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estudos:casey:2017:2

2 Bordas, Superfícies e Limites

CASEY, Edward S. The world on edge. Bloomington, Indiana: Indiana University Press, 2017.

  • Dois parâmetros são básicos para bordas de todo tipo: a relação entre bordas e superfícies e a diferença entre bordas e limites (limits).
  • A maioria das bordas inere em superfícies de algum tipo, embora raramente se reflita sobre como isso ocorre.
  • Tende-se a pensar as bordas como uma espécie de limite sem refletir sobre o que isso significa; ambas as relações são complexas e exigem atenção.

I

  • Primeira observação preliminar: é raríssima uma superfície sem borda; a exceção é a esfera perfeita, que nunca termina, muito menos numa borda abrupta, e mesmo a fita de Möbius, de superfície única percorrível sem cruzar borda, é uma faixa contínua com bordas discerníveis.
  • Segunda: é difícil encontrar ou imaginar uma borda que não seja borda de alguma superfície ou não tenha superfície ligada a ela, como o aro de uma lata de alumínio, borda superior de sua superfície cilíndrica; isso vale para todas as bordas fisicamente realizadas, tidas como paradigmáticas.
  • A superfície não precisa ser uniforme ou lisa, como mostra o horizonte, borda que paira sobre uma paisagem variada vista à distância.
  • O vínculo entre superfície e borda explica-se, primeiro, porque as superfícies, salvo se infinitas, precisam terminar em algum lugar, e onde terminam está sua borda, que marca o lugar exato em que a superfície se detém.
  • Exemplos: a superfície da mesa termina numa borda circular que a define e fecha; a calçada fora do café termina abruptamente no meio-fio, borda efetiva de sua superfície plana de concreto.
  • Segundo, as bordas têm de ser bordas de algo, e os dois principais “algos”, coisas físicas e lugares paisagísticos, possuem superfícies e ocorrem como superfícies, sem as quais não seriam conhecidos nem acessíveis.
  • Afirmar que algo aparece sem superfície pela qual se apresente é falar de não-coisa ou não-lugar, de um númeno sem manifestação fenomenal; ser fenômeno percebido é ter superfície finita apreensível pelos sentidos e, salvo a esfera, ter uma borda que a termina e fecha.
  • As superfícies são o terceiro termo mediador entre coisas e lugares e suas bordas, deixando de lado os acontecimentos: superfícies fenomenais ou apresentacionais levam coisas e lugares ao olhar ou ao tato.
  • Surge uma estrutura triádica e hierárquica com uma regra geral: não há coisa ou lugar finito sem borda, nem borda senão de alguma superfície.
  • Há um duplo encaixe: bordas > superfícies > coisas/lugares, e também coisas/lugares > superfícies > bordas.

II

  • Restam as perguntas sobre o que é uma superfície para poder ter bordas e o que são bordas para serem bordas de superfícies.
  • A superfície raramente é considerada, tida como traço indiferente das coisas físicas, às vezes da terra ou do mar; é o locus da apresentação de uma coisa ou lugar, onde e, em geral, como aparece.
  • É a parte das coisas, inclusive paisagens terrestres e aquáticas, onde qualidades sensíveis inerentes ou transitórias vêm ao encontro do relance, da contemplação ou do tato; os sensórios as captam o tempo todo com tal eficiência que raramente se escrutina cor, textura ou brilho, e num relance ou num toque sabe-se quão quebradiça, áspera, resiliente ou refletora é.
  • A superfície tem sempre extensão finita e, com raras exceções, como placas tectônicas ou minas fechadas, está aberta à apreensão espontânea ou à inspeção concertada: é onde algo está aberto à percepção e, por isso, maximamente exposto.
  • Coisas e lugares mostram-se por suas superfícies, que são fonte de conhecimento e pista indispensável da natureza do que recobrem; mas a mesma superfície é ponto de vulnerabilidade, pois sua manifestação pode ser sua ruína, como quando a exposição prolongada ao sol causa melanoma na pele.
  • Primeira regra geral: o ser das superfícies reside em seu aparecer; mas nenhum aparecer dura para sempre no tempo ou no espaço, se tempo e espaço são finitos tal como experimentados, como Kant argumentou rigorosamente.
  • A suposta infinitude do espaço e do tempo, de proveniência teológica, tornou-se construto científico na física newtoniana e na relatividade especial, com o “espaço-tempo” tido como infinito; mas nenhuma superfície aparece com extensão literalmente infinita, e mesmo a da esfera, que não termina, é finita no espaço que ocupa.
  • Sob o casco do transatlântico Queen Elizabeth II, sua superfície metálica parece um arco contínuo e sem fim, mas, recuando no cais do rio Hudson, vê-se que termina na proa voltada para Manhattan; e quem a contemplasse fixamente teria em algum momento de deixar a cena.
  • O filme de Andy Warhol sobre o Empire State Building, visto de um único ponto, termina após oito horas e cinco minutos; a superfície do edifício termina no último andar, e sua apresentação no meio temporal do filme precisa concluir-se, ainda que o filme seja visto repetidamente.
  • O próprio corpo é caso paradigmático de fechamento espaço-temporal finito: sua superfície é a pele, contínua ao envolver músculos, tendões, ossos e ligamentos, sem término abrupto, mas finita, com exatamente a extensão do corpo vivo que envolve, um “limite” (boundary) no sentido do primeiro capítulo.
  • A pele não é perfeitamente lisa: tem orifícios nos quais penetra sem se romper completamente, salvo cortes e feridas abertas, “lacunas” (gaps), que ainda assim guardam continuidade mínima, sem ruptura completa nem mesmo na amputação.
  • Mortal, o corpo é revestido por uma superfície que dura pouco mais que o organismo vivo e não se estende além da massa corporal que encerra; finita em duas dimensões básicas, a pele é bordejada, ou recortada (scalloped), tema retomado no capítulo 8.
  • Resposta breve: o aparecer fenomenal de uma superfície requer bordas que realizem sua finitude no espaço e no tempo.
  • As bordas estruturam-se, por desígnio ou contingência, de modo a deter uma superfície, suave ou abruptamente, intervindo para moldá-la e alterar seu caráter: se não a terminam, mudam sua direcionalidade e textura.
  • A borda de uma rua interrompe sua superfície, marcando o fim do pavimento ou interpondo um meio-fio, e rompe o plano horizontal, levando-o a um fim efetivo.
  • Não há limite superior ou inferior fixo para o grau de desvio necessário para que uma borda intervenha numa superfície: depende dos materiais, das convenções de construção, nas superfícies artificiais, ou de configuração, nas paisagens, e até da sensibilidade perceptiva do momento.
  • Conforme o fator predominante, emergem tipos distintos de borda que fecham uma superfície: as linhas elegantes do Queen Elizabeth II contrastam com a retangularidade áspera do cais, mas cada uma é apropriada ao propósito de sua coisa e à inter-relação entre elas.
  • Em outros casos há disparidade manifesta entre bordas de superfícies sem função ou destino comum: quando o navio passa pela Estátua da Liberdade rumo à Inglaterra, bordas e superfícies do navio e do monumento cruzam-se em suas diferenças.
  • Muitas bordas precisam ser rígidas para servir à funcionalidade da coisa ou lugar, mas precisam configurar-se com suas superfícies, ajustando-se à figura e colaborando em seu fechamento, como as bordas arredondadas do casco que facilitam o movimento nas águas profundas.
  • Se agem contra os interesses da coisa ou lugar, são repelentes e ameaçam miná-los, não se ajustando à superfície nem levando-a a seu estado final como aquela superfície.
  • A superfície exige certo tipo e forma de borda conforme seu caráter e constituição, para chegar a um fim que sua finitude impõe; as bordas devem permitir que sua extensão diminua e cesse como aquela superfície de propriedades materiais únicas, como resistência à tração e peso específico, e devem considerar o ambiente ou meio em que ela funciona.
  • Em suma, a superfície é algo cuja delimitação inerente no espaço e no tempo é marcada pelas bordas que realizam seu fechamento, e as bordas devem ter configuração pertinente para, unidas a uma superfície, fechá-la eficazmente.

III

  • A relação entre superfície e borda considera-se também em duas proposições que se afastam de abordagens formais como a de J. J. Gibson, para quem a superfície é um conjunto de faces que se encontram em ângulos diedros, isto é, bordas e cantos.
  • Primeira proposição: a borda é quase a sombra da superfície, não a sombra literal de um objeto, mas figurativamente algo projetado para a frente ou para trás e indissociável do original: onde vai a superfície, vai a borda, como a própria sombra segue cada passo ao sol.
  • A borda é aquilo em que a superfície de algo, coisa, lugar ou processo psíquico, é projetada, seu destino local: a superfície encontra seu fado na borda em que termina, avançando nela por uma dinâmica implícita sem equivalente em termos estritamente fisicalistas; pode-se também imaginar a borda sobrevindo por trás, por baixo, por cima ou de outros ângulos.
  • Estão em jogo duas intencionalidades implícitas de uma coisa ou lugar: a da superfície rumo à borda e a da borda que leva essa superfície ao entorno imediato, aspectos complementares do modo como as bordas “sombreiam” as superfícies.
  • A borda também é semelhante à sombra por não ter substância própria: a superfície é a face que algo substancial volta para o mundo, literalmente “sobre a face”, superfície de uma profundidade; para Merleau-Ponty, um visível é a superfície de uma profundidade, um corte transversal num ser maciço.
  • Esse “ser maciço” é uma substância literal, algo que “está sob”; a superfície é a película do que lhe subjaz, sua casca, com destino ligado ao subjacente: na medida em que as substâncias persistem, as superfícies persistem.
  • As superfícies estão em contato com o entorno pelo meio em que se situam, ar, água e outros, e, como camada externa de uma substância, são intermediárias entre ela e o meio.
  • A borda de uma substância é o momento em que substância e superfície perdem densidade, textura, refletância e outras propriedades, em que “saem da existência”, tornando-se borda; é sombria por ser a diminuição da superfície, onde ela se esgota definitivamente.
  • Em seu ponto de fuga, a borda é mais fina que papel, mais fina até que o grafeno, sendo por fim um traço formal da superfície, daí a tentação de Gibson de defini-la como ângulo diedro.
  • Onde superfície e substância são materiais e o meio é insubstancial, pois o ar não é coisa alguma, a borda é o lugar em que ambas deixam de ser robustamente materiais, o momento da materialidade que diminui e se esvai, mas ainda não inteiramente imaterial: mais sombra da matéria que substância, contígua à superfície e dela inseparável.
  • Segunda proposição: a superfície é a borda ampliada; a dinâmica imaginativa da matéria permite inverter o experimento e pensar a borda crescendo na superfície, engrandecendo-se nela e ganhando massa e substância.
  • A borda sofre involução na superfície de que é borda, unindo-se, fundindo-se e tornando-se ela; se a primeira proposição trata de extromissão, um enviar para fora, esta trata de intromissão, um enviar para dentro.
  • A borda desaparece na superfície, onde não se encontra e raramente deixa vestígio, como num acontecimento de pura dissolução em que perde sua identidade de borda para tornar-se superfície, achatada a ponto de não restar nem sua sombra.
  • Se a borda é o sombrear-para-fora da superfície, a superfície é a incorporação sem sombra da borda.
  • Juntas, as proposições indicam que cada termo se torna o outro, diferencialmente e por inversão da direção imaginativa: borda e superfície entram e saem da existência uma a partir da outra e uma na outra.
  • Salvo a esfera, cada uma é condição indispensável (sine qua non) da outra: sem superfície não há borda, sem borda não há superfície; borda e superfície são convergentes, covalentes e correquisitas, apesar de suas diferenças estruturais, funcionais e materiais e das dissimetrias de seus vetores opostos.

IV

  • Na experiência e na fala cotidianas, bordas e limites são usados quase indistintamente: “estou no limite de minhas energias” ou “na borda externa de minhas energias”, os “limites” do conhecimento como suas “bordas externas”, e estar no “limite da cidade” mal se distingue de estar na “borda mais externa da cidade”.
  • Essas expressões refletem, porém, uma diferença conceitual: falar dos limites de energia, conhecimento ou cidades invoca algo determinado, frequentemente quantitativo e mensurável, como o limite municipal em metros ou milhas, ao passo que falar de suas bordas não implica nada tão definido.
  • Por isso “borda” precisa de adjetivos como “externa” ou “mais externa” para aproximar-se de “limite”, o que sugere que “limite” tem núcleo semântico discreto, com poucos qualificativos, e admite definição e discussão mais rigorosas, enquanto “borda” é ambígua.
  • As bordas não devem ser confundidas com limites no sentido estrito de algo “além do qual não” (non plus ultra), que não pode ou não deve ser transgredido, sentido kantiano de “a religião nos limites da simples razão” e dos “limites da experiência possível”, determinados pela razão pura e pelo entendimento puro.
  • Nessa função legisladora, essas faculdades ditam os limites externos da experiência e do conhecimento coerentes; o que ocorre dentro deles deve conformar-se às categorias do entendimento e não exceder o alcance da razão: nada de indefinido, incoerente ou “arestoso” (edgy).
  • Assim concebidos, os limites fornecem égide e lei, domos e nomos, lar conceitual e muro racional, estrutura abrigadora sem saídas; não se pode ir além deles, apenas permanecer dentro, e sua intransponibilidade é determinada de antemão.
  • Justamente por esse fechamento estreito, tais limites pedem transgressão, como Kant reconheceu nos modos matemático e dinâmico do sublime, que desafiam os limites (Grenzen) da arquitetônica da razão teórica pura.
  • Experiências da escala colossal e do poder das forças naturais levam além dos limites epistêmicos, suspendendo sua autoridade e permitindo projetar o que nunca é dado na experiência sensível; apontam para outra relação com os limites, mais de contestação que de respeito.
  • Os limites kantianos, por sua missão de reter tanto, apontam para além de si, fazendo emergir um sentido transgressivo de algo vindo de fora: não uma fenda no muro da razão, mas um limite imanente ao próprio muro que exige sua superação e tenta olhar além de sua delimitação.
  • Não só no sublime, mas nos encontros cotidianos com limites, projeta-se além deles: o próprio ato de pô-los, falar ou pensar sobre eles, precipita para seu outro lado, mesmo quando se afirma a restrição a este lado; a visão torna-se clarividência ativa, uma “televisão” ou visão à distância.
  • Vislumbra-se o que Kant queria excluir: o não fenomenal, o indeterminado, o paralógico, o excessivo e o monstruoso; talvez por pressentir tão fortemente o que está do outro lado (die andere Seite), Kant exigisse que os humanos permanecessem deste lado (dieser Seite), e a severidade de seu limite traz o anseio de saber o que está além.
  • Esses limites lembram o “desfiladeiro estreito” invocado por Freud diante da vida onírica: um desfiladeiro impõe limites locais específicos, mas pode abrir-se subitamente além deles e contém indícios concretos do que vem; nos limites formais não há tal esboço, e seu outro lado exige ações suplementares de pura projeção.
  • Projetar além dos limites formais, como no sublime kantiano, é explorar uma nova dimensão, e não a continuação de uma borda percebida como no desfiladeiro; essa dimensão abre-se para uma expansão no espaço ou no tempo.
  • Assim entendido, o limite é o oposto de um aro, estritamente preso à coisa material de que é parte inseparável; um limite que admite sua própria transcendência é literalmente deslimitado (delimited, “fora do limite”).
  • Ponto paralelo vale para a fronteira (border), cuja função primária é demarcar e delinear, mas além de toda fronteira, do outro lado (al otro lado), abre-se toda uma paisagem passável e porosa, mais semelhante a um limite (boundary) que a uma fronteira.
  • Resulta a analogia: limitado está para deslimitado assim como fronteira (border) está para limite (boundary); limites formais e fronteiras são, ou pretendem ser, encerrantes e encerrados, enquanto limites concretos e limites (boundaries) que convidam a seu eclipse são abertos e abertores.
  • Essa abertura não conduz necessariamente ao irracional ou ao desconhecido, como Kant temia, mas provavelmente à dimensionalidade difusa do mundo-de-lugar.
  • O limite não delimitado leva para fora em vez de manter dentro, a outro lugar que não o término absoluto oficial; deixa de encarnar e impor o non plus ultra e torna-se o plus do próprio ultra, eclipsando o ultra pelo desfazer do non plus, e permite experimentar o mundo de outro modo.

V

  • Dennis Schwendtner, afinador de pianos de Denver, observou que pensa as bordas na música como existindo do outro lado dos limites, onde o limite formal de um acorde, oitava ou intervalo é levado ao ponto de não contar mais apenas como aquela oitava ou acorde.
  • Os limites são entidades de outra ordem que as bordas: definitórios, ideais, legais, estatutários e institucionais; não mudam por si, não por durarem fisicamente, mas por não estarem sujeitos aos determinantes de mudança e devir das coisas materiais e dos acontecimentos históricos.
  • Pertencem ao ser de um fenômeno, à sua identidade, estatuto ou definição; encontrados, já estão sempre estabelecidos e mantêm sua posição até serem substituídos por outro limite mais preciso ou que atenda a outras necessidades, sem alterar seu caráter, embora possam convidar à transgressão, sobretudo quando intransigentes, e às vezes coludir com ela.
  • As bordas, ao contrário, são intrinsecamente alteráveis e muitas vezes o exigem: mudam quando se modificam os termos que as definem, como os de um tratado que fixa uma fronteira internacional, ou quando a forma de um recipiente se altera com o uso, embotado, amassado, vincado.
  • As próprias bordas da identidade pessoal podem alterar-se num acontecimento traumático, um ato de violência, a morte de um ente querido; “sai-se diferente” sem entender como.
  • Embora possam ser recrutadas a serviço de idealidades, como nas linhas de fronteira perfeitamente retas, as bordas pertencem ao atual: aros são bordas de algo fisicamente real, tão reais quanto aquilo de que são aro, sendo “real” uma modalidade do materialmente atual.
  • As bordas dos estados psicológicos são suas fronteiras, como nas “personalidades limítrofes” (borderline), modos como esses estados se dispõem em padrões de comportamento e pensamento, tão atuais quanto as bordas das coisas materiais, e mudam quando muda o estado subjacente; as bordas psicológicas são retomadas no capítulo 9.
  • Em nenhum desses casos, aros, condições limítrofes e coisas materiais, é possível limitação conceitual ou geométrica: com as bordas não se está no reino das idealidades e formalidades, mas no das atualidades e devires, onde tudo muda; a informalidade das bordas contrasta com a formalidade dos limites conceituais.
  • Se há alguma geometria operante, é informal, a que Husserl chamou “morfológica”, com exemplos como “entalhado” e “umbeliforme”, formas constituídas por bordas mais ou menos informais, ásperas ou “cruas”.
  • Ser entalhado é exibir cortes não perfeitamente regulares, apenas perceptíveis ou palpáveis o bastante para serem contados; a forma umbeliforme é em leque, sem padrão perfeitamente repetitivo, com variações embutidas; o mesmo vale para as formações fractais de muitas costas.
  • Variáveis no detalhe, essas formações encarnam uma progressão geral mapeável e discutível, uma consistência informal pertencente às próprias bordas; sua atualidade material é bordejada, mas não estritamente limitada como seria se exibisse uma forma geométrica ideal determinada por axiomas, postulados e definições.
  • Segundo Schwendtner, as bordas situam-se do outro lado dos limites, pouco além de suas posições formais e fixas: pairam em torno deles, em sua vizinhança, sem serem parte deles e muito menos eles mesmos.
  • Diferentes em espécie, bordas e limites mantêm certa relação no espaço, uma parceria de localização, e no tempo, quando referidos a acontecimentos; a diferença irredutível de estatuto ontológico, atual e ideal, não impede que se relacionem de modos específicos num campo espacial ou temporal.
  • Esses modos exprimem-se em frases como “bordejar por sobre o limite” ou “bordejar através do limite”, locuções adverbiais que indicam a elasticidade das bordas em relação aos limites; os limites não geram tal proliferação adverbial, e em “no limite” a palavra está só, marcador austero e monossêmico.
  • Apesar das diferenças eidéticas e concretas, limite e borda relacionam-se intimamente: um limite pode atravessar as bordas a ele associadas, e estas podem agrupar-se em torno dele.
  • Pode-se imaginar o limite como superfície perfeitamente plana atravessada em vários ângulos por outras superfícies: um plano formal único que subjaz a um conjunto aberto de formas informais, cada uma um modo particular de ser borda.
  • O limite funciona como plano de imanência em relação às bordas tomadas como transcendências discretas, no sentido de Deleuze e Guattari: plano formal onde muitas coisas e acontecimentos ocorrem ao mesmo tempo, superfície pura onde as idealidades estão em casa, em torno da qual joga um aglomerado de atualidades.
  • Identidades ideais habitam o plano formal, e as formas que o cortam em vários ângulos são singularidades atuais; o primeiro é o sítio dos limites, as segundas o das bordas, e em sua disparidade cada uma exige a outra e realiza o que a outra não pode.

VI

  • Uma analogia da prática corporal concreta é a ioga, em que a postura perfeita ou final, “acabada”, contrasta com os estágios de aprendizado pelos quais passa o praticante, que ficam aquém dela, mas integram a prática e não podem ser saltados.
  • Esses estágios equivalem a bordas, e os instrutores usam espontaneamente o termo: “mantenha na borda”, “não passe da borda”; a postura ideal é o limite do qual os praticantes ficam aquém em suas aproximações hesitantes, bordejando em direção a esse limite de perfeição.
  • “Ficar aquém” não é fracasso lamentável; primeiro, as posturas passageiras são momentos em que o praticante experimenta suas posições como posturas singulares, ainda que imperfeitas, dificuldades ou advertências, mas também momentos de descoberta de como é estar a caminho, com prazer e valor próprios.
  • Diz-se que na ioga a perfeição está na jornada, não no destino: a perfeição como limite ideal é suspensa para estimular o movimento rumo a ela por um trabalho corporal imperfeito sobre as bordas.
  • Segundo, nessa jornada pode haver um sentido de borda mais que físico, onde se passa do corpo à mente, de um estado corporal a uma realização mental, indo além da borda somática hesitante rumo a outro tipo de borda, uma periferia estreitamente afiliada.
  • Não se trata de passar ao ideacional, a pensamentos discretos como memórias, antecipações e ideias, mas à dimensão psíquica do ser, que também tem bordas distintivas: recantos da mente, lugares momentâneos de pausa, estações intermediárias no nível psíquico.
  • A ioga é um análogo praxiológico do que estava desencarnado nos exemplos anteriores: se os limites são perfeição determinada ou formal, prestando-se a representações delineadas como as figuras de palitos das posturas, as bordas são intrinsecamente alteráveis demais para se reduzirem a idealizações privilegiadas.
  • Há sempre várias bordas posturais em relação a um limite, vários tipos delas e várias ações possíveis de borda, avançar, recuar, relaxar; não há um único modo correto de assumir as bordas de uma posição, pois elas integram o meio dos múltiplos devires do corpo do praticante no tempo e no espaço, deles provindo e ajudando a constituí-los.
  • Os limites em torno dos quais se agrupam são insistentemente ideais, havendo uma única idealidade de cada tipo: um único 2, um único triângulo equilátero, uma única postura perfeita, como “a prancha” ou “o cachorro olhando para baixo”; o limite pertence ao ser em sua unidade formal e identitária, e a borda é atual e multiforme, sempre alterando-se e devindo.

VII

  • A distinção entre limite e borda poderia parecer arbitrária ou ao menos contingente e substituível por outras, como ponto final versus momento intermediário, mas não é: um limite formal-ideal é verdadeira assíntota em torno da qual as bordas se agrupam como vizinhas multiformes.
  • O limite precisa das bordas tanto quanto elas dele: isolado, seria meramente abstrato, termo único e inalcançável, invisível e intocável; isoladas, as bordas seriam meramente diversas, enxame indeterminado de elementos díspares.
  • O limite não é o termo comum nem a Forma ou Ideia da qual as bordas seriam meras instâncias ou espécies: ambos conservam sua integridade, formal e informal, e cada um chama o outro para iluminá-lo por diferença contrastiva.
  • Para compreender as bordas pode ser essencial saber o que é um limite, e para concebê-lo é indispensável ter experimentado a multiplicidade de bordas que o cercam; nenhum é mera manifestação ou realização do outro, mas cada um depende do outro para realizar-se mais plenamente, em si e em sua diferença.
  • Trata-se de “pressuposição recíproca”, no termo de Deleuze: nenhuma borda sem um limite que a superintenda, nenhum limite sem bordas que o compliquem e povoem seu espaço ideal de outro modo vazio.
  • Essa condição coeva foi em geral encoberta no pensamento ocidental: a oposição obscureceu a dependência mútua, frequentemente reduzida à derivação de um termo a partir do outro, como em certos platonismos; a derivação substituiu a co-originariedade, e a ontogênese obscureceu a bipolaridade da correquisição.
  • As bordas foram tomadas como meros modos do limite, e o limite como termo arquetípico do qual as bordas seriam refugos ectípicos.
  • A tentação de eleger um único conceito como supremo numa região da experiência ou do discurso é intrínseca à metafísica ocidental, como nas tentativas medievais tardias e modernas de fazer do espaço o termo supremo, reduzindo o lugar a avatar adventício, ou da contemplação (gaze) o exemplar supremo da visão, reduzindo o relance a ato casual.
  • Ambos os movimentos são erros graves, como mostrado fenomenologicamente em outros lugares; subordinar a borda ao limite é igualmente equivocado e deve ser substituído por um modelo muito diferente de sua relação, baseado em descrição cuidadosa.

VIII

  • A trama complica-se ao perceber que as bordas pertencem a coisas em lugares e os limites ao espaço, numa pertença assimétrica: das bordas chega-se aos lugares por etapas sucessivas, pois as bordas pertencem às superfícies, estas compõem a exterioridade e às vezes a interioridade das coisas, e as coisas inerem em lugares.
  • Forma-se uma série encaixada: borda > superfície > coisa > lugar; não se vai diretamente das bordas aos lugares, salvo quando os lugares têm bordas próprias, tema do capítulo seguinte.
  • Nas coisas físicas, as bordas inserem-se numa sequência com pelo menos dois membros intermediários, superfícies e coisas; o mesmo ocorre nos acontecimentos, com concatenações complexas de bordas de pessoas, contextos e coisas; as bordas são quase sempre partes de partes de partes, o que leva ao domínio mereológico, cujo objeto são as partes.
  • Os limites, ao contrário, dizem respeito a todos, às totalidades formais a que pertencem, e alinham-se com o espaço, supondo que este, ao contrário do lugar, sempre particular e plural, seja um único todo, infinito e sem fim.
  • O limite é um momento do espaço, não uma parte ou pedaço dele, segundo a distinção husserliana entre momento (Moment) e peça (Stück); ideal, é aspecto integrante do espaço em seu ser abstrato, vazio, idêntico a si e homogêneo.
  • O destino do espaço é fornecer limites a suas partes, não bordas: medir os pés cúbicos de um apartamento resulta num número abstrato de volumes postos, “blocos de espaço” contíguos num espaço ideal não percebido, mas o apartamento como lugar material tem bordas, paredes, portas e janelas; o destino do lugar é ser preenchido por coisas e acontecimentos concreta e variadamente bordejados.
  • Como o limite, a contemplação (gaze) alia-se a todos espaciais, vistas estudadas e panoramas completos, e à objetivação espacial do pensamento científico, como mostra o estudo de Foucault sobre o “olhar médico”; pressupõe uma forma pura, como o corpo anatômico idealizado, e busca o estável e imutável, contemplável indefinidamente.
  • Os relances aliam-se a situações momentâneas, olhar isto agora; como as bordas, unem-se a coisas com superfícies, embora se desprendam de uma superfície para outra; enquanto a contemplação busca um padrão definitivo num espaço unificado, os relances, inquietos, passam de poleiro em poleiro, alterando continuamente o foco num lugar particular.
  • Há afinidades entre três pares, limite/borda, espaço/lugar e contemplação/relance, apesar das diferenças de domínio ôntico e modo de operação; cada par exige descrição perifenomenológica, sensível às partes externas de coisas e lugares, a suas exterioridades, regiões periféricas ou “exteriores” (outtards).
  • A perifenomenologia exige uma atenção especial que vá diretamente às estruturas exoesqueléticas de coisas e lugares, as proeminências que atraem os relances espontâneos.

IX

  • A formalidade do limite, sua idealidade e identidade estrita, contribui para sua presumida hegemonia sobre a borda: o sentido de que os limites são definitivos e finais e as bordas “meramente” empíricas e heterogêneas; reforça-a o monismo implícito do limite diante da pluralidade inerente das bordas, que vêm em muitos tipos e tendem a concatenar-se sem fim.
  • Os limites são aliados naturais do pensamento metafísico de molde clássico, dada a antiga aliança entre forma ou essência e metafísica: a presença metafísica é intensamente formal nas Formas platônicas, no ser parmenídico, no Uno plotiniano ou na mente divina aristotélica que pensa a si mesma.
  • O fator formal triunfa, estabelece as regras do jogo metafísico e fixa os limites da conceitualização; por isso a linguagem do “limite” surge em contextos metafísicos posteriores em concerto com a forma, como no limite diferencial do cálculo de Newton e Leibniz e nos limites do entendimento e da razão em Hume e Kant.
  • Em cada caso há um único limite ou conjunto de limites: uma única assíntota no cálculo diferencial, um único conjunto de limites do entendimento, como a regra de Hume de que todas as ideias copiam impressões e por elas são delimitadas, ou da razão, os limites da experiência possível transgredidos pelas ideias infladas de Deus, liberdade e imortalidade.
  • Há relação rigorosa entre forma, uno e limite, termos que, com “espaço”, “idealidade”, “condição de possibilidade”, “fundamento” e “Deus”, prestam-se à posição hegemônica na grande cadeia do Ser, na qual lugares e bordas são por si mesmos (ipso facto) membros subordinados por carecerem de formalidade, unidade, idealidade pura e limitação rigorosa.
  • As bordas, porém, como os lugares e os relances, possuem uma força disruptiva que contesta essa hegemonia e ameaça sua suposta prioridade: sua diversidade lhes dá um poder eficaz justamente por sua posição subalterna.
  • Em sua multiplicidade e heterogeneidade, estabelecem seus próprios padrões e critérios, não mais tributários dos termos supostamente primários de limite, espaço e contemplação, com poder e presença próprios.
  • Como todo relance, a percepção de cada lugar e de cada borda é um acontecimento capaz de trazer surpresa e abalar conceitos e sistemas predominantes: o surpreendente emerge do outro lado de toda borda, é o que o relance entrega e surge da insistência de um lugar ou acontecimento.
  • Olha-se de relance para a borda sabendo que ela abriga o inesperado, não só o oculto à percepção presente, mas o ainda-não-acontecido, o acontecimento por vir; bordas, lugares e relances são criaturas do devir, não instâncias fixas do ser.
  • Assim como os lugares complicam o espaço e os relances minam a contemplação, as bordas contestam os limites, diversificando-os imanentemente, por baixo, em torno e além, enquanto os limites se apresentam como fixos e transcendentes.
  • A força subversiva e discreta (sub rosa) das bordas resiste à sua subordinação e a desfaz por seu próprio caráter e operação: limites impostos formalmente são desconstruídos pela energia fervilhante das bordas que os cercam.
  • É tentador considerar bordas e limites co-originários em suas diferenças, ambos necessários, nenhum anterior, cada um complementar; mas, se for preciso escolher, as bordas são o primeiro entre iguais (primus inter pares).
  • São primeiras porque a experiência em curso depende diretamente delas, e navega-se o mundo pelas bordas efetivas nele encontradas; os limites não são encontrados, mas postos ou presumidos, e existem fora do mundo circundante de lugares ao qual se pertence como criaturas sencientes.

X

  • O esforço primário é reconhecer e sublinhar a insistência das bordas no curso da experiência e sua pura multiplicidade de forma e número; clarificou-se a relação entre bordas e superfícies e mostraram-se os modos como os limites contrastam com as bordas.
  • A tese é que, em relação às bordas, os limites são secundários: mesmo proclamados necessários, permanecem os outros fantasmáticos das bordas, seus correlatos conceituais no domínio da formalidade e da idealidade.
  • Não há fim para a proliferação de bordas que se encontram e que vêm ao encontro; existe-se num pleno de bordas que constitui um verdadeiro mundo próprio, um mundo-de-bordas, embora cada borda se componha tanto do que não está diretamente diante de si quanto do que está.
  • Como os “escorços” (Abschattungen) que para Husserl constituem os perfis externos das coisas físicas, as bordas esbatem-se, no sentido literal de ab-schatten, nas sombras da semipresença.
  • Suas partes ocultas ficam em suspenso enquanto as manifestas são dadas na percepção; mas o ocultamento é sempre parcial, pois já se pressente numa borda aquilo para que ela se abre, embora raramente com certeza: as bordas são portas de entrada no ainda-não-conhecido, que está se tornando conhecido.
  • Os limites, ao contrário, estão inteiramente subtraídos à experiência sensível: pressupostos e não sentidos, impostos e não dados, não podem ser apresentados como tais, e só suas representações ou signos chegam à consciência direta; ainda assim, os humanos são levados a imaginar ativamente seu outro lado, como no sublime kantiano, em que o limite gera a dimensão aberta do não delimitado.
  • As bordas são esquivas, desaparecendo das próprias percepções em que aparecem e escapando por todos os lados para o sertão (outback) da percepção.
  • Prendem-se à superfície mais externa de uma coisa ou lugar, geralmente só em parte visíveis ou tangíveis: vê-se e sente-se uma parte da borda, enquanto o resto foge do olho alerta e da mão ágil para periferias nebulosas; só uma perifenomenologia atenta a essas periferias pode detectá-las e descrevê-las com exatidão.
  • Mesmo retirando-se para o perímetro da percepção, as bordas formam parte importante da consciência sensorial: são captadas, notadas e manejadas, e dão pistas cruciais do que está do outro lado, “além da borda”, esboçado concretamente, e não posto ou projetado como o outro lado dos limites formais.
  • As bordas não estão plenamente presentes nem estritamente ausentes, sendo exceções ao paradigma da presença metafísica que, segundo Derrida, dominou a metafísica ocidental desde a origem.
  • Nesse estatuto excepcional, juntam-se a outros fenômenos de presença igualmente ambígua: a escrita, foco do primeiro Derrida; o corpo humano, como insiste Merleau-Ponty no fenômeno do membro fantasma; e o rosto humano, enfatizado na ética de Levinas.
  • Essa ambiguidade contrasta com os limites, ao mesmo tempo estritamente ausentes da percepção concreta e acessíveis como tais à cognição e à intuição formal; os limites estão sempre além dos “limites do sentido”, ao passo que as bordas emergem dentro desses limites, ajudando a concretizar e complicar o que ali aparece e marcando sua própria evanescência.
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