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Morada

CAPOBIANCO, Richard. Engaging Heidegger. Toronto: University of Toronto press, 2010.

1. investiga-se se o Dasein é primordialmente — no núcleo mesmo de seu ser — “em-casa” ou “não-em-casa” no Ser, questão pouco explorada nos estudos heideggerianos, que revela transformação significativa ao longo da vida de pensamento de Heidegger, do Heidegger inicial dos anos 1920, para quem o não-estar-em-casa constitui o fenômeno mais primordial, passando pelo Heidegger intermediário do início dos anos 1940, que elabora o tema de “tornar-se em-casa no não-estar-em-casa”, até o Heidegger tardio dos anos 1950 e 1960, que sustenta convictamente o poder do retorno ao lar, examinando-se textos-chave do período de 1925 a 1961, sendo o comentário de 1942 sobre o poema de Hölderlin “O Ister” o texto decisivo para iluminar essa “virada rumo ao lar”.

I. A Angústia do Ser Desinstalado: A História do Conceito de Tempo (1925) e Ser e Tempo (1927)

2. o curso ministrado em Marburg no semestre de verão de 1925, texto claramente em transição rumo a Ser e Tempo, antecipa a maior parte da Divisão Um dessa obra, interessando sobretudo a discussão heideggeriana sobre a Angústia (Angst) e a Unheimlichkeit, preferindo-se traduzir estas últimas como “desinstalado” e “desinstalamento”, em vez de “uncanny”/“estranheza”, para melhor conservar o jogo de palavras com o sentido literal de “não-estar-em-casa”.

3. já neste curso de 1925 estabelece-se a distinção fundamental entre o medo, que se refere a algo definido no mundo circundante, e a angústia, diante da qual nada de definido e mundano ameaça, deixando o Dasein profundamente “desinstalado”, não mais em-casa em seu ambiente mais familiar, angustiado não por algo no mundo, mas pelo próprio ser-no-mundo enquanto tal, transformando-se inteiramente, na angústia, em “não-estar-em-casa” pura e simplesmente.

4. depreende-se que Heidegger compreende o “não-estar-em-casa” do Dasein como fundamental: o Dasein é primordialmente “não-em-casa” em sua facticidade, ou existência finita radicalmente negativada, sendo, portanto, angustiado e desinstalado no núcleo mesmo de seu ser.

5. observa-se que o Dasein, embora primordialmente “não-em-casa”, encontra-se em regra “fuga” dessa verdade difícil de sua existência, apegando-se a modos familiares de ser para evadir ou encobrir a angústia e o desinstalamento que definem seu ser, cultivando modos enganosos de “estar-em-casa” que constituem uma recusa de ver-se em sua existência essencialmente angustiada e desinstalada.

6. em Ser e Tempo, Heidegger repete e retrabalha essa mesma temática, distinguindo fenomenologicamente, na Seção 40, a disposição afetiva do medo — que sempre provém dos entes intramundanos — da disposição afetiva fundamental (die Grundbefindlichkeit) da angústia — diante da qual aquilo perante o qual se angustia é o próprio ser-no-mundo enquanto tal —, privilegiando o humor da angústia por confrontar o Dasein com sua existência finita radicalmente negativada e por lhe conceder a possibilidade de apropriar-se de si resoluta e autenticamente.

  • uma diferença menor em relação ao curso de 1925 é a estruturação mais explícita da análise em termos da distinção ôntico-existentivo/ontológico-existencial, caracterizando o medo como fenômeno ôntico-existentivo derivado da disposição mais primordial da angústia.
  • outra diferença notável está na ênfase de que o trato cotidiano do Dasein com os “humores” é, em regra, “inautêntico”, na medida em que estes disfarçam ou encobrem o Dasein em seu próprio ser, só sendo possível ao Dasein apropriar-se de si autenticamente ao confrontar resolutamente o humor ontológico da angústia.

7. em Ser e Tempo, Heidegger reitera que, na angústia, sente-se “desinstalado” (unheimlich), o que também significa “não-estar-em-casa” (Nicht-zuhause-sein), sendo o Dasein constitutivamente “não-em-casa”, referindo-se com desdém aos modos “tranquilizados” e “óbvios” de “estar-em-casa” do impessoal (das Man), do qual a angústia resgata o Dasein, assumindo o ser-em o “modo” existencial de não-estar-em-casa.

8. reafirma-se que o Dasein encontra-se em regra em fuga de si mesmo, refugiando-se na “familiaridade tranquilizada” dos modos ônticos e inautênticos de ser, e que, na cotidianidade mediana, o “desinstalamento” e o “não-estar-em-casa” ficam “esmaecidos”, mas apenas porque o Dasein é ontologicamente, no núcleo de seu ser, desinstalado, resumindo-se a posição na sentença enfática de que, de perspectiva existencial-ontológica, o não-estar-em-casa deve ser compreendido como o fenômeno mais primordial.

II. Expulso do Lar: A Leitura de Antígona em Introdução à Metafísica (1935)

9. em Introdução à Metafísica, obra maior dos anos 1930, a posição fundamental de Heidegger não se altera, embora articulada de modo novo, sobretudo no contexto de seu comentário original ao primeiro coro de Antígona de Sófocles, comentário que também ajudará a evidenciar, por contraste, a mudança marcante de seu pensamento em 1942.

10. embora não privilegie mais o humor da angústia como o fizera nos anos 1920, Heidegger retoma o tema do não-estar-em-casa do Dasein, traduzindo a palavra deinon de Sófocles como unheimlich — preferindo-se “desinstalado” —, sendo o ser humano intrinsecamente desinstalado por aquilo que o lança fora do “instalado”, isto é, do familiar, do costumeiro, do seguro, não lhe permitindo o não-familiar (das Unheimische) estar em casa.

  • todos os modos de ser “em-casa” equivalem ao costumeiro e familiar, correspondendo ao que fora chamado, em Ser e Tempo, de modos “ônticos” e “inautênticos” de ser, sendo o ser humano, em seu próprio ser, desinstalado e não-em-casa em sua relação com o Ser como o Sobrepujante, devendo por isso “transgredir” os limites dos modos de ser em-casa a fim de existir autenticamente.
  • verdadeiro — e verdadeiro criador — é aquele que, como Antígona, aceita não ter lar no Ser, expõe-se ao polemos, à luta com o Ser como Sobrepujante, arranca violentamente o Ser para dentro dos entes, e aceita destemida e heroicamente que sua aventura no Ser possa resultar em desastre.

11. a linguagem de Introdução à Metafísica difere da empregada em A História do Conceito de Tempo e em Ser e Tempo, mas a mensagem permanece fundamentalmente a mesma: o Dasein é primordialmente não-em-casa no Ser, sendo o acontecer do Dasein o próprio acontecer do desinstalamento, verdade difícil que os seres humanos geralmente evitam, buscando falsa tranquilidade nos modos inessenciais de ser “em-casa” que os mantêm fora de sua própria essência.

12. ao concluir o comentário ao coro, nas linhas 372-375, Heidegger interpreta a expulsão do “lar e conselho” do ousado e desinstalado como expressão do desprezo do coro — que representa a cotidianidade mediana do Dasein inautêntico — por aquele que perturba o familiar e costumeiro, constituindo tal rejeição, paradoxalmente, uma confirmação direta e completa do desinstalamento que é a essência de ser humano — leitura que sofrerá transformação marcante quando Heidegger revisitar essas mesmas linhas em 1942.

III. (Re)tornando ao Lar: A (Re)leitura de Antígona em “O Hino de Hölderlin 'O Ister'” (1942)

13. a virada heideggeriana rumo ao “lar” ilumina-se sobretudo no curso de 1942 sobre o poema de Hölderlin “O Ister”, no qual, ao reler o primeiro coro de Antígona, elabora com grande cuidado e sutileza a posição de que o Dasein é primordialmente em-casa no Ser — tema que se tornará tão proeminente em sua obra tardia —, sendo dois outros comentários hölderlinianos do início dos anos 1940, sobre os poemas “Rememoração” e “Regresso ao Lar / Aos Parentes”, próximos em espírito e igualmente significativos.

14. embora já viesse tematizando a “pátria” (Heimat) desde o curso de 1934-35 sobre “Germânia” e “O Reno”, vinculado mais estreitamente aos temas fundamentais de Introdução à Metafísica pela preocupação com o “poder” (Macht) e a “violência” (Gewalt) da criação poética em relação ao Ser (Seyn), o comentário sobre “O Ister” merece reconhecimento especial pela diferença marcante na releitura das palavras de Sófocles ao elaborar o tema do “retorno ao lar” do Dasein.

15. no curso de 1942 sobre o poema inacabado intitulado “O Ister” pelo primeiro editor, Norbert von Hellingrath — antigo nome greco-romano do curso inferior do Danúbio, aplicado por Hölderlin ao curso superior do rio, como se este houvesse retornado à sua fonte —, grande parte da exposição dedica-se a uma Auseinandersetzung entre Hölderlin e Sófocles, com o objetivo de iluminar o poema por meio da elucidação do primeiro coro de Antígona.

16. ao retomar as mesmas linhas corais de Antígona já abordadas em 1935, Heidegger não meramente as repete, mas nelas introduz afastamento significativo — embora não reconhecido como tal — que evidencia a virada rumo ao “lar” em seu pensamento, continuando a traduzir deinon como unheimlich e mantendo-se, por isso, a tradução “desinstalado”.

17. o cuidado inicial de Heidegger volta-se ao Ser mesmo ao discutir to deinon, podendo a palavra de Sófocles ser entendida, em primeiro lugar, como das Unheimliche ou das Ungeheure, o Desinstalante ou o Extraordinário — nomes para o Ser mesmo —, devendo-se pensar em unidade três aspectos: o temível, o poderoso e o incomum, sendo o ser humano, quanto a esses aspectos, respectivamente temeroso apenas no sentido do assombro reverente, poderoso no sentido de expor-se ao poderoso mesmo, e incomum no sentido de ultrapassar o habitual rumo ao extraordinário, constituindo o ser humano “das Unheimlichste”, o mais desinstalado, e, por conseguinte, “unheimisch”, não-em-casa ou não-familiar.

18. reitera-se tema importante do comentário de 1935: em sentido essencial, o ser humano é “não-em-casa” no Ser, sendo aquele ente que em seu essenciar ultrapassa o ordinário rumo ao extraordinário, lançado para fora do estar-em-casa entre o familiar; contudo, ao completar-se a passagem, descobre-se afastamento marcante e não reconhecido em relação à leitura anterior: a palavra de Sófocles diz que os seres humanos são, em sentido singular, não-em-casa, e que seu cuidado (Sorge) é tornar-se em-casa (Heimischwerden) — ideia ausente da leitura de Antígona em 1935 e aqui introduzida sem qualquer sinalização de modificação.

19. propõe-se, então, mostrar em que medida o próprio coro justifica essa interpretação, avançando-se leitura detalhada com esse novo e não reconhecido objetivo: mostrar como o ser humano, o não-familiar, é, não obstante, primordialmente em-casa no Ser.

  • ser “não-familiar” distingue-se de ser mero “aventureiro” que vagueia romanticamente pela “selva” dos entes, aventurando-se heroicamente, pois tal não-estar-em-casa entre os entes, por mais estimulante que seja, resulta em “nada”, já que nenhuma habilidade, ato de poder ou artifício pode afastar a morte.
  • o significado essencial de ser “não-familiar” reside em que os seres humanos, sozinhos entre os entes, comportam-se para com os entes enquanto tais, conhecendo-os como entes, articulando-os e nomeando-os, sendo por isso os únicos capazes de esquecer a fonte dos entes, o Ser dos entes, tornando-se intrinsecamente “não-familiares” por esquecerem constitutivamente o Ser no envolvimento com os entes — o que Heidegger chamara de “decadência” em Ser e Tempo —, sem jamais encontrar, entre os entes, lar algum, dado o naufrágio final na morte.

20. Antígona, todavia, é resoluta em assumir sobre si o deinon, o desinstalamento constitutivo de ser humano, sendo a “suprema desinstalada” e, portanto, também a “absolutamente não-familiar”, consistindo a ação dramática fundamental da peça precisamente em seu nobre pathein — seu experienciar, suportar e padecer, de modo extremo, o desinstalamento e a não-familiaridade do ser humano entre os entes, representando uma intensificação dessa verdade sobre ser humano.

21. introduz-se, sem reconhecimento explícito da mudança, uma nova torção interrogativa: e se aquilo que fosse mais intrinsecamente não-familiar, portanto mais distante de tudo o que é familiar, fosse justamente aquilo que em si mesmo preservasse simultaneamente o pertencimento mais íntimo ao familiar? — o que conduz à releitura das linhas finais do coro (372-375), sobre a expulsão do ousado do “lar” (hearth).

22. diferentemente da leitura de 1935, em que o “lar” era o sítio do Dasein inautêntico, em 1942 o “lar” torna-se o sítio do estar-em-casa de modo primordial e autêntico, sendo Héstia o lar da casa, a lareira em sua essência multiforme, que ilumina, aquece, nutre, purifica e resplandece — o “lar” sendo, assim, o calor do lar-doméstico, o Ser mesmo, fonte de todos os entes, e o tornar-se “em-casa” no Ser o objetivo, o destino da jornada do “desinstalado” e “não-familiar”.

23. os “anciãos tebanos”, ao expulsarem o deinotaton, o mais desinstalado, do lar, confirmam que o “desinstalamento” e a “não-familiaridade” pertencem intrinsecamente a ser humano, mas, nesta releitura, tal expulsão conduz apenas ao lugar onde a compreensão genuína pode começar, apontando as palavras do coro para além do deinon, em direção ao familiar, ao lar, pois expulsar o mais desinstalado dos entes do lar familiar pressupõe conhecer o lar mesmo — um saber implícito do lar que é, ao mesmo tempo, um saber implícito do Ser mesmo, devendo conhecer o Ser de todos os entes quem expulsa do lar.

24. completa-se, assim, transformação notável da leitura anterior das mesmas linhas corais: se em 1935 a expulsão do deinotaton confirmava firmemente que o Dasein não é em-casa no núcleo de seu ser, em 1942 o coro é entendido como apontando para “além” do desinstalamento humano rumo ao lar — rumo ao Ser, o “lugar” ao qual os seres humanos primordialmente pertencem.

25. o lar é o “lar-doméstico” e este é o Ser mesmo, o emergir-aparecer-desdobrar-se de todos os entes, encontrando Heidegger confirmação dessa compreensão na descrição platônica da vida dos deuses no Fedro, segundo a qual somente Héstia permanece sempre firme na morada dos deuses, havendo o pensar e o poetizar gregos antigos alcançado a intuição da conexão essencial entre Héstia e o Ser, expressa poeticamente na fórmula de que o lar, morada do familiar, é o Ser mesmo em cuja luz e resplendor, brilho e calor, todos os entes já se recolheram.

26. o destino último do ser humano é o lar, a morada próxima da Fonte, da Origem, do Ser como tal, referindo-se Heidegger repetidamente a essa jornada como “tornar-se em-casa no não-estar-em-casa” (das Heimischwerden im Unheimischsein), fórmula que resume a lição da obra poética de Sófocles, sendo a própria Antígona o poema desse tornar-se em-casa no não-estar-em-casa.

  • o ser humano é primordialmente em-casa no Ser, mas, no início, não tem consciência do Lar como Lar, e, por esse esquecimento do Ser, perde-se e naufraga entre os entes, na “terra estrangeira”, sendo por isso intrinsecamente desinstalado e não-familiar entre os entes; ainda assim, alguns, como Antígona, assumem resolutamente esse desinstalamento e não-familiaridade, escolhendo um “esquecimento ousado” ao atravessarem a terra estrangeira, passagem necessária para reconhecerem o Ser como Lar e habitarem na Fonte em “lembrança pensante” (Andenken).
  • o Ister, rio do poema de Hölderlin, é o rio próprio ao lar do poeta, que flui para longe de sua fonte mas também, segundo o poema, parece “retroceder”, satisfazendo a lei de tornar-se em-casa como a lei de não-estar-em-casa.

27. constata-se, assim, que no curso de 1942 sobre “O Ister” Heidegger elabora leitura de Antígona marcadamente diversa daquela de 1935, refazendo (sem reconhecê-lo) sua leitura das palavras de Sófocles à luz de uma virada significativa em seu próprio pensamento do início dos anos 1940 rumo ao lar, tornando central, ainda em 1942-43, em dois outros comentários hölderlinianos, o tema da alegria (Freude) do “regresso ao lar”, motivo ao qual retornará repetidamente na obra dos anos 1950 e 1960, embora com outra diferença importante a discutir.

28. destaca-se, no comentário de 1942, a elaboração de uma compreensão fenomenológica sutil do ser humano que descreve o “contrajogo” (Gegenspiel) ou “contravoltar-se” (Gegenwendigkeit) entre a verdade existencial de ser “desinstalado” e a de “retornar ao lar”, não abandonando Heidegger sua insistência anterior de que o descentramento (“desinstalamento”) do impessoal seja necessário para a existência autêntica, mas deixando de ser esse descentramento o “destino”, passando a representar antes uma passagem necessária, uma precondição existencial, para um recentramento do si-mesmo em relação ao Ser como Lar acolhedor — o si-mesmo recentrado encontrando porto seguro no Ser, sem, contudo, ilusões de domínio sobre os entes, e encontrando espanto, alegria e serenidade em habitar pensativamente em relação a tudo que vem a ser e deixa de ser, o que os gregos chamavam physis e Heidegger chama o Ser dos entes.

IV. Em Casa Não Perturbado pelo Desinstalamento: 'Gelassenheit' (1955)

29. na palestra proferida em Messkirch em 30 de outubro de 1955, por ocasião do centésimo septuagésimo quinto aniversário do compositor Conradin Kreutzer, posteriormente intitulada “Gelassenheit” ou “Serenidade” (conhecida em inglês como “Memorial Address”), a distinção entre “pensamento calculante” (das rechnende Denken) e “pensamento meditativo” (das besinnliche Nachdenken) é o traço mais conhecido, interessando aqui sobretudo o emprego da palavra unheimlich.

30. ao agradecer sua pátria (Heimat), Heidegger adverte que uma “irreflexão” (Gedankenlosigkeit) tomou conta da época, sendo essa irreflexão um “hóspede desinstalante” (unheimlicher) que vai e vem por toda parte no mundo de “hoje” — indicando essa qualificação explícita (“mundo de hoje”) que o “desinstalante” caracteriza especificamente o mundo moderno ou contemporâneo, e não um traço essencial do ser-no-mundo, revelando nova virada no pensamento heideggeriano desde o início dos anos 1940: se no comentário de 1942 o unheimlich permanece constitutivo do ser humano, nesta declaração de 1955 ele é relegado a traço principal da época presente, dominada pelo “pensamento calculante”.

31. essa leitura reforça-se ao evocar-se um tempo passado em que os seres humanos habitavam calmamente entre céu e terra, nutridos pelas raízes vivificantes da pátria, “enraizados” no lar — enraizamento (Bodenständigkeit) que define o ser dos seres humanos, mas que hoje se encontra ameaçado no seu núcleo, tendo o desenraizamento perturbador e perigoso brotado do espírito da época em que todos nascemos.

32. o domínio do “pensamento calculante”, que define a essência da era tecnológica, tornou-nos “desinstalados” — não sendo verdadeiramente perturbadora a proliferação das tecnologias em si, mas sim nossa inconsciência daquilo que forma e domina nossa época, isto é, o próprio domínio do pensamento calculante, parecendo claro que Heidegger entende o “desinstalamento” do Dasein no mundo como característica exclusiva da época presente, e não do próprio Dasein enquanto tal.

33. propõe-se que o domínio do pensamento calculante possa e deva ser contestado por uma “serenidade para com as coisas” (Gelassenheit zu den Dingen) e por um “pensamento meditativo” que deixa os entes serem e que se abre ao “mistério” do vir-a-ser e do deixar-de-ser de todas as coisas, sendo o pensamento meditativo o modo fundamental e originário de pensar, pois em tempo anterior, na “antiga radicação” (alte Bodenständigkeit), os seres humanos habitavam meditativa e serenamente sobre a terra e sob o céu.

  • o desinstalamento peculiar trazido pela época presente não é, de modo algum, constitutivo do habitar humano, não tocando o “núcleo interior e real”, podendo em última análise ser superado, oferecendo-se a visão de um novo enraizamento capaz de recuperar, em forma diversa, o antigo e cada vez mais desaparecido enraizamento — parecendo, assim, que a jornada de retorno ao lar do Dasein já não passa essencial e necessariamente pelo unheimlich.

V. Em Casa Tudo Se Alegra: 'Centenário Sétimo de Messkirch' (1961)

34. na palestra proferida em Messkirch em 22 de julho de 1961, por ocasião do septingentésimo aniversário da cidade, o tema de reflexão é novamente a “pátria” (Heimat), observando-se que as numerosas inovações tecnológicas que transformaram a vida contemporânea não oferecem lugar de repouso estável e confiável, mudando incessantemente do novo para o mais novo, e que os seres humanos, capturados por tudo o que é novo, movem-se “do familiar para o não-familiar” (aus dem Heimischen ins Unheimische).

35. retoma-se, então, o tema anterior do “não-estar-em-casa” ou “não-familiar” (unheimisch), mas de modo semelhante ao discurso de 1955 sobre a Gelassenheit, caracterizando-se claramente a não-familiaridade existencial dos seres humanos como fenômeno específico da presente “era tecnológica”, não constitutivo do ser-no-mundo enquanto tal, mas antes aflição constitutiva da época presente dominada pela “técnica moderna” (die moderne Technik).

36. na época presente, os seres humanos encontram-se “em fuga rumo ao não-familiar”, fuga que assume a forma da correria para preencher o tempo com aparelhos e atividades que, ao fim, deixam-nos profundamente entediados e desnorteados, tendo um modo de vida “enigmático” e “desinstalante” (unheimlich) tomado conta dos seres humanos na era tecnológica, deixando-nos “não-familiares” e sofrendo de “saudade do lar” (Heimweh) — saudade essa que, contudo, confirma a presença permanente do lar, buscando-se restaurar a relação primordial com a “pátria”, com a Origem, com o Ser mesmo (embora o Ser não seja explicitamente mencionado neste discurso), vindo também a Origem ao encontro dos seres humanos, por mais “não-em-casa” que estejam na época presente, disfarçada porém sempre nos tocando, devendo por isso irmos ao seu encontro.

37. torna-se claro que a busca pelo lar é uma busca que nos conduzirá para além do não-familiar e do desinstalante rumo àquilo que se chama “repouso e recolhimento”, tendo a recuperação do Lar pelo Dasein o poder de superar o não-familiar e o desinstalante, traços determinantes da era tecnológica, afirmando-se que, em meio ao não-familiar, opera-se um retorno ao familiar, retorno este que tem o poder de sobrepujar reiteradamente tudo o que nos arrasta para o não-familiar, e que, ao recolhermo-nos de novo no pensamento meditativo, tudo se alegra, tudo se torna claro e transparente.

Conclusão

38. em textos importantes dos anos 1920 e 1930 — A História do Conceito de Tempo, Ser e Tempo e Introdução à Metafísica —, sustenta-se a posição de que o Dasein é primordialmente unheimlich, “desinstalado”, e, portanto, também unheimisch, “não-em-casa” no núcleo de seu ser; descobre-se, contudo, virada significativa rumo ao lar, sobretudo no início dos anos 1940, sendo o comentário de 1942 sobre “O Ister” texto-ponte entre o Heidegger inicial e o tardio nessa questão, ao apresentar diferença marcante em relação à leitura de Antígona de 1935, ainda que continue sustentando que o confronto com o “estrangeiro”, o “desinstalado” e o “não-familiar” pertence ao próprio essenciar dos seres humanos, devendo a jornada rumo ao lar atravessar necessariamente a “terra estrangeira”.

39. encontra-se novo desenvolvimento dessa questão na obra dos anos 1950 e 1960, quando, em “Gelassenheit” (1955) e “Centenário Sétimo de Messkirch” (1961), já não se fala do “desinstalamento” e do “não-estar-em-casa” como constitutivos do ser do Dasein, mas de das Unheimliche e das Unheimische como aflições do Dasein na era tecnológica moderna, devendo o Dasein, nessa visão tardia, lutar contra o espírito desinstalante e não-familiar prevalecente na época presente a fim de recuperar sua relação primordialmente em-casa com o Ser e habitar, calmo e alegre, na proximidade do Ser — Lar, Fonte e Origem de todos os entes.

40. de perspectiva fenomenológica, cada uma das descrições heideggerianas — inicial, intermediária e tardia — da relação fundamental do Dasein com o Ser possui traços atraentes que ressoam poderosamente, testemunhando a riqueza de seu pensamento, sugerindo-se, contudo, que o relato do período intermediário — o do comentário sobre “O Ister” — é o mais convincente por sua profundidade e complexidade, podendo-se dizer que a ênfase da obra inicial recaiu sobre o “descentramento” do impessoal que o Dasein (sempre) é, e a ênfase da obra tardia sobre o “recentramento” do Dasein em relação ao Ser, ao passo que, no período intermediário, elabora-se descrição fenomenológica mais complexa que mantém plenamente à vista tanto o “descentramento” quanto o “recentramento” do Dasein.

  • o Dasein é estruturalmente “descentrado” (“não-em-casa”) por todas as razões existenciais expostas na obra inicial — existência contingente, infundada, dispersa e finita (“fática”, “lançada”, “decaída” e “ser-para-a-morte”) —, mas, diante de sua finitude radicalmente negativada, tal descentramento possibilita um recentramento do si-mesmo em relação ao Ser como Lar, tornando-se “em-casa” e encontrando alegria, calma e repouso ao maravilhar-se meditativamente com seu ser em relação ao Ser, o doar e fluir temporal de todos os entes.

41. a visão inicial de Heidegger sobre a aceitação áspera e resoluta, pelo Dasein, de seu ser-no-mundo angustiado, desinstalado e não-familiar cede lugar — sobretudo na obra do início dos anos 1940 — à visão bem mais serena e otimista do “retorno ao lar” do Dasein ao Ser; não obstante, sua descrição fenomenológica poética do ser humano em relação ao Ser, tal como se encontra no comentário sobre “O Ister”, permanece matizada e conserva percepções importantes de seu pensamento anterior, ao passo que, na obra tardia dos anos 1950 e 1960, o relato do estar-em-casa do Dasein em relação ao Ser parece achatar-se e perder a complexidade e profundidade da perspectiva do período intermediário.

  • no comentário sobre “O Ister”, a alegria do retorno ao lar do Dasein é temperada pela lembrança de que o luto perpassa o Ister — perpassa o próprio poeta em sua essência poética —, acompanhando a tristeza o saber da necessidade de permanecer pacientemente “perto da origem”; já no discurso de 1961, essa verdade sóbria está ausente da descrição do retorno ao lar do Dasein, afirmando-se que a meditação não é melancolia, mas jovialidade (die Heiterkeit) na qual tudo se alegra, tudo se torna claro e transparente.

42. tais afirmações do Heidegger tardio certamente possuem apelo próprio, mas também deixam certa perplexidade: como compreender que o habitar pensativo do Dasein em-casa em relação ao Ser deixe para trás toda melancolia e todo luto? Como é possível que “tudo se alegre”? O que significa dizer que “tudo se torna claro e transparente”? — permanecendo estas questões justas e importantes a serem dirigidas ao pensamento tardio de Heidegger.

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