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CONTEXTO
BRADLEY, Arthur. Derrida’s Of Grammatology: An Edinburgh Philosophical Guide. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2022.
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O texto de Derrida, Embora pertença à história da filosofia, exige uma compreensão do contexto histórico e intelectual do pós-guerra, mas sua localização é difícil devido à amplitude de seu escopo histórico, à sua crítica total à tradição ocidental e ao fato de que o próprio conceito de “história” é questionado por sua argumentação.
Além da Metafísica?
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Para Marx, as ideias metafísicas são expressões imaginárias dos processos materiais e históricos da vida, e a alienação sob o capitalismo produz essas ilusões, de modo que a superação da metafísica exigiria uma transformação radical do sistema econômico.
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Nietzsche vê os sistemas metafísicos como uma tentativa de reprimir as forças dinâmicas da vida, propondo uma “genealogia” que mostra como valores aparentemente eternos surgem da história, sendo a “vontade de poder” a capacidade de se libertar da busca por uma “verdade” atemporal.
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Freud, com a psicanálise, aprofunda a crítica ao sujeito racional e consciente, mostrando que a consciência é apenas uma fração dos processos psíquicos e que as origens aparentemente simples são produtos de uma rede de diferenças não pensada.
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Embora Derrida veja a psicanálise como um projeto que questiona a autopresença da consciência, ele critica Freud por, ao fazê-lo, transformar o inconsciente em uma nova forma de “autopresença” metafísica, embora suas analogias com uma máquina de escrever ofereçam um insight importante sobre a “arquiescritura”.
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Heidegger é apontado como a maior influência sobre Derrida, com a “desconstrução” sendo uma radicalização da “destruktion” heideggeriana, e a noção de “traço” e a crítica à “metafísica da presença” são extensões do pensamento de Heidegger.
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Derrida, no entanto, não é um mero seguidor, pois insiste que a crítica de Heidegger à metafísica ainda permanece dentro do seu domínio, e sua busca por uma experiência original do Ser “além” da presença corre o risco de estabelecer uma nova metafísica.
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A principal lição que Derrida extrai de Heidegger e dos outros filósofos antimetafísicos é a de que qualquer crítica à metafísica deve reconhecer sua própria tendência inerente de se tornar metafísica, pois não há linguagem disponível que não seja já dominada por ela.
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Martin Heidegger é um filósofo central do século XX que desenvolveu uma nova ontologia focada no significado do “Ser”, distinguindo-o dos entes particulares, e argumentou que a questão fundamental “O que é o Ser?” foi esquecida pela filosofia ocidental.
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Heidegger busca recuperar o sentido do Ser através da análise do Dasein, cuja essência é temporal, e argumenta que o horizonte para a compreensão do Ser é o Tempo, com a história da metafísica sendo a história da redução do Ser a um ente “presente”.
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Em sua obra tardia, Heidegger realiza uma “destruição” da metafísica ocidental para revelar o encontro original, histórico e temporal com o Ser que está subjacente a todo conceito estático de Ser como presença.
Entre a Fenomenologia e o Estruturalismo
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O pensamento de Derrida também é produto dos debates contemporâneos no pensamento francês do pós-guerra, negociando sua posição entre a fenomenologia e o estruturalismo, duas correntes que, apesar de suas diferenças, são vistas como participantes da mesma tradição logocêntrica.
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A posição de Derrida é que tanto a fenomenologia quanto o estruturalismo participam da valorização da fala como portadora da presença e da repressão da escrita, e sua obra busca ir além de ambas.
Fenomenologia
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A crítica de Derrida a Husserl, iniciada em “A Voz e o Fenômeno”, concentra-se na distinção husserliana entre “expressão” (associada à fala) e “indicação” (associada à escrita), mostrando que essa fronteira é instável e que mesmo a autoexpressão interior da consciência depende da linguagem e da mediação.
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No ensaio “A Origem da Geometria”, Husserl reconhece o papel da escrita ao afirmar que é a inscrição dos princípios geométricos que lhes confere seu status objetivo e universal, o que revela uma contradição, pois a transcendência da geometria depende de sua inscrição material.
Estruturalismo
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O estruturalismo, representado por Saussure e Lévi-Strauss, é outra referência crucial para Derrida, mas ele não é um adepto passivo, sendo antes um grande crítico de seus pressupostos, argumentando que a crença estruturalista em um ponto fixo ou “presente” no centro de cada estrutura ainda é metafísica.
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A crítica de Derrida a Lévi-Strauss, em “Estrutura, Signo e Jogo no Discurso das Ciências Humanas”, mostra que o estruturalismo busca um centro que está tanto dentro quanto fora da estrutura, o que revela uma busca metafísica por uma presença plena que está além do jogo.
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Derrida identifica no trabalho de Lévi-Strauss entre os Nambikwara o uso de uma metodologia de “bricolagem” que se apoia em conceitos metafísicos como a oposição natureza/cultura, uma noção metafísica de história e uma “nostalgia das origens” que opõe a fala inocente dos primitivos à escrita violenta dos civilizados.
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A crítica de Derrida ao estruturalismo, assim como à fenomenologia, é feita a partir de dentro, mostrando que a tentativa de se basear em metodologias “científicas” para escapar da filosofia acaba por deixar seus pressupostos metafísicos mais profundos inquestionáveis, resultando em um logocentrismo que é uma forma de etnocentrismo.
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A conclusão é que, apesar de seu rigor científico, o estruturalismo de Lévi-Strauss permanece preso à metafísica da presença, pois sua defesa da verdade, da presença e da fala é sustentada pela repressão da mediação, da diferença e da escrita.
Entre a Fenomenologia e o Estruturalismo
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Derrida vê a rivalidade entre fenomenologia e estruturalismo como uma manifestação contemporânea da lógica do “ou isso ou aquilo” que domina a metafísica da presença, e argumenta que ambas as teorias, apesar de opostas, acabam se encontrando no meio.
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Ambas as disciplinas se baseiam numa ideia metafísica de presença plena e não mediada como fundamento de sua teoria, seja na interioridade pura da consciência ou na formalidade pura dos sistemas linguísticos ou culturais.
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Ambas são discursos logocêntricos que identificam a voz como o meio privilegiado para comunicar a “presença”, seja na fala como expressão da consciência ou na autenticidade da cultura oral.
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Ambas compartilham o destino de qualquer metafísica da presença, onde o estabelecimento de um valor como “presente” depende implicitamente do valor que ele marca como “ausente”, e cada teoria, ao reivindicar acesso exclusivo ao conhecimento, acaba por necessitar da outra para sustentar suas próprias pretensões.
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A crítica de Derrida às duas tradições lhe permite acessar a tarefa maior de articular o estado originário de mediação, relação ou diferença que subjaz a toda metafísica da presença, levando à construção de uma filosofia que explora o ponto de encontro entre fenomenologia e estruturalismo, mas que não pertence a nenhuma delas.
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A pergunta central é como articular essa posição sem cair nas armadilhas de aceitar acriticamente as velhas categorias filosóficas ou de agir como se fosse possível abandoná-las completamente, buscando demonstrar a contingência desse sistema de pensamento a partir de seus próprios limites, procedimento que Derrida chama de “desconstrução”.
Conclusão
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A filosofia de Derrida emerge de um engajamento profundo tanto com os debates contemporâneos do pensamento francês do pós-guerra quanto com a longa história da filosofia antimetafísica, e sua obra, embora tenha uma história, também força a considerar o que se entende por “história”, contexto, tradição e linhagem.
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Derrida se considera um pensador profundamente histórico, e sua obra oferece tanto uma nova história da filosofia quanto uma nova filosofia da história, na qual o conceito tradicional de “história” é produto das suposições metafísicas que ele questiona.
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A obra de Derrida sempre tem mais de uma história, e seria possível encontrar as raízes da desconstrução em diversos pensadores e textos, tanto da filosofia quanto de fora dela, como Shakespeare, Joyce e Kafka.
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O maior problema em oferecer uma “história” da filosofia de Derrida é que isso pressupõe que seu pensamento está acabado ou completo, mas, para ele, os grandes textos da história da filosofia são recursos inesgotáveis cuja leitura nunca terminará, e o significado de “Da Gramatologia” não está no passado, mas no futuro.
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