18 Valor
NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.
UM ESTUDO DA CONDUTA EM TERMOS DE VALOR
1. Podemos examinar todos os fenômenos ou eventos de duas maneiras: uma é a investigação de sua causa ou razão, isto é, como ocorreram e por que devem ser como são; a outra é a investigação de metas, isto é, o propósito pelo qual ocorreram.
2. Imaginemos por exemplo que aqui está uma flor: se alguém pergunta como ela veio a ser, devemos responder que surgiu de acordo com condições botânicas e ambientais e de acordo com as leis da física e da química; se alguém pergunta com que propósito ocorreu, responderíamos que surgiu para produzir fruto.
3. A primeira abordagem constitui investigação teórica das leis do estabelecimento das coisas, enquanto a segunda constitui investigação prática das leis da atividade das coisas.
4. No que concerne aos fenômenos do assim chamado mundo inorgânico, podemos perguntar como surgiram mas não para que propósito surgiram, de modo que se deve dizer que não têm meta.
5. Pode-se, no entanto, argumentar que a meta e a causa nesse caso são idênticas: por exemplo, se atingimos uma bola de bilhar com certa força em direção específica, ela sem dúvida rolará naquela direção fixa, mas a bola não tem meta.
6. A pessoa que atingiu a bola pode ter uma meta, mas não é uma meta interna à bola; a bola é movida por necessidade de acordo com causas no mundo externo.
7. Mas de outro ponto de vista, a bola se move em direção fixa precisamente porque há tal poder de movimento na própria bola; em termos da força interna da bola, podemos ver o movimento como uma atividade proposital de autoatualização.
8. Quando avançamos para plantas e animais, a meta interna do si se torna clara e a causa e a meta podem ser distinguidas; os fenômenos que ocorrem em plantas e animais o fazem segundo leis físicas e químicas inevitáveis.
9. Esses fenômenos não são insignificantes, pois sua meta é a existência e o desenvolvimento do ser vivo inteiro; nesses fenômenos, no entanto, o que ocorreu como resultado de certa causa não é necessariamente proposital, pois às vezes a meta do todo e a de certos fenômenos — que são partes do todo — entram em conflito.
10. A esse respeito devemos prosseguir no estudo axiológico dos fenômenos e perguntar que tipos de fenômenos coincidem mais com a meta do todo.
11. Podemos considerar a meta unificadora dos seres vivos não humanos como um fruto da imaginação acrescentado por nós de fora e assim nos livrar dela, isto é, podemos considerar os fenômenos dos seres vivos como uniões sem significado estabelecidas pela coleta de certa quantidade de energia.
12. Só quando chegamos aos nossos fenômenos de consciência podemos parar de ver as coisas desse modo; desde o início, nenhum fenômeno de consciência é uma união de elementos insignificantes, pois cada um é uma única atividade unificadora.
13. Se removêssemos essa atividade unificadora da atividade de pensar, imaginar e querer, nós as destruiríamos; a primeira questão que devemos abordar a respeito dessas atividades não é como surgem, mas antes como se deve pensar, como se deve imaginar e como se deve agir.
14. Chegamos assim ao estudo da lógica, da estética e da ética.
15. Certos estudiosos tentam derivar leis de valor de leis de existência, mas não penso que possamos derivar juízos de valor sobre as coisas do fato de que uma coisa surge de outra.
16. Não podemos explicar pela lei de causa e efeito, que sustenta que uma flor vermelha dá origem a certo efeito e uma flor azul a outro efeito, por que uma flor é bela e outra feia, ou por que uma possui grande valor e a outra não.
17. Para fazer tais juízos de valor, deve haver outra lei que sirva de padrão.
18. Uma vez que pensar, imaginar e querer tenham ocorrido em termos de fatos, então nosso pensamento, não importa quão equivocado, nossa vontade, não importa quão perversa, e nossa imaginação, não importa quão carente, todos surgem segundo causas suficientes.
19. Tanto a vontade de assassinar pessoas quanto a vontade de salvá-las surgem de certas causas necessárias e produzem efeitos inevitáveis e, nesse aspecto, nenhuma tem a menor superioridade ou inferioridade.
20. Só quando há padrões como as exigências da consciência ou os desejos de vida é que surge uma diferença significativa de superioridade e inferioridade entre esses dois tipos de conduta.
21. Alguns teóricos argumentam que o que dá grande prazer tem grande valor e contendem que assim puderam derivar a lei de valor da lei de causa e efeito, mas não podemos explicar meramente pela lei de causa e efeito por que certo resultado nos dá prazer e outro não.
22. Que tipos de coisas gostamos e que tipos odiamos são fatos de experiência direta que têm uma base diferente da lei de causa e efeito.
23. Psicólogos afirmam que tudo o que aumenta nossa força vital é prazer, mas é esse o caso? Não é verdade que os pessimistas sentem que viver é a fonte da dor?
24. Outros teóricos argumentam que coisas poderosas possuem valor: para a mente humana, que tipo de coisa é mais poderosa? Não são necessariamente coisas materialmente poderosas mas as coisas que mais movem nossos desejos — as coisas que têm valor para nós — que são mais poderosas.
25. A posse ou falta de poder é determinada segundo o valor; o valor não é determinado segundo o poder.
26. Todos os nossos desejos e exigências são fatos inexplicáveis e dados: diz-se que comemos para viver, mas «para viver» é uma explicação acrescentada depois do fato, e nosso apetite não surge por tal razão.
27. A primeira bebida de leite de um bebê não é para que ele possa viver: o bebê bebe pelo simples beber.
28. Nossos desejos e exigências não são apenas fatos inexplicáveis de experiência direta mas também, ao contrário do que se poderia pensar, as chaves secretas pelas quais somos capazes de compreender o verdadeiro significado da realidade.
29. Uma explicação completa da realidade deve explicar não só como as coisas existem, mas também por que existem.
