estudos:capobianco:start

Capobianco

Richard Capobianco

William Richardson. CAPOBIANCO, Richard; RICHARDSON, William John. Engaging Heidegger. Toronto: University of Toronto press, 2010.

1. A concepção heideggeriana do Ser (Sein) manteve-se relativamente estável até a “virada” (die Kehre) do pensamento, situada no início dos anos 1930, cujos desdobramentos surgem publicamente em Introdução à Metafísica (1935 GA40) e culminam na elaboração secreta, entre 1936 e 1938, das Contribuições à Filosofia (Do Acontecimento) [Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) GA65], obra que introduz o termo Ereignis e permanece inédita até 1989, vindo a ocupar posição central apenas na conferência de 1962 intitulada “Tempo e Ser” (GA14).

  • Em Introdução à Metafísica, o Ser é considerado sob os aspectos de physis, logos e aletheia, sem que isso represente ruptura com a formulação original.
  • O termo Ereignis aparece esporadicamente a partir de 1956, mas somente na conferência “Tempo e Ser”, de 1962, recebe tratamento central, retomando o título há muito projetado, desde 1927, para a inacabada terceira parte de Ser e Tempo.

2. A conferência “Tempo e Ser” [Zeit und Sein] permanece enigmática para grande parte dos leitores em razão da terminologia então ainda estranha, cabendo à publicação das Contribuições esclarecer que o Ereignis deve ser pensado como o nome de um Acontecimento primordial do qual Ser, entes e ser humano surgem, cada um em seu “próprio” (eigen), configurando o problema de saber se essa formulação subordina o Ser a um Acontecimento anterior ou apenas acrescenta nuance à compreensão do Ser já em questão desde o início.

3. Após exaustiva investigação textual, sustenta-se a posição de que Ser e Ereignis constituem o Mesmo, de modo que a “apropriação” do Ser pelo Ereignis deve ser entendida como o “Ser” tal como compreendido pela metafísica, sendo essa apropriação outro nome para o destinar epocal (Geschick) do Ser enquanto “ser-idade” que caracteriza a tradição metafísica.

4. Em “Tempo e Ser” propõe-se pensar o Ser sem seu fundamento habitual nos entes, isto é, o Ser por si mesmo, o que no entanto não dispensa sua relação com o tempo, já que nem o Ser nem o tempo são um ente, cabendo apenas dizer que “há” (es gibt) Ser e “há” tempo, sendo o Ereignis, o Acontecimento de Apropriação, aquilo que dá um e outro, trazendo o ser humano a seu próprio (eigen) enquanto aquele que percebe o Ser situando-se no tempo verdadeiro.

5. As passagens finais de “Tempo e Ser” concluem a reflexão com a fórmula “a Apropriação apropria” [das Ereignis ereignet], segundo a qual esse Mesmo não constitui novidade, mas o mais antigo do pensamento ocidental, aquilo que se oculta na A-letheia e que exige do pensamento submissão ao apelo do que deve ser pensado.

6. Questiona-se se essa maneira de conceber o Ereignis como o Isto que dá Ser e tempo a si mesmos e um ao outro não seria dissonante em relação à interpretação anterior do Ereignis como fonte dos destinos (Geschicke) do Ser que constituem a história epocal da qual a tradição metafísica seria o principal analogado.

7. Nos Quatro Seminários finais da carreira de Heidegger (1966-1973), sobretudo no Seminário de Le Thor (11 de setembro de 1969), retoma-se a questão do Ereignis a partir da diferença entre o Ser no sentido metafísico de ser-idade e o “deixar ser” [ sein-lassen ] enquanto deixar vir-à-presença, sendo esse “deixar” pensado ainda mais originariamente como “dar” [ geben ], na expressão Es gibt, que remete ao Isto que dá, compreendido como Ereignis.

8. Conclui-se que as duas interpretações do Ereignis não são, afinal, tão dissonantes quanto parecem: tomado como destinação última dos entes constitutiva de uma época histórica determinada, o Ereignis corresponde à ser-idade metafísica dos entes que vêm à presença nessa época, ao passo que, se aceito o intento de pensar o Ser sem fundamento nos entes, o foco desloca-se do “modo” da destinação para sua pura doação, o Es gibt como tal, reconhecendo-se aí a aporia absoluta do pensamento aletheico em sua antecedência primordial como doação espontânea do puro phainesthai, ponto além do qual esse pensamento não pode avançar, restando apenas submeter-se ao apelo do que assim pode ser pensado.

9. As leituras propostas configuram um engajamento com o Heidegger “inteiro”, voltando-se os demais ensaios da coletânea para o Dasein em seus momentos mais desafiadores, oferecendo uma concepção mais humana do Dasein do que a das páginas sombrias de Ser e Tempo, ao traçar, com atenção à disposição afetiva (Befindlichkeit), o deslocamento do “humor definidor” da existência autêntica da angústia (em Ser e Tempo) para o assombro e a admiração (thaumazein), e, com o auxílio de Hölderlin, para o espírito de um retorno ao lar, culminando, por ocasião do sétimo centenário de Meßkirch, na serenidade do “deixar-ser” [ Gelassenheit ], da “alegria” e do “júbilo”.

estudos/capobianco/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1