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estudos:cassin:ekphrasis

ekphrasis

CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014

  • A noção de ekphrasis é inicialmente definida como um dizer que esgota o seu objeto por meio da palavra.
    • O termo deriva de phrazô, declarar, e ek, completamente, indicando uma exposição verbal exaustiva.
    • A ekphrasis designa descrições minuciosas e completas de obras de arte.
    • Desde a origem, trata-se menos de nomear do que de fazer passar o objeto integralmente ao logos.
  • A primeira ekphrasis canônica é situada no canto XVIII da Ilíada, na descrição do escudo de Aquiles.
    • O objeto descrito é fictício, forjado por Hefesto a pedido de Tétis.
    • A finalidade do escudo não é salvar Aquiles da morte, mas fazer com que todos se maravilhem diante de seu destino.
    • A ekphrasis homérica assume um alcance cosmo-político, articulando cosmos e mundo humano.
  • O escudo de Aquiles funciona como uma síntese do mundo dos mortais.
    • Nele figuram Terra, Céu e Mar, circundados pelo Oceano.
    • Duas cidades são representadas em detalhe vivo, uma em paz e outra em guerra.
    • A poesia realiza, assim, uma primeira totalização do mundo humano.
  • A ekphrasis homérica fundamenta uma tese implícita sobre o estatuto da poesia.
    • Ao produzir essa síntese, a poesia se mostra mais filosófica do que a história.
    • Ela não se limita à narração factual.
    • Ela alcança uma inteligibilidade do mundo humano em sua totalidade.
  • A segunda grande ekphrasis, atribuída a Hesíodo, repete o gesto homérico.
    • Seu objeto é o escudo de Héracles.
    • Essa ekphrasis não descreve um objeto natural nem um artefato histórico.
    • Ela descreve um objeto já descrito, tomando como modelo um logos anterior.
  • A ekphrasis hesiódica constitui um palimpsesto.
    • Ela não segue um fenômeno, mas um discurso.
    • O objeto perde sua referência natural.
    • O que resta é um artefato cultural integralmente mediado pela linguagem.
  • A consequência dessa mediação é a perda da vida narrativa.
    • A descrição não produz a impressão de gestos verdadeiramente vistos.
    • As falas das personagens soam convencionais.
    • A vitalidade do aparecer é substituída por uma codificação retórica.
  • A ekphrasis é então situada no ponto máximo de distanciamento em relação à metáfora.
    • A metáfora visa colocar as coisas diante dos olhos.
    • Ela produz um entendimento novo ao aproximar domínios distintos.
    • A ekphrasis, ao contrário, não cria um novo sentido, mas reproduz um objeto discursivo.
  • A metáfora opera por transposição criadora.
    • Ela engendra um novo fato de compreensão.
    • Ela renova o sentido por meio de uma analogia viva.
    • A ekphrasis, por sua vez, suspende essa potência inventiva.
  • A ekphrasis deixa de imitar a pintura como apresentação visual.
    • Ela não visa mais fazer ver o objeto como um quadro.
    • Ela imita a pintura enquanto arte mimética.
    • Trata-se de pintar a própria pintura.
  • A ekphrasis imita a imitação.
    • Ela não produz conhecimento do objeto.
    • Ela produz compreensão da ficção do objeto.
    • O que se torna inteligível é o próprio processo de objetificação.
  • A ekphrasis afirma-se assim como literatura em sentido próprio.
    • Ela não remete nem à natureza nem à experiência imediata.
    • Ela remete exclusivamente ao logos.
    • A palavra passa a referir-se à palavra.
  • A proliferação das ekphraseis na Segunda Sofística confirma essa autonomização.
    • O gênero se consolida como prática literária específica.
    • Obras inteiras se organizam como descrições de imagens.
    • A referência ao original torna-se secundária ou inexistente.
  • O caso das xenia radicaliza o afastamento do objeto.
    • As pinturas representam pratos já consumidos.
    • Essas pinturas são descritas literariamente.
    • O objeto está agora a três graus de distância da percepção.
  • A ekphrasis passa a operar sem original acessível.
    • O objeto não pode mais ser percebido.
    • Ele é apenas pressuposto ou produzido ficcionalmente.
    • A descrição já não pode ser adequada a um dado.
  • O destino da ekphrasis se entrelaça com o do romance.
    • Os romances são atravessados por ekphraseis.
    • Mais ainda, muitos romances são estruturados por elas.
    • A ekphrasis torna-se princípio organizador da narrativa.
  • Em certos romances, a ekphrasis funciona como matriz da história.
    • Uma imagem inicial contém o esquema do enredo.
    • A narrativa se desenvolve como desdobramento dessa imagem.
    • O romance torna-se interpretação de uma representação.
  • O caso paradigmático é o romance pastoral atribuído a Longos.
    • A totalidade da obra é a ekphrasis de uma ekphrasis.
    • A história é modelada a partir de uma pintura.
    • Essa pintura é ela mesma descrita como narrativa.
  • A pintura descrita já é um logos.
    • Ela não é feita de linhas e cores.
    • Ela é feita de palavras.
    • A distinção entre imagem e discurso se dissolve.
  • A descrição da pintura desencadeia o desejo de escrever.
    • O olhar se transforma em impulso narrativo.
    • A escrita se apresenta como resposta à imagem.
    • O romance nasce como réplica interpretativa.
  • A noção de antigraphê explicita esse gesto.
    • Escrever é escrever contra e a partir do original.
    • Trata-se de recomeçar, replicar e competir.
    • A escrita assume simultaneamente funções de interpretação e registro.
  • A relação entre pintura e escrita deixa de ser simétrica.
    • Não se trata mais de ut poesis pictura.
    • Nem simplesmente de ut pictura poesis.
    • O que emerge é um ut poesis poesis.
  • A ekphrasis marca o afastamento máximo em relação à natureza.
    • Ela se distancia da ciência natural da filosofia.
    • Ela não visa dizer as coisas como são.
    • Ela opera no domínio da arte e do artifício.
  • A ekphrasis se afasta igualmente da descrição fenomenológica.
    • Ela não busca uma doação imediata do fenômeno.
    • Ela não é ontologicamente inocente.
    • Ela é governada pela eficácia performativa da palavra.
  • A palavra ekfrástica não diz o que vê.
    • Ela faz ver o que diz.
    • Sua potência não é veritativa, mas operatória.
    • A ekphrasis realiza plenamente a passagem da palavra à palavra.
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