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25 Forma do bem

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

A MOTIVAÇÃO DA CONDUTA BOA (A FORMA DO BEM)

1. Como se afirmou antes, o bem se refere àquilo que satisfaz as exigências internas do si; porque as maiores exigências do si — isto é, as exigências da personalidade — são o poder unificador fundamental da consciência, satisfazer essas exigências e com isso atualizar a personalidade é para nós o bem absoluto.

2. As exigências da personalidade são o poder unificador da consciência e, ao mesmo tempo, uma expressão do poder unificador infinito na base da realidade; e assim atualizar e cumprir nossa personalidade significa tornar-se um com esse poder subjacente.

3. Se assim construirmos o bem, podemos determinar a natureza da conduta boa.

4. Dessa perspectiva, toda conduta boa toma a personalidade como sua meta.

5. A personalidade é a base de todo valor, e no universo somente a personalidade possui valor absoluto.

6. Dentro de nós há, é claro, várias exigências, tanto físicas quanto mentais; portanto várias coisas, como riqueza, poder, conhecimento e arte, são valiosas para nós.

7. No entanto, não importa quão poderosa ou elevada a exigência, se ela se divorcia das exigências da personalidade perde todo valor.

8. Uma exigência possui valor apenas como parte, ou meio, das exigências da personalidade.

9. Riqueza, honra, autoridade, saúde, habilidade e conhecimento acadêmico não são em si mesmos bons; quando correm contrários às exigências da personalidade, tornam-se maus.

10. Em suma, conduta absolutamente boa é a conduta que toma a atualização da personalidade como sua meta, isto é, conduta que funciona em prol da unidade da consciência.

11. Segundo Kant, o valor das coisas é determinado de fora e é portanto relativo, mas porque nossa vontade determina seu valor por si mesma, a personalidade possui valor absoluto.

12. Como é amplamente sabido, Kant ensinou que devemos respeitar a personalidade de nós mesmos e dos outros e tratar os outros como fins em si mesmos, nunca usando-os meramente como meio.

13. Que tipo de conduta é a conduta boa que verdadeiramente toma a personalidade como sua meta? Para responder a essa pergunta, devemos considerar o conteúdo objetivo da ação da personalidade e clarificar a meta da conduta — mas primeiro discutirei o elemento subjetivo na conduta boa: a motivação.

14. Conduta boa é conduta que deriva da necessidade interna do si.

15. Podemos estar conscientes das exigências da personalidade como um todo apenas no estado de experiência direta anterior à discriminação deliberativa.

16. Nesse estado, a personalidade é a voz de um tipo de exigência interna que emerge das profundezas da mente e que gradualmente envolve a mente como um todo.

17. Conduta que toma a personalidade ela mesma como sua meta é conduta que está de acordo com essa exigência; se formos contra ela, negamos nossa própria personalidade.

18. Outra condição necessária para a conduta boa é a sinceridade.

19. Cristo disse que só aqueles que são como uma criança inocente podem entrar no céu.

20. A sinceridade é o bem não por causa dos resultados que dela surgem, mas porque é boa em si mesma.

21. Diz-se que enganar uma pessoa é mau, não necessariamente por causa do que resulta de enganar alguém mas antes porque enganar outro é enganar a si mesmo e negar a própria personalidade.

22. Tais expressões como «a necessidade interna do si» e «exigências genuínas e sem afetação» são ocasionalmente mal compreendidas.

23. Algumas pessoas pensam que a genuína ausência de afetação jaz em ignorar autoindulgentemente e imprudentemente as regras da sociedade e em não refrear os próprios desejos sensuais.

24. Mas a necessidade interna da personalidade — isto é, a sinceridade — é uma exigência baseada na união de conhecimento, sentimento e volição.

25. Ela não indica simplesmente seguir um impulso cego em oposição a juízos feitos pelo intelecto e às exigências do sentimento humano.

26. É apenas quando esgotamos o intelecto e o sentimento que a verdadeira exigência da personalidade — a sinceridade — surge em nós; é apenas quando esgotamos todo o poder do si, quando a consciência do si quase desaparece e não se está consciente do si, que vemos a atividade da verdadeira personalidade.

27. Tomemos, por exemplo, uma obra de arte: quando aparece a verdadeira personalidade ou originalidade do pintor? Na medida em que o pintor pretende várias coisas em sua consciência, ainda não podemos verdadeiramente ver a personalidade do pintor.

28. Nós a vemos primeiro apenas quando, após longos anos de luta, as habilidades do pintor amadurecem e o pincel segue a vontade.

29. A expressão da personalidade no reino moral não é diferente disso.

30. Expressamos a personalidade não seguindo desejos temporários mas seguindo as exigências internas mais solenes.

31. Isso é diametralmente oposto à decadência autoindulgente e, contrariamente ao que se poderia esperar, é um esforço de dificuldade e dor.

32. Seguir as exigências internas sinceras do si — atualizar a verdadeira personalidade do si — não significa estabelecer a subjetividade em oposição à objetividade ou fazer os objetos externos obedecerem ao si.

33. Somente quando eliminamos completamente as fantasias subjetivas do si e nos unimos a uma coisa podemos satisfazer as verdadeiras exigências do si e ver o verdadeiro si.

34. De certo ângulo, o mundo objetivo de cada indivíduo é um reflexo de sua personalidade.

35. Ou antes, o verdadeiro si de cada indivíduo é o sistema de realidade independente e autossuficiente que aparece diante daquela pessoa.

36. Desse modo, as exigências mais sinceras de cada e de toda pessoa necessariamente coincidem em todos os momentos com os ideais do mundo objetivo que a pessoa vê.

37. Por exemplo, por mais egoísta que alguém seja, se tiver algum grau de simpatia, a maior exigência é certamente dar satisfação aos outros depois de assegurar sua própria satisfação.

38. Se assumirmos que as exigências do si não se limitam a desejos carnais mas incluem exigências idealistas, então devemos de todos os modos falar assim.

39. Quanto mais egoístas nos tornamos, mais sentimos angústia ao bloquear os desejos pessoais dos outros.

40. Contrariamente ao que se poderia pensar, creio que talvez só alguém desprovido de desejo pessoal possa obliterar os desejos pessoais dos outros sem perder a paz de espírito.

41. Cumprir as maiores exigências do si e atualizar o si é atualizar os ideais objetivos do si — isto é, unir-se à objetividade.

42. A esse respeito, a conduta boa é amor.

43. O amor é o sentimento de congruência entre si e outro, o sentimento da união de sujeito e objeto.

44. O amor existe não só quando uma pessoa enfrenta outra, mas também quando um pintor encontra a natureza.

45. Em seu renomado Banquete, Platão afirma que o amor é o sentimento que surge quando aquilo que é carente tenta retornar ao seu estado original e perfeito.

46. Se formos um passo adiante, no entanto, descobrimos que a conduta verdadeiramente boa não é nem fazer a objetividade seguir a subjetividade nem fazer a subjetividade seguir a objetividade.

47. Alcançamos a quintessência da conduta boa apenas quando sujeito e objeto se fundem, si e coisas se esquecem mutuamente, e tudo o que existe é a atividade da única realidade do universo.

48. Nesse ponto podemos dizer que as coisas movem o si ou que o si move as coisas, que Sesshu pintou a natureza ou que a natureza pintou a si mesma através de Sesshu.

49. Não há distinção fundamental entre coisas e o si, pois assim como o mundo objetivo é um reflexo do si, também o si é um reflexo do mundo objetivo.

50. O si não existe apartado do mundo que ele vê.

51. Céu e terra crescem da mesma raiz, e as miríades de coisas são um só sistema.

52. Sábios da antiga Índia disseram: «Tat tvam asi» (Tu és aquilo); Paulo disse: «Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim» (Gálatas 2:20); e Confúcio disse: «Sigo o que meu coração deseja, sem ultrapassar os limites da moralidade».

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