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3 Bordas de Lugares e Acontecimentos

CASEY, Edward S. The world on edge. Bloomington, Indiana: Indiana University Press, 2017.

  • Do exame das coisas materiais, com seus aros, molduras, lacunas e margens, e de bordas próximas como fronteiras (borders) e limites (boundaries), passou-se à relação entre bordas e superfícies e entre bordas e limites (limits), termos presentes nas bordas de vestígios, cúspides e véus, três amostras do vasto mundo-de-bordas.
  • Cabe agora adentrar o amplo domínio dos lugares e acontecimentos em seus poderes de portar e gerar bordas.
  • Isso implica afastar-se da visão usual, tão antiga quanto Sócrates, de que a borda é “o limite de um sólido” e pertence exclusivamente às coisas, isto é, a substâncias sólidas tridimensionais, materiais e de forma e tamanho assentados.
  • Essa visão equivale à reificação literal do mundo-de-bordas, prendendo-as a coisas físicas concretas numa abordagem obcecada por objetos, o “congelamento do ser” de Merleau-Ponty.
  • Muitas bordas pertencem a objetos físicos, como o automóvel ou o computador, mas há pelo menos duas classes significativas de bordas que não se prendem a objetos físicos, ou não só a eles: as bordas dos lugares, tratadas nas seções I a VI, e as dos acontecimentos, nas seções VII e VIII.
  • Nenhuma borda é inteiramente desligada ou flutuante: toda borda é borda de algo, se não de uma coisa material discreta, de não-coisas como acontecimentos e lugares, ainda que estes se componham em parte de coisas físicas com suas próprias bordas.

I

  • Na rua 110, em Nova York, no quarteirão a oeste do Memorial Frederick Douglass, está-se num lugar bem definido, peculiar àquela parte da cidade, com atmosfera, população diversa e cena de rua próprias.
  • O morador reconhece ritmos de pedestres e tráfego, o modo como o vento percorre a rua e os padrões de luz e sombra em diferentes épocas do ano; nenhum desses fenômenos, ritmos, vento, luz, população e atmosfera, é coisa material concreta, e todos pertencem ao lugar.
  • Há também coisas físicas: corpos e carros que geram os ritmos, semáforos, placas, parquímetros, meios-fios, edifícios que formam o cânion visual, pessoas; cada uma tem bordas próprias, diferentes de coisa para coisa.
  • As bordas dos parquímetros e meios-fios são rombas diante das placas; as dos edifícios variam do agudo ao moldurado conforme o estilo arquitetônico; as das pessoas vão do angular ao bulboso, com franjas diversas de cabelo, roupas, mãos e sapatos: em toda parte veem-se as bordas das coisas, muito variadas e apropriadas a cada uma.
  • O próprio lugar tem sua borda, que é tentador descrever como “a borda sul do Harlem em seu lado oeste”, mas essa borda é em grande parte construção de urbanistas, historiadores urbanos e cartógrafos, todos a certa distância do lugar.
  • O historiador depende de distância temporal para afirmar quando certos grupos se instalaram; o urbanista projeta um futuro para o lugar num espaço cívico que melhore as condições de vida dos bairros; o cartógrafo apresenta a configuração presente da cidade no momento da publicação do mapa, sem desfazer a distância espacial entre imagem e realidade.
  • Os três discutem ou representam o lugar de fora, de seus escritórios, gabinetes ou bibliotecas, concebendo suas bordas a partir de outro lugar.
  • Quem habita ou atravessa diariamente o lugar conhece suas bordas de perto, de dentro da experiência, como pertencentes a uma “esfera próxima” (Husserl), espaço tão próximo quanto familiar.
  • Essas bordas não se manifestam primariamente por palavras escritas ou imagens impressas, história, planos ou mapas, mas por experiências cotidianas, função do corpo vivido e, mais particularmente, do “corpo habitual” (Merleau-Ponty).
  • Surgem dos movimentos repetidos do corpo do morador, do caminhar costumeiro e do olhar, cheirar, tocar, ouvir e navegar o lugar, e das memórias que persistem desses percursos; está em jogo não só a história, mas o historicizar: o modo como os corpos vividos criam sua própria história no espaço, seu lugar no tempo e seu mundo-de-bordas.
  • O edifício de residência, no lado sul da rua 110, forma uma borda particular da cena em dois sentidos: de dentro do apartamento, é um limiar do qual se contempla a rua abaixo, convergindo com a posição do corpo junto ao peitoril.
  • De fora, na rua, o mesmo edifício é sentido como fachada maciça com bordas externas pronunciadas, o perfil geral, e bordas internas, andares e janelas discerníveis.
  • Do outro lado da rua há um gêmeo arquitetônico de mesmas dimensões, que forma a borda norte da rua; experimentado só de fora e de baixo, parece nitidamente outro.
  • O próprio edifício, que contém a residência, é familiar, e suas bordas externas e internas parecem aprofundadas e suavizadas, menos formidáveis e mais indulgentes que as do gêmeo; as bordas não se reduzem a dimensões físicas, mas refletem a historicidade vivida das ocasiões em que são percebidas.
  • Experimenta-se aí uma modulação de borda característica dos lugares, em cor, textura, altura, forma e estilo; ao contrário dos aros, repetitivos e padronizados, as bordas dos lugares têm múltiplos aspectos, mesmo do mesmo tipo básico.
  • Essa multiplicidade deve-se à dificuldade de fixar exatamente as bordas dos lugares e ao fato de que estar no lugar é indispensável ao modo como elas se apresentam; a modulação diferencial entre os dois edifícios provém sobretudo da base experiencial diversa dada pela residência num deles.
  • Outras bordas estão em jogo: as da calçada e da rua sob os pés, das lojas térreas, do céu; nas calçadas, experimentam-se como leves desníveis nas superfícies de asfalto e concreto, criaturas do meio material entre o corpo em movimento e a terra.
  • Ao contrário das bordas da própria terra, rochas ou chão nu, as bordas sentidas sob os pés são inteiramente artificiais, não só por sua gênese, mas porque essa artificialidade é sentida ativamente pelo corpo vivido; esse saber corporal (connaissance du corps) integra a experiência do lugar e sua identidade primária.
  • Erguendo o olhar, veem-se portas e janelas de lojas, Central Market, Amrita Café, a lavanderia Dorita, um aluguel de bicicletas e um salão de unhas, com bordas inteiramente retilíneas e intercaladas: a borda vertical do café encosta na da lavanderia, contígua à do Lila's Nail Care; a justaposição é a regra.
  • É um mundo fabricado em que tudo foi feito por utensílios ou é utensílio, o domínio do disponível (Heidegger), coisas manufaturadas para uso prático, ferramentas, roupas, sanduíches, xícaras, bicicletas e garrafas, entregues ou expostas no nível da rua.
  • No mundo-de-lugar de lojas e cafés, um mosaico apertado de bordas reflete e sustenta uma vida comercial em que a acessibilidade é indispensável, mosaico denso do qual parece não haver saída.
  • A saída, porém, está à mão: basta olhar para cima; abre-se um dossel generoso de ar e luz, o céu, de altura vertical tão grande que nada o excede nem pode medi-lo, exemplo notável do “Vertical”, termo de Heidegger para a dimensão última que liga terra e céu.
  • Em sua transcendência sobre a rua, o céu pareceria sem bordas, ao contrário dos edifícios e lojas; não é superfície no sentido usual, diáfano demais e de profundidade indefinida, mas nele se discernem bordas: as de nuvens e outros fenômenos atmosféricos e as formadas onde os edifícios interceptam sua aparência em ângulos agudos.
  • Estas últimas destacam-se ainda mais num dia sem nuvens, como traço intrínseco da apresentação do céu visto de baixo; pertencem aos edifícios e ao céu ao mesmo tempo, bordas tão intimamente compartilhadas que não se pode dizer a qual portador pertencem.
  • Surge uma estrutura básica, a relação borda/borda, não restrita ao céu recortado por edifícios: aparece na oclusão de um objeto por outro, como um carro estacionado visto contra um edifício ou a placa do antigo posto Esso contra a parede de tijolos do prédio vizinho.
  • No Central Park, galhos cortam a vista das rochas ao fundo, formando novas relações borda/borda a cada mudança de posição; as bordas experimentadas não se prendem a coisas ou lugares isolados, mas surgem na interface entre dois ou mais e se ramificam por paisagens urbanas e naturais inteiras.
  • A relação borda/borda tem várias formas: compartilhamento de bordas claramente distintas, como as lojas contíguas; bordas tão fundidas que não se distinguem, como num tampo de mesa de peças finamente coladas; e bordas distintas cuja pertença não se sabe atribuir, como os edifícios recortados contra o céu.
  • Há ainda bordas não compartilhadas nesses sentidos, mas estreitamente coniventes, quando as bordas de algo interagem com seu fundo imediato e despertam a percepção de bordas nesse fundo: bordas captadas por meio de bordas, geralmente tributárias de um objeto primário, como as bordas das sombras dos pedestres na rua.
  • Os lugares são peculiares porque todas as suas bordas exibem relações borda/borda: nenhuma é independente ou autônoma, todas emergem do modo como o lugar se situa em seu entorno maior e em relação a uma pletora de outras bordas, inclusive das coisas que o povoam.
  • Com raras exceções, as bordas de um lugar interagem com as do mundo circundante de modos múltiplos e sutis, no extremo oposto de aros e molduras, que são bordas sobretudo por inerirem em objetos únicos, para os quais as relações borda/borda são secundárias ou suplementares.

II

  • Não só o céu, mas as vistas que se abrem nas duas extremidades da rua 110 permitem que ela respire de modo especial: a leste e a oeste, como paredes de vidro, deixam ver conteúdos muito diferentes da cena imediata.
  • Parques acenam em cada extremidade, o Central Park a leste e o Morningside Park a oeste, oferecendo alívio bem-vindo à realidade compacta da rua entre eles.
  • Essas aparências exibem bordas mais sinuosas e flexíveis que as de edifícios, calçadas e ruas; não são constantes como as das coisas construídas, mudam com as estações e mostram cores, formas, texturas e volumes diferentes dos do mundo construído.
  • As bordas do espaço relativamente aberto dos parques fazem as duas extremidades da cena acenar como saídas de uma cena metropolitana de outro modo sem alívio; ao mesmo tempo, concatenam-se com as bordas da rua, formando um nexo complexo de bordas que, apesar das diferenças formais, pertencem à mesma situação urbana.
  • Céu, parques, edifícios e calçadas coerem e coinerem como componentes do lugar experimentado; as muitas aves, gaivotas, garças, falcões, tordos e pardais, que voam livremente entre as partes naturais e construídas, costuram-nas num mundo contínuo, complementando o modo como um único relance percorre a cena e a capta como lugar contínuo.
  • As bordas dos parques exemplificam um traço básico das bordas placiais: estendem-se sutilmente ao entorno enquanto transmitem o caráter e o conteúdo próprios dos lugares; são de textura aberta e porosa, não só definindo ou encerrando um lugar, mas estendendo-o ao espaço circundante.

III

  • Vários tipos de borda conspiram para formar um único lugar: ser lugar é possuir uma multiplicidade de tipos de borda.
  • Chamar os lugares de “textura aberta” contrasta-os com sítios (sites), espaços determinados estritamente pelo fechamento de bordas impostas ou imputadas, tendencialmente retilíneas, como os terrenos de construção.
  • Uma coisa material tende a ter um tipo consistente de borda, como o degrau retangular de uma escada ou a margem de uma página impressa; um lugar tem caracteristicamente uma variedade de tipos, e a esquina da rua 110 é tão rica em bordas díspares que sua descrição poderia continuar indefinidamente; a proliferação de bordas num lugar excede a de qualquer coisa nele.
  • O lugar é uma área de captação especialmente poderosa de bordas, absorvendo e exibindo bordas naturais e artificiais, conspícuas e discretas, plenamente apresentadas ou apenas esboçadas, porque não tem borda definitiva única nem limite fixo em sentido estrito.
  • Ter borda definida é traço básico dos sítios, mas lugares e regiões, estas entendidas como colocações complexas de lugares, não se restringem assim: “Gramercy Park”, “Battery Park”, “Midtown Manhattan” ou “o distrito financeiro” recusam começar ou terminar num ponto preciso, digam o que disserem os mapas.
  • Quando lugares e regiões se cruzam, fazem-no de modos difusos que desafiam descrição definida: o sul do Harlem funde-se com o Upper West Side através do Morningside Park, zona-tampão que os une e separa, e nenhum morador diria que o Harlem vai só até a Manhattan Avenue e nem um metro além.
  • No Morningside Park misturam-se moradores do Harlem, do Upper West Side e estudantes da Columbia; tais espaços intermediários ou liminares abundam nas cidades e dificultam estabelecer fronteiras estritas, sendo notoriamente difícil dizer onde começam e terminam os bairros, tema do capítulo 7.
  • As bordas dos lugares assemelham-se mais a limites (boundaries) que a fronteiras (borders), compartilhando sua abertura e vagueza inerentes, presentes em fenômenos elementares como poder caminhar com relativa liberdade entre lugares da cidade, com muitas entradas e saídas.
  • Do sul do Harlem chega-se à Columbia por qualquer rua entre a 110 e a 120 e pelos caminhos do Morningside Park: lugares e regiões oferecem muitos pontos de acesso, uns novos, outros antigos, ao contrário dos sítios, cuja definição e existência dependem de limites fechados e rígidos, resistentes à mudança e mais semelhantes a fronteiras.
  • Resulta um duplo paralelismo: as bordas de lugares e regiões assemelham-se a limites (boundaries), e as bordas de sítios assemelham-se a fronteiras (borders).
  • Semelhança não é identidade: trata-se de dois níveis de análise, bordas de lugares/regiões versus de sítios e dois tipos básicos de borda, e a relação não é simétrica, pois limites e fronteiras são bordas também de coisas, como obras de arte, cores, pessoas, grupos e muros de segurança, e de acontecimentos, como a criação de uma obra ou a migração através de uma fronteira.
  • O fator diferencial não é a abstração ou idealidade relativa, como entre bordas e limites (limits), mas a inerência das bordas naquilo a que propriamente pertencem: lugar, região, coisa ou acontecimento.

IV

  • Apesar de suas franjas difusas, que o ligam a um ambiente maior, construído ou natural, o lugar é sempre um todo de algum tipo e em alguma escala: esta parte do mundo, este bairro, esta cena de rua, este saguão de hotel.
  • Pode não ter nome próprio ou topônimo, mas é algo íntegro e intuído, nunca puro vapor ou mito, não é nada nem vem do nada; vindo sempre com bordas, não pode ser inteiramente nebuloso, pois mesmo bordas difusas dão definição e forma.
  • A identidade do lugar provém em grande medida de ser bordejado de modo distintivo: suas bordas não são só onde ele se esvai ou termina, mas transmitem seu caráter básico, sua fisionomia e sua ingressão num mundo mais abrangente; não são mero exoesqueleto, mas parte integrante de seu ser.
  • Isso não é mais nem menos misterioso que o fato de a identidade pessoal ligar-se à apresentação corporal, transmitida pelas bordas visíveis da carne, que constituem o contorno diante dos outros e de si.
  • Reconhecem-se os outros por seus perfis, pelo conjunto de bordas projetado em sua postura, gestos e andar, muitas vezes num único relance, sem inferência, lembrança ou reflexão; do mesmo modo, identifica-se um lugar por sua forma característica, cujas bordas se destacam mesmo quando muito está obscuro.
  • Graças ao padrão das bordas, a forma (gestalt) é familiar: sob neve rodopiante, reconhece-se estar na parte alta da Broadway, perto da rua 112 e do Le Monde Café, pelas bordas do longo toldo verde e pelo padrão das janelas verticais de vidro.
  • A multivalência das bordas de um lugar sincroniza-se com a monovalência de sua identidade contínua: o caráter do lugar apresenta-se e mantém-se por suas bordas, não apesar delas, mas por causa delas; elas constituem o “corte” distintivo do lugar que delimitam.
  • A multiplicidade das bordas, em tipo e número, ganha coerência na unidade do lugar, e a unidade beneficia-se da multiplicidade que a sustenta: versão do antigo enigma do Uno e do Múltiplo, pois sem o Múltiplo o Uno seria estultificado, formal e fixo, e sem o Uno o Múltiplo seria mera dispersão, como se infere de Parmênides e Platão.
  • Sem suas bordas absortivas e expansivas, o lugar seria facilmente reduzido à formalidade e definição do sítio, incapaz de acomodar as mutações históricas e os processos físicos essenciais a uma presença contínua e vital.
  • Sem um sentido de singularidade que o mantenha coeso, o lugar dissipa-se no entorno e perde a identidade de este lugar, indistinguível de outros, como na expansão suburbana em que loteamentos e casas se imitam; a singularidade desaparece na mesmidade, e as bordas são delimitações convencionais ou funcionais, como ruas que separam quarteirões, sem delinear uma forma característica que distinga um quarteirão de outro ao longo do tempo.
  • As bordas indefinidas e múltiplas precisam da massa principal do lugar, seu peso e volume, para lhe dar forma e alcance, e o lugar precisa delas para ser maleável e capaz de mudança ambiental e histórica: dois fatores correquisitos, um ligado à mesmidade, outro à diferença.
  • Levado ao domínio do devir histórico e material, onde mesmo e diferente estão sempre em jogo, o enigma do Uno e do Múltiplo aplica-se com surpreendente justeza a algo que pouco interessava a Parmênides ou Platão: as bordas dos lugares.

V

  • As bordas dos lugares têm também dimensão instrumental: na nomenclatura de Heidegger, pertencem ao disponível (zuhanden), predicado que vale para as bordas dos lugares e não só para as coisas, como Heidegger supunha.
  • O cruzamento de ruas forma um “complexo instrumental” (Sartre) de bordas perpendiculares, como na rua 110 e em muitos subúrbios, mas as formas efetivas não precisam ser geométricas ou em grade: pequenas irregularidades aumentam a utilidade, permitindo a flexibilidade do uso cotidiano.
  • Uma estrada que circunda um lugar tem bordas tornadas menos rígidas pelos acostamentos onde se trocam pneus, se fazem telefonemas ou motoristas sonolentos cochilam; mesmo bordas projetadas perfeitamente retas afastam-se da perfeição geométrica e servem melhor a múltiplos usos.
  • As bordas dos lugares frequentemente orientam, guiando de um lugar a outro, como da rua 110 ao Central Park, funcionando como sinalizações eficazes, embora nem toda borda tenha caráter explicitamente orientador.
  • Algumas bordas placiais valem pelo valor estético, como as sebes decorativas em torno de jardins; outras pelas dimensões formais ou objetivas, indiferentes à arte e ao trabalho, por sua pura regularidade de forma ou tamanho, como a praça da cidade em sua quadratura.
  • Qualquer que seja seu valor, instrumental, estético ou formal, as bordas permanecem resolutamente parte do lugar que descrevem, distinguíveis dele, mas integrantes de sua existência e identidade.

VI

  • É verdade básica que as bordas pertencem aos lugares, tão bordejados quanto as coisas; essa pertença tem duas direcionalidades inerentes.
  • Termo final (terminus ad quem, “fim para o qual”): de um lugar partem bordas que se espalham não para se engrenar instrumentalmente, como a chave inglesa no parafuso, mas de modo que as bordas de um lugar sejam fontes das bordas de outros, contornos geradores de mundos-de-lugar inteiros, como os parques que atraíam o olhar a partir da rua 110.
  • Isso ocorre também em cenários inteiramente naturais: no deserto do sul de Nevada, arbustos de creosoto crescem densos até certa altitude e param abruptamente; dessa linha de término abre-se uma área árida, e a borda nítida do primeiro lugar conduz o olho ao segundo, seu término efetivo.
  • A poucas milhas dali, um muro no extremo oeste de Las Vegas marca o limite da construção local; do outro lado há um leito seco e, além, uma reserva não cultivada de colinas e montanhas de coloração intensa e configuração convoluta, atravessada por uma única estrada de acesso.
  • O muro inteiramente artificial, limite externo de um loteamento suburbano, cede lugar à paisagem selvagem; as bordas dos dois lugares manifestam seu caráter “selvagem” ou “construído”, ligadas pela contiguidade apesar da diferença, e o olho é conduzido do muro à área aberta como por uma força invisível, numa direcionalidade implícita do construído ao selvagem.
  • Termo inicial (terminus a quo, “fim a partir do qual”): o lugar não só se estende a outro por suas bordas externas, mas serve de base para a percepção de outros lugares; a ênfase recai não no destino do olhar, mas na borda de onde se parte, ainda que só com a vista: a direcionalidade não é “para”, mas “a partir de”.
  • Exemplo: uma vigília silenciosa no Local de Testes de Nevada, extensão desolada dedicada a testes nucleares e de outras bombas, marcada por quase mil explosões passadas, na superfície e no subsolo.
  • O grupo de manifestantes pôde reunir-se apenas num lugar predesignado, junto à entrada principal, ironicamente chamada “Mercury”; reunidos em círculo de manhã, tinham aguda consciência do confinamento pela cerca de arame farpado a leste e pela vista do local de testes além dela.
  • O mais leve relance chegava à cerca e a atravessava até os edifícios e estruturas do local: olhava-se para dentro dele a partir de um lugar de observação determinado, de suas bordas para fora; a percepção conjunta chegava lá a partir daqui, sendo “aqui” as bordas encerrantes de um espaço de visão cuidadosamente confinado.
  • As duas situações estavam em jogo: o termo final nomeia o momento de transição em que o olhar vai às bordas de outro lugar, como da cerca aos edifícios; o termo inicial enfatiza as bordas do lugar de onde se observa, aqui a área de observação.
  • Em vez de transicional e suave, como na vista das colinas a oeste de Las Vegas, o olhar ia ao outro lugar apesar de confinado pelo lugar em que se estava, a partir do recinto proibitivo, por trás da cerca de arame farpado.
  • A mesma borda pode servir nas duas funções: a borda do creosoto é base para olhar além e também aquilo para o qual se olha primeiro; a cerca era ponto de partida para olhar os edifícios e também estrutura confinante focalizada ao chegar; a borda de um lugar pode ser vista por si mesma e conduzir o olhar às bordas de outro.
  • Esse caráter jânico revela algo sobre o papel das bordas no mundo-de-lugar: mundo-de-bordas e mundo-de-lugar colaboram estreitamente e são coextensivos, embora nunca coincidam inteiramente.
  • As bordas dos lugares podem ser expansivas enquanto encerram e delineiam: levam para fora do lugar enquanto determinam sua forma manifesta.
  • Se Jâmblico podia dizer que o limite (horos) é a causa primária dos corpos, pode-se afirmar que as bordas dos lugares, em sua maioria semelhantes a limites, são profundamente formadoras deles: moldam-nos, moldam fortemente sua apreensão e levam-nos a seu ser determinado, deixando espaço para sua própria transcendência.

VII

  • É preciso considerar a relação entre borda e acontecimento: lugar e acontecimento minam a primazia do espaço e do tempo, colossos gêmeos da filosofia e da ciência modernas.
  • Contestam a hegemonia do tempo monolinear e sucessivo, abrindo-se multiplamente à história, não só como “eventos históricos” datáveis e narrativizáveis, mas porque todo acontecimento e todo lugar têm ressonâncias contínuas, num lugar particular, como o que acontece em Grand Rapids, ou ao longo do tempo, como os efeitos persistentes da Guerra do Vietnã.
  • Minam também a ideia de um espaço homogêneo e monolítico, diferenciando-se em múltiplos acontecimentos e em locais e regiões discretos, resistindo à redução a datas e localizações simples usadas por conveniência ou medição científica.
  • O lugar é mais e outra coisa que o sítio topográfico que o localiza no espaço-mundo de metros e milhas, e o acontecimento é mais e outra coisa que sua ocorrência no tempo-mundo de relógios e calendários; cada um se ramifica além dos limites dessas unidades espaciométricas e cronométricas.
  • O Local de Testes de Nevada desdobra-se em acontecimentos históricos por seu papel central nos testes nucleares do pós-guerra: é ao mesmo tempo lugar na paisagem de Nevada e acontecimento na história da proliferação nuclear durante e após a Guerra Fria.
  • Acontecimentos e lugares são históricos, sendo “histórico” o modo propriamente humano de habitar espaço e tempo, concreto e múltiplo, singular em cada caso e sujeito a relato e avaliação de seu significado.
  • Lugar e acontecimento convergem também no fator essencial de surpresa: os lugares, em mudança contínua, podem surpreender ao retornar a eles; os acontecimentos surpreendem sempre, pois todo acontecimento em desdobramento contém um elemento do ainda-não-conhecido, o que está por vir.
  • Por mais que se julgue compreendê-lo, cada acontecimento abriga possibilidades de tomar rumos inesperados; para Nancy, o acontecimento surpreende ou não é acontecimento, e isso se deve em grande parte a suas bordas, que traçam sua periferia mais externa e ocultam ao menos em parte o que vem depois; na chegada das bordas dos acontecimentos espreita o surpreendente.
  • Base importante da surpresa é a oclusividade das bordas: como partes externas de superfícies e na medida em que não são transparentes, ocultam o que está do outro lado, como a borda da cortina que obstrui a vista da rua 110.
  • A oclusão vale para bordas temporais e espaciais: um traço do desdobramento de um acontecimento pode obscurecer outras partes dele, como as “retenções” (Husserl) que escorrem dos acontecimentos contemporâneos e podem encobrir o que vai emergir, e o mesmo vale para as “protensões”.
  • A surpresa do acontecimento consiste em que o por vir não é plenamente revelado, mas ao menos parcialmente obscurecido pelo que acontece agora; ainda assim, é frequentemente esboçado pelas bordas do presente: algo se revela apesar de ocultado por elas.
  • A surpresa vinda de além das bordas retencionais ou protencionais não precisa ser chocante nem objeto de profunda admiração; geralmente é encontrada pelo mais leve relance, que percorre as superfícies e toca suas bordas intermitentemente.
  • Olhando pelas grandes janelas de vidro do Le Monde, horizonte espacial externo, vê-se alguém voltar inesperadamente ao carro de que acabara de sair e alguém que inverte subitamente o rumo; surpresas leves que, com as grandes ocasionais, compõem a vida perceptiva.
  • A surpresa vem de logo além da borda de um acontecimento emergente, seja a borda espacial, temporal ou, nos acontecimentos e lugares plenos, irrecusavelmente histórica; a situação é sempre interacional, dependendo do que vem e de como se chega a ele.
  • O topônimo “Mercury” não se anunciou do nada, mas em relação à posição de quem o via: dirigindo para o norte pela Highway 95 a partir de Las Vegas, não foi percebido à direita por estar oculto por colinas; após passar do ponto, voltando para o sul, todo o local de testes surgiu subitamente num vasto vale antes encoberto, a vista buscada abrindo-se de surpresa só após tempo extra e novo alcance perspectivo.
  • Assim como espaço e tempo coludem na geração e experiência de um acontecimento, o que aparece num lugar conspira com o lugar de observação na irrupção da surpresa, função dos poderes esboçantes das bordas do mundo-de-lugar animado por seus acontecimentos.
  • As bordas dos acontecimentos interagem com as dos ocupantes do mundo-de-lugar, inclusive coisas estacionárias como colinas e árvores, numa coordenação que evoca a relação borda/borda; graças a essa mistura de bordas de lugares e de acontecimentos, a surpresa emerge com mais força.
  • Lugares e acontecimentos, tidos como ocupantes díspares do mundo-da-vida, ligam-se estreitamente na experiência; suas bordas são oclusivas e desvelantes: ocultam coisas, lugares e acontecimentos e, contornadas, revelam sua presença.
  • A surpresa acontece quando as bordas que obscurecem o que vem cedem subitamente à emergência do desvelado: o fechamento cede à abertura, a obscuridade à revelação, o desconhecido ao conhecido, às vezes a um novo desconhecido.

VIII

  • O que há de mais característico nas bordas dos acontecimentos aparece num acontecimento que comemorou os mortos no inferno do 11 de setembro e surgiu espontaneamente no dia seguinte na Union Square, cerca de uma milha ao norte do Marco Zero.
  • Chocados e atordoados, milhares reuniram-se na praça, onde fotografias de desaparecidos foram presas em cercas improvisadas ou coladas nas paredes de mármore da base da estátua equestre no extremo sul.
  • Tratava-se de lidar com um acontecimento de proporções tão gigantescas e significado tão desconhecido que excedia os modos habituais de compreensão: compartilhar confusão e luto e buscar o sentido do 11 de setembro para a nação e o planeta.
  • Vindo de trem de Long Island no dia seguinte ao acontecimento histórico-mundial, ao saber da reunião na Union Square, na rua 14 a leste da Quinta Avenida, sentiu-se o impulso de juntar-se a ela sem saber o que esperar.
  • O espetáculo era único: um clima sombrio, pessoas caminhando em silêncio pelas alamedas internas da praça; só no extremo sudoeste alguns debatiam como interpretar o desastre e o que fazer.
  • Um silêncio eloquente prevalecia entre tanta gente, não imposto, mas compartilhado por consentimento tácito, sem líderes designados ou autodesignados nem polícia; pessoas de todos os meios e rendas, unidas pelo desejo de compadecer-se juntas.
  • Ao cair da tarde, as luzes da rua conferiram à cena um aspecto berrante, e a música de um pequeno grupo de flautistas elevou-se plangente do lado norte: momento de luto coletivo e de memória pública em formação.
  • Os aspectos de borda eram reveladores: as bordas do lugar conspiravam perfeitamente com a ocasião; as bordas externas eram calçadas abertas que serviam de zona-tampão contra o tráfego pesado e davam espaço a quem preferia observar.
  • Dessa borda externa, vários pontos de acesso levavam ao interior, bem como todo o lado sul, com uma grande estação de metrô, balaustradas baixas e caminhos de entrada.
  • Alamedas internas estreitas davam sensação de firme fechamento, mas suas formas sinuosas, cuidadosamente “bordejadas” dos dois lados, incentivavam uma espécie de meditação caminhante, sustentando a caminhada lenta e absorta da maioria, em passo comum, num cortejo processional não ensaiado.
  • As bordas internas e externas eram protetoras e tranquilizadoras e possibilitavam um movimento que equivalia a uma missa solene (missa solemnis) espontânea; essas bordas nítidas contrastavam com as bordas fumegantes das torres desabadas ao sul, que haviam perdido toda definição, com a fumaça acre ainda pesada no ar da praça.
  • Quanto às bordas do acontecimento, a destruição das torres ocorreu de uma vez, como que do nada, momento apocalíptico de bordas temporais ferozmente comprimidas e categoricamente definitivas: atingidas pelos aviões sequestrados, as torres desabaram uma após a outra em minutos.
  • Esses minutos foram cronometrados no tempo-mundo numa densa sucessão de explosões letais, chamas descontroladas e pessoas saltando para a morte, cada momento com sua borda aguda e indiluível.
  • Esse nexo condensado de acontecimentos trágicos impensáveis reverberava na mente de quem caminhava na praça: a tragédia do dia anterior era uma borda absoluta do tempo-mundo, pois o que a precedeu e o que a seguiu foram mudados para sempre, fonte inevitável dos acontecimentos seguintes e de muitos anos depois.
  • No dia seguinte, as bordas temporais do 11 de setembro foram estendidas para fora e para baixo: para fora, na história; para baixo, nos corpos em movimento dos que comemoravam; as bordas do acontecimento apocalíptico, composto de miríades de microacontecimentos, assombravam esses corpos em sua duração grave e fluente.
  • Os presentes sentiam poder continuar a vigília a noite toda ou por dias, como alguns fizeram; a hora do relógio e o último trem para Long Island não importavam; estava-se não só atraído pelo drama, mas uno com ele, inteiramente no momento de estar com outros igualmente atordoados.
  • Se havia sentido de uma borda temporal mais abrangente, era o da história em formação, apenas vagamente percebido: as bordas do Agora, comprimidas impossivelmente na manhã anterior, distendiam-se lentamente como tentáculos rumo a um futuro muito incerto.
  • Os presentes já faziam parte desse futuro em sua fase inicial, suspensos numa névoa temporal, num momento pensativo de luto; sem saber o que emergiria no plano dos acontecimentos mundiais, afundava-se ainda mais no momento presente.
  • Se o 11 de setembro foi monstruosamente incomensurável, o acontecimento da Union Square foi estranhamente medido: o passo lento da caminhada comum em confins definidos repartia tempo e espaço, tomando a medida do cataclismo e permitindo que se tornasse memória coletiva nas mentes e corpos, e não um acontecimento devastador exclusivamente exterior num tempo-mundo indiferente.
  • As bordas temporais do que aconteceu em 12 de setembro reencontraram as bordas placiais, entrelaçando-se em mais um caso de relação borda/borda: as bordas curvilíneas das alamedas uniram-se à textura temporal sombria da ocasião, abrindo-se a uma futuridade desconhecida que afetaria milhões nos Estados Unidos e no exterior.
  • Em contraste, na rua 110 os parques emolduravam o simples caminhar, sem vontade de entrar neles, mantidos como aberturas opcionais; na Union Square, no fim do dia seguinte ao 11 de setembro, não havia escolha senão entrar e participar: o parque não era horizonte acenante de visita possível, mas ímã de ação coletiva.
  • As bordas dos acontecimentos inserem-se num fluxo contínuo de devir temporal, fazendo parte dele e atuando como redemoinhos e correntes nele: o acontecimento da Union Square foi uma corrente tênue na cascata tumultuosa da semana que foi da segunda-feira do 11 de setembro à segunda seguinte, e muito além.
  • Suas bordas espaciais e temporais marcaram um momento de pausa pensativa em meio a um fluxo maciço e impessoal; juntar-se aos outros não foi só comiseração ou empatia, mas um primeiro passo para dar sentido à tragédia, num maremoto de respostas que arrastou a região, a nação e grande parte do mundo.
  • Sempre mutáveis, as bordas dos acontecimentos exibem um alcance temporal variável entre começo e fim, designado por expressões como “a partir do pôr do sol” ou “até tarde da noite”; cada acontecimento tem também duração própria, seu curso de manifestação, dito “a noite toda” ou “por várias horas”.
  • As bordas externas de começar e terminar encerram esse desdobrar, que tem fases com bordas internas; nenhuma dessas bordas é mensurável em quanta precisos do tempo-mundo, e unidades cronológicas como “11 de setembro” ou “encontro às 20h” são meros designadores, nunca descritores adequados.
  • Nas bordas dos acontecimentos não se trata de retenção ou protensão, horizontes internos da consciência do tempo, sempre só de cada um, mas das fases temporais básicas de começar, durar e terminar, aparentes em acontecimentos que ocorrem em mundos-da-vida compartilhados ou compartilháveis; cada fase tem seu tipo característico de borda.
  • Fase inicial: ao começar, o acontecimento exibe uma borda projetada para a frente, iniciatória; na Union Square deve ter havido um sentido palpável de algo significativo começando, sem ação única ou dramática, podendo ser tão discreto quanto algumas pessoas começando a caminhar juntas em silêncio pelas alamedas.
  • Fase durativa: com a chegada de outros, o acontecimento ganhou corpo; já estava em curso quando se entrou em sua espessura durativa, aberta, sem ponto preciso de início ou fim, simplesmente em andamento; quanto durara ou duraria era de interesse apenas indireto, e importava fazer parte do encontro e de seu cortejo circular e autorreconectante.
  • Fase final: notavelmente, não houve limite superior; anunciá-lo teria parecido intrusivo e arbitrário; a praça normalmente fecha à meia-noite, conforme placas nos portões, mas essa hora não foi observada; quem ficou continuou caminhando, pensando e ouvindo, e quem saiu o fez por razões pessoais.
  • O acontecimento foi-se extinguindo gradualmente em algum momento da madrugada, sem que se saiba quando, o que não importava à sua existência como todo, que se tornava corrente naquele momento da história.
  • As bordas eventuais (eventmental) são ao menos triplas, como a tridimensionalidade do desdobrar temporal, passado, presente e futuro, cada fase com caráter e impulso (nisus) próprios; sua indefinição de extensão não diminui sua força no fluxo da experiência, composto sobretudo de acontecimentos.
  • Seu caráter relativamente amorfo e incomensurável é o esperado, pois os acontecimentos não são ocorrências quantitativamente determináveis no tempo-mundo (Weltzeit, termo de Heidegger para o tempo especificável como subsistente), mas acontecimentos únicos em mundos-da-vida inteiros.
  • Esses mundos-da-vida são aglomerados complexos de humanos, animais, coisas inanimadas, vegetação, terra, céu; os destinos diferenciais de seus habitantes fazem que os acontecimentos não sejam isoláveis, mas intereventuais, formando “concrescências”, no termo de Whitehead, configurações únicas.
  • As bordas desses acontecimentos, cada qual com a estrutura tripla descrita, são intensamente interativas, como as do 11 de setembro e do acontecimento da Union Square, sua sequela irreprimível.
  • As bordas dos acontecimentos são comparáveis às dos lugares por serem interativas de ponta a ponta: suas relações borda/borda, internas ou externas, são manifestamente múltiplas e integram a estrutura dos próprios acontecimentos e lugares.

IX

  • As bordas de lugares e acontecimentos mantêm localizações e acontecimentos, que compõem tanto da experiência diária, numa escala adequada ao alcance das atividades e energias humanas.
  • Se só se conhecesse espaço ou tempo infinitos, não se saberia orientar-se nem o que fazer; bordas como as alamedas da Union Square, que guiaram suavemente os enlutados, orientam a vida cotidiana, dirigindo percepção e movimento e permitindo lidar com discernimento com um mundo-da-vida finito.
  • Nenhum lugar ou acontecimento deixa de ser finito, e não há finitude sem bordas; só espaço ou tempo infinitos podem pretender carecer delas, daí o célebre dito medieval, repetido por Nicolau de Cusa, Bruno e Pascal, do universo como esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte alguma.
  • Aqui embaixo vive-se numa esfera finita com muitas circunferências insistentes, graças à proliferação de bordas de coisas, acontecimentos e lugares; mesmo frustrantes, essas bordas mantêm a honestidade, lembrando que o mundo terrestre está continuamente terminando: o mundo-da-vida é mundo-de-bordas do começo ao fim.
  • As bordas que cercam, longe de só restringir, podem libertar: para Lacan, nada criativo aparece sem urgência, e essa urgência vem do modo como bordas espaciais e temporais permeiam a vida, mostrando que o enfrentamento construtivo emerge dos desafios que elas enquadram e apresentam.
  • Em sua finitude e modos de fechamento, as bordas de acontecimentos e lugares incentivam e frequentemente realçam ações inovadoras e obras sem precedentes: artistas precisam de ateliês, estudiosos de escrivaninhas e celas, atores de palcos, cientistas de laboratórios.
  • Artistas, pensadores e muitas pessoas comuns beneficiam-se de lugares de trabalho vivos de bordas, onde disciplina e inspiração andam juntas; a espacialidade restritiva desses lugares e o tempo delimitado do trabalho criativo podem convocar o extraordinário.

X

  • As bordas de lugares e acontecimentos são frequentemente fechadas e fechantes, voltando-se contra o entorno e mantendo o lugar ou acontecimento contido em si; mas às vezes são abertas e abridoras, porosas, abrindo-se ao mundo circundante.
  • Com essas direcionalidades contrastantes, são claviculares: como os dois ramos da clavícula, têm resistência aproximadamente igual; podem começar ou terminar um lugar ou acontecimento, abri-lo ou inaugurá-lo, fechá-lo ou encerrá-lo.
  • Outra característica clavicular é estar no espaço ou no tempo: às vezes apresentam-se como espaciais (dentro versus fora), às vezes como temporais (durante versus antes ou depois); mas, embora as bordas dos lugares se prestem mais à especificação espacial e as dos acontecimentos à temporal, toda borda é espaço-temporal.
  • A espacialidade de um lugar situa-se em sua duração, e a temporalidade de um acontecimento emerge de sua localização num lugar; não há acontecimento sem lugar, algum lugar onde acontecer, nem lugar que não incorpore ou implique um acontecimento, algo que acontece.
  • As bordas de lugares e acontecimentos, descritivamente diferentes, são compatíveis e ativamente cooperativas, interagindo tão intimamente que é difícil separá-las: no 11 de setembro, as bordas temporais do acontecimento e as bordas placiais de seu locus são distinguíveis na análise, mas inseparáveis na realidade histórica.
  • Na Union Square, as bordas placiais concatenaram-se estreitamente com as formas da ação comemorativa de 12 de setembro; em toda a experiência humana, essas bordas são coconstituintes indispensáveis dos mundos-da-vida habitados.
  • A interação tem ainda a dimensão da incrementalidade compartilhada: enquanto as bordas de uma coisa se ligam a ela só, as de acontecimentos e lugares ligam suas partes, acompanhando e contribuindo para a extensão de um lugar e o curso de um acontecimento.
  • O lugar é entidade conjuntiva de múltiplos itens inter-relacionados num cenário comum, e suas bordas respeitam essa propriedade coadunativa; o acontecimento desdobra-se, e suas bordas refletem esse desdobramento; em ambos, as bordas seguem incrementalmente, parte por parte, fase por fase, coalescendo como bordas daquele lugar ou acontecimento.
  • Coisas, acontecimentos e lugares mostram-se cúmplices graças a suas bordas interconectivas: a borda de uma coisa material, o horos de Jâmblico, é borda de algo situado num lugar, inserida na matriz de bordas desse lugar, e todo lugar é parte de um acontecimento em curso com bordas próprias.
  • As bordas de um acontecimento entretecem-se com as do lugar onde ele ocorre e com as das coisas nele encontradas; graças às bordas de cada um, as bordas de todos interagem em padrões polimorfos decisivos para o modo de experimentar o mundo e viver a vida.
  • Um migrante mexicano que tenta entrar nos Estados Unidos em busca de trabalho inexistente em seu país caminha até La Frontera atravessando terras áridas do norte do México, sem água, cheias de cactos, serpentes e animais selvagens, com o corpo cada vez mais exausto e desidratado.
  • Chegando ao norte do México, encontra a fronteira marcada por um muro impenetrável de concreto ou estacas de ferro, patrulhado pela polícia de fronteira e iluminado à noite por potentes holofotes; seus movimentos são literalmente detidos pelo muro.
  • O muro é coisa material formidável situada num lugar específico, a fronteira Estados Unidos–México; chocar-se contra ele é um acontecimento, o de ser parado de repente, cuja borda externa é distintivamente semelhante a uma fronteira: imposta de fora, em forma de interdição (“passagem proibida!”), indiferente à topografia local.
  • A posição do muro interrompe o acontecimento da travessia; as bordas do corpo desfalecente chocam-se com a superfície rígida do muro numa confrontação estática borda a borda, e essas bordas pertencem também ao acontecimento do impasse: são bordas de um acontecimento de pura obstrução.
  • Nessa circunstância, comum nesta era onde quer que muros bloqueiem migrantes, vê-se como as bordas de lugares e acontecimentos podem fechar, em contraste com outras ocasiões em que abrem, como quando outro migrante, com sorte ou dinheiro para ter documentos, atravessa um posto oficial.
  • A mesma Coisa maciça no mesmo Lugar estacionário pode proibir o Acontecimento da travessia ou permitir o movimento legal; todas as bordas efetivas, do muro (coisa), da fronteira (lugar) e do corpo em movimento (acontecimento), são espaciais e temporais.
  • As bordas do muro e da fronteira, espaciais na percepção do migrante e na representação cartográfica, são históricas em sua proveniência; as bordas do corpo do migrante são espaciais como carne formada e temporais como portadoras de uma história de vida.
  • As bordas de lugares e acontecimentos juntam-se às da matéria morta e dos corpos vivos numa situação em que o movimento é na maior parte vedado e só raramente facilitado; as vidas comuns, ainda que de modo menos dramático, enfrentam continuamente circunstâncias comparáveis nos mundos-de-bordas a que já pertencem ou que encontram como novos.
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