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estudos:cassin:absurdo

absurdo

CASSIN, Barbara (ed.). Dictionary of Untranslatables. A Philosophical Lexicon. Princeton: Princeton University Press, 2014

  • Definição geral do absurdo como dissonância constitutiva
    • O absurdo é determinado inicialmente como aquilo que é dissonante ou não audível, retomando o campo semântico do latim surdus, que indica tanto a surdez quanto a falta de acordo
    • Essa dissonância não é meramente sensível, mas exprime um desacordo estrutural com o entendimento, com a razão ou com o sentido enquanto tal
    • O campo do sentido envolvido pelo absurdo não se limita ao significado linguístico, mas se estende explicitamente ao sentido da vida
    • O conceito de absurdo abre acesso a três redes conceituais fundamentais, logicamente distintas e ao mesmo tempo interligadas
      • A rede lógica, relativa às exigências da racionalidade e da coerência
      • A rede linguística, relativa às condições de significação e às regras da linguagem
      • A rede psicológica ou existencial, relativa à experiência subjetiva da ausência de sentido
    • O termo inglês nonsense é mobilizado como ponto de convergência dessas três redes
      • Nonsense força a pensar o absurdo não apenas como privação ou déficit, mas como uma forma positiva de dissonância
      • O absurdo não se esgota, portanto, na negação da razão ou do sentido, mas implica uma modalidade específica de funcionamento destes
  • O absurdo e a razão
    • O absurdo é primeiramente caracterizado como aquilo que é contrário à razão enquanto faculdade do espírito
      • A razão é tomada aqui no sentido amplo de logos, como princípio de inteligibilidade e ordenação
    • Essa caracterização geral é insuficiente, pois o absurdo não designa apenas uma oposição abstrata à razão
      • O absurdo nomeia uma manifestação efetiva da ausência de razão em situações concretas
    • Definir o absurdo exige, assim, a determinação prévia dos critérios do racional
      • Esses critérios podem ser de natureza lógica
        • A racionalidade lógica funda-se na exigência de não contradição
        • Os procedimentos de argumentação por redução ao absurdo pressupõem esse critério como norma
      • Esses critérios podem ser de natureza prática
        • A racionalidade prática envolve valores da ação, da prudência e do juízo
        • O absurdo pode então manifestar-se como desvio radical em relação ao agir sensato
    • O absurdo não se identifica nem com o falso nem com a simples ausência de bom senso
      • O falso permanece interno ao espaço da verdade e da refutação
      • A falta de bom senso ainda pressupõe um horizonte comum de inteligibilidade
    • O absurdo designa uma ruptura mais radical
      • Trata-se de uma desconexão com os fatos enquanto tais
      • Essa desconexão rompe o vínculo entre pensamento, linguagem e realidade factual
  • O absurdo e o sentido
    • Para além da contradição lógica, o absurdo remete ao problema das regras da linguagem e dos critérios de significação
      • A questão do sentido não se reduz à coerência formal do enunciado
    • O acesso ao sentido depende de condições específicas, entre as quais a sintaxe desempenha papel central
      • Um enunciado pode respeitar a sintaxe e, ainda assim, carecer de sentido
    • Essa possibilidade obriga a distinguir diferentes formas de ausência de sentido
      • Unsinnig designa o enunciado que, embora formalmente correto, é desprovido de sentido
      • Sinnlos designa a simples falta de significado, sem sequer a aparência de sentido
    • Essa distinção é mobilizada na crítica filosófica da linguagem metafísica
      • Certos filósofos consideram enunciados metafísicos como casos paradigmáticos de nonsense
      • O nonsense é então utilizado como instrumento crítico
    • A função do absurdo nesse contexto é metodológica
      • Eliminar proposições que nada dizem
      • Delimitar o campo do dizível e do significativo
    • O absurdo não aparece aqui como erro contingente, mas como operador de esclarecimento conceitual
  • O absurdo e a existência
    • O absurdo não se limita às dimensões lógica e linguística
      • Ele se manifesta também como experiência vivida da ausência de sentido
    • O absurdo é então definido como sensação ou afeto
      • Não se trata de uma conclusão teórica, mas de uma vivência
    • Essa vivência é caracterizada como experiência da estranheza e do mistério do mundo
      • O mundo aparece como opaco, resistente à significação
    • O conceito de absurdo inscreve-se no vocabulário do existencialismo francês
      • Essa inscrição retoma e transforma fontes filosóficas alemãs
    • O absurdo é compreendido como afeto ontológico
      • Ele se articula com a angústia, o mal-estar e a facticidade
      • A existência é experimentada como dada, sem garantia de sentido
    • O absurdo não designa, assim, uma falha cognitiva
      • Ele exprime uma estrutura fundamental da relação do existente com o mundo
  • Integração positiva das dimensões do absurdo
    • As dimensões lógica, linguística e existencial do absurdo não operam isoladamente
      • Elas se entrelaçam e se reforçam mutuamente
    • Essa articulação encontra expressão exemplar no termo esprit
      • Espírito designa simultaneamente inteligência, humor e jogo com o sentido
    • O nonsense assume então uma função positiva
      • Ele se manifesta como forma específica de humor
      • Ele explora produtivamente a tensão entre sentido e não sentido
    • O absurdo deixa de ser apenas privação
      • Ele se torna um modo específico de relação com a linguagem, a razão e a existência
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