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24 Personalidade

NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.

O BEM COMO UNIDADE DA PERSONALIDADE

1. Tendo exposto uma concepção geral do bem, passa-se agora a examiná-lo em maior detalhe e a clarificar suas características distintivas, pois todos reconhecemos claramente que a consciência não é uma atividade simples mas uma síntese de várias atividades, e as exigências que surgem em nós tampouco são simples, sendo bastante naturalmente variadas.

2. Isso nos traz uma questão que concerne ao bem do si como um todo: a satisfação de qual exigência constitui o sumo bem?

3. Nenhum de nossos fenômenos de consciência se mantém sozinho; sem exceção cada um vem à tona em relação a outros, e um momento de consciência não é simples — contém elementos complexos que dependem uns dos outros, pois têm um tipo de significado em relação a outros.

4. A consciência num dado momento e também ao longo de uma vida se organiza num tal sistema, e o «si» é o nome para a unidade desse todo.

5. Nossas exigências igualmente nunca surgem sozinhas, surgindo necessariamente em relação a outras.

6. O bem para nós difere da satisfação de apenas um tipo de exigência ou de uma exigência de um tempo particular, e claramente uma exigência particular se torna boa apenas quando se relaciona com o todo.

7. Por exemplo, o bem do corpo deriva não da saúde de uma de suas partes mas da harmonia do corpo como um todo.

8. Dessa perspectiva do energetismo, então, o bem é primariamente uma harmonia coordenada — ou meio — entre várias atividades, e nossa consciência é a atividade da consciência que harmoniza e unifica as atividades.

9. A ideia de que a harmonia constitui o bem vem de Platão, que compara o bem à harmonia na música, e pessoas como Shaftesbury adotaram essa ideia.

10. Aristóteles teoriza que o meio é o bem, e a versão asiática dessa ideia aparece no Livro do Meio.

11. Aristóteles localiza todas as virtudes no meio, contendendo por exemplo que a coragem é o meio entre a rudeza e a timidez, e que a frugalidade é o meio entre a avareza e a prodigalidade, visão que se assemelha muito ao pensamento de Tzu-ssu.

12. Com base na teoria da evolução, Herbert Spencer de modo similar contende que o bem é a média de várias faculdades, o que equivale à mesma visão que as outras acabadas de mencionar.

13. Simplesmente dizer que o bem é uma harmonia ou o meio, no entanto, não clarifica suficientemente seu significado: que significado têm aqui a harmonia e o meio?

14. A consciência não é um aglomerado de ações sequenciais mas um único sistema unificado; consequentemente, harmonia ou meio não carrega uma conotação quantitativa, devendo significar uma ordem sistemática.

15. Concedido isso, qual é a ordem distinta em cada uma das várias atividades de nosso espírito?

16. Em níveis inferiores, nosso espírito, como o espírito dos animais, é simplesmente uma atividade instintual — isto é, porque funciona impulsivamente em resposta a objetos diante de nós, é movido inteiramente pelo desejo físico.

17. Mas não importa quão simples, os fenômenos de consciência necessariamente possuem exigências ideação; por mais instintual que seja a atividade da consciência, a atividade das ideias está escondida por trás dela.

18. (Penso que este é necessariamente o caso também com animais não humanos superiores.)

19. Com a possível exceção dos severamente retardados, nenhum humano pode ser satisfeito por desejos puramente físicos, pois desejos ideação estão sempre funcionando no fundo de suas mentes.

20. Em suma, todas as pessoas abraçam algum tipo de ideal.

21. Mesmo o anseio de um avarento por lucro deriva de um tipo de ideal.

22. Os seres humanos não existem com base na carne — antes, vivem com base em ideias.

23. Em seu poema «A Violeta», Goethe escreve que uma violeta no campo alcança a realização do amor quando é esmagada sob o pé de uma jovem pastora.

24. Tomo isso como o verdadeiro sentimento de todos os humanos.

25. A atividade das ideias é a atividade fundamental do espírito, e por ela nossa consciência deve ser controlada.

26. O verdadeiro bem para nós é satisfazer as exigências que surgem dessa atividade.

27. Concedido isso e prosseguindo um passo adiante para indagar a lei fundamental da atividade das ideias, chegamos às leis da razão.

28. As leis da razão expressam as relações mais universais e fundamentais entre ideias; são leis supremas que controlam a atividade das ideias.

29. A razão é a faculdade básica que deve controlar nosso espírito, e a satisfação da razão é nosso sumo bem.

30. Pode-se assim dizer que o bem humano é seguir a razão.

31. Enfatizando rigorosamente essa ideia, os cínicos e estoicos rejeitaram todos os outros desejos da mente humana como maus e até argumentaram que o único bem é seguir a razão sozinha.

32. No pensamento posterior de Platão e Aristóteles, no entanto, o sumo bem deriva da atividade da razão, e controlar e governar outras atividades por ela constitui também o bem.

33. Na República, Platão vê um paralelo entre a organização da república e a da alma humana e argumenta que o estado de coisas governado pela razão é o sumo bem tanto para a república quanto para o indivíduo.

34. Assumindo que nossa consciência é constituída por uma síntese de várias faculdades e construída de tal modo que uma faculdade controla as outras, então no energetismo seguir a razão e com base nisso controlar outras faculdades é o bem.

35. Originalmente, no entanto, nossa consciência é uma atividade, e um único e único poder sempre funciona em sua base.

36. Esse poder se manifesta em atividades momentâneas da consciência como percepção e impulso; em atividades conscientes como pensar, imaginar e querer, assume uma forma mais profunda.

37. Seguir a razão significa seguir esse poder unificador profundo.

38. De outro modo, como afirmei quando critiquei a teoria racional da ética, a razão concebida abstratamente fornece meramente uma relação formal sem nenhum conteúdo.

39. O poder unificador da consciência nunca existe apartado do conteúdo da consciência; de fato, o conteúdo da consciência é estabelecido por esse poder.

40. Quando investigamos o conteúdo da consciência analisando-o em suas partes individuais, é claro que falhamos em descobrir esse poder unificador.

41. Ele no entanto aparece como um fato majestoso e indiscutível na síntese das partes individuais.

42. Por exemplo, um ideal expresso numa pintura ou um sentimento expresso na música é compreendido não através da análise, mas deve ser intuído e realizado em si mesmo.

43. Se considerarmos esse poder unificador como a personalidade de cada indivíduo, então o bem reside na manutenção e desenvolvimento da personalidade como esse poder unificador.

44. O «poder da personalidade» não indica uma força natural e material como na força vital das plantas e animais, nem indica uma faculdade inconsciente como o instinto.

45. A atividade instintual é um tipo de força material que se origina em atividades orgânicas.

46. Em contraste, a personalidade é o poder unificador da consciência.

47. Embora eu fale dela desse modo, a personalidade não é um sortimento de esperanças altamente subjetivas que funciona como o centro da consciência superficial de cada pessoa.

48. Tais esperanças podem expressar a personalidade do indivíduo em alguma medida, mas a verdadeira personalidade vem à tona quando uma pessoa as erradica e esquece seu si.

49. Mas isso não é a atividade da razão pura de Kant, que é comum a cada indivíduo e totalmente separada do conteúdo da experiência.

50. Antes, a personalidade deve ser algo com um significado particular único à pessoa.

51. A verdadeira unidade da consciência é uma atividade pura e simples que vem à tona de si mesma, sem obstáculo por parte de si mesma; é o estado original da consciência independente e autossuficiente, sem distinção entre conhecimento, sentimento e volição, e sem separação de sujeito e objeto.

52. Nesse momento nossa verdadeira personalidade se expressa em sua totalidade.

53. A personalidade portanto não se encontra na mera razão ou desejo, muito menos em impulsos inconscientes; como a inspiração de um gênio, é um poder unificador infinito que funciona direta e espontaneamente de dentro de cada indivíduo.

54. (Pessoas de longa data diziam que o Caminho não pertence ao saber nem ao não saber.)

55. E como discuti na seção sobre a realidade, se assumirmos que os fenômenos de consciência são a única realidade, então nossas personalidades são a atividade do poder unificador do universo.

56. Em outras palavras, nossas personalidades são as formas particulares nas quais a única realidade — que transcende a distinção entre mente e matéria — se manifesta segundo as circunstâncias.

57. Sendo o bem a realização desse grande poder, suas exigências são extremamente solenes.

58. Kant afirmou que há duas coisas que sempre contemplamos com louvor e reverência: o vasto céu estrelado acima e a lei moral dentro.

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