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Trato com os textos

STEIN, Ernildo. As ilusões da transparência: Dificuldades com o conceito de mundo da vida. Ijuí: Editora Unijuí, 2012.

Do trato com os textos e do progresso no conhecimento

1. Na abordagem crítica dos textos das Ciências Humanas, a aparente transparência dilui-se, integrando-se a dimensão subjetivo-reflexiva ao esforço objetivo-determinado, gerando-se frustração quando o texto é tratado como objeto neutro ao modo positivista, revelando-se rapidamente equívoco.

2. A ciência trabalha propriamente com os verbos conhecer e saber, mas nas Ciências Humanas o saber revela-se mais complexo, subdividindo-se em interpretar e compreender, instrumentos próprios da hermenêutica, o que gera a impressão de menor cientificidade por não se separar claramente sujeito e objeto, mas antes descrever sua mistura ou conexão.

3. Impõe-se buscar um conceito de ciência mais amplo que o restrito às ciências empírico-matemáticas, reconhecendo-se, num sentido radical, que este último não se aplica plenamente às Ciências Humanas, sem que a tentativa de aproximá-las mediante a negação dos processos interpretativos e compreensivos avance muito.

4. O campo das Ciências Humanas pode ser entendido como campo de dupla hermenêutica, de superfície e de profundidade, sujeito a ambiguidade nunca inteiramente eliminada, razão pela qual a axiomatização e a formalização plenas, possíveis nas ciências empírico-matemáticas, resultam sempre simulação aparente de seriedade formal quando aplicadas à História, à Sociologia, à Psicanálise ou à Antropologia.

5. Ao perguntar-se pelo mundo da vida em matéria de História, Sociologia e Psicologia, indaga-se pelo lugar onde tais disciplinas escondem seus pressupostos, não podendo nenhuma tese dispensar inteiramente a explicitação filosófica de seus conceitos, teorias e métodos, escondendo-se sempre, por trás de sua pretensão empírica, uma ontologia ou concepção teórica não empírica.

6. Os enunciados filosóficos sobre o mundo da vida não possuem o caráter de verdade ou falsidade próprio das ciências empírico-matemáticas nem das Ciências Humanas, colocando-se a questão de saber se lhes cabe tal atribuição, o que constitui o grande problema da Filosofia, levando muitos a refugiar-se no campo lógico-semântico em busca de objetividade aparente.

7. A abordagem estritamente lógico-semântica dos textos filosóficos deixa de lado a própria possibilidade de redigir e compreender textos filosóficos de modo unívoco, questão análoga à dificuldade de produzir textos nas Ciências Humanas isentos de equivocidade e de leituras conflitantes.

8. A leitura produtiva de um texto exige ter percorrido um caminho prévio de conhecimento e método, análogo ao percurso do cientista que compreende um artigo técnico especializado, sendo necessário dispor de critérios seletivos para que a leitura não “passe lisa” sem incorporação de conteúdo.

9. A universidade frequentemente negligencia a exigência desse caminho andado como pré-requisito para a investigação, comprometendo a capacidade do estudante de confrontar produtivamente um texto novo, seja para reforçar, rejeitar ou incorporar criticamente seu conteúdo.

10. Mesmo na leitura de poesia e ficção, o conhecimento da literatura, da história do autor e dos elementos simbólicos torna a leitura mais profunda e produtiva do que uma abordagem puramente subjetiva.

11. Converter meios em fins constitui sinal de mediocridade recorrente na leitura, sendo necessário o constante confronto consigo mesmo diante do texto para que ocorra progresso na produção intelectual, exigência da qual não se pode furtar.

12. No campo da Filosofia, diferentemente do universo empírico-matemático e das Ciências Humanas, os padrões de aferição do valor de um texto filosófico situam-se fora do campo lógico-semântico, remanescendo apenas a garantia formulada por Wittgenstein no Tractatus logico-philosophicus, segundo a qual se deve calar sobre aquilo de que não se é capaz de falar.

13. Interpreta-se essa sentença wittgensteiniana como referência às proposições éticas, sobre o mundo e sobre as formas de vida, que sobram das regras lógico-semânticas e pertencem ao indizível, por não haver critérios para medir seu valor de verdade ou falsidade sem incorrer em circularidade viciosa.

14. Essa sentença aplica-se a todas as proposições filosóficas não empíricas e não lógicas, isto é, as proposições transcendentais, que buscam as condições de possibilidade das demais proposições científicas e das Ciências Humanas sem poderem ser medidas pelos critérios destas últimas.

15. Todas as frases sobre o mundo da vida visam oferecer critérios de racionalidade ao universo das Ciências Humanas, não sendo possível usar proposições das próprias Ciências Humanas para medir e justificar tais critérios.

16. Obras como A fenomenologia do espírito, de Hegel, e Ser e tempo, de Heidegger, compõem-se de frases de caráter não empírico cuja análise lógico-semântica apenas parcialmente elucida seu conteúdo principal, permanecendo em aberto que tipo de produtividade garante o sentido e o valor de tais discursos filosóficos.

17. A Filosofia não pode pretender saber mais do que a ciência, cabendo-lhe antes mostrar as condições de possibilidade e a racionalidade dos discursos científicos e das Ciências Humanas, questionando o discurso latente por trás do discurso manifesto sem, contudo, poder atribuir a essas frases valor de verdade ou falsidade.

18. São necessários critérios intersubjetivos de argumentação, não bastando convicções interiores privadas apresentadas publicamente, pois impor ao outro a aceitação de uma convicção não compartilhável equivale, na expressão hegeliana, a pisar as raízes da humanidade, destruindo o verdadeiro humano.

19. Manifesta-se divergência de longa data com os textos de Habermas, que, apesar de propor uma argumentação transparente e intersubjetiva, pressupõe verdades do Iluminismo — o progresso racional, a emancipação humana, o paralelismo entre História e razão — impondo condições prévias ao discurso que configuram, no fundo, uma forma de autoritarismo, denominado aqui problema platônico.

20. Questiona-se como exigir do interlocutor que se coloque no próprio lugar como condição para iniciar o diálogo, sendo a razão aceitável como base do movimento da humanidade, mas não a direção específica desse movimento (emancipação, revolução), sob pena de recair-se num saber oracular alheio ao discurso intersubjetivo.

21. Ao falar do mundo da vida, pretende-se designar um princípio pressuposto, indepassável, reservatório e raiz de tudo o que se afirma nas Ciências Humanas, garantindo a racionalidade não por ser abstrato e universal, mas por nomear um ponto de partida do qual não se pode retroceder, ainda que se reconheça a dificuldade de atribuir aos textos filosóficos valor de verdade ou falsidade.

22. Coloca-se a questão do padrão de medida com que julgar os textos filosóficos, aconselhando-se maior cautela com textos como os de Hegel, Heidegger e Dilthey, cujo discurso ultrapassa a busca de um princípio epistemológico simples e abre interpretação plural e quase equívoca, dependente do pano de fundo de cada leitor.

23. A busca contemporânea pela verdade centra-se na decidibilidade, não mais fundada na evidência subjetiva, mas na verdade da linguagem, revelando-se a interpretação de um texto tanto mais complexa quanto mais este se afasta da decidibilidade fácil das ciências empírico-matemáticas, passando pela decidibilidade aparente da hermenêutica de superfície das Ciências Humanas até a indecidibilidade do círculo hermenêutico em profundidade.

24. Diante de textos filosóficos como Ser e tempo e os de Habermas e Hegel, não há discurso alternativo capaz de atestar sua verdade ou falsidade, permanecendo em aberto que tipo de produtividade lhes garante sentido e valor, ainda que se possa recorrer a todos os instrumentos lógico-semânticos disponíveis para elucidar parcialmente seu conteúdo.

25. Questiona-se se a própria sentença wittgensteiniana sobre o silêncio diante do indizível não seria ela mesma transcendental, notando-se que Wittgenstein reconheceu não poder escrever a parte mais importante de sua obra, justamente aquela relativa ao místico e ao indizível, considerando-se os textos de Heidegger como tentativa de transgredir essa lei do silêncio.

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