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PENSAMENTO A VIR

DASTUR, Françoise. Heidegger et la pensée à venir. Paris: J. Vrin, 2011.

  • Heidegger, pouco antes de morrer, escolheu para suas obras completas a máxima “Caminhos – não obras”, indicando que seu pensamento não se reduz a teses e mantém caráter de percurso inacabado, mas que, apesar dos desvios, persiste em orientar-se para a questão do ser, tendo ele próprio falado, a partir dos anos trinta, do “tournant” de seu pensamento, que o fez passar do aprofundamento da metafísica tradicional a seu “ultrapassamento”.
  • O projeto de “repetição” da questão do ser orientou Heidegger até 1929, quando renunciou a concluir Ser e tempo, e o início dos anos trinta, marcado por seu engajamento político e pelo reitorado em Friburgo, também foi o de seu “tournant” filosófico, tendo o fracasso do reitorado e o retorno ao ensino revelado que o reenraizamento do saber em sua essência filosófica já não era possível nem desejável, surgindo então o tema do “ultrapassamento” da metafísica.
  • A questão colocada por Heidegger nesse período é “metafilosófica”, como indicam os títulos de suas conferências, mas, para ele, não se trata de uma reflexão historicista sobre a filosofia, e sim de vê-la como o cumprimento da existência humana, o que explica que, na época de Ser e tempo, seu intento não fosse “renverter” a metafísica, mas, seguindo Kant, dar-lhe o fundamento que lhe falta, a saber, a existência do homem e sua abertura ao ser.
  • Aprofundando a questão da relação entre ser e tempo, Heidegger criticou a “constituição onto-teo-lógica da metafísica”, que busca o fundamento do ente em outro ente, e evidenciou o caráter “verbal” ou “processual” do ser, preferindo o termo Ereignis para pensar a “copertinência” indissociável do homem e do ser, criticando a oposição tradicional entre ser e devir.
  • Do pensamento não mais metafísico, Heidegger diz que ele é menor e mais pobre que a filosofia, pois não se coloca no patamar de um pensamento da fundação e, em sua finitude, serve ao evento do ser, abrindo mão da estrutura onto-teo-lógica do discurso metafísico em favor de uma “fenomenologia do inaparente”, que não remete a nenhum “mundo de trás”, mas à inaparência que reside em todo aparecer.
  • O que Heidegger chama de “fim da filosofia” não significa seu aniquilamento, mas abre a possibilidade de uma apropriação mais autêntica do que esteve em questão desde seu início, e a “pensada por vir” não será mais filosofia, porque pensará mais originariamente que a metafísica, sendo essa a pensada mais originária que ele não cessou de preparar desde os anos trinta.
  • Os textos reunidos neste prefácio, elaborados ao longo de cerca de vinte anos, são dedicados, sob diferentes perspectivas e temáticas que se entrecruzam, à explicitação desse “tournant” que leva da questão da relação entre ser e tempo à pensada do Ereignis, abrindo assim para o que Heidegger chamou de “o outro pensamento”.
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