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26 Conteúdo do bem

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

A META DA BOA CONDUTA (O CONTEÚDO DO BEM)

1. Ao explicar a conduta boa que toma a personalidade humana como sua meta, indiquei o tipo de motivos dos quais a conduta boa deve emergir; agora discutirei a meta da conduta boa.

2. A conduta boa não é um mero evento dentro da consciência mas antes uma ação que toma como sua meta a criação de um resultado objetivo neste mundo de fatos, e devemos agora clarificar o conteúdo concreto dessa meta.

3. Discuti antes a assim chamada forma do bem, e agora discutirei o conteúdo do bem.

4. A personalidade, que é ao mesmo tempo o poder unificador da consciência e o poder unificador da realidade, é primeiramente atualizada nos indivíduos.

5. Na base da consciência de alguém existe uma individualidade inanalisável.

6. Todas as atividades da consciência são uma expressão dessa individualidade: o conhecimento, o sentimento e a volição de cada pessoa possuem qualidades únicas à pessoa.

7. Essa individualidade não se manifesta apenas em fenômenos de consciência; ela também emerge na aparência, na fala e no comportamento de cada pessoa.

8. Sem dúvida, é essa individualidade que os retratos pretendem expressar.

9. Ela começa a agir no momento em que uma pessoa nasce neste mundo, e se desenvolve de acordo com várias experiências e circunstâncias até o momento da morte.

10. Cientistas reduzem essa individualidade à constituição do cérebro, mas eu a considero uma expressão do poder unificador infinito da realidade.

11. Desde o início, devemos fazer da atualização dessa individualidade nossa meta.

12. Este é o bem mais imediato.

13. Saúde e conhecimento devem ser valorizados, é claro, mas eles mesmos não são o bem, e não somos satisfeitos apenas por eles.

14. Aquilo que dá a um indivíduo satisfação última é a atualização da individualidade do si — isto é, a exibição das próprias características distintivas na prática.

15. Qualquer um pode dar pleno jogo à individualidade independentemente de talentos naturais e circunstâncias de vida.

16. Assim como todos têm um rosto diferente, todos possuem características únicas que não podem ser imitadas por outros.

17. A realização dessa individualidade dá satisfação suprema a cada pessoa e faz de cada uma parte indispensável da evolução do universo.

18. Até agora, as pessoas não enfatizaram o bem individual em grande medida, mas sustento que o bem do indivíduo é o mais importante e que serve como base de todos os outros bens.

19. Pessoas verdadeiramente grandes o são não por causa da grandeza de suas realizações, mas porque exibiram grande individualidade.

20. Se alguém sobe a um lugar alto e grita, sua voz provavelmente carregará longe porque o lugar é alto, não porque a voz é forte.

21. Creio que pessoas que expressam completamente suas próprias características únicas são maiores que aquelas que esquecem seu dever para consigo mesmas e correm imprudentemente por causa dos outros.

22. Esse bem individual difere do interesse próprio e dos desejos egoístas.

23. Individualismo e egoísmo devem ser estritamente distinguidos.

24. O egoísmo é o egoísmo que toma o próprio prazer como sua meta.

25. Este é o polo oposto do individualismo, pois dar rédea solta aos desejos materiais do si é, de fato, erradicar a individualidade.

26. Não importa quantos porcos possamos reunir, nenhum terá individualidade.

27. Fala-se de individualismo e comunalismo como se fossem diametralmente opostos, mas penso que coincidem.

28. É apenas quando alguém que se mantém absolutamente sem relação com a consciência social tem a consciência do insano.

29. Ninguém pode negar esses fatos, mas encontramos opiniões conflitantes sobre se a consciência comunal existe no mesmo sentido que a consciência individual e pode portanto ser vista como uma única personalidade.

30. Hoffding e outros negam a existência de uma consciência unificada.

31. Hoffding afirma que uma floresta é uma coleção de árvores e que se a floresta fosse dividida já não haveria uma floresta; igualmente, uma sociedade é uma coleção de indivíduos, e não há existência independente chamada sociedade que se mantenha apartada dos indivíduos.

32. Não podemos dizer, no entanto, que não há unidade simplesmente porque a unidade já não existe após a dissecação do todo.

33. Se analisarmos a consciência individual, não encontramos um si separado e unificador.

34. Mas porque há uma unidade sobre a qual surge um caráter único e vários fenômenos se estabelecem, consideramos essa unidade uma realidade viva.

35. Pela mesma razão, podemos ver a consciência social como uma realidade viva.

36. Como a consciência individual, a consciência social constitui um sistema com um centro e interconexões.

37. A consciência individual é claro tem uma fundação chamada corpo, e nesse aspecto diverge da consciência social.

38. Mas o cérebro não é um simples objeto material — é uma coleção de células.

39. Isso não é diferente do fato de que a sociedade é feita das células chamadas indivíduos.

40. Porque nossas consciências individuais são partes de tal consciência social, a maioria de nossas exigências é social.

41. Se removêssemos todos os elementos altruístas de nossos desejos, quase nada restaria.

42. Isso fica claro quando vemos nosso desejo de vida como causado primariamente pelo altruísmo.

43. Encontramos maior satisfação global na satisfação experimentada por aquilo que o si ama e pela sociedade à qual se pertence do que na satisfação pessoal.

44. Fundamentalmente, o centro do si não se limita ao interior do indivíduo: o si de uma mãe se encontra em seu filho, e o si de um súdito leal se encontra no monarca.

45. À medida que a personalidade de alguém se torna maior, as exigências do si se tornam cada vez mais sociais.

46. Tal consciência social consiste em vários níveis.

47. O menor e mais imediato é a família, que é o primeiro nível no qual a personalidade de alguém se desenvolve na sociedade.

48. O propósito de um homem e uma mulher se unirem e formarem uma família não é apenas deixar descendentes, pois envolve uma meta espiritual (e moral) mais profunda.

49. No Banquete, Platão relata uma história no sentido de que embora homem e mulher fossem originalmente de um só corpo, Zeus os separa, deixando-os num estado de anseio um pelo outro.

50. Essa é uma ideia intrigante.

51. Se considerarmos o que poderia ser um exemplar da humanidade, vemos que um indivíduo homem ou mulher fica aquém, enquanto aquilo que combina masculinidade e feminilidade não fica.

52. Otto Weininger afirma que os humanos, tanto na mente quanto no corpo, são constituídos pela união de elementos masculinos e femininos, e que os sexos se amam para que esses elementos possam se juntar e constituir um ser humano completo.

53. Assim como o caráter de um homem fica aquém do exemplar da humanidade, também o de uma mulher fica.

54. Os sexos se complementam e podem assim propiciar o desenvolvimento de uma personalidade completa.

55. O desenvolvimento da consciência social não se limita ao pequeno grupo da família.

56. Nossa vida mental e física pode se desenvolver em todos os vários grupos sociais.

57. No próximo nível além da família, a nação unifica a totalidade de nossa atividade consciente e expressa uma única personalidade.

58. Muitas teorias foram propostas sobre a meta da nação.

59. Algumas pessoas consideram a essência da nação o poder de soberania e pensam que o propósito da nação é afastar inimigos no exterior e proteger a vida e a propriedade do povo no interior.

60. (Schopenhauer, Taine e Hobbes sustentam essa opinião.)

61. Outras consideram a essência da nação o indivíduo, e veem o desenvolvimento harmonioso das personalidades individuais como constituindo seu propósito.

62. (Este é o tipo de teoria avançada por pessoas como Rousseau.)

63. Mas a verdadeira meta da nação não é algo material e passivo como delineado pelo primeiro grupo, e a personalidade de um indivíduo não é a fundação da nação como sustenta o segundo.

64. Nós, indivíduos, somos entidades que se desenvolveram como células de uma sociedade.

65. A essência da nação é a expressão da consciência comunal que constitui a fundação de nossas mentes.

66. No contexto da nação, podemos realizar um grande desenvolvimento da personalidade; a nação é uma personalidade unificada, e os sistemas e leis da nação são expressões da vontade dessa consciência comunal.

67. (Essa teoria foi proposta na antiguidade por Platão e Aristóteles e nos tempos modernos por Hegel.)

68. Esforçar-nos por causa de uma nação é esforçar-nos por causa do desenvolvimento e perfeição de uma grande personalidade.

69. Além disso, quando uma nação pune um indivíduo, ela o faz nem por vingança nem pela segurança da sociedade, mas porque a personalidade possui uma dignidade inviolável.

70. Atualmente, a nação é a maior expressão da consciência comunal unificada.

71. Mas a expressão de nossa personalidade não pode parar aí — ela exige algo maior: uma união social que inclua toda a humanidade.

72. Essa ideia já apareceu no cristianismo de Paulo e no pensamento dos estoicos, mas não é facilmente atualizada.

73. A idade presente ainda é uma de paz armada.

74. Se retraçarmos o desenvolvimento da humanidade desde o começo da história, vemos que a nação não é a meta final da humanidade.

75. Um propósito significativo corre consistentemente ao longo do desenvolvimento da humanidade, e a nação parece ser algo que surge e cai a fim de cumprir parte da missão da humanidade.

76. (A história das nações é o desenvolvimento do assim chamado «espírito do mundo» de Hegel.)

77. O universalismo genuíno, no entanto, não exige que cada nação deixe de ser.

78. Antes, significa que cada nação se torna cada vez mais estável, exibe suas características distintivas e contribui para a história do mundo.

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