ESPERANÇA (2025)
Tópicos no Prelúdio de Byung-Chul Han. Contro la società dell’angoscia. Torino: Einaudi, 2025
* A esperança é a contrafigura linguística da angústia ao significar olhar adiante e ver mais longe rumo ao futuro, conforme Friedrich Kluge, abrindo o olhar ao vindouro, enquanto verhoffen preserva o sentido de parar em silêncio para escutar e farejar no jargão dos caçadores, exemplificado pelo capriolo que se projeta, indicando que esperar envolve escrutar o entorno para conquistar direção.
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Friedrich Kluge: esperança como ver mais longe e com mais acuidade.
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Esperança como olhar para o futuro e para o Kommende.
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Verhoffen no jargão da caça: parar, escutar, farejar.
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Exemplo do capriolo que se projeta (verhofft).
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Esperar como busca de direção e atenção ao entorno.
* A esperança mais íntima desperta no coração do desespero absoluto, pois profundidade do desespero e intensidade da esperança caminham juntas, figuradas por Elpís como filho de Nyx, com parentesco de Elpís e Eros ao lado de Tartaro e Erebo, de modo que a esperança é dialética e inclui negatividade constitutiva, como sublinhado por Paolo di Tarso ao ligar tribulação, perseverança, virtude provada e esperança que não envergonha.
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Esperança emergindo no núcleo do desespero.
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Elpís como filho de Nyx e parentesco com Eros.
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Esperança como figura dialética com negatividade constitutiva.
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Paolo di Tarso: tribulação → perseverança → virtude provada → esperança.
* Desespero e esperança se relacionam como monte e vale, e Nietzsche explicita a dialética ao descrever a esperança como arco-íris lançado sobre o fluxo precipitoso da vida, continuamente recompondo-se e superando-o com delicada e bela temeridade, indicando que quem espera age com audácia sem se confundir com a aspereza da vida, e que na esperança habita escuta contemplativa cuja receptividade confere beleza e graça.
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Relação monte-vale entre desespero e esperança.
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Nietzsche: esperança como arco-íris sobre o fluxo da vida.
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“Delicada bela temeridade” como traço da esperança.
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Audácia sem cegueira diante da aspereza.
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Dimensão contemplativa: projeção e escuta.
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Receptividade como fonte de beleza e graça.
* O pensamento sustentado pela esperança não se confunde com otimismo, pois ao otimismo falta negatividade e ele desconhece dúvida e desespero, fixando-se em positividade plana que fecha o tempo e torna o futuro campo disponível e previsível, enquanto o futuro propriamente dito abriga indisponibilidade, surpresa e incalculável que o otimista não considera.
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Otimismo como ausência de negatividade e de dúvida.
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Tempo fechado e futuro como disponível e manipulável.
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Inexistência de surpresa e do indeterminado para o otimista.
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Indisponibilidade como marca do futuro verdadeiro.
* Em contraste com o otimismo autossuficiente e imóvel, a esperança é movimento de busca que se aventura no ignoto e no não trilhado, abrindo-se ao aberto e ao ainda-não, projetando-se além do já sido e do simplesmente presente para o novo, o totalmente Outro e o que nunca existiu.
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Esperança como tentativa de conquistar posição e direção.
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Aventura no ignoto e no caminho não batido.
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Abertura ao ainda-não e ao que não veio ao mundo.
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Orientação ao novo e ao totalmente Outro.
* O otimismo é autoevidente e sem necessidade de conquista, descrito como condição inescapável que acorrenta à própria alegria, dispensando razões e resolução, ao passo que a esperança não é óbvia e requer despertar, evocação e súplica, implicando compromisso ativo, risco inerente à ação e uma resoluteza ausente no otimista que não arrisca nada.
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Otimismo como dado sem motivação e sem dúvida.
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Metáfora de estar acorrentado à alegria.
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Esperança como despertar e necessidade de evocação.
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Esperança ativa como compromisso e risco.
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Otimista como ausência de ação e de risco.
* O pessimismo espelha estruturalmente o otimismo ao igualmente fechar o tempo e aprisionar no “tempo como prisão”, recusando ciclicamente sem aspirar a renovação e permanecendo tão obstinado quanto o otimista, ambos cegos ao possível, sem fantasia para o novo e sem paixão pelo nunca existido, enquanto a esperança aposta em possibilidades que excedem o “mau presente” e capacitam escapar da prisão do tempo fechado.
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Pessimismo como reflexo invertido do otimismo.
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Tempo fechado e “tempo como prisão”.
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Recusa cíclica sem renovação e sem mundos possíveis.
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Cegueira ao possível e ausência de evento transformador.
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Esperança como abertura para além do “mau presente”.
* A esperança deve ser distinguida do “pensamento positivo” e da “psicologia positiva”, que evitam a psicologia do sofrimento para ocupar-se apenas de bem-estar e felicidade, substituindo imediatamente pensamentos negativos por positivos e silenciando aspectos negativos da vida, apresentando o mundo como centro comercial em que se recebe o que se encomenda.
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Psicologia positiva como foco exclusivo em bem-estar e felicidade.
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Substituição imediata do negativo pelo positivo.
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Silenciamento integral das negatividades da vida.
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Mundo como centro comercial da satisfação por encomenda.
* A psicologia positiva atribui a cada indivíduo responsabilidade exclusiva pela própria felicidade, levando quem sofre a culpar a si mesmo e não a sociedade, removendo o fato de que a dor é socialmente mediada, privatizando a sofrença como questão psicológica e preservando intacto o contexto social que a produz.
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Responsabilização individual total pela felicidade.
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Autoculpabilização de quem está mal.
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Sofrimento como fenômeno socialmente veiculado.
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Privatização psicológica e manutenção do cegamento social.
* O culto da positividade isola, torna egoísta e destrói empatia ao desinteressar-se pelo sofrimento alheio e ao reduzir cada um ao próprio bem-estar, desarmando solidariedade no regime neoliberal, enquanto a esperança não se afasta das negatividades, mantém atenção e memória delas, liga e reconcilia, e tem como sujeito um Nós.
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Isolamento e egoísmo como efeitos do culto da positividade.
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Destruição da empatia e desatenção à dor alheia.
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Desativação da solidariedade no neoliberalismo.
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Esperança como memória das negatividades e força de ligação.
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Sujeito da esperança como Nós.
* Na Lettera ai Romani, a esperança se define pelo não-ainda visível e pela temporalidade do não-ainda, elevando acima do dado e do disponível como postura e disposição do espírito, e com Gabriel Marcel a esperança se entrelaça numa experiência em formação e numa aventura em curso, significando fazer crédito à realidade e tornar-se credor do futuro, enquanto a angústia retira confiança e crédito e impede futuro.
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Lettera ai Romani: esperança não é o que já se vê realizado.
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Modalidade temporal: não-ainda.
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Esperança como postura e disposição do espírito.
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Gabriel Marcel: aventura em curso e experiência em formação.
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Esperar como crédito e confiança na realidade.
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Angústia como retirada de crédito e bloqueio do futuro.
* Com Derrida distinguem-se Futur e Avenir, sendo Futur o que ocorrerá amanhã ou em um ano e por isso é previsível, planejável e calculável, enquanto Avenir corresponde a eventos inteiramente inesperados que escapam a cálculo e planejamento, abrindo campo de possibilidades inapreensível e anunciando a vinda do Outro cuja marca é a indisponibilidade.
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Futur como futuro previsível e transformável.
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Avenir como evento inesperado e incalculável.
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Avenir como anúncio do Outro.
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Indisponibilidade como traço decisivo do Avenir.
* Experiências como alegria profunda e amor apaixonado possuem polo negativo que fornece borda onde se enraízam e crescem, pois sem profundidade não há altura e sem negatividade não há intensidade, e Simone Weil afirma ter sentido através do sofrimento a presença de amor análogo ao sorriso de um rosto amado, enquanto a proliferação de likes atrofia a experiência por carecer de negatividade e reduzir-se à fórmula do consumo, ao qual negatividades e intensidades escapam, e a esperança é intensidade que contém oração interior e paixão despertada pela negatividade do desespero.
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Polo negativo como condição de crescimento de alegria e amor.
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Simone Weil: sofrimento como condição de possibilidade do amor.
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Like como fórmula do consumo e atrofia da experiência.
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Intensidades e negatividades como irredutíveis ao consumo.
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Esperança como intensidade e prece interior diante do desespero.
* A esperança, embora paixão, não é passiva, pois possui resoluteza e se assemelha à toupeira intrépida que cava túneis na escuridão, e Hegel compara o Espírito a uma toupeira com sapatos de sete léguas que trabalha interiormente até romper a crosta terrestre e emergir em nova juventude, indicando proceder incessante nas trevas onde sem trevas não haveria luz.
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Esperança como paixão resoluta e não passiva.
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Metáfora da toupeira histórica que cava no escuro.
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Hegel: Espírito como toupeira com sapatos de sete léguas.
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Trabalho interior até sacudir a crosta terrestre.
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Trevas como condição de luz.
* A esperança é antagonista da angústia por não isolar e por gerar vínculo e espaço social, como formula Gabriel Marcel ao condensar o ato de esperar em “eu espero em ti por nós”, e ao notar que a esperança é magnetizada pelo amor, enquanto angústia e amor se excluem e a esperança coimplica amor, reconciliando e associando, ao passo que a angústia é incompatível com confiança, comunidade, proximidade e o tocar, conduzindo a alienação, solidão, isolamento, impotência e desconfiança.
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Gabriel Marcel: “eu espero em ti por nós”.
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Esperança como criação de espaço social e vínculo.
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Esperança magnetizada por imagens evocadas pelo amor.
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Exclusão recíproca entre angústia e amor.
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Angústia como incompatível com confiança e comunidade.
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Efeitos: alienação, solidão, impotência e desconfiança.
* Em O princípio esperança, Bloch sustenta que a esperança seria ensinável como virtude e que bastaria querer aprendê-la, mas a esperança não se ensina nem se aprende como virtude porque sob domínio do clima de angústia nenhuma esperança desperta, sendo necessária uma política da esperança que, contra o clima e o regime da angústia, produza uma atmosfera de esperança.
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Bloch: esperança como ensinável e aprendível.
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Impossibilidade de esperança sob clima de angústia.
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Angústia como repressão da esperança.
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Política da esperança como criação de atmosfera esperançosa.
