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estudos:cassin:thymos

thymos

CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014

  • Efeito metodológico da obra de Onians sobre a tradução dos textos antigos
    • A leitura de Onians impõe uma retradução sistemática de Homero e dos trágicos.
    • Traduções consagradas tornam-se inadequadas ao apagar o sentido corporal dos termos.
    • O clamor das Erínias em Ésquilo não pede audição, mas inspiração de sopro vital.
    • A inadequação não é pontual, mas estrutural, afetando o léxico fundamental da psicologia antiga.
    • Algumas traduções revelam-se não apenas incorretas, mas impossíveis.
  • Princípio metodológico não metafísico
    • A abordagem de Onians rejeita a leitura metafísica dos termos relativos ao espírito e à alma.
    • Conceitos como espírito, alma, mundo, tempo e destino são reconduzidos ao corpo.
    • Não há separação entre pensamento e extensão corpórea.
    • Emoções e pensamentos estão enraizados em processos fisiológicos.
    • O corpo homérico não coincide com o corpo moderno.
    • Os heróis homéricos possuem órgãos e funções diferentes dos nossos.
  • Consequências hermenêuticas da diferença corporal
    • A distância entre os corpos implica uma distância conceitual.
    • O vocabulário psicológico antigo não pode ser simplesmente transposto.
    • O mundo homérico pode iluminar o nosso, mas não se identifica com ele.
    • Permanecem em nossas expressões traços fossilizados dessas concepções antigas.
  • Investigação da sede da consciência
    • Onians procede por etimologia e cruzamento de ocorrências textuais.
    • O objetivo é localizar corporalmente a consciência.
    • A consciência não é um ponto abstrato, mas um conjunto de processos orgânicos.
  • Thymos como princípio central da vida psíquica
    • Thymos designa primariamente o princípio espiritual do homem.
    • Trata-se de algo vaporoso, um sopro quente.
    • É alimentado pela fermentação do sangue.
    • Constitui uma alma-sangue.
    • Está associado à coragem, ao ardor, ao ímpeto combativo.
    • É destruído pela morte.
  • Relações etimológicas e semânticas do thymos
    • Onians associa thymos ao verbo que significa fumegar.
    • Outras análises o ligam ao ímpeto violento, como o vento.
    • A relação com o sacrifício queimado reforça a imagem do vapor quente.
    • O thymos é intrinsecamente térmico e dinâmico.
  • Localização orgânica do thymos
    • O thymos está contido nas phrenes e nas prapides.
    • Esses termos não designam o diafragma nem o pericárdio no sentido moderno.
    • Referem-se aos pulmões, órgãos espessos, densos e esponjosos.
    • A respiração é central na economia psíquica homérica.
    • A destruição dos pulmões implica a destruição do thymos.
  • Êtor como centro funcional complementar
    • Êtor situa-se nas phrenes.
    • Está ligado a órgãos que podem ser o coração ou o estômago.
    • É responsável pela respiração, pulsação e batimento cardíaco.
    • Reage às emoções.
    • Pode rir e ser interpelado no discurso interior.
    • Funciona como interlocutor interno do sujeito.
  • Distinção fundamental entre thymos e psyche
    • Thymos e êtor diferem radicalmente da psyche.
    • Psyche designa o sopro vital enquanto respiração fria.
    • Constitui uma alma-sopro, distinta da alma-sangue.
    • Está localizada na cabeça.
    • É especialmente associada à morte.
  • Psyche como princípio pós-morte
    • A psyche abandona o corpo como um sopro ou fumaça.
    • Voa como inseto, morcego ou sonho.
    • Desce ao Hades.
    • Subsiste como eidôlon, preservando a forma.
    • É também designada como skia, sombra.
    • A psyche é uma imagem residual, não uma consciência plena.
  • Noos ou noûs como corrente de consciência
    • Noos ou noûs está no interior do thymos.
    • Não é órgão, mas fluxo.
    • Define o thymos como a corrente define o ar ou a água.
    • É menos material que as phrenes.
    • Percebe pelos sentidos.
    • Ver e ouvir são funções do noûs.
    • Todo o resto é surdo e cego sem ele.
  • Indistinções e opacidades do mundo homérico
    • Órgãos e funções confundem-se para o leitor moderno.
    • As distinções mentais não coincidem com as nossas.
    • O mundo homérico não pode ser reconstruído como sistema coerente moderno.
    • Ele permanece estruturalmente outro.
  • Reconfiguração filosófica a partir de Platão
    • Platão e Aristóteles hierarquizam e unificam essas potências.
    • As potências tornam-se dynameis.
    • Todas passam a pertencer à psyche.
    • A psyche torna-se termo genérico.
    • Thymos e noûs são integrados e subordinados.
  • Tripartição platônica da psyche
    • A psyche é dividida em três partes.
    • A parte racional decide.
    • Está localizada na cabeça.
    • Corresponde aos governantes e filósofos.
    • A parte irascível fornece auxílio.
    • Está no tórax.
    • Corresponde aos guerreiros.
    • A parte desejante nutre e produz.
    • Está no baixo-ventre.
    • Corresponde aos produtores.
  • Correspondência ética e política
    • Cada parte possui sua virtude própria.
    • A parte racional é sábia.
    • A parte irascível é corajosa.
    • A parte desejante é temperante.
    • A justiça consiste em cada parte permanecer em seu lugar.
    • O corpo torna-se diagrama ético-político.
  • Reinterpretação aristotélica e naturalista
    • Aristóteles define a alma como algo corporal.
    • A alma não é corpo, mas pertence ao corpo.
    • Cada corpo possui uma alma correspondente ao seu gênero.
    • Nem todas as faculdades estão presentes em todos os seres vivos.
  • Hierarquia das faculdades vitais
    • As plantas possuem apenas a faculdade nutritiva.
    • Alguns animais possuem também a faculdade sensível.
    • O tato introduz o apetite.
    • O apetite inclui desejo, ardor e vontade.
    • Alguns animais possuem movimento local.
    • Pouquíssimos possuem a faculdade pensante.
  • Singularidade humana
    • O homem possui dianoia e logos.
    • A faculdade teórica permanece problemática.
    • A racionalidade não apaga a herança corporal.
    • A distância entre herói e animal racional é profunda.
  • Conclusão histórica
    • A distância entre os gregos é tão grande quanto a distância entre eles e nós.
    • A psicologia antiga não é uma versão primitiva da moderna.
    • Ela constitui um outro mundo corporal e conceitual.
    • A herança filosófica reconfigura e obscurece essa alteridade.
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