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estudos:cassin:unheimliche

Unheimliche

CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014

  • O termo das Unheimliche é introduzido como o antônimo substantivado de heimlich, remetendo a uma modalidade específica de angústia.
    • Ele pertence de modo estrutural ao vocabulário da psicanálise desde Freud.
    • A palavra alemã concentra uma densidade semântica considerada intraduzível.
    • As traduções atenuam ou perdem a referência ao Heim, ao lar, e à negação inscrita no prefixo un-.
  • As tentativas de tradução revelam a dificuldade conceitual do termo.
    • A tradução francesa inquiétante étrangeté elimina a dimensão do doméstico.
    • A tradução inglesa uncanny recorre a um campo semântico do saber e da capacidade.
    • Em ambos os casos, o jogo interno da língua alemã é parcialmente neutralizado.
  • Freud inicia sua análise a partir da oposição aparente entre heimlich e unheimlich.
    • Heimlich significa familiar, doméstico, confortável.
    • Unheimlich pareceria designar o estranho, o desconhecido, o não familiar.
    • Essa primeira oposição conduz a uma interpretação enganosa.
  • A tese central de Freud consiste em inverter essa oposição inicial.
    • O unheimlich não é aquilo que é simplesmente desconhecido.
    • Ele é aquilo que era conhecido desde sempre.
    • O inquietante nasce do retorno do familiar enquanto estranho.
  • A análise lexicográfica revela uma ambiguidade decisiva do termo heimlich.
    • Heimlich pode significar o familiar e o íntimo.
    • Mas pode também significar o oculto, o secreto, o escondido.
    • O termo coincide assim com seu contrário.
  • Essa coincidência semântica funda o conceito do Unheimliche.
    • O inquietante é aquilo que deveria permanecer oculto.
    • Ele surge quando o que estava escondido vem à luz.
    • O unheimlich não é o novo, mas o desvelamento do recalcado.
  • A definição de Schelling explicita essa estrutura.
    • Unheimlich é tudo aquilo que deveria permanecer no segredo e no ocultamento.
    • Ele designa o surgimento do que estava destinado à latência.
    • O inquietante nasce do rompimento da ordem do oculto.
  • O contexto filosófico dessa definição remete à figura de Nemesis.
    • Nemesis é um princípio inquietante situado acima da lei positiva.
    • Ela representa uma potência anterior ou exterior ao nomos.
    • Sua função é forçar à manifestação aquilo que se queria esconder.
  • Nemesis opera como princípio de revelação forçada.
    • Nada pode permanecer definitivamente oculto.
    • O que está escondido é conduzido à aparição.
    • Essa revelação tem um caráter moral e inquietante.
  • A referência a Píndaro confirma essa superioridade paradoxal.
    • Nemesis é dita mais justa que a justiça.
    • Ela ultrapassa a justiça legal e instituída.
    • O inquietante está ligado a uma justiça que excede a norma.
  • Freud traduz esse movimento em termos psicanalíticos.
    • O unheimlich é o retorno do recalcado.
    • Algo reprimido reaparece sob forma deformada.
    • A angústia nasce dessa reaparição.
  • O unheimlich é, assim, um tipo específico de angústia.
    • Não é a angústia diante do desconhecido.
    • É a angústia diante do excessivamente conhecido.
    • O familiar retorna como estranho.
  • A repressão é a mediação fundamental desse processo.
    • O conteúdo era originariamente familiar.
    • Ele se torna estranho apenas por ter sido recalcado.
    • O unheimlich é efeito da repressão, não de uma alteridade radical.
  • Essa estrutura explica os exemplos literários e existenciais.
    • O retorno de complexos infantis recalcados.
    • A confirmação de crenças primitivas supostamente superadas.
    • A repetição involuntária que simula a fatalidade.
  • O unheimlich revela uma falha constitutiva da subjetividade moderna.
    • O sujeito descobre que não está em casa em si mesmo.
    • A interioridade deixa de ser um espaço seguro.
    • O lar psíquico torna-se estranho.
  • O inquietante manifesta, assim, uma cisão interna do sujeito.
    • O eu não coincide consigo mesmo.
    • O que é próprio aparece como alheio.
    • A angústia nasce dessa não-coincidência.
  • Das Unheimliche nomeia, em última instância, uma experiência-limite da modernidade.
    • A perda da familiaridade consigo mesmo.
    • A revelação do oculto no coração do íntimo.
    • A angústia como índice de uma verdade que se impõe contra a vontade do sujeito.
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