estudos:daseinsanalyse:binswanger:freud-psiquiatria-clinica
Freud e a psiquiatria clínica
BWLB
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A Daseinsanalyse em relação à psicologia fenomenológica e à psicanálise existencial de Sartre
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A psicologia fenomenológica e a psicopatologia não constituem duas leituras complementares da realidade humana, mas dois modos de abordagem que só adquirem sentido pleno quando remetidos a uma reflexão explícita sobre a existência, uma vez que a primeira descreve o modo como a existência se anuncia, enquanto a segunda evidencia as formas pelas quais essa mesma existência se obscurece, se rompe ou se anula.
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A comparação com a psicanálise existencial de Jean-Paul Sartre mostra que a divergência fundamental não reside no objetivo de compreender o homem concreto, mas no ponto de partida metodológico a partir do qual se impõe a necessidade de ultrapassar a descrição fenomenológica.
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Em Sartre, a fenomenologia deve ser superada porque corre o risco de compreender em excesso, dissolvendo a singularidade da existência numa rede infinita de relações inteligíveis, enquanto em Binswanger a ruptura ocorre quando a compreensão psicológica encontra um limite que só pode ser ultrapassado por explicações naturalistas.
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A crítica de Sartre dirige-se a uma abstração que faz emergir a essência como instância separada da existência concreta, ao passo que Binswanger denuncia a abstração que fragmenta a totalidade humana ao isolar regiões da existência e entregá-las à explicação causal.
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A diferença entre ambas as abordagens revela dois horizontes filosóficos distintos, pois a análise existencial de Sartre interroga a liberdade a partir do que ela faz, enquanto a Daseinsanalyse interroga o ser humano a partir da unidade radical do seu modo de existir.
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A totalidade da existência humana e a crítica ao naturalismo
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A unidade do ser humano não pode ser concebida como síntese posterior de instâncias separadas, nem como hierarquia de níveis orgânico, psíquico e espiritual, mas deve ser pensada como unidade radical da existência enquanto ser-no-mundo.
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Essa concepção leva à recusa das imagens mitificadas da totalidade humana e das sínteses prudentes que apenas encobrem a fragmentação conceitual herdada da psicologia tradicional.
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A referência crítica às pesquisas biológicas de Jakob von Uexküll permite distinguir a Umwelt animal, determinada por um plano de construção fixo, da existência humana, caracterizada por uma abertura a múltiplas possibilidades de ser.
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A existência humana não está vinculada a um Bauplan biológico, pois sua essência reside na liberdade radical que projeta simultaneamente um mundo e um modo de ser de si mesma.
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Essa liberdade não é apenas condição de possibilidade do mundo humano, mas também fundamento da abertura à verdade e da possibilidade mesma da experiência patológica.
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Psicopatologia existencial, liberdade e verdade
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A psicopatologia existencial rompe com o determinismo e com o relativismo que marcaram a psiquiatria moderna desde o momento em que a loucura deixou de ser pensada no horizonte do bem e do mal absolutos.
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A doença mental não pode ser compreendida como simples perda da liberdade nem como variação psicológica relativa a uma norma estatística, mas como uma forma específica e coerente de exercício da liberdade.
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O universo patológico não constitui uma distorção secundária de um mundo objetivo dado, mas uma configuração existencial fundada em possibilidades assumidas pelo Dasein.
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A questão da verdade retorna nesse contexto não como adequação a uma realidade neutra, mas como abertura ou fechamento do ser humano à totalidade do ente.
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A análise existencial restitui à psicopatologia a possibilidade de pensar conjuntamente liberdade e verdade, sem reduzir a doença a um distúrbio funcional ou a uma simples mentalidade desviada.
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A vocação terapêutica da Daseinsanalyse
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A validade de uma teoria da doença mental não pode ser medida exclusivamente pela eficácia imediata dos meios terapêuticos de que dispõe.
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Confundir a compreensão da doença com os processos que a fazem desaparecer conduz a uma abstração ainda mais grave, pois elimina o doente enquanto existência concreta.
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A redução da patologia a distúrbios funcionais implica separar a doença do doente e transformá-lo em simples suporte de processos orgânicos ou psíquicos.
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A crítica às terapias de choque e às explicações baseadas exclusivamente em efeitos neurofisiológicos mostra que a compreensão da doença não pode ser deduzida dos mecanismos que a suprimem.
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A doença não é da mesma natureza que os processos que permitem sua remissão, pois estes operam sobre ela sem esgotar o seu sentido existencial.
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O encontro médico-paciente como fundamento da terapia
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A ação terapêutica encontra seu fundamento no caráter originariamente inter-humano da existência.
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O encontro entre médico e paciente não é uma relação técnica nem um serviço prestado a abstrações como saúde ou normalidade, mas um confronto entre duas existências concretas.
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A redução do paciente a um caso típico ou a um representante da espécie humana dissolve a singularidade do encontro terapêutico.
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O humanitarismo abstrato, fundado na compaixão pela humanidade em geral, encobre a fuga diante do confronto com a existência concreta do doente.
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A atitude médica tradicional, ao isolar o paciente a partir de seus déficits, estabelece um cordão sanitário conceitual que separa rigidamente o normal do patológico.
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Existenzerhellung e a clarificação existencial
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A Daseinsanalyse propõe substituir a reconciliação dialética entre história vivida e função vital por uma clarificação existencial do sentido.
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Os conteúdos vividos não são por si mesmos transparentes, pois não são a sua própria luz e não podem esclarecer a estrutura existencial que os torna possíveis.
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A ação psicoterapêutica deve partir da compreensão descritiva dos conteúdos para alcançar a análise das estruturas existenciais que neles se exprimem.
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A clarificação existencial não consiste em reconciliar oposições, mas em restituir ao vivido o seu sentido como expressão de um modo fundamental de existir.
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A Existenzerhellung é, assim, um movimento que vai do significado vivido à estrutura existencial que o sustenta.
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A relação entre passado, presente e futuro na terapia existencial
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A clarificação do passado não tem como finalidade reatualizá-lo, mas recolocá-lo em sua posição de anterioridade efetiva.
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O passado deve ser compreendido de modo a liberar o presente para a abertura do futuro.
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A experiência patológica manifesta uma confusão entre presença e ausência, na qual o passado invade o presente sob a forma de fantasias angustiantes.
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A terapia existencial visa restituir a temporalidade autêntica, permitindo que o passado se recolha como passado e o futuro se abra como possibilidade.
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O trabalho terapêutico não consiste em dar sentido ao presente por meio do passado, mas em permitir que o presente supere o passado em direção ao futuro.
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A especificidade do vínculo terapêutico na Daseinsanalyse
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Diferentemente da psicanálise freudiana, o médico não encarna uma figura do passado, mas se apresenta como abertura viva para o futuro.
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A relação terapêutica não é eficaz por reinstaurar relações arcaicas, mas por criar uma nova forma de coexistência inter-humana.
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O médico intervém como presença real, assumindo riscos no mundo do paciente, e não como personagem neutro ou espelho do passado.
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A eficácia terapêutica depende das possibilidades existenciais ainda abertas no paciente e da capacidade do médico de agir dentro dessas possibilidades.
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O encontro terapêutico constitui um novo Mitmenschensein, no qual se torna possível a transformação do modo de existir.
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A escolha final da Daseinsanalyse
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Ao final de sua reflexão sobre a terapia, a Daseinsanalyse se vê diante de uma escolha decisiva entre uma análise objetiva da expressão e uma filosofia metafísica do amor.
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A opção pela filosofia do amor implica a introdução de estruturas metafísicas que ultrapassam o horizonte inicial da analítica existencial.
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Essa escolha exige a postulação de um ser-no-mundo-para-além-do-mundo e de um nós ontológico que excede o Dasein individual.
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A alternativa consistiria em aprofundar a análise do fenômeno da expressão e do linguagem como mediações concretas do encontro humano.
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A opção de Binswanger pela filosofia do amor marca, assim, o ponto em que a Daseinsanalyse abandona seu horizonte inicial e assume plenamente sua orientação especulativa.
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