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19 a 22 Ética
NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.
Teorias da ética (I)
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A investigação do bem exige determinar o fundamento dos juízos morais e a razão pela qual certas ações devem ser realizadas; as teorias éticas distinguem-se, inicialmente, entre as que situam esse fundamento numa autoridade exterior ao ser humano e as que o procuram na natureza humana.
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A teoria intuicionista sustenta que o caráter bom ou mau da conduta é reconhecido diretamente pela consciência moral, sem depender de uma justificativa ulterior; sua força reside na proximidade com a experiência cotidiana do julgamento e na preservação da dignidade própria da moralidade.
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A suposta evidência imediata das normas não fornece, contudo, um critério preciso: os juízos divergem entre pessoas e circunstâncias, enquanto deveres como lealdade e piedade filial podem entrar em conflito e virtudes como coragem ou sabedoria podem servir a fins maus.
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Mesmo benevolência e justiça exigem interpretação concreta, pois a benevolência pode produzir consequências nocivas e a justiça não se esclarece pela simples igualdade de tratamento entre pessoas; nenhuma fórmula moral abstrata dispensa a determinação de seu sentido e de sua aplicação.
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Se a intuição for tomada como uma ordem desprovida de razão e significado, segui-la equivale à obediência cega a uma imposição exterior, convertendo o intuicionismo numa modalidade de ética heterônoma.
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Quando a intuição é identificada com a razão, com o prazer ou com os sentimentos, o critério moral passa a depender desses outros princípios; a chamada intuição moral reúne fontes distintas e por vezes conflitantes, incapazes, por si sós, de sustentar uma teoria ética coerente.
Teorias da ética (II)
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A teoria da autoridade situa a origem do dever nas ordens de um poder exterior considerado absoluto e interpreta o bem como obediência a essas ordens, apoiando-se na experiência de formação moral por pais, mestres, instituições e costumes.
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A autoridade pode assumir a figura de Deus ou de um soberano: numa formulação extrema da primeira, uma ação é boa porque foi ordenada por Deus; na segunda, a submissão ao governante aparece como solução para os conflitos da condição humana.
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A obediência fundada exclusivamente na autoridade não explica por que se deve praticar o bem, pois qualquer motivo adicional, como evitar uma punição ou obter uma vantagem, desloca o fundamento da ação para algo diferente da própria autoridade.
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O temor não constitui fundamento moral suficiente, por estar ligado aos interesses do indivíduo; a reverência tampouco se dirige à mera força de alguém, pois nela já se reconhecem ideais que se consideram valiosos.
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Sem um critério independente para distinguir poderes violentos de autoridades espirituais, a obediência cega confunde força com valor e deixa indeterminada a diferença entre o bem e o mal.
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A majestade da exigência moral aponta para uma dimensão que ultrapassa a conveniência imediata, mas sua força obrigatória precisa ser compreendida a partir das exigências originárias da natureza humana, e não apenas da submissão a um comando exterior.
Teorias da ética (III)
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A ética autônoma procura na natureza humana tanto o fundamento do bem quanto a razão de sua obrigatoriedade, dando origem a teorias centradas, respectivamente, na razão, no prazer e na atividade da vontade.
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A teoria racional identifica o bem com a verdade e considera que o conhecimento da natureza das coisas permitiria deduzir o dever; desse modo, busca assegurar a universalidade da lei moral e preservar a dignidade da obrigação.
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A razão formal estabelece relações lógicas, mas não produz sozinha o conteúdo dos princípios morais: conhecer como algo é não permite concluir, sem um juízo de valor, como deve ser, nem decidir por que uma inclinação teria precedência sobre outra.
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O conhecimento de uma regra também não basta para mover a vontade, pois a decisão prática envolve sentimentos, impulsos e disposições concretas; até uma máxima de reciprocidade exige simpatia para adquirir eficácia moral.
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Cínicos e estoicos procuram a liberdade do espírito na superação dos desejos e na conformidade com a razão, atribuindo valor à serenidade interior acima das condições externas da vida.
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A supressão do desejo, tomada como fim em si mesma, deixa o bem sem conteúdo ativo e não esclarece a motivação moral: dominar uma inclinação só adquire sentido quando se busca realizar algo considerado mais valioso.
Teorias da ética (IV)
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A teoria hedonista procura fundamentar o bem nos sentimentos de prazer e dor, entendendo o prazer como finalidade da vontade; divide-se entre a busca do prazer individual e a promoção do prazer coletivo.
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No hedonismo individual, Aristipo privilegia o prazer intenso e presente, enquanto Epicuro valoriza a satisfação duradoura e a ausência de sofrimento; para este último, virtudes e instituições sociais possuem valor sobretudo como meios de assegurar a tranquilidade do indivíduo.
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O utilitarismo estende o critério do prazer à coletividade: em Bentham, a ação vale por seus resultados e o maior bem corresponde à maior felicidade do maior número, calculada segundo aspectos como intensidade e duração dos prazeres.
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A passagem do prazer individual à felicidade coletiva não decorre, porém, do princípio hedonista por si só: mesmo a satisfação experimentada ao beneficiar outras pessoas continua sendo sentida por um indivíduo, e os interesses próprios podem entrar em conflito com os alheios.
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Se os prazeres diferirem apenas em quantidade, torna-se difícil justificar a superioridade de uma atividade ou experiência sobre outra; se forem admitidas diferenças de qualidade, como em Mill, introduz-se um critério de valor que ultrapassa o próprio prazer.
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A medida quantitativa do prazer também permanece incerta, pois sua intensidade varia conforme a pessoa e a situação, não há equivalência clara entre intensidade e duração, e a comparação dos prazeres de pessoas diferentes amplia ainda mais a dificuldade.
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A satisfação que acompanha a realização de um ideal não prova que o prazer tenha sido o objetivo inicial da ação: desejos, vínculos afetivos e exigências ideais podem anteceder o prazer, que surge quando aquilo que se buscava é realizado.
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O amor ao próximo e a disposição ao sacrifício mostram que a vida humana contém motivações que não se deixam reduzir à procura de satisfação pessoal; explicar todo desejo como antigo meio de obter prazer tampouco dá conta das disposições e capacidades presentes desde o início da vida.
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Embora reconheça a importância dos sentimentos para a ação, o hedonismo não fornece um critério moral objetivo nem explica plenamente o caráter obrigatório do bem, pois o prazer, tomado como finalidade única, não corresponde à multiplicidade das exigências humanas.
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