estudos:capelle:teologia-ciencia-2001-2
A TEOLOGIA COMO CIÊNCIA HISTÓRICO-SISTEMÁTICA-PRÁTICA (2001 §1 2)
CAPELLE, Philippe. Philosophie et théologie dans la pensée de Martin Heidegger. Nouv. éd. rev. et augm ed. Paris: les Éd. du Cerf, 2001.
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A questão da teologia enquanto ciência permanece, aqui, apenas lateralmente assumida
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A interrogação sobre se a teologia em geral é uma ciência é indicada como o problema mais central, mas não é efetivamente desenvolvida neste ponto
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Em carta de 8 de agosto de 1928, é registrada uma posição pessoal negativa quanto à teologia ser ciência, acompanhada do reconhecimento de que ainda não há demonstração efetiva
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A demonstração exigiria retomar a própria noção de ciência, pois, do ponto de vista metafísico, haveria apenas uma ciência, o que desloca o problema para o fundamento do conceito de cientificidade
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A cientificidade própria da teologia é esclarecida a partir do ato de objetivação da fé
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A elucidação não se apoia no sistema geral das disciplinas científicas
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O ponto de partida é o próprio campo em que a fé é objetivada conceitualmente
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A expressão ciência da fé é delimitada por quatro sentidos articulados
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Primeiro sentido de ciência da fé: ciência do que é desvelado e crido
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A teologia é definida como ciência do que se desvela na fé, isto é, do que é crido
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Seu trabalho incide sobre o conteúdo apresentado pela fé
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O conteúdo nomeado é o Deus crucificado, que constitui o núcleo do que é crido
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Segundo sentido de ciência da fé: ciência do comportamento crente e da fidelidade
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A teologia é também ciência do comportamento crente enquanto tal e da fidelidade
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O foco desloca-se do conteúdo para o ato de fé
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O ato é distinto do conteúdo, mas pertence ao que é crido, pois a fé enquanto comportamento crente é ela mesma crida
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A fidelidade resulta da unidade entre conteúdo e ato de fé, formando um todo interno
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Terceiro sentido de ciência da fé: a teologia nasce da própria fé
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A relação da teologia com conteúdo e ato de fé não é exterior
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A teologia brota da fé e se inscreve no gesto da fé como sua origem
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A origem teológica é, portanto, imanente ao âmbito que ela objetiva
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Quarto sentido de ciência da fé: a teologia contribui para formar a fidelidade
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A teologia é ciência da fé também porque participa ativamente da formação da fidelidade
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O saber teológico não é apenas descritivo, mas possui função formativa interna
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A fidelidade é, assim, simultaneamente pressuposto e efeito do trabalho teológico
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Primeira consequência: a teologia é ciência histórica em seu modo próprio
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A fé, como modo de ser do Dasein, é sempre já histórica, geschichtlich
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Por isso, a teologia, enquanto ciência da fé, é uma ciência histórica, mas de modo próprio
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Por tratar de um ente de natureza historicamente constituída, a teologia é necessariamente hermenêutica
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Essa hermenêutica implica a própria teologia, pois ela é constituída pela fé e não interpreta um objeto externo neutro
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A teologia é descrita como auto-interpretação conceitual da existência crente
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Finalidade interna da hermenêutica teológica
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A hermenêutica teológica é orientada por um fim conforme à fé: tornar transparente o acontecimento cristão
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A fé, não sendo mero grito, requer discurso, o que recoloca o problema do aparato conceitual adequado
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Surge a exigência de evitar o destino histórico da teologia patrística e medieval, lido como desnaturação da fé primitiva
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O lugar primeiro ao qual a teologia deve ser reconduzida é o existir mesmo, pois ela deve servir à existência crente
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Recusa de uma fundamentação apologética da fé
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A teologia não deve enveredar por uma operação de fundação que torne a fé aceitável ao incrédulo
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Sua tarefa é tornar a fé mais difícil, isto é, tornar evidente que a fidelidade só pode ser adquirida pela fé
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O movimento se fecha como passagem da fé à fé, para e pela fidelidade, mantendo a imanência do âmbito originário
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Segunda consequência: possibilidade de a teologia histórica ser também sistemática
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Formula-se o problema de como uma ciência fiel à positividade histórica pode atender à exigência de sistematicidade própria a toda ciência
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Se o objeto é tornar transparente e descobrir o existir crente, então o trabalho deve apoiar-se exclusivamente nos próprios conceitos teológicos
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A realização da tarefa é vinculada à disponibilidade imediata de conceitos e conjuntos conceituais referentes ao modo de ser e ao conteúdo do ente objetivado
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Sistematização sem dependência de uma filosofia externa
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A sistematicidade teológica pode prescindir de alguma filosofia
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Sistema não significa produção de um sistema fechado, mas derivação do lugar mais íntimo da teologia: o sistema da crença
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Não há oposição entre o historial e o sistema, pois a compatibilidade deriva do caráter temporal do acontecimento da revelação, identificado com a cruz
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O termo sistema é subvertido: deixa de significar encerramento abstrato da história e passa a significar proximidade estrita com o que ocorre por e na fé
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Liberada de um sistema filosófico e fiel à sua cientificidade própria, a teologia torna-se, por isso mesmo, mais filosófica
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Necessidade das disciplinas teológicas para a unidade histórico-sistemática
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A dupla determinação, histórica e sistemática, exige a mobilização das disciplinas teológicas
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São citadas exegese, história da Igreja e história dos dogmas
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Embora chamadas de teologia histórica, tais disciplinas mantêm relação limitada com a história
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É pela teologia sistemática e junto dela que cada disciplina pode ser reconduzida ao caráter historial de seu objeto
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Terceira consequência: a teologia é, por isso mesmo, ciência prática
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Sendo simultaneamente histórica e sistemática, a teologia é também ciência prática
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Prático não significa aplicação pastoral de uma teologia fundamental
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O que a teologia sabe já está presente no que ela faz: liturgia, catequese e homilia
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A praticidade pertence à determinação essencial da teologia, pois o saber não se separa de seu exercício
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Circularidade da tríplice determinação: histórico-sistemático-prática
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A teologia só é sistemática se é histórico-prática
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A teologia só é histórica se é sistemático-prática
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A teologia só é prática se é sistemático-histórica
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A unidade dessas determinações é apresentada como estrutura circular e interna
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A unidade da teologia não se revela por critérios extrínsecos de definição
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A unidade das disciplinas e seu fundamento não podem ser desvelados por uma definição etimológica como ciência de Deus
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Esse vocábulo convém mais à concepção metafísica grega do conhecimento de Deus
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O lugar originário da teologia cristã não é esse conhecimento, mas a fé no Deus crucificado
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Recusa de ampliações que dissolvem a positividade própria da teologia
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A unidade não se revela se a teologia for ampliada à relação de Deus em geral com o homem em geral
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A unidade não se revela se a teologia for tomada como ciência das experiências humanas do religioso e do divino
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Em tais abordagens, aplicam-se critérios extrínsecos, tomados de outras ciências, que deformam a positividade teológica
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Três modelos extrínsecos e seus critérios importados
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A teologia filosófica aplica critérios metafísicos inspirados na tradição grega
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A filosofia da religião do século XIX aplica critérios histórico-filosóficos
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A psicologia da religião aplica critérios de objetivação provenientes das ciências do homem
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A teologia cristã não se identifica com nenhum desses modelos
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Autonomia ôntica da teologia e abertura da questão sobre a filosofia
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A teologia cristã é fundada em primeiro lugar pela fé e extrai dela os recursos próprios de sua metodologia
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Nesse sentido, ela é definida como ciência ôntica perfeitamente autônoma
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Por isso mesmo, emerge a questão de em que medida e sob que forma a teologia deve solicitar a filosofia
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