo exercício aproxima-se da evidência quando o agir alcança diretamente uma forma objetiva.
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O conhecimento factual conserva certeza mesmo quando seu conteúdo é um sonho, mas o conhecimento das forças exige o auto-despertar do si atuante, no qual reconhecer uma ação própria torna possível a categoria de causalidade.
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As leis da natureza exprimem regularidades objetivas que não se confundem com hábitos psicológicos privados; sua compreensão requer alcançar a atividade transindividual na qual atos subjetivos e objetivos se relacionam.
VIII. As diversas leis de causalidade como forças do auto-despertar voluntário; causalidade do espírito e causalidade física
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A concepção de ações à distância corresponde à observação de coisas individuais que se movem a partir da posição do si pensante; a concepção de ações imediatas surge quando a atividade do si permite compreender o mundo como campo de forças.
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As forças físicas são expressões da vontade e contêm relações temporais e espaciais; a unidade entre elas depende do sujeito atuante, cuja atividade engloba o tempo em vez de simplesmente ocorrer dentro dele.
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Fenômenos físicos e fenômenos espirituais constituem modos distintos de manifestação no mundo objetivo do si atuante: o primeiro privilegia um tempo formal e quantificável, enquanto o segundo torna explícito o conteúdo qualitativo do tempo.
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A diferença entre os dois domínios não constitui separação absoluta, pois ambos se estabelecem no auto-despertar da vontade e conservam, em graus distintos, aspectos quantitativos e qualitativos.
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A causalidade mecânica, a causalidade final e a causalidade espiritual podem ser compreendidas como formas pelas quais a vontade criadora se manifesta; a ideia efetiva desenvolve-se no tempo ao tornar-se consciente de sua própria atividade.
IX. As possibilidades infinitas e a causalidade voluntária no fundamento da vontade; potencialidade do tempo no pensamento
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A vontade funda o mundo das forças, mas sua liberdade não se esgota nele: pode afastar-se de determinações efetivas, negar uma configuração da realidade e abrir possibilidades ainda não realizadas.
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A afirmação de uma qualidade implica sua distinção de outras, e ambas dependem de uma unidade mais profunda; analogamente, a vontade reúne agir e não agir, movimento e imobilidade, afirmação e negação.
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Uma descrição puramente intelectual do movimento da mão não esclarece por que ele é reconhecido como ação própria; a relação singular entre si e ato torna-se acessível desde o auto-despertar do sujeito atuante.
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A percepção interna, assim aprofundada, reúne ato e potência: a realidade efetiva apresenta-se acompanhada de possibilidades infinitas que a vontade pode desenvolver ou deixar sem realização.
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Na intuição, a oposição entre sujeito e objeto e a diferença entre movimento e imobilidade encontram uma unidade a partir da qual se constituem tanto o si livre quanto as coisas independentes.
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O tempo exprime a criação atuante e assume conteúdos diversos conforme se constituem o mundo físico, os mundos orientados por fins e os fenômenos espirituais; o mundo físico representa uma possibilidade entre outras formas de objetividade.
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Mesmo o pensamento aparentemente afastado do tempo contém o desenvolvimento possível de atos: sua atividade conserva o tempo em potência e fornece, nessa abertura, condições para novos conteúdos de conhecimento.
