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Temporalidade
DASTUR, Françoise. Husserl: des mathématiques à l’histoire. 1. éd ed. Paris: Presses Univ. de France, 1995.
Fenomenologia e temporalidade
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A fenomenologia percorre uma evolução desde as Investigações lógicas, onde se restringia à constituição de objetos ideais, até sua definição em 1901 como psicologia descritiva voltada à análise da estrutura intencional dos vividos, reduzindo-se então à imanência da consciência como esfera da evidência absoluta e deixando inacessível o domínio transcendente da natureza, o que leva à sua caracterização como domínio de pesquisas neutras sem decisão ontológica prévia
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a descoberta da redução fenomenológica remonta a 1905, registrada por Husserl no manuscrito de Seefeld, no Tirol
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essa descoberta representa a superação do cartesianismo, ao revelar que o cogitatum, e não apenas a cogitatio, pertence à esfera da evidência absoluta
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o objeto passa a ser compreendido como imanente ao sentido intencional, correlato objetivo do ato de consciência
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em 1913, nas Ideias diretrizes para uma fenomenologia pura, essa correlação é reformulada como a correlação fundamental entre noese e noema, tornando a fenomenologia uma ciência transcendental em sentido estrito
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o idealismo transcendental husserliano se apresenta como mais radical que o kantiano, conforme afirmado nas Meditações cartesianas, por não admitir realidade absoluta nem noumeno capaz de limitar externamente o poder constitutivo do sujeito
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a recusa da coisa em si como conceito absurdo, enunciada nas Ideias, conduz à identificação, nas Meditações cartesianas, entre ontologia e egologia, já que o ser se torna inteligível como Leistung, prestação do ego, confundindo-se o discurso sobre o ser com a autoexplicitação do ego
toda forma de transcendência constitui-se como sentido de ser no interior do ego, de modo que ser e consciência pertencem essencialmente um ao outro, formando o concreto uno e absoluto da subjetividade transcendental, fora da qual nada faz sentidoainda que nenhuma limitação externa, seja a veracidade divina, seja a realidade absoluta da coisa em si, possa restringir o poder constitutivo da subjetividade transcendental, Husserl reconhece a existência de limites internos a esse poder, admitindo o inconstituível e recusando à subjetividade o estatuto de princípio absoluto ou ponto arquimédico tal como concebido por Descartes-
a fenomenologia transcendental, embora possa ser vista como figura acabada da modernidade enquanto processo de elevação da subjetividade ao ser absoluto desde Descartes, é justamente o lugar onde emerge a ideia de que o sujeito chega sempre tarde demais, precedido pelo tempo e pelo outro sujeito, ambos sempre mais velhos que ele
o problema do tempo e o problema do outro configuram-se como problemas-limite de uma filosofia da subjetividade, na medida em que o conceito de sujeito foi formado, no limiar da modernidade, segundo o modelo da substância, como ser idêntico e autônomo-
Husserl define nas Ideias de 1913 o ser imanente da consciência como ser absoluto que não necessita de nenhuma outra coisa para existir, retomando a definição cartesiana de substância
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em manuscrito de 1924 sobre o idealismo transcendental, Husserl afirma que o ego transcendental, enquanto ser absoluto, não possui exterior, o que esclarece a caracterização heideggeriana, em Ser e tempo, do sujeito husserliano como sujeito sem mundo
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isso não implica, contudo, pura interioridade, pois já nas Ideias Husserl sustenta que o ego, embora entrelaçado a todos os seus vividos, não pode ser tratado como objeto de investigação separado nem possuir conteúdo explicitável, permanecendo indescritível, já que não se presta à pergunta quid sit mas à pergunta quomodo sit
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nos anos seguintes à publicação do primeiro livro das Ideias, Husserl abandona o modelo da substância e passa a compreender o ego puro como centro do fluxo dos vividos ou polo das afecções e ações, o que implica que o ego, por não ser realidade mundana e psicológica, só pode se constituir no e pelo tempo
Consciência e temporalidade
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O problema da constituição do ego, denominado por Husserl Urkonstitution, constituição primordial ou originária, coloca-se já no início de sua guinada idealista e transcendental, nas Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo, sendo 1905 tanto o ano da descoberta da redução fenomenológica quanto o ano das primeiras interrogações sobre o tempo e a intersubjetividade
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O tempo constitui, para a fenomenologia e para toda a filosofia, não um problema entre outros mas a dificuldade última, à qual Husserl alude nas Ideias de 1913 ao mencionar o enigma da consciência do tempo como o absoluto definitivo e verdadeiro sobre o qual se funda toda consciência de objeto
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A consciência constituinte já é ela mesma constituída, de modo que somente no nível da Urkonstitution se encontra o absoluto definitivo e verdadeiro, não sendo o absoluto transcendental resultante da redução fenomenológica a última palavra da fenomenologia
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Esse absoluto definitivo e verdadeiro identifica-se ao continuum temporal que liga necessariamente os vividos uns aos outros num mesmo fluxo
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Husserl depara-se aqui com o mesmo problema já enfrentado por Kant, o da relação íntima do sujeito com o tempo, mas concebe o sujeito não como forma lógica do Eu que acompanha as representações, e sim como unidade genética constituída no e pelo tempo, conforme as Meditações cartesianas — “o ego se constitui para si mesmo de certo modo na unidade de uma história”
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A análise fenomenológica do ego transcendental constitui a tarefa do fenomenólogo iniciante que parte de si mesmo, mas essa fenomenologia estática não dá acesso aos problemas genéticos, últimos quanto à constituição do próprio ego, exigindo a passagem a uma fenomenologia genética
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Já em 1905 esse nível último de investigação é atingido, o que impede considerar o tema genético como desenvolvimento tardio do pensamento husserliano
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A especificidade do questionamento fenomenológico nas Lições de 1905 consiste em pôr desde logo o tempo objetivo fora de circuito, interrogando-se apenas sobre o tempo imanente do curso da consciência, sendo dados fenomenológicos somente os vividos de tempo e não a realidade temporal visada neles
O ponto de partida da análise da consciência do tempo é a crítica da concepção brentaniana do tempo, à qual se dedica toda a primeira seção do curso, na qual Husserl descobre um núcleo fenomenológico consistente na compreensão do tempo como continuum-
O interesse fenomenológico da concepção de Brentano, ainda que permaneça mera explicação psicológica da origem do tempo, reside em ter pensado a associação originária entre passado e presente na consciência, isto é, a adjunção sem mediação de representações da memória às representações da percepção
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Brentano, ao compreender a unidade da consciência que abarca passado e presente como um dado imediato, permanece fiel aos fenômenos, tal como Bergson ao declarar que consciência significa antes de tudo memória e que uma consciência instantânea se confunde com a própria inconsciência — “Uma consciência que não conservasse nada de seu passado, que se esquecesse sem cessar de si mesma, pereceria e renasceria a cada instante — como definir de outro modo a inconsciência? Quando Leibniz dizia da matéria que é um 'espírito instantâneo', não a declarava, quer queira quer não, insensível? Toda consciência é, portanto, memória — conservação e acumulação do passado no presente”
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Brentano abandona o nível fenomenológico e recai no psicológico ao explicar que o passado imediato é retido na consciência do presente por intermédio da imaginação, faculdade que produziria duplos da sensação, fantasmas ou simulacros dotados da determinação temporal passado e capazes de se modificar continuamente à medida que novas sensações presentes chegam
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Husserl resume assim a tese de Brentano — “Assim a imaginação se mostra aqui, de modo específico, produtora. Estamos aqui diante do caso único em que ela cria um momento, em verdade novo, das representações, a saber, o momento temporal. Assim descobrimos no domínio da imaginação a origem das representações de tempo”
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Essa explicação psicológica, ao recorrer à faculdade do irreal porque a sensibilidade sozinha nada produz, sendo passividade pura que desaparece com o estímulo, resulta na negação da existência da percepção da sucessão e da mudança, de modo que a percepção da melodia como sucessão temporal não passaria de crença produzida pela imaginação
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A origem sensualista, empirista e materialista dessa teoria dos simulacros remete a Lucrécio, Condillac e Hume, sendo o alvo da crítica husserliana a Brentano o mesmo que localiza a origem das representações na imaginação e ao mesmo tempo postula sua irrealidade, em contraste com um idealismo, como o de Platão, que considera as ideias mais verdadeiras que o sensível
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Problemático nessa teoria é o devir continuamente irreal do presente real, tornando a vida, à exceção do instante presente, um sonho — concepção que só faz sentido se se considerar, como Descartes nos Princípios da filosofia, que a condição do ser finito que é o homem é estar à distância do ser que “não nos afeta”
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Brentano, fiel aos fenômenos ao reconhecer o caráter originário da extensão temporal da consciência, acaba por negar a realidade da sucessão, reinstalando a consciência na instantaneidade e recusando a ideia de um presente alargado que ultrapassasse o agora pontual, considerado desde Aristóteles como único real
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Husserl conclui sua crítica — “É também muito inquietante procurar dar o passado como um irreal, um inexistente. Um momento psíquico que se acrescenta não pode, contudo, fazer uma irrealidade, suprimir uma existência presente”
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A adjunção do fantasma teria em Brentano uma virtude irrealizante, recorrendo-se a uma terceira faculdade, a imaginação, somada à sensibilidade e ao entendimento, para dar conta da extensão temporal da intuição concebida desde o início como pontual
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A essa concepção Husserl opõe a realidade e a presença não pontual de um vivido que engloba unitariamente presente, passado e porvir, dirigindo a Brentano duas objeções — a de que a representação do tempo não é obra da imaginação, o que faria da consciência lugar de ligação entre real e irreal, posição contra a qual Husserl se insurge tanto quanto contra o mundus est fabula de Descartes e o mundo como representação de Schopenhauer; e a de que os predicados temporais não podem se somar aos demais predicados de uma coisa, pois o ser-passado não é predicado da coisa mas estrutura da consciência
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Para precisar essa segunda objeção, recorre-se ao exemplo de Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção, ao explicar o caráter intencional do passado, sem conservação fisiológica em traços cerebrais nem conservação psicológica no inconsciente — “Esta mesa porta traços de minha vida passada, nela inscrevi minhas iniciais, nela fiz manchas de tinta. Mas esses traços por si mesmos não remetem ao passado — eles são presentes; e, se neles encontro sinais de algum acontecimento 'anterior', é porque eu tenho, por outro lado, o sentido do passado, é porque eu porto em mim essa significação”
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Brentano não teria percebido que o tempo é uma forma e não um conteúdo, por não distinguir entre ato e conteúdo de consciência, reduzindo assim a sucessividade à simultaneidade e falhando em explicar a consciência do passado
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As duas objeções, embora aparentemente contraditórias, criticam duas posições opostas — uma que põe o tempo na consciência como mero produto da imaginação, fazendo dele uma ilusão transcendental, e outra que põe o tempo nas coisas como um de seus predicados, reduzindo a consciência à pura instantaneidade
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A esse divórcio clássico entre temporalidade e consciência Husserl propõe pôr fim, preocupação em certa medida semelhante à de Heidegger em Ser e tempo, que recusa considerar o Dasein como um ser-no-tempo e o tempo como dimensão cosmológica objetiva, pensando antes o Dasein como tempo
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Husserl, recusando a distinção kantiana entre dois modos de intuição e a oposição fenômeno-coisa em si, sustenta que toda consciência é consciência de realidade, não havendo outro mundo além do que aparece, de modo que não se trata de localizar o tempo na consciência mas de mostrar que a temporalidade das coisas é correlativa daquela mais fundamental e oculta da consciência
A estrutura fundamental da temporalidade
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Husserl critica com força, nas concepções clássicas da consciência, o dogma da instantaneidade da consciência, segundo o qual a percepção de um objeto temporal não comportaria em si mesma temporalidade, consagrando-se assim o divórcio entre temporalidade e consciência
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Pensar a intimidade do tempo e da consciência exige considerar a atividade perceptiva em seu momento nascente, e não em seu resultado, razão pela qual Husserl recorre não ao objeto espacial, dado de imediato como uno, mas à melodia, objeto eminentemente temporal cuja identidade se constitui no fluxo sonoro
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Contra a ideia de que a unidade da melodia seria construída pela memória, reduzindo a consciência ao som isolado pontualmente presente, Husserl opõe a intencionalidade de uma consciência que escapa ao encerramento no presente pontual, abarcando também o passado e o futuro próximos, sendo ao mesmo tempo impressional, retencional e protencional
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A retenção ou lembrança primária deve ser cuidadosamente distinguida da rememoração ou lembrança secundária, sendo aquela dimensão imediata e originária da própria consciência perceptiva, e a protenção pertence de modo igualmente originário à consciência perceptiva como antecipação do porvir próximo
Compreender o fenômeno da temporalidade exige, como Husserl sublinha, empreender uma análise mais profunda, que consiste em abandonar o nível da Erklärung, da explicação dos fatos, para se situar no nível da Aufklärung, da elucidação do fenômeno mesmo, que não é a recordação, mas a retenção do som em seu próprio desaparecimento-
Citação de Husserl — “Tomemos o som como pura dado hilético. Ele começa e cessa, e toda a unidade de sua duração, a unidade de todo o processo no qual ele começa e termina, 'cai' após seu fim no passado sempre mais distante. Nessa queda, eu o 'retenho' ainda, eu o tenho numa 'retenção', e enquanto ela se mantém, ele tem sua temporalidade própria, ele é o mesmo, sua duração é a mesma”
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Reter significa aqui manter firme o som em sua própria mudança, podendo-se dizer que a retenção é uma espécie de lembrança do presente e não uma rememoração do passado, distinção que Husserl manterá cuidadosamente entre lembrança primária ou retenção e lembrança secundária ou recordação
Para que apareça o fenômeno da retenção é preciso situar-se no nível do puro dado hilético, efetuando a epoché do transcendente, isto é, do percebido enquanto tal, como exprime Gérard Granel em seu comentário-
Citação de Gérard Granel — “O percebido é caracterizado pela identidade do objeto, atrás da qual desaparece a temporalidade da percepção. Para reencontrar a segunda, é preciso, pois, reduzir a primeira”
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As explicações psicológicas confundem a duração da percepção com a percepção da duração, ao passo que Husserl propõe uma espécie de revolução copernicana que consiste não tanto em pôr o tempo na consciência, como ainda faz Santo Agostinho ao definir o tempo como distensio animi, mas em pensar a consciência como temporalidade e o sujeito como origem do tempo
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Surge assim a noção de objetos temporais (Zeitobjekte), objetos que contêm em si a extensão temporal, exigindo situar-se na imanência da consciência, na naissance do objeto e não do lado do objeto já constituído
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Citação de Husserl — “Quando um som ressoa, minha apreensão objetivante pode fazer do som que dura ali e que ressoa seu objeto, sem contudo fazer seu objeto da duração do som ou do som em sua duração. É este, enquanto tal, que é um objeto temporal”
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A epoché não é o duvida cartesiana, mas neutralização da tese do mundo, sendo requerida porque o objeto espacial mundano se dá como sem origem e de um só golpe como mesmo, ainda que sua identidade tenha uma história, uma gênese, à maneira do que ocorre também em Hegel, para quem o começo é resultado
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A epoché não entrega a pura diversidade do sensível, mas uma continuidade dos conteúdos sensíveis, problema que Brentano resolvia recorrendo às coortes de simulacros para assegurar a sobrevivência da sensação, ao passo que Husserl lhe reprova não ter compreendido que o tempo é uma forma e não um conteúdo
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A solução husserliana, como sublinha Granel, consiste em fazer passar a forma para os conteúdos, revelando sob a intencionalidade objetivante doadora de sentido uma intencionalidade oculta, interna à própria hylè, denominada longitudinal em oposição à transversal
Husserl expõe no parágrafo 10 a continuidade de princípio do fenômeno de escoamento (Ablaufsphänomen), isto é, da multiplicidade dos modos de aparição do objeto-
Citação de Husserl — “Do fenômeno de escoamento, sabemos que é uma continuidade de mutações incessantes que forma uma unidade indivisível — indivisível em fragmentos que poderiam ser por si mesmos e indivisível em fases que poderiam ser por si mesmas, em pontos da continuidade”
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Husserl continua a falar de fases no plural por necessidade da linguagem, sendo essencial, como observa Granel, não conceder ser separado àquilo de que se fala, podendo-se falar de fases desde que consideradas apenas em sua solidariedade incessante
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Pensar a continuidade do descontínuo é possível pela noção de modo e modificação, entendida como o devir-outro do mesmo, a alteração (allôiosis) que Aristóteles considera um gênero do movimento
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Citação de Kant — “Porque essa intuição interior não fornece nenhuma figura, buscamos suprir essa falta por analogias e representamos a sucessão do tempo por uma linha que se prolonga ao infinito e cujas diversas partes constituem uma série que tem apenas uma dimensão, e concluímos das propriedades dessa linha todas as propriedades do tempo, com esta única exceção de que as partes da primeira são simultâneas, enquanto as do segundo são sempre sucessivas”
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Citação de Husserl — “Na prossecução contínua (dos modos de escoamento), encontramos então este fato notável — cada fase ulterior de escoamento é ela mesma uma continuidade e uma continuidade em crescimento contínuo, uma continuidade de passados”
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Como explica Granel, o novo instante não se soma a uma estrutura morta, mas abala todo o passado, reestruturando-o inteiramente a cada vez ao empurrá-lo um degrau mais fundo no passado que o presente vivo retém, dando-lhe assim sua espessura
Husserl explicita no início do parágrafo 11 a noção de impressão originária-
Citação de Husserl — “O ponto-fonte com o qual começa a 'produção' do objeto que dura é uma impressão originária. Essa consciência é apreendida numa mudança contínua — sem cessar o presente de seu 'em carne e osso' se transforma num passado; sem cessar um presente sempre novo substitui aquele que passou na modificação”
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O momento inicial é também origem do processo total, sendo retido de maintenant em maintenant, de modo que a retenção é essa intencionalidade longitudinal que visa em cada momento o ponto-fonte, ao passo que este é o momento em que já se dá a intencionalidade transversal do percebido
Retomando o que Husserl nomeia no parágrafo 6 o núcleo fenomenológico da concepção brentaniana do tempo, a saber a unidade da consciência que abarca presente e passado, afirma-se que a consciência, para ser temporal, deve escapar à instantaneidade, o que Brentano bem compreendeu, exigindo-se que a percepção envolva em si mesma a ausência do passado-
Citação de Husserl — “Cada presente atual da consciência está submetido à lei da modificação. Ele se transforma em retenção de retenção, e isso continuamente. Resulta daí, por consequência, um continuum ininterrupto da retenção, de tal modo que cada ponto ulterior é retenção para cada ponto anterior. E cada retenção já é um continuum. O som começa e 'ele' se prolonga continuamente. O presente de som se transforma em passado de som, a consciência impressional passa, escoando-se continuamente, em consciência retencional sempre nova”
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O conceito de modificação dá conta da continuidade essencial da duração, isto é, da passagem do presente ao passado, da impressão à retenção, passagem que se faz sob a forma de uma suite de esquisses, Abschattungsreihe, termo que designa tecnicamente a sombra projetada e o degradê
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O passado é retido sob forma de sombras que não se somam umas às outras num processo regressivo infinito, mas cada retenção é ela mesma modificação contínua que carrega em si, sob a forma de uma sucessão de degradês, a herança do passado, implicando não enfraquecimento mas remanejamento incessante das retenções mais antigas pelas mais novas
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Citação de Husserl — “Não de tal modo que simplesmente cada retenção anterior seja substituída por uma nova no sentido do comprimento do fluxo, ainda que continuamente. Cada retenção ulterior é antes, não simplesmente modificação contínua saída da impressão originária, mas modificação contínua das modificações anteriores incessantes do mesmo ponto inicial”
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Cada fase carrega em si todas as retenções precedentes das quais ela mesma é retenção, havendo solidariedade viva entre as fases enquanto sombras projetadas da renovação incessante do mesmo ponto inicial, as diferenciais de uma identidade temporal
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Husserl utiliza por duas vezes a imagem do cometa para falar da continuidade no afastamento, primeiro no parágrafo 11 e depois no início do parágrafo 14
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Citação de Husserl — “Esta apreensão-de-agora é como o núcleo diante de uma cauda de cometa de retenções”
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Citação de Husserl — “Caracterizamos a lembrança primária ou retenção por uma cauda de cometa, que se prende à percepção do momento”
Essa imagem permite compreender que a consciência do passado, a consciência retencional, não é uma re-presentação, um tornar-presente do que se ausenta — o que Husserl nomeará Vergegenwärtigen ou Re-präsentation —, mas uma dimensão imediata e originária da consciência, uma intencionalidade específica, título mesmo do parágrafo 12-
O passado não é um contendo (Inhalt) mas uma certa teor (Gehalt) da consciência, irredutível por essência à instantaneidade
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Citação de Husserl — “Mas já está claro, a partir dos desenvolvimentos precedentes, que os 'conteúdos' retencionais não são absolutamente conteúdos no sentido originário do termo (…) O som retencional não é um som presente, mas precisamente um som 'relembrado de modo primário' no presente — ele não se encontra realmente ali na consciência retencional. Mas o momento sonoro que pertence a esta não pode tampouco ser um outro som que ali se encontraria realmente, mesmo que fosse um som muito fraco de mesma qualidade (enquanto ressonância). Um som presente pode, é verdade, lembrar um som passado, apresentá-lo, dar dele uma imagem; mas isso já pressupõe uma outra representação do passado. A intuição do passado ela mesma não pode ser uma figuração por imagem. É uma consciência originária”
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Citação de Husserl — “Pertence bem à essência da intuição do tempo estar, em cada ponto de sua duração (do qual podemos fazer reflexivamente nosso objeto), consciência do que acabou de passar e não simplesmente consciência do instante presente daquilo que aparece como objetividade que dura”
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Não há, portanto, que se perguntar como uma consciência adquire a dimensão do passado, pois a dimensão temporal é um a priori da consciência, sendo impressão e retenção internas ao próprio presente vivo e não termos estranhos a associar por uma faculdade de idealização como a imaginação
É tempo de proceder a uma recapitulação de conjunto e de enunciar sucintamente os resultados a que essa análise da consciência temporal permitiu chegar, a saber, a dupla intencionalidade da consciência-
Sob a intencionalidade transversal, pela qual a consciência se dirige a um objeto transcendente, há uma intencionalidade longitudinal pela qual a consciência se visa a si mesma e constitui assim sua própria unidade por retenção e protenção
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Husserl reconhece que os conteúdos sensíveis ou hiléticos, aos quais a consciência objetivante dá a forma de um objeto, não estão, como acreditava Kant, em puro estado de dispersão, mas já possuem em si mesmos o momento unitário da forma, havendo sob a intencionalidade objetivante doadora de sentido uma intencionalidade oculta interna à própria hyle
O enigma da autoconstituição
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Ricœur afirma, no comentário que dedica às Lições de 1905 no terceiro tomo de Tempo e narrativa, que o verdadeiro sentido do empreendimento husserliano só aparece na terceira seção, dedicada ao percurso sistemático dos diferentes graus de constituição do tempo, retornando ao tempo objetivo posto fora de circuito desde a introdução
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Citação de Ricœur — “o verdadeiro sentido do empreendimento husserliano só aparece na terceira seção”
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O tempo imanente e o tempo objetivo são ambos tempos constituídos, contendo o primeiro as coisas transcendentes da experiência e o segundo as unidades imanentes como a melodia, o som isolado ou a fase pontual, denominados por Husserl objetos temporais
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Havendo concomitância, como Husserl afirma no parágrafo 33, entre o objeto transcendente e o objeto imanente, essa concomitância deve ser posta por uma terceira instância, distinguindo-se assim três níveis de constituição do tempo no parágrafo 34 — o nível empírico objetivo, o nível pré-empírico imanente e o nível absoluto constitutivo
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Nos dois primeiros níveis encontram-se processos que duram ou mudam, próprios das unidades constituídas, ao passo que no nível do próprio constituinte, como já anunciava a segunda seção, encontra-se apenas um fluxo contínuo de esboços, mudança sem estabilidade, faltando aqui todo objeto
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Assim como já Bergson, constata-se que não há, sob a mudança, coisas que mudam, nem suporte à mudança, sendo destituído de sentido querer encontrar algo que permaneça um instante inalterado no curso de uma duração
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A ascensão a esse nível do constituinte absoluto encontra enormes dificuldades, sobretudo a da linguagem adequada para falar dele, faltando os nomes, como Husserl afirma no parágrafo 36
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Sendo toda fala um logos ti kata tinos, um dizer algo de algo, e não havendo mais nada objetivável no fluxo, só se pode falar dele metaforicamente, mediante figuras de estilo e nomes emprestados do nível do constituído imanente
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Citação de Husserl — “Não podemos nos exprimir de outro modo senão dizendo — este fluxo é algo que assim nomeamos segundo o que está constituído, mas ele não é nada temporalmente 'objetivo'. É a subjetividade absoluta, e ela tem as propriedades absolutas de algo que é preciso designar metaforicamente como 'fluxo', algo que jorra 'agora', num ponto de atualidade, num ponto-fonte originário, etc.”
A questão difícil da unidade desse fluxo constituinte se coloca com ainda mais acuidade, pois Husserl afirma que é num único e mesmo fluxo de consciência que se constituem simultaneamente a unidade do objeto imanente e a do próprio fluxo de consciência, reconhecendo o caráter chocante e mesmo absurdo de dizer que o fluxo da consciência constitui sua própria unidade-
Há um olhar que se dirige através das fases de escoamento para o que está constituído, o objeto temporal imanente, e um olhar que se dirige para o próprio fluxo da consciência constituinte, havendo dupla intencionalidade da mesma retenção — a primeira, lembrança primária do som recém-sentido, constitutiva do objeto imanente som, e a segunda, intencionalidade constitutiva da unidade dessa lembrança primária no fluxo, retenção da retenção
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A Verflechtung, o entrelaçamento das duas intencionalidades, faz com que só possam ser separadas artificialmente para os fins da análise, havendo assim uma temporalidade fenomenal e imanente, a do objeto temporal, e uma temporalidade pré-fenomenal e pré-imanente que se autoconstitui
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Contrariando os princípios que guiaram toda a análise da consciência íntima do tempo, o constituinte aparece por si mesmo, havendo uma auto-aparição, eine Selbsterscheinung, do fluxo no próprio fluxo, sem exigir um segundo fluxo mais originário que evitaria a regressão ao infinito
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Retomando uma metáfora da introdução da Fenomenologia do espírito de Hegel, nada se passa nas costas da consciência constituinte última, tudo ocorrendo diante dela, o que implica um recobrimento do constituído e do constituinte
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O tempo é precisamente essa não coincidência ou não recobrimento total do constituinte e do constituído, do sujeito e do objeto, do eu e do mundo, do vidente e do visível, que Merleau-Ponty, apoiando-se em Bergson, denomina coincidência parcial
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Ao final do parágrafo 39, Husserl fala também da não identidade do constituinte e do constituído, havendo sempre um avanço, por mínimo que seja, do constituinte sobre o constituído, que por isso só pode aparecer no passado em relação à atualidade instantânea de um fluxo de consciência que é, em seu poder constituinte atual, o punctum caecum, o ponto cego da visão e o invisível de princípio de que fala também Merleau-Ponty
Resta perguntar se esse absoluto definitivo e verdadeiro que é o enigma da consciência do tempo é efetivamente alcançado nas Lições de 1905, podendo-se falar de certo fracasso dessas Lições-
A autoconstituição originária do fluxo só pode ser captada e vista na dimensão do sempre já advindo, de modo que o absoluto definitivo da constituição originária do eu por si mesmo só pode aparecer como sempre já finito, revelando a finitude originária de uma consciência que só constitui a essência do tempo porque já é ela mesma temporal
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Husserl vê-se assim obrigado a interrogar os limites internos do poder constituinte da consciência quando trata do tempo, pois o sujeito chega sempre tarde demais, sempre já precedido pelo outro — aqui o próprio tempo em seu fluxo infinito, ali, como se verá adiante, o alter ego, cuja constituição Husserl se esforça por pensar na quinta Meditação a partir da esfera primordial de pertença do ego monádico
Em 1905 Husserl já esbarrara nesse limite da fenomenologia que constitui o tempo em seu caráter inconstituível, o que o levará nos anos seguintes a desenvolver o projeto de uma fenomenologia transcendental cujas etapas essenciais são A ideia da fenomenologia de 1907 e as Ideias de 1913-
Nas Ideias, afastado o problema da constituição originária do eu, isto é, da identidade da subjetividade absoluta e do fluxo temporal, todo esse período é marcado pela preocupação de compreender a redução como neutralização da transcendência que conserva o que suspende
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A redução tem caráter dialético, suspendendo, por movimento semelhante ao da Aufhebung hegeliana, a oposição absoluta entre transcendência e imanência sem perder o que suspende, conservando-lhe o sentido e fazendo a transcendência entrar na imanência, alargando a esfera noética do ego à esfera noemática do objeto intencional
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Torna-se assim necessário alargar a redução, passando de seu sentido redutor ou privativo — a suspensão das transcendências — a seu sentido propriamente recondutor ou positivo — a reconduzão de toda transcendência e imanência constituída ao poder constitutivo de um ego transcendental que aparece como a esfera do ser absoluto
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Essa reconduzão do transcendente a uma esfera imanente alargada em esfera noético-noemática deixa intocado o enigma do tempo, não conseguindo o idealismo husserliano desse período superar o ponto de vista estático segundo o qual todo ser é ser-constituído
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O problema da constituição originária do próprio ego reaparecerá com nova força ao longo dos anos vinte, colocando-se em 1905 ainda em termos simples — ou o eu está fora do tempo e o constitui, não havendo temporalidade senão constituída, ou o eu está no tempo e sua atividade constitutiva é precedida por um fluxo temporal anônimo para o qual faltam os nomes
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A essa alternativa Husserl tenta escapar pela ideia de autoconstituição do fluxo, resposta apenas formal à exigência de unir consciência e tempo que comanda toda a investigação de 1905, o que explica que o problema reapareça após a elaboração da redução transcendental, não para invalidar seu novo sentido de neutralização, mas para retomar a investigação no interior dessa redução alargada
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A partir dos anos vinte impõe-se a necessidade de não permanecer numa concepção estática de um ego transcendental que neutralizaria toda gênese refundando-a sobre sua imanência intemporal, mas de pensar a vida noética do ego transcendental e chegar à ideia de uma gênese transcendental do próprio ego, que se constitui na unidade de uma história, como afirma a quarta Meditação cartesiana
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Já não se trata de descobrir a unidade estática de um tempo indizível que não escoa na realidade mutável do escoamento, mas de pensar a historicidade transcendental da própria consciência, palavra diante da qual Husserl não mais recuará nos anos trinta, fazendo-se a fenomenologia decisivamente genética ao tematizar a ideia inquietante de uma passividade da gênese e da síntese que precederia toda atividade constituinte do eu, conforme a quarta Meditação cartesiana
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Nesse horizonte aberto pela ideia de gênese passiva, que revoluciona a própria ideia de sujeito e leva Husserl, nos manuscritos desse período, a oscilar entre idealismo e existencialismo, reencontra-se a objeção do solipsismo, tornando-se necessário alargar a subjetividade no sentido de uma intersubjetividade transcendental, tema retomado por Husserl na quarta e na quinta Meditações cartesianas, ainda que se trate também aí da retomada, no horizonte de um idealismo alargado, de uma problemática muito antiga, igualmente surgida desde 1905
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