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27 Boa conduta

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

PERFEITA BOA CONDUTA

1. O bem é a atualização da personalidade.

2. Visto internamente, essa atualização é a satisfação de uma exigência solene — isto é, a unificação da consciência — e sua forma última é alcançada no esquecimento mútuo de si e outro e na fusão de sujeito e objeto.

3. Visto externamente como fato emergente, essa atualização avança do desenvolvimento em pequena escala da individualidade até um culminar no desenvolvimento unificado em grande escala de toda a humanidade.

4. Ao considerar essas visões interna e externa da atualização da personalidade, devemos resolver um problema chave: podemos considerar que aquilo que nos dá grande satisfação interna é um grande bem também no reino dos fatos externos?

5. Este é o problema de saber se essas duas facetas do bem são sempre congruentes.

6. Com base em minha discussão da realidade, sustento que essas duas facetas de modo algum conflitam ou se contradizem.

7. Os fenômenos fundamentalmente não envolvem distinção entre interno e externo.

8. A consciência subjetiva e o mundo objetivo são a mesma coisa vista de ângulos diferentes, de modo que concretamente há apenas um fato.

9. Como se afirmou antes, o mundo é estabelecido pela unidade de consciência do si, e o si é um pequeno sistema de realidade.

10. Como enfatizado no pensamento budista básico, o si e o universo compartilham a mesma fundação; ou antes, são a mesma coisa.

11. Por essa razão podemos sentir em nossas mentes o significado infinito da realidade como verdade infinita no conhecimento, como beleza infinita no sentimento e como bem infinito na volição.

12. Conhecer a realidade não é conhecer algo externo ao si mas conhecer o si ele mesmo.

13. A verdade, a beleza e o bem da realidade são a verdade, a beleza e o bem do si.

14. Dúvidas podem surgir quanto a por que, se isso é assim, encontramos falsidade, feiúra e mal no mundo.

15. Quando consideramos esse problema profundamente, no entanto, vemos que no mundo não há nem verdade, beleza e bem absolutos, nem falsidade, feiúra e mal absolutos.

16. Falsidade, feiúra e mal sempre surgem quando vemos abstratamente apenas um aspecto das coisas enquanto estamos inconscientes do todo, e quando somos parciais a apenas uma faceta da realidade e assim vamos contra a unidade do todo.

17. (Como disse no capítulo nove, falsidade, feiúra e mal são em certo aspecto necessários para o estabelecimento da realidade; são gerados por um princípio de oposição.)

18. Segundo Agostinho, fundamentalmente nenhum mal existe no mundo e toda a natureza como criada por Deus é boa.

19. O mal é meramente a privação de qualidades essenciais.

20. Deus adornou o mundo com opostos como num belo poema; e assim como a sombra aumenta a beleza de um quadro, o mundo é — quando visto com discernimento — belo mesmo incluindo o pecado.

21. Ao considerar como o fato do bem e as exigências do bem podem conflitar, descobrimos dois casos: um é quando certa conduta é boa na atualidade mas seu motivo não é bom, e o outro é quando o motivo é bom mas a conduta não é.

22. No primeiro caso, se um motivo interno é egoísta enquanto a conduta externa na atualidade está de acordo com uma boa meta, então a conduta fica aquém da conduta boa que toma a atualização da personalidade como sua meta.

23. Podemos louvar tal conduta, mas em tal momento a estamos vendo não em termos de moralidade mas simplesmente em termos de benefício.

24. Da perspectiva da moralidade, essa conduta é inferior à daquele que, não importa quão tolo possa ser, demonstrou a mais extrema sinceridade.

25. Pode-se dizer que a conduta que tenta beneficiar muitas pessoas — mesmo que não brote de um motivo puramente bom — é superior à conduta de alguém que tenta purificar a si mesmo.

26. Beneficiar pessoas pode significar várias coisas.

27. Se estivermos falando de mero benefício material, o benefício será bom se usado para fins bons mas mau se usado para fins maus.

28. Considerado à luz do benefício verdadeiramente moral que promove a assim chamada moralidade pública, se a conduta não é verdadeira conduta boa internamente, então é meramente um meio de promover a conduta boa em vez de conduta boa ela mesma.

29. Ela não se equipara a instâncias de conduta boa, não importa quão menores possam ser.

30. Quanto ao segundo caso — quando o motivo é bom mas a conduta atual não é necessariamente boa — as pessoas frequentemente dizem que a sinceridade individual e o sumo bem de toda a humanidade às vezes conflitam.

31. Creio, no entanto, que aqueles que dizem isso carecem de uma compreensão correta da sinceridade — o que tais pessoas dizem não é verdade se usarmos «sinceridade» no sentido das verdadeiramente mais profundas exigências do espírito como um todo.

32. Nossas verdadeiras exigências não são artificialmente criadas por nós; são fatos da natureza.

33. Como a verdade ou a beleza na base da mente humana, o bem contém um elemento universal.

34. Assim como Fausto descobriu quando retornou tarde da noite ao seu solitário estudo após um passeio pelos campos durante um tempo de grande angústia sobre a vida, no quieto da noite quando nossas mentes estão em paz o sentimento da universalidade do bem começa a operar em nós espontaneamente.

35. Assumindo que nenhuma pessoa possui uma base de consciência inteiramente diferente, penso que na medida em que somos humanos com razão compartilhada necessariamente pensamos do mesmo modo e buscamos as coisas do mesmo modo.

36. Certamente, pode haver momentos em que as maiores exigências da humanidade fiquem presas na mera possibilidade e não se atualizem e funcionem.

37. Mas mesmo então não é que não haja exigências; as exigências estão ocultas, e o si não conhece o verdadeiro si.

38. Por essa razão, penso que nossas exigências mais profundas e nossas maiores metas se unem automaticamente.

39. Enquanto internamente disciplinamos o si e atingimos a verdadeira natureza do si, externamente damos origem ao amor por nossos semelhantes humanos e passamos a estar de acordo com a meta supremamente boa — conduta boa que é perfeita e verdadeira.

40. De um ângulo, tal conduta boa perfeita parece extremamente difícil, mas de um ângulo diferente, é algo que qualquer um deve ser capaz de fazer.

41. A moralidade não é uma questão de buscar algo apartado do si — é simplesmente a descoberta de algo dentro do si.

42. As pessoas frequentemente confundem a essência do bem com sua casca externa, de modo que pensam que a menos que se esteja engajado numa empresa mundial envolvendo toda a humanidade, não se está relacionado ao maior bem.

43. Mas porque as habilidades e circunstâncias de uma pessoa determinam que tipo de empresa será empreendida, é impossível que todas as pessoas persigam a mesma empresa.

44. No entanto, não importa quão diferentes sejam nossas empresas, podemos funcionar com o mesmo espírito.

45. Não importa quão pequena a empresa, uma pessoa que constantemente trabalha por amor a seus semelhantes humanos realiza a grande personalidade de toda a humanidade.

46. Embora a elevada personalidade estética de Rafael talvez tenha encontrado na Madona o meio mais apropriado para sua realização, sua personalidade se manifesta não só na Madona mas em todas as suas pinturas.

47. E embora os temas escolhidos por Rafael e Michelangelo sejam bastante similares, os dois artistas expressam seus respectivos caracteres de modos próprios e distintivos.

48. Em suma, a essência da arte e da moralidade jaz no espírito, não nas coisas do mundo externo.

49. Ao encerrar este capítulo, quero dizer mais uma coisa.

50. Quando abordamos o bem academicamente, podemos oferecer várias explicações, mas na atualidade há apenas um verdadeiro bem: conhecer o verdadeiro si.

51. Nosso verdadeiro si é a realidade última do universo, e se conhecemos o verdadeiro si não só nos unimos ao bem da humanidade em geral mas também nos fundimos com a essência do universo e nos unimos à vontade de Deus — e nisso a religião e a moralidade culminam.

52. O método pelo qual podemos conhecer o verdadeiro si e nos fundir com Deus é nossa autoconquista do poder da união de sujeito e objeto.

53. Adquirir esse poder é matar nosso falso si e, após morrer uma vez para o desejo mundano, ganhar nova vida.

54. (Como disse Maomé, o céu jaz à sombra da espada.)

55. Somente desse modo podemos verdadeiramente alcançar o reino da união de sujeito e objeto, que é o significado último da religião, da moralidade e da arte.

56. O cristianismo chama esse evento de renascimento, e o budismo o chama de kensho.

57. Segundo uma história, quando o Papa Bento XI pediu a Giotto que lhe mostrasse uma obra que demonstrasse sua habilidade como pintor, Giotto simplesmente desenhou um círculo.

58. Na moralidade, devemos atingir o círculo de Giotto.

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