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estudos:davis:liberdade-responsabilidade-2007

LIBERDADE E RESPONSABILIDADE (2007)

DAVIS, Bret W. Heidegger and the will: on the way to Gelassenheit. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2007.

  • Cada Da-sein permanece situado na potencialidade de comportar-se de modo mau em relação ao que encontra, independentemente de tal potencialidade ser ou não explicitamente atualizada.
    • Potencialidade-to-be-evil (Böse-sein-können) como traço essencial.
    • Relação com o que se encontra como campo de exercício possível do mal.
    • Atualização expressa como contingente diante da possibilidade sempre disponível.
  • A possibilidade e a efetividade do mal introduzem uma transformação na própria pergunta pelo ser.
    • Mal como operador de deslocamento do horizonte da ontologia.
    • Possibilidade e atualidade como eixos que reconfiguram a questão.
    • Ser interrogado sob a pressão do problema do mal.
  • O Unwesen do Seyn é nomeado como mal e como vontade.
    • Das Unwesen des Seyns associado ao Böse.
    • Vontade indicada como figura do mal.
    • Identificação enigmática entre mal e vontade.
  • Nas conversas de 1963 com o psiquiatra Menard Boss, o ser humano é descrito sob o vocabulário do Dasein inicial e o Böse-sein-können aparece como Wesenszug, enquanto Boss registra a malícia contra os semelhantes como potencialidade inerente ao Da-sein e a trata como Existencial.
    • Menard Boss e o retorno a termos da analítica existencial.
    • Malícia para com o próximo como potencialidade do Da-sein.
    • Potencialidade de ser mau como característica essencial (Wesenszug).
    • “Existentials” como moldura empregada por Boss.
  • A questão do ser é compelida a confrontar a potencialidade humana ineradicável de ser mau, mesmo sob limites do vocabulário de “Existenciais” diante do pensamento historial do ser.
    • Potencialidade de ser mau como fato incontornável.
    • Ineradicabilidade como elemento que exige elaboração ontológica.
    • Tensões entre linguagem existencial e orientação ser-historial.
  • Na interpretação de 1936 da Freiheitsschrift de Schelling, a liberdade é pensada como decidibilidade entre bem e mal e como unidade do querer a essência e da deformação de essência, ao mesmo tempo em que a tentativa de incorporar liberdade e mal na Seynsfuge marca o ápice e o limite do idealismo exigindo um salto para outro modo de pensar.
    • Schelling: liberdade como decidedness para bem e mal.
    • Unidade entre vontade de Wesen e Unwesen despertadas no humano.
    • “Acme” do idealismo como culminação e fronteira.
    • Necessidade de salto para além do idealismo.
  • Schelling é apresentado como “encalhado” e reconduzido à tradição rígida do pensamento ocidental por não ter pensado o mal fora da onto-teologia da teodiceia e de sua reiteração filosófica na sistemadiceia do idealismo.
    • Stranding da filosofia de Schelling apesar da radicalidade.
    • Retorno à tradição sem transformação criadora.
    • Teodiceia e sistemadiceia como molduras conciliatórias.
    • Limite onto-teológico na abordagem do mal.
  • A realidade do mal abre uma fenda no sistema e a tentação de salvá-lo pela concepção do mal como nada é reconhecida, mas a solução de subordinar o sistema à “vida” de Deus reinstaura uma unidade superior que reconcilia “fundamento” e “existência”, retrocedendo da sistemadiceia para a teodiceia.
    • Tentação de conceber o mal como não-positivo para salvar o sistema.
    • Sistema cindido pela realidade do mal.
    • Deus como vida acima do sistema do entendimento.
    • Reconciliação de ground e existence como função teodiceica.
  • O mal é tornado metafisicamente necessário para a autorrevelação do Absoluto ao exigir sua efetividade na reconciliação, sob a predominância inicial da vontade de amor sobre a vontade do fundamento, configurando uma “decidibilidade eterna” em que o excesso dissonante do mal é subordinado ao telos do amor.
    • Mal como condição de reconciliação no Absoluto.
    • Vontade de amor predominante sobre vontade do ground.
    • Amor de Deus por si como essência do ser em geral.
    • “Evil is metaphysically necessary” como tese estruturante.
  • A necessidade de um passo essencial rumo ao pensamento da finitude do ser é colocada como aquilo que não foi realizado, ao passo que uma fuga do ser sem garantias de reconciliação final enraíza bem e mal numa discórdia ineradicável na finitude do próprio ser e convoca o humano a assumir o privilégio e a dor de estar no Da de Sein.
    • Finitude do ser como eixo da ruptura com teodiceia e ontodiceia.
    • Ausência de garantia de reconciliação de bem e mal.
    • Strife ineradicável como fundo ontológico.
    • Da de Sein como lugar de assunção humana.
  • A ligação tradicional entre mal e negatividade conduz à tese de que a pergunta pelo ser envolve simultaneamente a pergunta pelo não e pela nadidade, mas a tradição onto-teológica reduz o mal a privatio boni e a negatividade a falta de ser, permitindo a resolução do excesso por retorno à plenitude do bem.
    • Mal e liberdade associados ao ser do não-existente.
    • Privatio boni como leitura clássica do mal.
    • Negatividade entendida como carência e não como força originária.
    • Retorno à bondade essencial como dissolução do excesso.
  • A negatividade é afirmada como tremendum no próprio Wesen do ser, assumindo uma ambivalência em que pode ocorrer como deixar-ser harmonioso por concessão-em-retração ou como fúria de abandono em desencadeamento, de modo que o Unwesen do mal torna-se excesso dissonante originário do próprio essenciar do ser e torna ineradicável a possibilidade do mal.
    • “Nothing” como elemento tremendo no ser.
    • Ambivalência entre harmonia do conceder-em-retração e fúria do abandono.
    • Mal como excesso dissonante originário e não como privação.
    • Possibilidade do mal inscrita na finitude do ser.
  • A frase datada de 8 de maio de 1945, no diálogo do campo de prisioneiros na Rússia em GA77, associa a reflexão sobre Gelassenheit a uma consideração rara do problema do mal, sob o pano de fundo de devastação inédita e de filhos desaparecidos no фронт russo.
    • Diálogo: “Evening Conversation in a Prisoner of War Camp in Russia”.
    • Data no fim da guerra e contexto de devastação sistemática.
    • Relação temporal com a conversa sobre Gelassenheit de abril de 1945.
    • Mal como tema explicitamente enfrentado em raro registro.
  • Uma experiência matinal de “algo salutar” introduz a espera pura como “deixar-vir” do que cura, mas a conversa se volta primeiro para a Verwüstung secular culminando na destruição da guerra e para a sugestão de que essa devastação e a Vernichtung do Wesen humano são, de algum modo, das Böse.
    • Algo Heilsames como acontecimento inicial.
    • Espera e letting come do Heilende.
    • Devastação histórica da terra como processo.
    • Negação da essência humana associada ao mal.
  • A recusa de reduzir o mal a “maldade moral” e a exigência de pensá-lo como Bösartige conduzem à hipótese de que a vontade em geral pode ser o mal, deslocando o foco de indignação moral para uma estrutura mais profunda e insinuando a genealogia nietzschiana da moral como possível “prole monstruosa” do mal.
    • Distinção entre moral badness e malice (Bösartige).
    • Hipótese: vontade como o mal.
    • Moral indignation como insuficiente.
    • Alusão à genealogia de Nietzsche.
  • A rejeição nietzschiana do além de bem e mal é contestada pela tese de que, se a vontade é o mal, o domínio da vontade de poder é menos que nunca um “além”, e a própria ideia de um além do mal torna-se duvidosa.
    • Nietzsche e o “beyond good and evil”.
    • Vontade de poder recolocada no interior do problema do mal.
    • Impossibilidade ou rarefação de um “além do mal”.
    • Relação entre vontade, poder e malícia.
  • A possibilidade de que a malícia permaneça Grundzug do próprio ser é aventada e recebida como demanda aparentemente desmedida ao pensamento, sendo rechaçada a exigência de facilidade por ser considerada ela mesma enraizada no espírito da devastação.
    • Malice como traço fundamental do ser.
    • Resistência à ideia de ser bösartig no fundamento.
    • Recusa de leitura avaliativa como “pessimismo”.
    • Facilidade exigida como sintoma da devastação.
  • A “Carta sobre o humanismo” inscreve o aparecimento do mal na clareira do ser junto com o surgimento do curativo, define o mal como malícia da cólera e afirma que curar e colerar só podem ocorrer essencialmente porque o ser mesmo é o que está em luta.
    • Heilens e aparecimento do mal na clareira.
    • Essência do mal como rage e não como simples ação ruim.
    • Strittige como caráter do próprio ser.
    • Origem do negar em proveniência essencial no ser.
  • A concessão do ser é descrita como capaz de elevar à graça e de compelir ao desastre, reativando a proximidade com Schelling quanto à duplicidade de amor e ira, e abrindo a questão sobre se haveria uma triunfante ascensão à graça que justificaria o escurecimento do mundo sob um horizonte de nova aurora após o Untergang do Abendland.
    • Graça e Unheil como destinações possíveis.
    • Paralelo com Schelling: vontade de amor e vontade de ira.
    • “World’s darkening” e “light of being” como contraste.
    • Dawn e novo começo após o ocaso.
  • A suspeita de uma ontodiceia secreta e de uma egoidade oculta do ser, formulada por Jean-Luc Nancy, recoloca a dúvida sobre uma dialetização do mal em que a discórdia serviria para fazer aparecer a unidade, ao mesmo tempo em que se mantém a possibilidade de uma leitura em que o mal persiste como excesso dissonante não sublimável.
    • Jean-Luc Nancy: “secret, imperceptible ontodicy” e “secret egoity”.
    • Idealismo da liberdade em que o mal funda a liberdade.
    • Dialetização do mal como justificativa.
    • Alternativa: mal como excesso não sublável.
  • A ambivalência interpretativa entre harmonia final da fuga e assombro permanente do excesso dissonante conduz à via de pensar a negatividade e a finitude essenciais do ser, distinguindo a negatividade heideggeriana da positividade reconciliadora do idealismo e da redução nietzschiana a luta ôntica entre centros egocêntricos de vontade de poder.
    • Fuga harmonizadora versus excesso dissonante.
    • Distância crítica em relação a Hegel e Schelling.
    • Nietzsche como passo que desvela e ao mesmo tempo limita.
    • Strife entre Wesen e Unwesen como não sublativa.
  • A doação originária do ser é apresentada como radicalmente ambivalente, podendo curar por graça ou desencadear fúria maliciosa sem “decidibilidade eterna”, de modo que Seinlassen pode ocorrer como es gibt de Ereignis na harmonia do quádruplo ou como Loslassen do Ge-stell enquanto negativo fotográfico de Ereignis que abandona os entes à positividade da desocultação ilimitada e ao standing-reserve do will to will.
    • Ambivalência sem garantia final.
    • Ereignis e jogo especular do quádruplo.
    • Gestell como “photographic negative of Ereignis”.
    • Seinsverlassenheit como abandono aos entes e à tecnicidade.
  • A consonância de Ereignis com a negatividade própria do ser é afirmada contra o niilismo tecnológico porque o Wesen do ser é a generosidade do retraimento que deixa-ser, ao passo que a cólera do mal é excesso que se alimenta do ocultamento do ocultamento e do esquecimento do mistério.
    • Generosidade do retraimento como essência.
    • Raging como excesso dissonante.
    • Concealment of concealment como motor do mal.
    • Oblivion of the mystery como alimento do niilismo.
  • A recuperação frente ao niilismo exige acolher o noth-ing do ser e acomodar entre mortais a essência do nada em sua antiga afinidade com o ser, pois a nadidade não desaparece com a superação do niilismo e o perigo máximo reside na exacerbação do retraimento em abandono que produz a ilusão de pura positividade e desloca falsamente a negatividade para a subjetividade e para a maquinaria do will to will.
    • Noth-ing (das Nichtende) como via de saída do niilismo.
    • Negatividade como abertura do espaço livre do deixar-ser.
    • Exacerbação do retraimento como abandono.
    • Standing-reserve como efeito do esquecimento da retirada.
  • A finitude do ser não é reduzida a jogo indiferente de forças, mas convoca o humano à liberdade e à resposta-abilidade do Da-sein, colocando o “não” e o “sim” como formas essenciais no Da-sein requerido por beyng para corresponder ao jogo de revelar/encobrir.
    • Da-sein como requerido/usado por beyng.
    • “No” e “yes” como formas essenciais.
    • Cor-responder ao revelar/encobrir como tarefa.
    • Liberdade como resposta-abilidade finita.
  • Um limite inquietante surge quando o mal é tomado sobretudo como niilismo do Gestell e o Holocausto não recebe diferenciação essencial, permitindo a equivalência entre a indústria alimentícia motorizada e a produção de cadáveres nos campos, o que se mostra inadequado por não marcar a profundidade específica do mal radical.
    • Mal como culminância tecnológica.
    • Holocausto como exemplaridade tecnológica insuficiente.
    • Equivalência entre produção industrial de alimento e extermínio.
    • Inadequação por apagamento de diferença essencial.
  • O horror radical aparece como aniquilação singular da negatividade própria de um humano singular, isto é, como negação voluntariosa da interioridade do Outro que se dá em retração e cuja marca é o rosto no sentido de Levinas, excedendo a explicação tecnológica por envolver o olhar face a face que reconhece e ainda assim decide aniquilar.
    • Singularidade do mal para além do massivo.
    • Interioridade do Outro como presença-em-retração.
    • Rosto em Levinas como traço da retirada.
    • Face-to-face defacement como núcleo diabólico.
  • A vontade perversa de poder difere do will to will tecnológico por manter o reconhecimento do Outro precisamente para obter prazer diabólico na conquista da resistência e na visão da dor, excedendo o reducionismo do Outro a peça de máquina e expondo um abismo que não se explica tecnologicamente.
    • Wicked will to power como manutenção do reconhecimento.
    • Prazer diabólico como finalidade da aniquilação do Outro como Outro.
    • Diferença entre redução maquínica e crueldade face a face.
    • Mal como vontade que quer a aniquilação da alteridade.
  • A necessidade de recuar para pensar um ur-willing como raiz potencial tanto do will to will tecnológico quanto da vontade perversa de poder implica que um limite no pensamento do mal repercute como limite no pensamento da liberdade, recolocando a pergunta sobre que espaço resta para a liberdade humana na preparação de um salto para participação íntima no deixar-ser.
    • Ur-willing como raiz prévia das formas históricas de vontade.
    • Liberdade vinculada à responsabilidade diante do mal não tecnológico.
    • Limite na análise do mal como limite na liberdade.
    • Retorno à questão do espaço da liberdade no Da-sein.
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