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estudos:casey:1993:2.5

2.5

CASEY, Edward S. Getting back into place: toward a renewed understanding of the place-world. Bloomington: Indiana University Press, 1993.

V

1. O percurso desenvolvido conduz da condição de des-posição (unplacement), caracterizada pela incerteza quanto ao próprio paradeiro, a diferentes formas de im-posição (implacement) segura, abrangendo desde técnicas modernas como a determinação da longitude e a navegação celeste até procedimentos pré-modernos como seguir pegadas na neve, passando ainda pelas reivindicações metafísicas de Arquitas e Aristóteles acerca da prioridade do lugar e culminando numa compreensão concreta da im-posição produzida pela conjunção entre corpo, paisagem, cultura, sociedade e história.

  • A im-posição não constitui apenas questão abstrata ou metafísica, pois é corporificada, paisagística, cultural, social e historicamente determinada.

2. Nenhuma forma de im-posição elimina definitivamente a ameaça do deslocamento, pois viajantes podem perder-se apesar de instrumentos sofisticados, povos altamente familiarizados com determinado território podem desorientar-se em condições atmosféricas excepcionais, o próprio corpo pode falhar como instrumento ordinariamente confiável de orientação e até uma paisagem normalmente acolhedora pode tornar-se alienante.

  • O deslocamento pode ocorrer dentro do próprio lugar habitado, quando culturas inteiras desenvolvem aversão aos lugares em que vivem e passam a sentir-se atópicas dentro de sua própria im-posição.
  • A condição de não-estar-em-casa (Unheimlichkeit), compreendida por Freud e Heidegger como dimensão incontornável da existência humana, sugere que o deslocamento não constitui simples acidente externo à habitação, mas possibilidade interna a ela.

3. A passagem da des-posição para diferentes formas de im-posição não impede o retorno permanente do deslocamento, e precisamente essa fragilidade da existência situada permite reconhecer o valor extraordinário da im-posição humana, cuja precariedade pode ser revelada de maneira extrema por casos históricos concretos de remoção forçada.

4. A experiência dos Diné, mais conhecidos como Navajo, no nordeste do Arizona, exemplifica uma forma coercitiva de deslocamento produzida pelo governo dos Estados Unidos após o Navajo-Hopi Land Settlement Act de 1974, que levou milhares de pessoas a serem removidas das terras onde viviam e transferidas para o outro lado de uma cerca de arame farpado destinada a separá-las dos Hopi, com quem haviam coexistido durante mais de um século.

  • Os efeitos da remoção foram descritos como devastadores, incluindo elevada mortalidade, suicídios, alcoolismo, depressão e desorientação aguda.
  • Partes substanciais das terras desocupadas destinavam-se à mineração de carvão e urânio e ao descarte de resíduos nucleares, atividades que ameaçavam tornar a região inabitável por tempo indefinido.

5. O sofrimento dos Navajo insere-se num padrão mais amplo de deslocamento coercitivo, pois estudos sobre populações rurais fortemente vinculadas a suas terras indicam que a remoção compulsória tende a constituir experiência traumática para a maioria dos afetados; no caso Navajo, a perda da terra é explicitamente reconhecida como a perda primordial porque a vida individual e coletiva é inseparável daquele território.

  • “Não há terra como esta terra. Nossa terra é nossa vida.”
  • Retirar a terra equivale a retirar a própria vida, pois doença e sofrimento não são concebidos apenas em termos físicos ou psicológicos separados, mas como consequências de uma relação distorcida com a terra.
  • “Tomar da Terra sem retribuir, sem antes tornar-se parte da vida do lugar, é romper um equilíbrio sagrado e, por fim, adoecer.”
  • A remoção total torna impossível a reciprocidade com a terra e destrói de maneira ainda mais radical esse equilíbrio sagrado.

6. O deslocamento dos Diné possui duas dimensões interligadas: a perda de lugares particulares em que a vida cotidiana anteriormente se realizava e a perda mais abrangente da região inteira que constitui o Grande Eu (Great Self), sendo ambas inseparáveis das práticas domésticas, agrícolas, cerimoniais e familiares próprias da existência Navajo.

  • A transferência para casas quadradas impede práticas tradicionais vinculadas ao hogan circular e a determinados rituais.
  • A ausência de espaço adequado para o cultivo transforma práticas alimentares e econômicas fundamentais.
  • “Não há nada pelo que viver. Não há terra; não há hogan. […] Não estou acostumado a este mundo. […] Eu gostaria [ao menos] de uma pequena área de terra como aquela que eu tinha, com um hogan nela.”
  • A perda excede qualquer parcela individual e abrange uma região total que reúne paisagens, marcos, tribos, famílias, ecossistemas e ancestrais, fazendo da identidade uma continuidade devocional com terra, comunidade e lugar ancestral.

7. A terra concebida pelos Diné como Grande Eu possui simultaneamente uma dimensão exterior, constituída pelas características concretas da paisagem circundante, e uma dimensão interiorizada, constituída pelo sistema de lugares sagrados incorporado à própria identidade individual e coletiva.

  • Quatro montanhas sagradas delimitam as direções cardeais da terra Navajo, e elementos provenientes delas integram tradicionalmente objetos medicinais e cerimônias.
  • A rede de lugares sagrados torna-se constitutiva da identidade pessoal e tribal.
  • “A identidade individual e tribal é construída em conexão com lugares amplamente separados e com os caminhos que os conectam. Lugares diferentes são sucessivamente assimilados ou internalizados. Tornam-se elementos distintos, embora inconscientes, do eu, ampliados pela mitologia e pela cerimônia, gerando uma rede de vínculos emocionais profundos que cimenta a personalidade. Ao longo da vida, esses lugares desempenham um papel na evocação da consciência de si e do grupo.”

8. O sistema interiorizado de lugares fundamenta também a história e o tempo para o povo Navajo, pois a proximidade com a terra e com o lugar ancestral sustenta a tradição e organiza a própria consciência histórica, demonstrando que a prioridade do lugar sobre o tempo opera tanto quando o lugar se encontra concretamente na paisagem quanto quando permanece interiorizado na psique.

9. A experiência Navajo reúne diversos temas fundamentais da relação entre lugar e existência: o espírito do lugar manifesta-se na figura do Grande Eu, cultura e paisagem permanecem contínuas, a terra é compreendida como morada ancestral e a aprendizagem significa menos adquirir algo inteiramente novo do que restabelecer uma ligação com o próprio lugar.

  • Reconectar-se ao lugar significa simultaneamente participar de uma memória coletiva e comemorar os ancestrais.
  • O deslocamento produz, portanto, perda cultural e perda de memória, ambas decorrentes da perda da própria terra e da desorientação causada pela remoção.

10. A afirmação de Pauline Whitesinger de que “afastar-se significa desaparecer e nunca mais ser visto” exprime a equivalência extrema entre perda da terra e perda da própria existência, recuperando pela via negativa a antiga concepção de Arquitas segundo a qual não estar em lugar algum significa não existir.

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