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Analítica de Heidegger

CARMAN, Taylor. Heidegger’s Analytic: Interpretation, Discourse and Authenticity in Being and Time. New York: Cambridge University Press, 2003.

  • INTRODUÇÃO
  • 1 – O QUE É ONTOLOGIA FUNDAMENTAL?
  • 2 – A CRÍTICA A HUSSERL
  • 3 – INTERPRETAÇÃO DA INTENCIONALIDADE
  • 4 – O REALISMO DE HEIDEGGER
  • 5 – DISCURSO, EXPRESSÃO, VERDADE
  • 6 – AUTENTICIDADE E ASSIMETRIA

1. A filosofia é ao mesmo tempo histórica e programática, radicada na tradição ainda quando avança por terreno inédito, existindo grandes obras ao longo de todo o espectro, algumas imersas na história intelectual à custa dos problemas contemporâneos, outras fixadas nos problemas atuais, esquecidas de sua história, mal-compreendendo-se a filosofia em qualquer dos extremos, buscando este livro um curso intermediário entre Cila e Caríbdis numa leitura de Ser e Tempo que não seja nem antiquária nem anacrônica.

2. O livro é uma exposição do papel substantivo e metodológico do conceito de interpretação (Auslegung) no projeto de “ontologia fundamental” de Heidegger em Ser e Tempo, atravessando a interpretação todo o tecido do texto, sustentando substantivamente Heidegger que a interpretação - por ele entendida como compreensão explícita - é definitiva da existência humana, tendo os seres humanos uma compreensão do que significa ser, compreensão que é ou pode ser tornada explícita, ao menos em parte.

3. Metodologicamente, é precisamente o fenômeno da compreensão explícita que forma o alvo explicativo do argumento de Heidegger em Ser e Tempo, sendo a própria possibilidade da interpretação o que Heidegger quer explicar em sua interpretação fenomenológica da existência humana, visando o livro a fornecer uma exposição das condições existenciais constitutivas da interpretação, chamadas aqui condições hermenêuticas, sendo Ser e Tempo, nessa leitura, uma descrição interpretativa das condições de nossa capacidade de compreender explicitamente que e o que os entes, inclusive nós mesmos, são.

4. A pré-história deste livro está na dissertação escrita quase uma década antes sobre Husserl e Heidegger, cuja preocupação central era se e como se poderia decidir entre suas concepções respectivas de intencionalidade, aparentemente incompatíveis, sendo a tese então defendida que seus relatos de intencionalidade repousam sobre concepções fundamentalmente diferentes de significado e prática linguística.

5. Só vários anos depois de escrita a dissertação foi possível apontar o que sempre pareceu peculiarmente insular e dogmático na visão de Husserl, não sendo simplesmente que sua fenomenologia seja por vezes limitada ou pouco inspirada, mas que o método por ele empregado pressupõe compromissos substanciais sobre mente e significado, que então defende sob o argumento de que a investigação fenomenológica os revela tais como afirma serem, fluindo a incoerência interna que ameaça a fenomenologia husserliana de seu descaso crítico pelo problema das condições hermenêuticas.

6. Contrasta-se a abordagem explicitamente hermenêutica de Heidegger à intencionalidade, que a considera apenas um aspecto de nosso ser-no-mundo, com duas teorias contemporâneas da filosofia analítica: a de Daniel Dennett, que relativiza os fenômenos intencionais à postura teórica envolvida numa estratégia explicativa chamada “postura intencional”, e a de John Searle, que parece reconhecer as condições externas, extramentais, da intencionalidade, chamadas de “Pano de Fundo” (Background).

  • As “posturas” de Dennett (física, de projeto e intencional) parecem, à primeira vista, correr paralelas aos três modos de ser em Ser e Tempo: ser-simplesmente-dado objetivo (Vorhandenheit), disponibilidade instrumental (Zuhandenheit) e ser-no-mundo humano (In-der-Welt-sein).
  • A noção de Pano de Fundo de Searle parece ecoar a insistência de Heidegger no enraizamento ou situacionalidade das atitudes intencionais num ambiente físico e social mais amplo.
  • Nem Dennett nem Searle, contudo, colocam a questão transcendental que inspira e anima a analítica de Heidegger, a saber, quais são as condições que informam nossa própria ideia de fenômenos intencionais como intencionais, concluindo-se com uma discussão sobre a concepção heideggeriana da normatividade do “impessoal” (das Man), que o comprometeria com uma forma de externalismo social amplamente semelhante em efeito, embora não em objetivo nem em método, ao anti-individualismo de Tyler Burge.

7. Como sugere o título, lê-se o projeto inicial de Heidegger como pertencente a uma tradição amplamente kantiana de filosofia transcendental, sem inferir dessa filiação, contudo, que Heidegger fosse ele mesmo algum tipo de idealista transcendental, buscando-se antes explicar e defender seu realismo declarado quanto aos entes, chamado aqui de realismo ôntico, sendo Heidegger realista em parte por levar a sério nossas atitudes pré-reflexivas ordinárias e resistir a argumentos filosóficos que pretendem subvertê-las ou desacreditá-las.

8. Construir argumentos a favor ou contra o realismo ou o idealismo claramente não era a principal preocupação de Heidegger, residindo antes seu transcendentalismo no esforço de explicitar as condições que tornam possível compreender os entes explicitamente como o fazemos, não implicando conclusão alguma sobre as condições hermenêuticas da compreensão humana diretamente tese metafísica sobre o estatuto ontológico dos entes que interpretamos.

9. É plausível sustentar que coisas definidas por sua utilidade só são o que são dentro de algum domínio de práticas humanas, ao passo que meros objetos e espécies naturais existem independentemente de nós, tirando essa leitura de Ser e Tempo como relato de condições hermenêuticas, e não como metafísica direta, parte da pressão do problema entre realismo e idealismo, pois o ponto de Heidegger não é avançar ou defender tese metafísica particular, mas apenas dizer o que cai dentro das condições de interpretação próprias da existência humana e o que não cai.

10. A natureza bruta, tal como Heidegger a descreve, cai fora dessas condições, sendo nosso realismo ordinário e não-instruído sobre o mundo natural tanto plausível em si mesmo quanto consistente com o relato das condições hermenêuticas em Ser e Tempo, compreendendo tais condições, em contraste, o mundo dos artefatos, práticas e instituições humanas, dependendo o ser (Sein) do Dasein, insiste Heidegger, mas não aquilo que é (das Seiende), mais precisamente aquilo que é “ocorrente” (vorhanden).

11. É a exposição do que se toma como a condição hermenêutica, a condição de interpretação por excelência em Ser e Tempo, a saber, o discurso (Rede), tendo-se dito surpreendentemente pouco sobre esse conceito apesar de seu papel vital em ambas as divisões do tratado, discordando os estudiosos dramaticamente sobre o que o termo sequer significa, assumindo muitos que o discurso é simplesmente a linguagem tomada em contexto amplo, e outros que é a estrutura pragmática subjacente a toda atividade significativa, linguística ou não.

12. Ambas as abordagens perdem o ponto de Heidegger, e o fazem precisamente por perder o próprio fenômeno, não sendo o discurso essencialmente linguístico, nem simplesmente um aspecto da estrutura propositiva da atividade significativa, sendo antes um espectro mais amplo de comportamentos expressivos e comunicativos irredutíveis que constituem uma dimensão distinta e não-propositiva de significado além do direcionamento instrumental a fins da atividade prática, sendo essa dimensão expressivo-comunicativa de significado o que torna possível a linguagem e os fenômenos semânticos em geral.

13. O discurso não é linguagem, mas é uma conditio sine qua non privilegiada da linguagem precisamente por ser a conditio sine qua non da expressão em geral, sendo a expressão a essência da interpretação, entendida como a compreensão expressa ou explícita (ausdrücklich) de algo como algo, sendo compreensão e discurso “equiprimordiais” (gleichursprünglich), na medida em que correm ortogonalmente ao longo de dimensões diferentes no tecido da inteligibilidade, sem que um se reduza ao outro.

14. Esse relato do discurso revela um nível de significado a meio caminho entre a instrumentalidade da prática e os conteúdos semânticos das proposições expressas em asserções, equivalendo esse domínio intermediário de significância a uma espécie de saliência hermenêutica que torna inteligível de modo exprimível certo mundo cultural, sendo apenas contra o pano de fundo dessa saliência hermenêutica que as asserções podem ser inteligíveis como verdadeiras ou falsas.

15. É esse domínio pré-assertórico de significância expressiva que Heidegger descreve em seu relato da verdade como “desvelamento” (Unverborgenheit) no §44 de Ser e Tempo, não sendo o ponto de Heidegger nem analisar a verdade proposicional de modo revisionário nem simplesmente insistir que os entes devem nos ser dados para que nossas asserções sejam verdadeiras a seu respeito, sendo antes a saliência hermenêutica em que os entes nos são revelados no discurso, ela mesma, uma condição da interpretabilidade das asserções como verdadeiras ou falsas.

16. Construir a interpretação como exprimibilidade, e assim as condições da interpretação como condições de exprimibilidade, não significa que se deva ler Heidegger como um “expressivista”, pertencente a uma tradição do final do século XVIII e início do XIX segundo a qual realizações expressivas de vários tipos preencheriam lacunas reais entre o eu e o mundo, restaurando-o a uma forma de integridade social, psicológica e mesmo metafísica, marcando a ontologia fundamental de Heidegger uma ruptura radical com essa tradição.

17. Heidegger interpreta o Dasein como o tipo de ente para o qual qualquer ideal de unidade ou completude equivale a um erro de categoria ontológico, não sendo o Dasein em princípio nunca uma coisa acabada, e assim tampouco permanecendo tragicamente inacabado na ausência de práticas e instituições propriamente expressivas, não tendo a expressão e as práticas expressivas como tais telos algum na totalidade do self ou do caráter.

18. A incoerência desse ideal normativo motiva o relato heideggeriano da morte na Segunda Divisão de Ser e Tempo, não sendo a morte, tal como Heidegger a entende, o mero término de um processo biológico nem o desfecho de uma história de vida, mas antes o fato de que, ao nos projetarmos em algumas possibilidades futuras, ao mesmo tempo e inevitavelmente nos projetamos no fechamento e extinção de outras, sendo toda projeção acompanhada, em princípio, pelo fechamento de possibilidades, isto é, pelo “morrer” em sentido existencial.

19. A autenticidade, entendida como “resolução antecipadora” (vorlaufende Entschlossenheit), está em assumir a própria situação concreta e avançar rumo à própria morte, isto é, projetar-se inteiramente no florescer e perecer simultâneos das possibilidades, sendo a possibilidade da resolução antecipadora inteligível apenas à luz de um ponto de vista de primeira pessoa irredutível sobre si mesmo, reconhecendo o relato heideggeriano da autenticidade uma assimetria profunda entre os modos de interpretação de primeira e de segunda ou terceira pessoa.

20. A questão que Ser e Tempo não aborda, muito menos responde, é como esses aspectos assimétricos da condição de self estão de fato ligados entre si num conceito mais geral de self ou pessoa, permanecendo, tal como está, o relato da condição de self autêntico em Ser e Tempo radicalmente incompleto, restando ver se e como a irredutibilidade de nossas autointerpretações de primeira pessoa pode ser reconciliada com um relato das condições hermenêuticas de um conceito de pessoa aplicável tanto a nós mesmos quanto aos outros, sem por isso repudiar nossos compromissos definidores entregando-os à medianidade da compreensão pública, tornando-os assim anônimos e impessoais - em suma, inautênticos.

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