estudos:cassin:auto
auto: a construção da identidade no grego
CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014
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Persistência moderna de formações derivadas de autos
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A língua moderna preserva numerosos compostos formados a partir de autos, frequentemente por mediação do latim, para designar ações realizadas pelo próprio sujeito ou voltadas sobre si mesmo.
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Esses compostos exprimem a ideia de autoatividade, autarquia ou autorreferência, como escrever com a própria mão, instruir-se a si mesmo, mover-se por si mesmo ou dar a si próprio a lei.
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A produtividade dessa formação no grego antigo é comparável à dos compostos em Selbst- no alemão moderno.
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A continuidade dessa produtividade explica tanto empréstimos eruditos quanto criações recentes em línguas modernas.
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Análise etimológica de autos
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Autos é composto da partícula au, que indica sucessão, repetição ou oposição, e do elemento ho, hê, to, originalmente demonstrativo.
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O valor demonstrativo inicial de ho, hê, to evolui, no grego clássico, para a função de artigo definido, sem perder totalmente sua força deíctica.
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O sentido literal de autos pode ser reconstruído como uma oposição contrastiva e reiterativa, algo como “por sua vez, este aqui, em contraste com outro”.
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Desde sua formação, autos carrega uma estrutura relacional e diferencial, e não uma simples identidade imediata.
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Primeiro uso fundamental de autos: pronome anafórico
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Fora do nominativo, autos funciona como pronome de retomada na terceira pessoa.
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Esse uso estabelece uma referência anafórica clara, retomando um referente previamente introduzido no discurso.
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A função aproxima autos do latim eius ou eorum, marcando posse ou relação sem ênfase reflexiva.
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Nesse emprego, autos não constrói ainda ipseidade, mas apenas continuidade referencial.
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Segundo uso fundamental: pronome ou adjetivo enfático
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Autos pode funcionar como intensificador, equivalente ao latim ipse ou ao francês même.
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Pode aparecer isolado, conferindo autoridade ou centralidade absoluta a quem fala, como na fórmula pitagórica Autos epha.
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Pode ser aposto a um pronome pessoal, reforçando a presença imediata do sujeito como agente.
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Pode qualificar um substantivo para designar a coisa em sua própria essência, como o pragma em si ou o justo em si.
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Esse uso aproxima autos da ideia de ipseidade, isto é, da constituição de um si mesmo.
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Articulação entre autos e o pronome reflexivo heautos
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O pronome reflexivo heautos é composto de um antigo pronome pessoal de terceira pessoa seguido de autos.
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A contração em hautou distingue-se apenas pela aspiração, diferença fonética de grande peso semântico.
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Essa proximidade formal mostra que a reflexividade não é originária, mas construída por intensificação.
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A fórmula délfica “conhecer a si mesmo” articula explicitamente autos e heautos.
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A expressão auto kath’ auto indica um estatuto ontológico separado, designando aquilo que é em si e por si mesmo.
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No platonismo, essa construção fundamenta a autonomia ontológica da ideia.
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Terceiro uso fundamental: ho autos como expressão de identidade
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Quando precedido imediatamente pelo artigo, autos assume o sentido de “o mesmo”, equivalente ao latim idem.
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A ordem das palavras permite distinguir rigorosamente entre identidade e ipseidade.
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“O mesmo deus” e “o próprio deus” não são semanticamente equivalentes e são claramente diferenciados pela sintaxe.
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O grego dispõe, assim, de um dispositivo formal preciso para distinguir mesmidade e autoafirmação.
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Constellação linguística da identidade no grego
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A língua grega articula de modo inseparável dois aspectos da identidade: ipseidade e mesmidade.
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A identidade pode significar tanto constituição de um si mesmo quanto relação de igualdade consigo ou com outro.
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Outras línguas distinguem esses aspectos por termos diferentes, mas o grego os mantém numa mesma constelação formal.
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O artigo desempenha papel decisivo nessa articulação, não como simples determinante externo, mas como parte constitutiva da forma.
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Singularidade do papel do artigo no grego
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O grego dispõe apenas de artigo definido, o que confere a esse elemento uma função ontológica forte.
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Em seu uso arcaico, o artigo conserva um valor demonstrativo explícito.
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Sua presença junto a um nome introduz uma pressuposição de existência.
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Por isso, o artigo acompanha regularmente nomes próprios.
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O artigo permite distinguir sujeito e predicado quando a ordem das palavras não é suficiente.
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Uma proposição de identidade nunca é formulada como simples tautologia, mas como atribuição assimétrica.
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O argumento de Górgias sobre identidade e predicação
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A distinção entre sujeito e predicado é explorada por Górgias para contestar a identidade plena.
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A expressão “o não-ser é um não-ser” introduz duas instâncias semanticamente distintas.
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O sujeito substantivado possui um tipo de consistência diferente do predicado.
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O artigo cria, assim, uma diferença ontológica mínima, mas decisiva, no interior da própria identidade.
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Função substantivadora do artigo
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O artigo permite transformar adjetivos, particípios e infinitivos em entidades substantivas.
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Expressões como “o belo”, “o ente” e “o ser” tornam-se sujeitos de discurso.
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O mesmo mecanismo permite substantivar expressões complexas, como a essência aristotélica.
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Palavras e até sentenças inteiras podem ser mencionadas como objetos linguísticos.
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Essa capacidade amplia enormemente o alcance ontológico da linguagem grega.
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Parmenides e a construção da identidade do ser
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O poema de Parmênides fornece o primeiro testemunho sistemático dessa organização linguística da identidade.
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O percurso do pensamento segue o caminho designado como “este” em oposição a “aquele”.
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O verbo esti é explorado em toda a sua gama sintática e semântica.
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O ser só se fixa plenamente como sujeito no final do percurso, na forma substantivada to eon.
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A partir desse ponto, o artigo demonstrativo basta para retomar o ser como algo determinado e subsistente.
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O fragmento decisivo sobre pensamento e ser
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A afirmação de que pensar e ser são “o mesmo” ocupa posição central e controversa.
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A leitura heideggeriana recusa interpretá-la como subjetivismo ou idealismo.
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A fórmula indica um pertencimento mútuo entre pensar e ser.
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A análise formal de to auto revela uma duplicação articulada pelo elemento au.
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O “mesmo” é construído como repetição articulada, e não como identidade simples.
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A identidade resulta da conjunção entre pensar e ser, e não da redução de um ao outro.
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O ser, assim articulado, torna-se sujeito subsistente e cognoscível.
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Essa operação funda a ipseidade ontológica como núcleo da identidade grega.
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