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9 Modo da realidade

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

O Modo Fundamental da Verdadeira Realidade

1. Os fatos da experiência, aparentemente variados, são todos a mesma realidade e se estabelecem pelo mesmo modo, cujo caráter fundamental cabe agora examinar.

2. Por trás de toda realidade opera um fator unificador, pois constituintes simples e independentes, como os átomos dos atomistas, são conceitos abstratos formulados para fins explicativos e não podem existir efetivamente, já que tudo se estabelece por oposição e a oposição exige uma realidade unificadora oculta em sua base.

  • Um átomo precisaria ter qualidades ou atividade, pois o que carece de ambas não difere do nada, mas a atuação de uma coisa se dá necessariamente em oposição a outra, exigindo um terceiro que as ligue e permita que atuem uma sobre a outra, como a força que transmite o movimento do objeto A ao objeto B.
  • Também uma qualidade só se estabelece em oposição a outra, e se o vermelho fosse a única cor não apareceria como tal, pois requer cores não vermelhas.
  • Para serem comparadas e distinguidas, duas qualidades precisam ser fundamentalmente idênticas, já que coisas totalmente diversas, sem ponto em comum, não admitem comparação nem distinção.

3. A realidade unificadora é, nos fenômenos materiais, uma força física do mundo externo e, nos fenômenos mentais, a força unificadora da consciência, mas, sendo esses fenômenos idênticos na experiência pura, ambas as atividades unificadoras são fundamentalmente uma só, de modo que a força que unifica o pensar e o querer é a mesma que subjaz aos fenômenos do universo, como mostram as leis da lógica e da matemática, princípios fundamentais pelos quais esses fenômenos vêm a ser.

4. O estabelecimento da realidade exige tanto uma unidade em sua base quanto oposição ou contradição mútua, sendo contradição e unidade, fundamentalmente, duas perspectivas sobre uma mesma coisa.

  • Heráclito afirmou que a luta é o pai de todas as coisas, pois a realidade se estabelece por contradições: o vermelho surge em oposição ao não vermelho, e o que atua, em oposição ao que atua reciprocamente, desaparecendo a realidade quando essas contradições desaparecem.
  • Há contradição porque há unidade, e há unidade porque há contradição.
  • Como o preto e o branco, coisas idênticas em tudo menos num aspecto são as mais opostas, ao passo que coisas sem oposição clara, como a virtude e um triângulo, carecem também de unidade clara.
  • A realidade mais poderosa é a que harmoniza e unifica mais plenamente as diversas contradições.

5. A ideia de que unificador e unificado são duas coisas separadas deriva do pensamento abstrato, pois na realidade concreta são inseparáveis, como na árvore, que existe pela unificação de galhos, folhas, raízes e tronco, partes de funções diversas, sem ser mera coleção delas, já que sem uma força que unifique a árvore inteira as partes nada significam, existindo a árvore, assim, sobre a oposição e a unidade de suas partes.

6. Quando a força unificadora e o unificado estão separados, a entidade não chega a ser realidade, como no monte de pedras empilhado por alguém, em que pedras e pessoa são coisas distintas e o monte, artificial, não se torna realidade independente.

7. O modo fundamental da realidade consiste em ser uma sendo muitas e muitas sendo uma, mantendo distinções na igualdade e igualdade nas distinções, e, sendo essas duas dimensões inseparáveis, a realidade é o autodesenvolvimento de uma única entidade, modo sempre exibido pela verdadeira realidade independente e autossuficiente, enquanto o que não o exibe é conceito abstrato formulado pelo pensamento.

8. Uma realidade é aquilo que constitui em si um único sistema, caráter sistemático que leva a crer em sua realidade indiscutível, ao passo que o que não constitui sistema, como os sonhos, é tido por irreal.

9. Uma realidade ao mesmo tempo una e múltipla deve ser automovida e incessante, pois a quietude é um estado de existência independente, livre de conflito com outros, uma unidade que rejeita a pluralidade, na qual a realidade não pode vir a ser.

10. Quando um estado de coisas se estabelece pela unidade, estabelece-se necessariamente ao mesmo tempo um estado oposto, e toda unidade que surge é imediatamente rompida por uma desunião, emergindo a verdadeira realidade dessa oposição infinita, de modo que a pretensão dos físicos, apoiados na lei da conservação da energia, de que a realidade tem limite é suposição explicativa que, como as afirmações sobre um possível limite do espaço, considera abstratamente um lado da questão e esquece o outro.

11. O ser vivo contém oposições ilimitadas e a capacidade de gerar variação ilimitada, e o espírito é chamado ser vivo porque inclui sempre oposições infinitas e jamais se detém, morrendo quando se fixa num único estado e não pode passar a estados opostos.

12. A oposição pela qual a realidade se estabelece não provém de outras coisas, mas do interior da própria realidade, e como há unidade na base da oposição e oposições ilimitadas se desenvolvem necessariamente de seu caráter interno, a verdadeira realidade é o livre desenvolvimento que emerge da necessidade interna de um único fator unificador.

  • As diversas formas geométricas, possíveis pelas determinações espaciais, opõem-se mutuamente mantendo seus caracteres particulares, mas não se opõem separadamente, pois estão ligadas pelo caráter necessário do fator único chamado espaço, sendo desenvolvimento ilimitado das qualidades espaciais.
  • Do mesmo modo, os chamados fenômenos naturais não existem à parte dos fenômenos de consciência e, estabelecidos por uma única atividade unificadora, devem ser vistos como desenvolvimento da natureza como entidade única.

13. A afirmação de Hegel de que todo racional é real e a realidade é necessariamente racional, embora contestada por muitos pensadores, é verdade irrefutável de certa perspectiva, pois os fenômenos do universo, por mínimos que sejam, não ocorrem por acaso, sem relação com o que os precede ou segue, mas necessariamente por uma razão, provindo sua aparência de acaso da falta de conhecimento.

14. Costuma-se supor um agente do qual a atividade surge, mas na experiência direta real é a própria atividade, sendo o chamado agente um conceito abstrato e a ideia de um agente à parte da atividade proveniente de tomar a oposição entre a unidade e seu conteúdo como duas realidades independentes.

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