estudos:cassin:kosmos
“Ordem para a cidade”: o sentido de kosmos
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
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Amplitude semântica originária de kosmos
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O termo kosmos pode ser compreendido como articulação de ordem e beleza.
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Sua proximidade com a noção moderna de estrutura indica organização interna, não simples arranjo externo.
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Desde Homero, kosmos designa simultaneamente ordenação, ornamento e mundo.
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Não há dissociação entre dimensão estética, prática e ontológica.
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Kosmos como ornamento e mundo feminino em Homero
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A toilette de Hera apresenta kosmos como conjunto ordenado de adornos.
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Ambrosia, óleos, perfumes, vestes e joias formam um todo coerente.
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O kosmos circunda o corpo e constitui o mundo próprio da deusa.
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A ordem é inseparável da sedução e do poder.
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O mundo feminino aparece como mundo de ornamento e de silêncio.
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A definição trágica do kosmos das mulheres como silêncio articula ordem social e estética.
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Kosmos como construção narrativa e técnica
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O pedido de Odisseu ao aedo para cantar o kosmos do cavalo de madeira não se refere a um simples episódio.
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Kosmos designa a fabricação, a técnica e a astúcia do artefato.
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O termo indica o encadeamento eficaz de meios e fins.
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Traduções modernas oscilam entre história, parte da narrativa e mudança de foco.
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Em jogo está o curso do mundo produzido por uma organização técnica.
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Kosmos e doxa em Parmênides
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A deusa apresenta um kosmos enganador no discurso.
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Esse kosmos articula ordem discursiva e ordem do mundo.
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A doxa dos mortais é uma adesão mental a esse arranjo.
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Diakosmos designa o arranjo total do mundo.
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A organização do discurso e a organização do real são coextensivas.
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O kosmos é simultaneamente estrutura do dizer e estrutura do aparecer.
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Definição normativa do kosmos em Górgias
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Górgias explicita o kosmos como forma ótima de organização.
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Cada domínio possui um kosmos próprio.
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A cidade tem como kosmos a excelência de seus homens.
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O corpo tem como kosmos a beleza.
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A alma tem como kosmos a sabedoria.
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A ação tem como kosmos a excelência.
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O discurso tem como kosmos a verdade.
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O contrário de kosmos é akosmia, desordem.
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O kosmos funciona como princípio normativo transversal.
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Kosmos em Heráclito: ordem medida do mundo
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A cosmologia heraclítica não elimina a dimensão estética.
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O kosmos não é produzido por deuses nem por homens.
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Ele é fogo sempre vivo.
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Esse fogo acende e se apaga segundo medidas precisas.
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A medida é condição da ordem.
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O mundo é simultaneamente elemento e proporção.
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O kosmos assim constituído é o mais belo.
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A beleza emerge da tensão e da composição.
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Equivalência entre mundo e ordem
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Em Platão, o mundo é dito belo porque ordenado.
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A bondade do demiurgo garante a beleza do kosmos.
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Kosmos e taxis tornam-se termos correlatos.
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Essa equivalência permite uma descrição física e matemática do universo.
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A ordem fundamenta a inteligibilidade do céu e dos astros.
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Kosmos e cálculo científico
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A identidade entre mundo e ordem possibilita a cosmologia matemática.
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As esferas celestes podem ser descritas quantitativamente.
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A harmonia pitagórica inscreve-se nesse horizonte.
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O kosmos torna-se objeto de ciência.
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A ordem não é apenas percebida, mas calculável.
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Kosmos como ornamento retórico e poético
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O termo mantém um uso retórico como ornamento do discurso.
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Uma palavra pode ser chamada kosmos enquanto adorno verbal.
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A escolha lexical participa da ordenação estética do dizer.
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O discurso bem organizado é belo e eficaz.
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A estética da linguagem prolonga a cosmologia.
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Pluralização do kosmos
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O termo admite facilmente o plural.
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Fala-se dos kosmoi das cidades.
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Cada cidade possui seus próprios princípios de organização.
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A amizade também é estruturada por kosmoi.
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A ordem não é única nem homogênea.
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Ela é relativa aos contextos e às comunidades.
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Dimensão política do kosmos
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O kosmos é princípio de organização da cidade.
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Ele regula comportamentos, funções e hierarquias.
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A ordem política é pensada por analogia com a ordem do mundo.
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A cidade é um microcosmo.
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A estética e a política permanecem ligadas.
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Unidade estética do kosmos grego
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O kosmos envolve sempre uma dimensão sensível.
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A ordem é percebida como bela.
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Não há oposição entre racionalidade e estética.
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A beleza é sinal de boa organização.
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A estrutura do mundo manifesta-se como forma visível.
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Questão final
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A beleza do mundo grego decorre dessa inseparabilidade.
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O kosmos é simultaneamente ordem, mundo e ornamento.
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A estética não é acréscimo, mas constitutiva.
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O elogio da beleza grega repousa nessa articulação originária.
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