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estudos:davis:vontade-2007

VONTADE (2007)

DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2007.

[…] se quisermos seguir o caminho de Heidegger para repensar a vontade, temos de pôr em causa de forma mais radical o pressuposto tradicional de que a vontade é simplesmente uma “faculdade do sujeito”. Para começar, e se fosse verdade o contrário — que a subjetividade é antes, por assim dizer, uma “faculdade da vontade”? E se a vontade estivesse subjacente ao sujeito, e não o contrário? Em outras palavras, e se fosse o caso de pensar em termos de um sujeito que possui faculdades, um “sujeito que quer”, já envolve um modo particular de ser-no-mundo com vontade? Isto é, e se a própria ontologia que estabelece um sujeito que se contrapõe a um mundo de objectos, ao qual depois se dirige por meio de faculdades, poderes de pensamento representacional e ação volitiva, for ela própria determinada por um modo intencional de ser e pensar?

Esta é, de facto, a direção do questionamento que o pensamento de Heidegger engendra, escreve ele:

Com a palavra “vontade” não me refiro, de fato, a uma faculdade da alma, mas antes — de acordo com a doutrina unânime, embora ainda pouco pensada, dos pensadores ocidentais — àquilo em que se funda a essência da alma, do espírito, da razão, do amor e da vida, (GA77:78)


Uma tonalidade afetiva fundamental [Grundstimmung] é um comportamento “anterior” à determinação de qualquer sujeito, objeto ou relação intencional entre eles. Não podemos, por isso, começar por definir a vontade como uma faculdade do sujeito, porque o nosso pensamento em termos de um “sujeito equipado com faculdades para confrontar o mundo” é dependente de um certo modo já “voluntarioso” de ser-no-mundo, Parte do que está em jogo na crítica de Heidegger à vontade é ver que a própria compreensão do ser dos entes em termos de “sujeitos” e “objetos” está implicada numa particular Grundstimmung voluntariosa. Só dentro desta tonalidade afetiva fundamental particular faz sentido falar do ato subjetivo de querer ou da “faculdade da vontade”. Uma tonalidade afetiva fundamental seria “fundamental” no sentido de que primeiro abre (alguém) para um mundo, antes da determinação de “quem” é aberto para “o quê”. Refletidamente, encontramo-nos sempre já envolvidos numa tal sintonização, tal como perceptivamente encontramos o mundo sempre já revelado através dessa sintonização. Uma tonalidade afetiva fundamental voluntária determina, em primeiro lugar, a ontologia em que um sujeito está aberto a um mundo de objetos de tal forma que o “aberto a” desta relação é distorcido (constringido) na representação de objetos presentes, se não mesmo na garantia de uma totalidade de materiais prontos para uma manipulação voluntária. Heidegger, de fato, vai ainda “mais longe” do que isto na sua determinação do termo “vontade”. A vontade, para Heidegger posterior, não é apenas uma questão de sintonização fundamental do sujeito que procura dominar o mundo; é, antes ainda, o nome para o ser dos entes na época da modernidade.


  • A compreensão tradicional da vontade como faculdade do sujeito, distinta de pensar e sentir, inscreve-se na herança da filosofia ocidental moderna e poderia ser reconstruída desde os gregos, passando pelos estóicos, por Agostinho, pela escolástica, por Kant e pelas análises de Hannah Arendt, culminando numa crítica possível à Gelassenheit heideggeriana como preferência pelo pensamento em detrimento da ação.
    • Referência à tradição grega e à ausência de unidade explícita da faculdade da vontade.
    • Debate sobre proairesis e orexis em Aristóteles.
    • Consolidação da voluntas em Agostinho.
    • Discussões escolásticas sobre primazia entre vontade e intelecto.
    • Delimitações críticas em Kant.
    • Interpretação de Hannah Arendt acerca da relação entre pensar e querer.
    • Possível crítica política à primazia do pensamento sobre a ação.
  • Apesar da análise histórica de Hannah Arendt acerca das faculdades de pensar e querer, o caminho aberto por Heidegger exige questionar mais radicalmente a suposição de que a vontade seja simplesmente uma faculdade do sujeito, admitindo a possibilidade de que a própria subjetividade seja derivada de uma estrutura mais originária da vontade.
    • Inversão da relação entre sujeito e vontade.
    • Hipótese de que o sujeito é constituído por um modo voluntarioso de ser-no-mundo.
    • Crítica à ontologia que opõe sujeito e objeto.
    • Questionamento da representação e da ação volitiva como estruturas derivadas.
  • A direção desse questionamento encontra formulação explícita em Heidegger ao definir vontade não como faculdade da alma, mas como aquilo em que se funda a essência da alma, do espírito, da razão, do amor e da vida.
    • Citação de GA77:78.
    • Vontade como fundamento essencial e não como potência psíquica.
    • Superação da psicologização da vontade.
  • Heidegger mostra que o pensar representacional moderno já é uma forma de querer, afirmando que pensar é querer e querer é pensar, ao mesmo tempo em que procura um pensar que não seja vontade, sem reduzi-lo a passividade, mas articulando-o com habitar e construir.
    • Identidade entre pensar e querer na tradição.
    • Projeto de um pensar outro que o querer.
    • Referência a GA30:59 e GA33:61.
    • Distinção entre não-vontade e mera passividade.
  • A vontade pode ser compreendida como uma Grundstimmung, isto é, como uma afinação fundamental que precede a distinção entre sujeito e objeto e determina o modo de ser do Dasein.
    • Introdução da noção de afinação fundamental.
    • Vontade como tonalidade originária.
    • Relação interpretativa entre vontade e Grundstimmung.
  • A afinação fundamental, segundo Heidegger, não é efeito do pensar ou agir, mas condição prévia que determina o modo como o Dasein é, funcionando como meio no qual pensar e agir se tornam possíveis.
    • Citação de GA29-30:101 e GA9:110/87.
    • Afinação como pressuposto e não consequência.
    • Determinação do modo e maneira do ser.
  • A interpretação psicológica de sentimentos, afinações, vontade e pensamento como processos internos de um sujeito é criticada por Heidegger, que afirma ser a própria afinação que desloca o ser humano para determinadas compreensões do mundo e decisões de si.
    • Citação de GA45:161.
    • Crítica à antropologia psicológica.
    • Afinação como condição de compreensão e decisão.
  • Na análise de Nietzsche, Heidegger identifica a vontade como comando e como Grundstimmung de superioridade, explicitando que a vontade pode ser nomeada diretamente como afinação fundamental.
    • Referência a GA6T1:N1 651/152.
    • Vontade como comando.
    • Afinação fundamental de superioridade.
  • A entrada no sentido heideggeriano de vontade exige concebê-la como afinação fundamental anterior à estrutura sujeito-objeto, o que implica reconhecer que a própria linguagem das faculdades depende de uma tonalidade voluntariosa prévia.
    • Prioridade ontológica da afinação sobre o sujeito.
    • Dependência da gramática das faculdades em relação à vontade.
    • Crítica à ontologia representacional.
  • A afinação fundamental da vontade abre um mundo antes da distinção entre quem é aberto e aquilo que se abre, determinando uma ontologia na qual a abertura se contrai em representação e manipulação de objetos disponíveis.
    • Mundo sempre já aberto por uma afinação.
    • Transformação da abertura em representação.
    • Redução dos entes a materiais manipuláveis.
  • Para o Heidegger tardio, a vontade designa ainda o próprio ser dos entes na época moderna, não apenas a disposição dominadora do sujeito, mas o modo como o ser se envia historicamente como vontade.
    • Citação de WhD 35/91.
    • Vontade como ser do ente no todo.
    • Caracterização da modernidade como época da vontade.
  • A Grundstimmung histórica do homem é determinada por um envio do ser que se dá como concessão e retraimento, e na época moderna manifesta-se como extrema auto-ocultação do ser que abandona o homem à desafinação da vontade.
    • Noção de Seinsgeschick.
    • Jogo de desvelamento e ocultamento.
    • Auto-retenção do ser na modernidade.
  • A passagem para uma afinação própria da não-vontade só pode ocorrer mediante uma viragem no envio do ser, exigindo repensar a participação humana nesse envio para além da gramática sujeito-predicado e da oposição entre agente ativo e receptor passivo.
    • Necessidade de uma viragem no envio do ser.
    • Questão da espera, preparação e correspondência.
    • Referência ao duplo genitivo no pensar do ser.
    • Superação da dicotomia atividade/passividade.
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