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5 Ponto de partida

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

O Ponto de Partida da Investigação

1. As concepções filosóficas do mundo e da vida humana ligam-se estreitamente às exigências práticas da moral e da religião, que determinam como agir e onde encontrar paz de espírito, e, sendo a verdade fundamentalmente una, verdade intelectual e verdade prática devem coincidir, razão pela qual investigar o que fazer e onde buscar a paz exige antes esclarecer a natureza do universo, da vida humana e da verdadeira realidade.

  • Não há satisfação com convicções intelectuais e exigências práticas que se contradigam.
  • Quem tem elevadas exigências espirituais não se satisfaz com o materialismo, e quem crê no materialismo passa a duvidar das exigências espirituais.
  • Quem pensa profundamente ou é genuinamente sério busca inevitavelmente a concordância entre o conhecimento e o domínio prático do sentir e do querer.

2. As tendências históricas das tradições indiana, cristã e chinesa atestam a exigência humana básica de concordância entre conhecimento, sentimento e vontade.

  • A tradição religioso-filosófica indiana, a mais desenvolvida na união de filosofia e religião, tem o conhecimento por bem e a ilusão por mal, culminando no conhecimento da identidade entre Brahman, realidade fundamental do universo, e Atman, a alma.
  • O cristianismo, inteiramente prático em sua origem, desenvolveu na Idade Média uma filosofia cristã porque a mente humana exige insistentemente satisfação intelectual.
  • Na tradição chinesa, o sistema moral carecia inicialmente de elaboração filosófica, dimensão que passou a predominar desde o período Sung.

3. Na filosofia ocidental clássica, a partir de Sócrates e Platão, os fins didáticos eram centrais, ao passo que na modernidade o conhecimento assumiu posição proeminente, dificultando a unidade entre os aspectos intelectual e emocional-volitivo, que tendem hoje a divergir, o que de modo algum satisfaz as exigências fundamentais da mente humana.

4. Compreender a verdadeira realidade e a natureza do universo e da vida exige descartar toda suposição artificial, duvidar de tudo o que pode ser posto em dúvida e partir de um conhecimento direto e indubitável.

  • O senso comum supõe que as coisas existem no mundo externo independentemente da consciência e que, por trás desta, há algo chamado mente que executa diversas funções.
  • A suposição da existência independente de mente e matéria fundamenta a conduta e baseia-se nas exigências do pensamento, mas deixa ampla margem à dúvida.
  • A ciência, que não visa à explicação mais profunda da realidade, constrói-se sobre esse conhecimento hipotético, mas também na filosofia, que a visa, há pensamento insuficientemente crítico, pois muitos filósofos partem de suposições existentes e não exercem uma dúvida penetrante.

5. A existência independente de mente e matéria, tida em geral como fato intuitivo, não o é, pois o que se intui das coisas e da mente são apenas fenômenos de consciência, e a crença em ambas decorre das exigências da lei de causalidade, restando examinar se por ela se pode inferir uma existência exterior à consciência.

  • A cor e a forma da mesa diante de si são sensações do olho, e a resistência ao tocá-la, sensação da mão.
  • Forma, tamanho, posição e movimento intuídos não são o estado objetivo da coisa em si, sendo impossível intuir coisas em si independentemente da consciência.
  • O mesmo vale para a mente, da qual se conhece não ela própria, mas a atividade de conhecer, sentir e querer.
  • Psicologicamente, o eu que parece atuar ao longo do tempo é apenas continuação de uma sensação ou sentimento, e mente e matéria são combinações invariáveis de fenômenos de consciência semelhantes.

6. O conhecimento direto do qual não se pode sequer começar a duvidar é o dos fatos da experiência intuitiva, isto é, dos fenômenos de consciência, nos quais o fenômeno presente e a consciência dele são idênticos e indivisíveis em sujeito e objeto, e sobre essa experiência intuitiva deve construir-se todo conhecimento.

  • Como o fato não se separa nem por um fio de cabelo do conhecer, esse conhecimento é indubitável.
  • Pode-se errar ao julgar ou recordar um fenômeno de consciência, mas então já não há intuição, e sim inferência.
  • A consciência posterior, que julga ou recorda, e a consciência original são fenômenos distintos, e a intuição não é o julgamento de uma pela outra, mas simples conhecimento dos fatos tal como são, estando fora de questão acertar ou errar.

7. A filosofia retorna a esse conhecimento direto sempre que se desfaz das suposições existentes e busca novo fundamento firme, mas Bacon e Descartes, nos inícios da filosofia moderna, ainda não o alcançaram plenamente, sendo conhecimento direto apenas os fatos intuitivos discernidos quando se abandonam todas as suposições arbitrárias.

  • Bacon tomou a experiência como base de todo conhecimento, mas não a experiência pura, e sim acompanhada da suposição arbitrária de que por ela se intuem fatos exteriores à consciência.
  • Descartes partiu de “Penso, logo existo” (cogito ergo sum) e tomou por verdade tudo o que fosse igualmente claro, mas sua proposição já não era fato de experiência imediata, pois inferia o “existo”.
  • Sustentar que o pensamento claro conhece os númenos é suposição arbitrária, não aceita por Kant e seus sucessores como verdade indubitável.
  • Se, com Hegel e historiadores posteriores da filosofia, se entender o cogito não como inferência, mas como expressão da certeza intuitiva que une realidade e pensamento, o ponto de partida cartesiano coincide com o aqui adotado.

8. Há quem tome como ponto de partida e critério mais seguro do conhecimento não a experiência direta, mas o pensamento, distinguindo númeno e fenômeno e atribuindo somente ao pensamento o esclarecimento dos númenos, enquanto senso comum e ciência, sem rejeitar a experiência intuitiva, tomam certos fatos experienciais por verdadeiros e outros por falsos.

  • Sol, lua e astros parecem pequenos, embora imensos, e parecem mover-se, embora seja a Terra que se move.
  • Julgá-los pequenos ou em movimento é inferir sobre fatos experienciais a partir de outros fatos surgidos sob condições diferentes, cada qual indiscutível em suas próprias condições, cabendo perguntar por que um é tido por verdadeiro e o outro por falso.
  • Tais juízos surgem porque se toma o percebido pelo tato (shokkaku; possivelmente visão, shikaku) como aspecto verdadeiro das coisas, por ser o sentido mais universal e mais importante na prática, visão que, refletida, carece de coerência.

9. A escola filosófica que toma os fatos experienciais como aspecto fenomênico e atribui ao pensamento o conhecimento do aspecto numênico não explica como realidades transexperienciais poderiam ser conhecidas pelo pensamento, pois este também é inegavelmente fenômeno de consciência e, se os fatos experienciais não alcançam o númeno, tampouco ele o alcança, e mesmo a universalidade e a necessidade do pensamento, tomadas como critério da realidade, são uma espécie de sentimento intuído na consciência e, portanto, também fatos de consciência.

10. A posição de que todo conhecimento sensível é enganoso e de que a verdadeira natureza das coisas só se conhece pelo pensamento começa com os eleatas, atinge seu ápice em Platão e prolonga-se, na filosofia moderna, nos cartesianos, para quem a verdadeira natureza da realidade se conhece pelo pensamento claro.

11. Pensamento e intuição, habitualmente tidos como atividades inteiramente distintas, a intuição e a experiência como puramente passivas, apreendendo coisas individuais tal como são sem relação com outras, e o pensamento como função ativa que compara, julga e determina relações, revelam-se, como fatos de consciência, atividades de mesma natureza, pois não há atividade consciente totalmente passiva e a intuição é um juízo direto, razão pela qual constitui o ponto de partida do conhecimento livre de suposições arbitrárias.

12. A intuição não se reduz, portanto, à atividade da sensação, pois na base do pensamento há sempre uma realidade unificadora cognoscível apenas pela intuição, de cuja análise surge o juízo.

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