Uso do mundo da vida
STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.
História da Filosofia, história conceitual e uso do conceito de mundo da vida
1. A análise destaca uma das duas alas em que se dividiu o uso do conceito de mundo da vida, privilegiando a corrente de filósofos que mantêm respeito histórico pelo desenvolvimento, origens, utilização e crise do conceito, corrente cujo fluxo subterrâneo, alimentado por Husserl, desenvolve-se com maior fidelidade histórica em Heidegger, Gadamer, Merleau-Ponty e Rothacker, estendendo-se a autores contemporâneos como Gerd Brandt, Bernhard Waldenfels, Peter Kiewitz, Jürgen Habermas e Jan Schapp.
2. A história do conceito pode ser consultada no Dicionário Histórico da Filosofia publicado na Alemanha, idealizado por Joachim Ritter dentro da tendência de desenvolver a história dos conceitos, dicionário no qual o verbete sobre mundo da vida ocupa apenas seis colunas e meia, apesar de sua relevância.
3. O Dicionário registra as traduções do termo Lebenswelt para outras línguas — Life-World em inglês, Mondo Quotidiano em italiano e Monde Quotidien ou, mais comumente, Monde Vécu em francês — organizando-se em um primeiro item dedicado ao conceito na Filosofia, com sua história e o tratamento em Husserl, e um segundo item dedicado a autores situados nos limites entre Filosofia, ciências da cultura e Ciências Humanas.
4. No último quartel do século 19, Avenarius e Mach exigiram um retorno à experiência pré-científica, imediata e pura, capaz de conduzir, por descrição sem preconceitos, ao conceito natural de mundo (natürliche Weltbegriff), que deveria fundamentar tanto as teorias filosóficas e científicas quanto a distinção entre interioridade psíquica e exterioridade física.
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Segundo Avenarius, esse ponto de partida natural forma um complexo unitário previamente dado, mantendo equilíbrio entre o indivíduo e seu contexto.
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Para esse autor, os elementos físico e psíquico representam apenas dois aspectos distintos de um mesmo ser, pesquisável do ponto de vista empírico-natural-objetivo ou da sensibilidade compreendida naturalisticamente.
5. Ao programa de Mach e Avenarius ligou-se praticamente todo o projeto husserliano, que exigia igualmente um retorno a uma experiência pura e originária capaz de expressar tanto o elemento intencional do eu quanto o elemento do mundo exterior, eliminando um modo puramente natural e positivista de olhar o dado.
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Husserl buscava um mundo da experiência de caráter unitário entre o universo psíquico-subjetivo e o exterior-objetivo, reproduzindo dentro da consciência a unidade entre noesis e noema numa esfera de subjetividade transcendental análoga, sem ser idêntica, à consciência transcendental kantiana.
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Mediante a colocação entre parênteses da existência da realidade exterior, Husserl pretendia atingir uma postura não natural ante o imediatamente dado, denominando esse novo mundo da experiência (Erfahrungswelt) também mundo-ambiente subjetivo (Subjektive Umwelt), mundo das vivências (Erlebniswelt) e mundo para mim (Welt für mich).
6. Husserl buscava, com esse movimento, a fundamentação de uma unidade entre natureza e espírito, meta que viria a caracterizar grande parte da Filosofia do século 20 na superação da divisão entre natureza-mundo exterior e espírito, entre natureza e história.
7. O conceito de mundo da vida, embora surgido pela primeira vez em Husserl em 1924, foi fixado terminologicamente apenas após 1930, assumindo então a função unificadora de todos os conceitos correlatos e o lugar central na fenomenologia transcendental.
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A tarefa husserliana de construir a Filosofia como ciência rigorosa, mediante a redução transcendental, encontrou dificuldade progressiva em incorporar o elemento histórico, dificuldade enfrentada sobretudo a partir da provocação representada por Ser e tempo.
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Foi como resposta a essa provocação que Husserl escreveu A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, publicada em 1935, obra em que o conceito de mundo da vida representou sempre uma experiência de mal-estar e contestação, marcando a crise do projeto de uma fenomenologia que incorporasse todo o saber.
8. O conceito de mundo da vida tornou-se o mais produtivo entre os cunhados por Husserl, justamente por não ter sido plenamente incorporado ao seu sistema, gerando diversas concepções posteriores voltadas a explicitar ou a criticar o modo husserliano de desenvolvê-lo.
9. Husserl desenvolvia o conceito de mundo da vida vinculado à consciência e à subjetividade transcendental, quando, segundo outro paradigma filosófico — o do mundo prático —, o conceito deveria antes descrever o mundo da vida como característica do homem enquanto ser-no-mundo, capaz de saber praticamente aquilo que Mach e Avenarius buscavam como esfera sem preconceitos e sem juízos prévios.
10. A não resolução definitiva do conceito de mundo da vida dentro do sistema husserliano é o que permitiu sua permanência como conceito produtivo e amplamente difundido na Filosofia, ao contrário do que teria ocorrido caso sua solução tivesse sido dada de uma vez para sempre.
11. O verbete do Dicionário Histórico da Filosofia aponta Heidegger, e não outro autor imediatamente posterior a Husserl, como aquele que deu ao conceito de mundo da vida um desenvolvimento em paradigma diferente, apresentando em Ser e tempo o mundo como mundo do ser-aí cotidiano (Dasein).
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A nova situação das ciências do espírito, associada a esse desenvolvimento heideggeriano, multiplicou e transformou as dimensões de significado do conceito de mundo da vida.
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O conceito converteu-se em palavra-chave filosófica inserida em praticamente todas as tendências contemporâneas que buscam contrapartida à tradição metafísica e à tradição transcendental kantiana, sugerindo Heidegger um retorno ao mundo da vida pré-científico.
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Na obra de Merleau-Ponty, o homem está no mundo como Être au monde (ser-no-mundo) em sentido ontológico, propondo esse autor, a partir do desenvolvimento heideggeriano, uma tarefa geral para a Filosofia.
12. O resumo histórico do conceito de mundo da vida apoia-se principalmente em três obras — A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, Ser e tempo e A fenomenologia da percepção —, permanecendo ainda não esclarecido o enigma de como um conceito pouco produtivo na obra de Husserl se tornou explosivo fora dela, o que motiva a constante retomada, na própria obra husserliana, do desenvolvimento do mundo da vida.
13. O sentido central do conceito de mundo da vida em Husserl reside na contraposição ao pensamento positivista e naturalístico, com a intenção de radicalizar a Filosofia e as bases das Ciências Humanas para superar o tipo de pensamento que levara à crise das ciências europeias.
14. A pretensão husserliana era reunificar Filosofia e ciências, regenerando a história da cultura europeia mediante um sistema filosófico capaz de responder à crise das ciências e da cultura, concebendo o filósofo, na fase final de sua obra, como funcionário da humanidade, garantidor de estruturas de racionalidade que ampliassem o conceito de racionalidade para além da racionalidade puramente instrumental das ciências positivas e naturais.
15. A crise da fenomenologia husserliana resultou da tentativa de construir essa nova racionalidade ainda dentro da dinâmica das teorias da consciência e da representação, quando provavelmente seria necessária uma ruptura com essas teorias para alcançar um novo modo de filosofar apenas esboçado no conceito de mundo da vida, sem ter sido levado às últimas consequências.
16. Grande parte dos autores posteriores remeteu-se a Husserl ao empregar o conceito de mundo da vida, destacando-se entre os mais fiéis à sua discussão Alfred Schutz e Ludwig Landgrebe, este último grande continuador de Husserl, autor de O caminho da fenomenologia, ao lado de Waldenfels, Feldmann, Gerd Brand e Werner Marx, sucessor de Heidegger em Friburgo, autor de Introdução à fenomenologia de Husserl.
17. Um outro grupo de autores, entre os quais se destaca Erich Rothacker, fez a ponte entre Filosofia e Ciências Humanas mediante uma concepção de mundo da vida próxima ao ser-no-mundo heideggeriano, porém mais vinculada a Husserl do que a Merleau-Ponty, desenvolvendo Rothacker, em obras como Antropologia da Cultura, Antropologia Filosófica e a inacabada Genealogia da consciência humana (Genealogie des menschlichen Bewusstseins), um painel da cultura humana — Filologia, Direito, Religião, História das Religiões, Política, Filosofia — que apresenta um mundo não redutível à teoria, produzido na própria cultura e sempre por ela pressuposto.
