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estudos:casey:1993:2.6

2.6

CASEY, Edward S. Getting back into place: toward a renewed understanding of the place-world. Bloomington: Indiana University Press, 1993.

VI

1. Embora Arquitas e Pauline Whitesinger pertençam a épocas, culturas e regiões radicalmente distintas, a experiência do deslocamento não permanece distante da condição moderna e pós-moderna ocidental, pois cada indivíduo se encontra de algum modo envolvido em processos de deslocamento, ainda que seus sintomas frequentemente sejam menos devastadores do que aqueles sofridos pelos Navajo.

2. A nostalgia constitui um dos sintomas mais reveladores do deslocamento contemporâneo, estando disseminada na cultura moderna e pós-moderna desde a experiência literária de Proust até suas formas cinematográficas e comercializadas, porque a vida atual permanece profundamente marcada pela saudade de tempos e lugares perdidos.

3. A nostalgia não significa apenas arrependimento por tempos passados, mas desejo por lugares aos quais já não se pode retornar plenamente, fazendo com que a perda de lugar se torne inseparável da perda de uma forma anterior do próprio eu.

  • “Não importa que acordo ou ajustamento eu faça, não consigo recuperar a magia peculiar daqueles lugares [da infância]. […] Nenhum esforço da vontade consegue restituir-me aquela percepção, aquela visão do horizonte ainda não manchada pela futuridade — ela às vezes me atravessa, mas não consigo convocá-la. E, no entanto, tudo o que eu diria sobre lugar depende disso, e tudo o que procuro em mim mesmo envolve alguma fantasia profunda de sua restauração. Meu eu melhor e mais verdadeiro — não consigo defini-lo em termos — está vitalmente ligado a alguns poucos quilômetros quadrados de terra.” — Sven Birkerts.

4. A perda de “alguns poucos quilômetros quadrados de terra” pode significar a perda do “eu melhor e mais verdadeiro”, pois a identidade individual e coletiva cresce a partir dos lugares de origem e da memória dos lugares percorridos, assim como a identidade Navajo permanece profundamente enraizada em sua terra ancestral.

  • “Somos filhos de nossa paisagem. Ela dita o comportamento e até o pensamento na medida em que respondemos a ela.” — Lawrence Durrell.
  • A identidade não se limita a propriedades interiores, mas é moldada pela resposta continuada aos lugares habitados.

5. A nostalgia contemporânea estende-se não apenas a lugares queridos da infância, mas também a muitos lugares atualmente inacessíveis, degradados ou destruídos, frequentemente por danos e negligência ecológicos, tornando-se sintoma de uma ausência de lugar generalizada numa época em que os lugares foram trocados por uma mistura indiferenciada de espaço e tempo.

  • Não honrar nem recordar os lugares corresponde a uma forma de desatenção que contribui diretamente para seu enfraquecimento.
  • A concepção moderna segundo a qual “todos os lugares são essencialmente os mesmos” reduz diferenças locais a coordenadas intercambiáveis numa grade euclidiano-newtoniana.
  • Até as casas passam a ser definidas por medidas objetivas em vez de pela qualidade concreta dos lugares que constituem.

6. A uniformização do espaço e a mensurabilidade equivalente do tempo deslocaram a antiga prioridade do lugar, razão pela qual a nostalgia moderna pode conter implicitamente a memória de uma época em que o lugar era “a primeira de todas as coisas” e espaço e tempo ainda não funcionavam como parâmetros abstratos dominantes.

  • Na experiência nostálgica, espaço e tempo ainda aparecem profundamente entrelaçados e inseparáveis.
  • Na modernidade, ambos foram incorporados como estruturas objetivas e indiferentes que calculam, ordenam e medem a existência.
  • Vive-se, porém, não nesses parâmetros abstratos, mas nos lugares concretos que eles frequentemente obscurecem ou alienam.

7. Além da nostalgia, diversos sintomas contemporâneos da patologia do lugar — desorientação, perda de memória, ausência de moradia, depressão e diferentes formas de estranhamento de si e dos outros — aproximam-se estruturalmente daqueles produzidos pelo deslocamento Navajo, ainda que geralmente em grau menos extremo.

  • Muitos descendentes dos europeus que deslocaram povos indígenas experimentam hoje formas de ausência de lugar decorrentes da própria cultura que substituiu lugares concretos por estruturas abstratas de espaço e mobilidade.

8. Povos nativos e não nativos encontram-se atualmente envolvidos numa condição comum de ausência de lugar e desorientação, cuja superação não pode consistir simplesmente em nostalgia pelo passado pessoal ou coletivo nem em projeções utópicas ou exotismos espaciais, pois a própria nostalgia pertence ao problema que pretende resolver.

  • A possibilidade de saída exige uma reconexão pós-moderna com um sentido genuinamente pré-moderno de lugar, semelhante à relação que os Navajo historicamente mantiveram com sua terra e que corre o risco de ser definitivamente perdida.

9. Um relatório de 1980 sobre a saúde dos Navajo reconhecia que, embora recorressem frequentemente aos hospitais do Indian Health Service para aconselhamento, a solução real para seus males consistiria na retomada de seu modo de vida originário, no qual o lugar ocupava posição fundamental, deixando aberta para a própria modernidade a questão de saber se ainda é possível recuperar e reviver algum vestígio significativo de uma forma de existência tão profundamente sintonizada com o lugar quanto a era moderna se tornou sintonizada com o espaço.

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