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Sonho e Existência
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Sonho e Existência
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Convém ater-se ao significado de ser homem, pois a experiência da decepção súbita mostra que o mundo pode tornar-se repentinamente estranho, fazendo perder todo ponto de apoio, o que o dizer comum exprime legitimamente por meio da imagem do “cair das nuvens”, não como metáfora arbitrária, mas como expressão originária enraizada na linguagem enquanto pátria espiritual comum.
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A linguagem não traduz estados interiores já dados, mas pensa e poetiza antecipadamente por todos, antes de qualquer pensamento ou poesia individuais, mostrando que a similitude poética brota das camadas mais profundas da existência.
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O cair experimentado na decepção não é físico nem mera analogia derivada do corpo, mas pertence à essência do próprio abalo existencial, no qual a harmonia com o mundo humano e material se rompe e a existência fica entregue a si mesma.
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Forma e conteúdo não estão separados nessa experiência, pois a perspectiva do cair e o espanto súbito permanecem unidos enquanto expressão da totalidade da existência atingida.
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As explicações biologizantes ou psicofisiológicas, que reduzem o cair a uma diminuição do tônus muscular, desfiguram a experiência humana ao isolar um aspecto e perder o sentido ontológico do fenômeno.
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A teoria da expressão de Ludwig Klages, embora mais profunda, ainda pressupõe que o espiritual se manifeste em formas espaciais derivadas da organização psicofísica, hipótese que não se sustenta ontologicamente.
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Segue-se a concepção do significado desenvolvida por Edmund Husserl e Martin Heidegger, segundo a qual termos como alto e baixo designam uma perspectiva geral de sentido que se estende igualmente pelas diversas esferas do ser.
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O cair e o elevar-se constituem direções fundamentais da existência, que assumem significados existenciais diversos conforme os existenciais ontológicos, como a espacialidade, o ser-lançado, a tonalidade afetiva e a compreensão.
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A decepção é astenizante porque a existência perde o solo, fica suspensa e, se não se liberta para o alto, acaba por vacilar, afundar e cair.
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Essa estrutura ontológica fundamental é o fundamento a partir do qual se constituem a linguagem, a imaginação poética e, sobretudo, o sonho.
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O problema da relação entre corpo e mente revela-se mal formulado quando colocado em termos metafísicos tradicionais, e só pode ser esclarecido ao nível da estrutura ontológica da existência.
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Cair e elevar-se não derivam de outras experiências, mas alcançam, do ponto de vista ontológico, o fundamento último da condição humana.
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Essa estrutura fundamenta também as representações religiosas, míticas e poéticas da ascensão do espírito e do peso do corpo, como na imagem de Friedrich Schiller sobre a transfiguração de Hércules.
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O “nós” que sobe na felicidade e cai na infelicidade não pode ser simplesmente identificado com o corpo individual, pois o sujeito da presença permanece ontologicamente problemático e oculto.
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Mito, poesia e sonho reconhecem que o sujeito da presença não se identifica com a forma corporal sensível, mas pode ser expresso por figuras que indiquem o subir e o cair.
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É nesse fundamento ontológico que se apoia o valor de verdade do mito, da religião e da poesia, bem como a eficácia de suas imagens do precipitar e do afundar.
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No exemplo de Eduard Mörike, a imagem do falcão fulminado exprime diretamente a queda existencial do sujeito, de modo que a similitude atinge imediatamente quem a lê.
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A passagem conduz naturalmente ao domínio do sonho, pois tudo o que foi dito pertence já à estrutura onírica da existência.
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A personificação dramática, característica do sonho, mostra como partes do próprio eu se destacam e se apresentam como figuras autônomas.
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O voar e o cair nos sonhos exprimem um traço essencial da presença, anterior à vontade consciente ou ao medo refletido.
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As figuras do rapace na poesia, no mito e no sonho manifestam esse elemento irrefletido e inconsciente que nos é familiar.
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Os sonhos de voo e queda não devem ser reduzidos a estímulos corporais ou a desejos sexuais, pois estes são apenas especificações secundárias de uma estrutura a priori mais originária.
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A compreensão psicológica do sonho exige a recondução das figuras às tendências existenciais correspondentes, sem perder de vista o tema fundamental da presença.
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Nos exemplos oníricos analisados, a alternância entre ascensão e queda exprime a pulsação da existência, sua sístole e diástole.
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Imagem e tonalidade afetiva não são separáveis, pois constituem conjuntamente a expressão de uma mesma fase existencial.
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Fases ascendentes e descendentes podem também manifestar-se por outras imagens, como cores, luz e escuridão.
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Em certos sonhos patológicos, a predominância do conteúdo emocional e a dissolução da forma corporal indicam perturbações profundas da estrutura existencial.
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A dissolução na pura subjetividade coincide com a perda do sentido da vida, ainda que persista a busca de um fundamento aparentemente objetivo.
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A análise revela que mesmo o dinamismo cósmico aparente encobre necessidades pessoais e relacionais fundamentais.
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Na antiguidade grega, as imagens oníricas de rapaces remetem a acontecimentos exteriores e ao destino da estirpe, não a processos subjetivos individuais.
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Sonho, acontecimento cósmico e significado cultual formam uma unidade indivisível, pois o sujeito último é a divindade.
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Não se distingue rigorosamente interior e exterior, mas noite e dia, terra e sol, proximidade e distância.
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Os sonhos pertencem à esfera noturna e ctônica, ligados às divindades e às almas dos mortos.
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Progressivamente, a interpretação dos sonhos passa do domínio da noite para o de Apolo, o deus luminoso.
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Com Petronius surge a afirmação de que cada um produz seus próprios sonhos, antecipando a modernidade.
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Essa virada marca o ressurgimento da hybris da individualidade e da pretensão de autonomia absoluta.
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Coloca-se então a questão de quem é esse quisque que sonha, problema ligado à distinção entre eu e fundamento universal.
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Diferenciações como eu e isso, eu e universo, inconsciente individual e coletivo exprimem essa tensão.
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A oposição entre opinião subjetiva e verdade objetiva remonta à distinção entre sonho e vigília.
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Para Heráclito, os despertos compartilham um mundo comum, enquanto os dormentes se voltam cada um para o seu próprio.
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O logos é o princípio que unifica e permite a comunicação e a verdade.
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Viver segundo o logos é estar desperto; viver segundo opiniões privadas é sonhar, mesmo em vigília.
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Em Hegel, somente a consciência do universal é consciência da verdade, enquanto a particularidade permanece no erro.
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A originalidade isolada e a particularidade subjetiva correspondem ao isolamento do pensamento em relação ao universal.
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Na prática terapêutica, o paciente é chamado a decidir entre permanecer em seu “teatro privado” ou despertar para o mundo comum mediado pelo outro.
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