17 Liberdade
NISHIDA, Kitarō. An inquiry into the Good. Tradução: Masao Abe. New Haven, Conn.: Yale Univ. Press, 1992.
A LIBERDADE DA VONTADE
1. Argumentou-se no capítulo anterior que, em termos psicológicos, a vontade é simplesmente um fenômeno da consciência, mas que, em termos de sua natureza fundamental, ela é a base da realidade, devendo-se agora considerar se a vontade é uma atividade livre ou determinada, questão que perplexa os estudiosos desde a antiguidade e que tem implicações importantes para a moral, permitindo clarificar o caráter filosófico da vontade.
2. A julgar pelo que as pessoas habitualmente creem, todos consideramos a vontade livre, pois dada nossa experiência de nossa consciência, dentro de certa esfera de ação somos capazes de fazer algo sendo também capazes de não o fazer, isto é, cremos ser livres dentro dessa esfera.
3. Por essa razão surgem em nós ideias de responsabilidade, irresponsabilidade, autoconfiança, arrependimento, elogio e censura, mas convém agora refletir cuidadosamente sobre o que se entende por «dentro de certa esfera».
4. Não podemos controlar livremente todas as coisas no mundo externo, e mesmo nossos próprios corpos não podem ser livremente manipulados em sentido absoluto, pois o movimento voluntário dos músculos parece livre, mas se adoecemos já não podemos movê-los livremente.
5. As únicas coisas que podemos gerenciar livremente são nossos próprios fenômenos de consciência, e ainda assim não temos nem a liberdade de criar ideias de novo nem a de recordar a qualquer momento algo que uma vez experimentamos.
6. O que consideramos verdadeiramente livre é simplesmente a atividade de uma união de ideias, isto é, como analisamos ideias e como as sintetizamos deriva da liberdade do si, e no entanto uma lei a priori indiscutível funciona na análise e síntese de ideias, de modo que aqui tampouco podemos fazer como queremos.
7. Além disso, quando uma união de ideias se mantém sozinha ou quando certa união é especialmente forte, devemos obedecer-lhe plenamente, e possuímos total liberdade de escolha apenas no contexto da lei a priori do estabelecimento de ideias, e apenas quando de duas ou mais maneiras de unir ideias nenhuma tem força para dominar.
8. Muitos dos que expõem teorias sobre a liberdade da vontade baseiam seus argumentos nos fatos da experiência no mundo interno, e segundo eles, dentro desse escopo a seleção de motivos é em todos os aspectos uma questão de nossa liberdade e não tem outra razão senão nós mesmos.
9. Eles argumentam que a decisão se baseia num tipo de poder místico — chamado vontade — que é independente tanto das várias condições no mundo externo quanto da disposição, do hábito e do caráter no mundo interno, postulando em suma um poder que existe apartado da união de ideias enquanto a controla.
10. Em contraste, os que expõem teorias deterministas da vontade geralmente o fazem com base em observações de fatos no mundo externo, e segundo eles os fenômenos do universo não ocorrem fortuitamente, pois mesmo matérias extremamente minúsculas, quando investigadas em detalhe, possuem necessariamente uma causa suficiente.
11. Essa é a ideia por trás da investigação erudita, e com o desenvolvimento da ciência ela se torna cada vez mais certa, pois as causas e efeitos de fenômenos naturais outrora considerados misteriosos desde então se tornaram claros, e avançamos ao ponto de podê-los calcular matematicamente.
12. Atualmente, só nossa vontade ainda é tida como não tendo causa, mas mesmo a vontade não pode escapar das grandes e imutáveis leis da natureza.
13. Continuamos a pensar que a vontade é livre porque o desenvolvimento da ciência ainda está em sua infância e porque não podemos explicar cada uma das causas da vontade.
14. É verdade que em casos individuais a ação da vontade parece irregular e desprovida de qualquer causa fixa, mas se olharmos estatisticamente para as ações de um grande número de pessoas, discernimos que as ações são surpreendentemente ordenadas e que têm certas causas e efeitos.
15. Essas observações fortalecem nossa convicção de que há causas relacionadas à nossa vontade e nos levam à conclusão de que nossa vontade, como todos os outros fenômenos da natureza, é regida por uma lei necessária e mecânica de causa e efeito e portanto não é algum tipo de poder misterioso.
16. Qual dessas teorias opostas é correta? Como se afirmou antes, os que sustentam teorias da vontade livre em forma extrema nos dizem que temos uma habilidade misteriosa de escolher motivos livremente sem qualquer causa ou razão.
17. Mas essa asserção é totalmente equivocada, pois deve haver uma razão suficiente para nossa escolha de motivos, e mesmo que a razão não apareça claramente na consciência, ela deve existir sob a consciência.
18. Além disso, se — como contendem os proponentes da vontade livre — algo decide as coisas fortuitamente sem qualquer razão, então no momento da decisão não sentiríamos que a vontade é livre; antes, sentiríamos a decisão como um evento fortuito que funcionou de fora, e nosso sentimento de responsabilidade pela decisão seria fraco.
19. Os que avançam teorias da vontade livre apresentam seus argumentos com base na experiência no mundo interno, mas tal experiência interna na verdade prova o oposto — o determinismo.
20. Ofereçamos agora uma crítica ao argumento determinista: esses proponentes afirmam que porque os fenômenos naturais são controlados pela lei da necessidade mecânica, os fenômenos da consciência também devem ser controlados por ela.
21. Essa posição se baseia no pressuposto de que fenômenos da consciência e fenômenos naturais (isto é, fenômenos materiais) são idênticos e controlados pela mesma lei, mas esse pressuposto é correto?
22. Se os fenômenos da consciência e os fenômenos materiais são controlados pela mesma lei é uma questão não resolvida, e os argumentos reunidos com base nesse pressuposto são extremamente fracos.
23. Mesmo que a psicologia fisiológica moderna avance ao ponto de podermos explicar física ou quimicamente cada uma das funções do cérebro na base da consciência, poderemos com isso afirmar que os fenômenos da consciência são controlados por uma lei mecânica de necessidade?
24. Por exemplo, o bronze que serve de matéria-prima de uma estátua talvez não possa escapar da dominação das leis da necessidade mecânica, mas não podemos dizer que o significado expresso pela estátua existe apartado dessas leis?
25. O assim chamado significado espiritual não pode ser visto, ouvido ou contado; ele transcende as leis da necessidade mecânica.
26. Em suma, o tipo de vontade descrito pelos que argumentam pela liberdade da vontade — uma vontade totalmente sem causa ou razão — não existe, e tal vontade contingente não seria sentida como livre; antes, seria sentida como opressiva.
27. Quando funcionamos por certa razão, isto é, a partir do caráter interno do si, sentimo-nos livres, e nos sentimos mais livres quando a causa de um motivo emerge do caráter interno mais profundo do si.
28. A razão por trás da vontade, no entanto, não é uma causa mecânica como descrita pelos deterministas, pois nosso espírito contém uma lei que governa sua atividade, e quando o espírito funciona de acordo com sua própria lei, ele é verdadeiramente livre.
29. A liberdade tem assim dois possíveis significados: (1) ser totalmente sem causa, isto é, fortuito ou contingente, e (2) não ter restrições externas e portanto funcionar de e por si mesmo, indicando o último a liberdade autônoma, e esta é a liberdade da vontade.
30. Nesse ponto surge o seguinte problema: assumindo que liberdade significa funcionar segundo o próprio caráter, vemos que entre as incontáveis coisas ao nosso redor nenhuma deixa de funcionar assim, sendo o fluir da água e o queimar do fogo exemplos disso.
31. Por que então só a vontade é considerada livre e as outras coisas determinadas?
32. A ocorrência de um fenômeno no mundo natural é determinada estritamente por suas circunstâncias, e apenas um certo fenômeno — e nenhum outro — surge de um particular conjunto de circunstâncias, surgindo todos os fenômenos naturais segundo esse tipo de necessidade cega.
33. Os fenômenos da consciência, no entanto, não simplesmente surgem, pois são fenômenos dos quais somos conscientes — isto é, surgem e sabemos que surgiram.
34. Saber algo ou ser consciente disso inclui outras possibilidades, e ser consciente de tomar algo inclui a possibilidade de não tomá-lo.
35. Para colocá-lo mais exatamente, a consciência sempre possui um caráter universal — a consciência sempre inclui um elemento idealista, de outro modo não é consciência.
36. Que a consciência tenha tal caráter significa que ela abriga possibilidades outras que os eventos atuais, e ser atual e ainda assim incluir ideais, ser idealista e ainda assim não se separar da atualidade — este é o caráter distintivo da consciência.
37. A consciência de fato nunca é controlada por outras coisas, pois está sempre as controlando.
38. Sabendo isso, mesmo que nossa conduta ocorra segundo leis necessárias não somos confinados pela conduta.
39. Além disso, a atualidade é simplesmente uma instância particular dos ideais que constituem a base da consciência, isto é, é simplesmente um processo no qual os ideais se atualizam, e a conduta portanto não é gerada de fora, mas de dentro.
40. E porque vemos a atualidade como simplesmente uma instância dos ideais, a consciência passa a incluir numerosas outras possibilidades.
41. A consciência é livre não porque funcione fortuitamente além das leis da natureza, mas antes porque segue sua própria natureza, e é livre não porque funcione sem razão, mas porque conhece bem as razões por trás de seu funcionamento.
42. À medida que nosso conhecimento avança, tornamo-nos pessoas mais livres, e mesmo que sejamos controlados ou oprimidos por outros, quando sabemos disso nos libertamos da opressão.
43. Se formos ainda mais longe e percebermos a razão inevitável da situação, então a opressão se transforma em liberdade — Sócrates era mais livre que os atenienses que o envenenaram.
44. Pascal disse que uma pessoa é tão fraca quanto um junco, mas porque é um junco pensante, mesmo que o mundo inteiro tente destruí-la, ela é maior que aquilo que a mata, pois ela mesma sabe que morrerá.
45. Como discutido antes na seção sobre a realidade, o elemento idealista — isto é, a atividade unificadora — que constitui a base da consciência não é um produto da natureza; antes, é por causa dessa unidade que a natureza passa a existir.
46. Essa unidade é o poder infinito na base da realidade, e não pode ser limitada quantitativamente, existindo independentemente das leis necessárias da natureza.
47. Porque nossa vontade é uma expressão desse poder, ela é livre e vai além do controle de tais leis naturais.
