User Tools

Site Tools


estudos:dastur:heidegger:start

HEIDEGGER

DASTUR, Françoise. Heidegger et la question du temps. Paris: PUF, 1987.

  • Toda espécie de polêmica falha antecipadamente a compostura do pensamento, conforme observado em “Que se chama pensar?”, p. 86, não tendo este pequeno livro outra ambição senão a de fornecer, a quem deseja formar por si mesmo uma ideia do pensamento de Heidegger, certo número de pontos de referência destinados a guiar a leitura efetiva dos textos, sendo o fio condutor que se apresenta por assim dizer por si mesmo o da problemática que Heidegger jamais deixou de considerar como sua questão fundamental, a da relação entre o ser e o tempo
  • Toda a originalidade do pensamento de Heidegger reside na elucidação do sentido temporal daquilo que a tradição ocidental, desde seu início com Parmênides, Platão e Aristóteles, nomeou “ser”
    • Heidegger parte da simples constatação de que a ousia (o ser, ou antes a “entidade”) é compreendida pelos gregos como presença constante, não sendo o tempo, portanto, um caráter do que é, um critério a partir do qual se diferenciam as regiões do ser — o temporal opondo-se ao intemporal ou ao eterno —, mas sendo antes a própria ideia de ser pensada sob o horizonte do tempo e posta em relação com um modo determinado deste, o presente
    • Já em 1927, em Ser e tempo, sua obra maior, Heidegger propõe a tese da temporalidade do ser, que desacredita radicalmente a equivalência metafísica entre ser e eternidade
  • Não se trata, contudo, para Heidegger, de permanecer numa tese ontológica geral, mas ao contrário de prosseguir numa investigação ontológica “concreta”, sendo necessário elucidar o sentido temporal do ser partindo de um ser, ou antes de um ente determinado
    • Heidegger escolhe partir do ente que compreende o ser, isto é, daquele para quem apenas “há” ser — a saber o próprio homem, ao qual renuncia contudo a nomear “consciência” ou “sujeito” segundo as denominações de sua figura moderna, batizando-o intraduzivelmente com o nome de Dasein
    • O que define essencialmente o homem enquanto Dasein é a existência, isto é, o fato de estar fora de si, de ter uma estrutura extática, ao contrário do sujeito moderno fechado sobre si mesmo, sendo essa essencial abertura do ser do homem que Heidegger nomeia cura, ao término de uma análise existencial que é, contudo, apenas preliminar
  • Trata-se de trazer à luz o sentido propriamente temporal da existência enquanto modo de ser exclusivamente humano
    • O Dasein enquanto existente é finito, isto é, mortal, sendo um ser-para-a-morte, o que implica que a finitude não é um acidente de sua essência “imortal”, mas o próprio fundamento de sua existência
    • A temporalidade do Dasein não deve, por isso, ser compreendida como o estar-no-tempo de um sujeito por essência intemporal, mas como o desdobramento em três direções de uma mesma abertura
    • Embora Heidegger retenha da análise clássica do tempo sua tríplice estrutura, passado, presente e futuro não designam mais agoras que se sucedem na “linha” do tempo, mas modalidades co-originárias da existência, isto é, êxtases
    • Uma delas, o porvir, tem contudo um primado, sendo a partir do porvir, isto é, da antecipação da morte, que se desdobra o sentido próprio da temporalidade de um ser finito, chegando Heidegger assim à tese da finitude do tempo originário, que se opõe à tese clássica da infinidade do tempo da natureza
  • É então possível repetir a análise existencial preliminar evidenciando o sentido temporal das estruturas ou existenciais do Dasein que o caracterizam em sua cotidianidade, mas, para dar conta do enigma desta, isto é, da extensão temporal do Dasein entre o nascimento e a morte, é necessário compreender que a questão da coesão da existência só se coloca para quem vive na dispersão, e não para quem assume as possibilidades de fato de que herda, isto é, para quem é no sentido próprio historial, existindo como temporalidade finita
    • O Dasein preocupado, contudo, “conta” com o tempo e se compreende a si mesmo como existindo no tempo, sendo preciso explicar a gênese da ideia de tempo sucessivo e infinito a partir da temporalidade originária do Dasein
    • Esse tempo vulgar não está para o tempo originário como o tempo objetivo da natureza está para o tempo subjetivo da alma, tendo a problemática heideggeriana antes a virtude de fazer estourar a distinção sujeito-objeto
    • Só há ser e tempo na medida em que há Dasein, o que não significa de modo algum que ser e tempo sejam “produtos” de nosso entendimento, mas antes que com o Dasein, e de certo modo nele — na clareira do Da —, advém todo mundo e toda história
    • O conceito vulgar do tempo (vulgar não se opõe aqui a filosófico, mas caracteriza o aspecto público, divulgado do tempo) encontra sua origem num nivelamento do tempo originário, pelo qual este se vê menos identificado ao espaço, como queria Bergson, do que referido ao mundo da preocupação cotidiana e reduzido à pura subsistência de uma sucessão infinita de agoras, nascendo daí a ideia de um tempo infinito, sucessivo e irreversível
    • Essa representação vulgar do tempo tem, contudo, legitimidade própria, a do tempo público que corresponde efetivamente a um modo de ser do Dasein, a preocupação cotidiana, não sendo, porém, a partir do tempo público que se pode compreender o que é verdadeiramente o tempo, pois nele o sentido da temporalização sofre modificação fundamental: é a partir do presente, isto é, de um agora pontual, e não mais a partir do porvir, que se desdobram as demais dimensões temporais
  • A análise da temporalidade do Dasein e a evidenciação do caráter derivado da representação habitual do tempo não constituem, contudo, ainda a resposta à questão fundamental da temporalidade do ser
    • Seria necessário, para isso, mostrar como a compreensão do ser é tornada possível pela temporalidade extática do Dasein, em outros termos como se constitui a ideia de ser na multiplicidade de suas acepções a partir do tempo como “lugar”
    • Esse programa não foi cumprido em 1927, deixando Heidegger Ser e tempo inacabado, embora prosseguindo essa mesma problemática em seus cursos do mesmo período
    • A conferência de 1962 que retoma o programa da terceira seção não publicada da primeira parte de Ser e tempo, sob o título Tempo e ser, apresenta perspectiva inteiramente distinta sobre a temporalidade do ser daquela esboçada em 1927, sendo então sob o nome, igualmente intraduzível, de Ereignis que é pensada, para além de todas as distinções metafísicas, a coapropriação do tempo e do ser
estudos/dastur/heidegger/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1