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TEETETO
OLIVEIRA, Cláudio. Do Tudo e do Todo. Rio de Janeiro: Circuito, 2015 (p. 86-88)
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A tentativa de distinguir pân e hólon no Teeteto surge no momento final do diálogo, quando, após o fracasso das definições anteriores de ciência, Theeteto propõe que a ciência é opinião verdadeira acompanhada de lógos, e Sócrates, ao desenvolver essa definição, introduz a distinção entre elementos sem lógos e compostos que têm lógos, o que conduz diretamente à questão da diferença entre hólon e pân.
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Sócrates, ao responder ao sonho de Theeteto com seu próprio sonho, afirma que os primeiros elementos de que nos constituímos não têm lógos e são incognoscíveis, enquanto os compostos formados a partir deles não só têm lógos como a ciência consistiria precisamente na sua apreensão, de modo que os elementos seriam sensíveis, mas não cognoscíveis, e os compostos seriam dizíveis e julgáveis com juízo verdadeiro, mas só cognoscíveis quando se apreende o lógos do que se diz e julga.
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O sonho de Sócrates antecipa a definição do estrangeiro de Eleia no Sofista, segundo a qual a essência do lógos é o entrelaçamento de nomes, de modo que um nome ainda não é um lógos, assim como um elemento ainda não é um composto, e do elemento tem-se apenas o nome, pois o nome, enquanto não é lógos, é apenas nome, mas, se o nome já é composição de sílabas e de sentido, então ele já é lógos e, portanto, já é ciência, o que coloca a questão de saber se há uma ciência do nome.
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A impossibilidade de dizer o elemento é a impossibilidade de dizer sem reunir e sem acrescentar algo outro ao mesmo, de modo que, se se diz apenas o mesmo, não se pode colocar nada junto a ele, e, por isso, ao elemento não devem ser acrescentadas nem mesmo as palavras “mesmo”, “aquele”, “cada um”, “apenas” ou “este”, pois elas são outras em relação àqueles aos quais são acrescentadas, e dizer o elemento é já dizê-lo outro e perdê-lo como mesmo e como elemento.
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O lógos, enquanto discurso, lança sempre o mesmo na dimensão do outro, de modo que não se pode falar do mesmo a partir dele mesmo, pois o lógos e o mesmo são excludentes, e, no entanto, o único mesmo é o lógos, que é o sempre produzir-se, do mesmo, algo outro, ou seja, a eterna perda do mesmo, de forma que a tautologia é, desde si mesma, heterologia, e do mesmo só se pode dizer que ele é outro.
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A mesmidade do elemento enquanto elemento e do logos enquanto logos não é nem uma mesmidade abstrata e vazia como a do igual ou do universal, nem a mesmidade-alteridade dialética da mediação, mas a mesmidade silenciosa, cega e abissal do impossível, que Heidegger descreve como o comum-pertencer entre homem e ser, atingido apenas como salto para dentro de um sem-fundo, como o súbito do retorno sem pontes a esse pertencer que, antes de tudo, concedeu um “um-para-o-outro de homem e ser”.
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O lógos é tão álogon quanto o próprio elemento, porque não se pode explicar o lógos pelos elementos nem o elemento pelo lógos, do mesmo modo que o fundamento é sem fundamento, e, como diz Heidegger, ser e fundamento são o mesmo, e, desde que ser acontece como fundamento, ele não tem ele mesmo fundamento algum, de modo que o ser “é” entre aspas, pois “ser” é um predicado da finitude e não pode ser dito de Deus, assim como do elemento não se pode dizer nem que ele é nem que não é, pois isso seria acrescentar a este a existência ou a não existência.
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O mito do mito ou a filosofia como mito em segundo grau é o âmbito em que se move a discussão, pois, se do elemento não é possível o lógos e o lógos também não pode dizer o lógos, do mito só é possível a filosofia como outro do mesmo, e, com esse passo, não se dá um passo, não se sai do lugar, que é o lugar do sem lugar do qual não se pode sair, e é por isso que os diálogos de Platão tantas vezes terminam com um mito, pois Platão sabe que o que espera a filosofia é o mito.
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O elemento é o impossível de ser dito que, no entanto, está dito como o não dito de todo dito, de modo que toda palavra é mito e verdadeira, e, no caso da palavra, fracassar é conseguir, e dizer a verdade é mentir, ou, como diz Heidegger, a essência da verdade é a não verdade, e o erro é o único modo de acertar, e, nesse sentido, o que importa é dizer bem dito, ou seja, poesia e retórica.
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Sócrates, porém, é desmedido e não reconhece a impossibilidade, querendo um lógos sem álogon, um possível sem impossível, um fundamento sem abismo e um composto sem elemento, de modo que, ao fim de sua análise no Teeteto, conclui que, se se deve julgar a partir dos elementos e compostos, deve-se afirmar que o gênero dos elementos tem um conhecimento muito mais claro e mais importante do que o do composto, e que quem afirma ser o composto cognoscível e incognoscível o elemento, quer queira quer não, joga ou brinca.
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Sócrates associa a geometria ao sonho e ao jogo, como se vê no Ménon, onde as opiniões verdadeiras surgem no escravo como um sonho, e, na República, onde a geometria e as ciências afins apenas sonham acerca do ser, enquanto a dialética, na vigília, tenta apreender o que cada coisa é, dando o lógos das suposições que a geometria deixa intocadas, de modo que a pergunta sobre como de elementos incognoscíveis pode surgir um composto cognoscível é a mesma pergunta sobre como de um princípio que não se sabe pode surgir uma ciência.
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O termo “hipótese” tem para Sócrates o sentido de “pretexto”, como base, fundamento ou princípio que preside aos atos e à vida, e, nesse sentido, o mundo é uma suposição e cada homem uma hipótese, pois se fundam através de uma posição já sempre composta sobre o abismo sem razão do nada, e não se pode buscar dessa composição uma razão, já que ela é ela mesma a razão como composição sobre a ausência de razão de tudo.
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O Parmênides do Parmênides, discípulo de Zenão, ensina a Sócrates o exercício de supor cada coisa, se ela é e se ela não é, para investigar o que se segue dessa suposição, e diz que o que se fará ali será jogar um jogo laborioso, de modo que a pragmatéia de Parmênides não se distingue da geometria de Theodoro, pois ambas jogam o jogo, e a relação entre filosofia e geometria deve ser revista, entendendo-se a anedota sobre a inscrição na Academia como indicando que a filosofia é geometria, a geometria é jogo e o jogo é filosofia.
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No Fédon, Sócrates prescreve a Simias que, sustentando-se na certeza da hipótese de que há algo belo mesmo segundo ele mesmo, e assim por diante, deve responder mantendo-se fiel a essa hipótese, e, se alguém se prender à hipótese ela mesma, deve mandá-lo passear, e, se dela mesma tiver que dar um lógos, deve supor outras hipóteses, aquela que parecer a melhor das de cima, o que mostra que a hipótese é um lógos suposto pelo qual se decide como o mais forte, e a verdade é uma posição.
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No Teeteto, Sócrates não vê nenhuma possibilidade de diferença ontológica entre elemento e composto, mas apenas ôntica, e, ao definir o composto ou como todos os elementos (pân) ou como uma ideia una gerada da composição deles (hólon), conclui que não se pode distingui-los, pois, se o composto não é senão todos os elementos, é necessário conhecer os elementos para conhecer o composto, e, se o composto é uma ideia una diferente dos elementos, não se pode conhecê-lo decompondo-o, e, portanto, o composto seria tão incognoscível quanto o elemento.
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Sócrates pergunta explicitamente a Theeteto se pân e hólon são a mesma coisa ou algo diferente, e, embora Theeteto responda que são algo diferente, acaba por concluir, no desenvolvimento da argumentação de Sócrates, que nada diferem, pois, ao identificar “todos os elementos” com “todas as partes” e pân com tà pánta, traz a discussão para o âmbito aritmético, onde pân é entendido como o número total, e, ao definir ambos como aquilo a que nada falta e como aquilo que tem partes, identifica ambos a “todas as partes”, reduzindo pân a hólon e deixando impensado o que seria pân em sentido próprio.
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No Teeteto, há apenas a descrição de hólon e um uso aritmético de pân como “soma”, mas Sócrates atribui também a hólon o sentido de soma na definição de lógos como percurso através dos elementos e do todo, mostrando que a soma também pode ser pensada como um modo de hólon, e, ao fim, todas as três tentativas de definição de lógos fracassam, assim como todas as três tentativas de definição da ciência, e o diálogo termina com Sócrates dizendo que tudo o que saiu foi vento e nada digno de cuidado, mas que eles se tornaram melhores por não crerem saber o que não sabem.
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