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Introdução ao Pensar

BUZZI, A. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1973.

Prefácio

I. O SER

Capítulo I. A ontologia

  • O problema do ser
  • A compreensão do ser

Capítulo II. A metafísica

  • A formalização histórica da metafísica
  • Da metafísica à lógica
  • Da lógica à fenomenologia

Capítulo III. A antropologia

  • O homem está no pensamento, na vontade-de-poder e na liberdade
  • O homem está no corpo
  • O homem está no-mundo e com-o-mundo
  • O homem está na história

II. O CONHECIMENTO

Capítulo I. O mito

Capítulo II. O senso comum

Capítulo III. A ciência

  • As ciências formais
  • As ciências da natureza
  • As ciências hermenêuticas

Capítulo IV. A técnica

Capítulo V. A filosofia

Capítulo VI. As origens da filosofia

  • A curiosidade
  • A admiração
  • A angústia

Prefácio

1. Pensar constitui um achegar-se à realidade em seu constitutivo mais profundo, sendo a realidade integralmente permeada de pensamento, de modo que tudo o que existe o proclama.

2. Pensar é o acolhimento do real na radicalidade última de si mesmo, permitindo que a realidade, na qual o homem está agasalhado, diga por si mesma quem é.

3. O pensamento permanece recolhido nos entes que povoam o universo, sendo estes seu desvelamento (Entbergung), aquilo que revela quem ele é.

4. O homem, por participar da aventura de ser, é dotado da capacidade de pensar e de perceber o ser, distinguindo-se dos demais entes por essa capacidade, o que o define como animal que fala.

5. O conhecimento surge como o fenômeno instituído quando o pensamento humano se entrega ao desempenho de pensar e falar a realidade.

6. O conhecimento filosófico é apontado como aquele que melhor revela o que é a realidade.

7. Filosofar consiste numa radical compreensão da realidade, não como um ir para além do vivido, mas como um aproximar-se de sua raiz, criando um mundo diferente no próprio concreto mundo de agora.

8. O filósofo ambiciona colocar-se no centro do círculo da existência, de onde percebe, na circunferência, a eterna relação entre verdadeiro e falso, bem e mal, autêntico e inautêntico, compreendendo os movimentos de negação e afirmação em sua correta interdependência.

9. A intenção da obra é sopesar, nessa profundidade, a estranha realidade que envolve o homem, convidando-o a atingir esse alvo a cada passo.

10. O alvo atingido pelo pensamento é apenas ponto de referência para um caminhar ulterior, permanecendo o filósofo como viandante no deserto que vê o invisível na representação de uma miragem, a qual ainda não é a verdade da realidade, mas já a anuncia.

11. Todo homem dotado de espírito filosófico há de pressentir que, atrás da realidade em que existe e vive, se esconde outra muito diferente, da qual a primeira não passa de aparição, conforme citação de Nietzsche.

12. Quando a realidade começa a desocultar-se, o pensamento que a recolhe soçobra, incapaz de dizê-la, nascendo daí mais um calar e um silenciar do que um dizer, e uma amizade com a realidade mais do que um saber.

13. Convocar o homem ao pensamento é convidá-lo à amizade com o ser, evocar seu Destino (Geschick), instituindo um espaço em que todos os seres racionais e irracionais são acolhidos na justiça de seu ser, para além das ideologias e sistemas que separam.

14. A filosofia se apreende no próprio ato de filosofar, tal como se sabe o que é andar apenas no ato de andar, retomando-se a afirmação de Wittgenstein de que a filosofia não é doutrina, mas atividade.

15. A filosofia como atividade situa-se num momento anterior à separação entre o teórico e o prático, mostrando que em todo agir e ser há um pensar latente, estruturante e constituinte.

16. O termo filosofia, de origem grega, perde em português o privilégio que a língua grega tinha de pôr o falante em presença da realidade no próprio ato de nomeá-la, restando hoje sobretudo a explicação etimológica da palavra.

17. Heráclito é apontado como o criador presumível do termo filósofo, composto de philos (amigo) e sóphon (sabedoria), sendo o filósofo o amante da sabedoria que com ela mantém correspondência, harmonia e amor.

18. A sabedoria (sóphon) buscada pelo filósofo identifica-se com o todo dos entes, ou seja, com a própria realidade em sua totalidade, cheia de pensamento.

19. O filósofo possui a sabedoria quando está no todo como quem sabe ler a harmonia nele inserida, sendo necessário perceber o um que tudo une e harmoniza, identidade última da própria realidade.

20. O um (sóphon) não é uma coisa entre as demais, mas o que possibilita a cada objeto ser ele mesmo e ao agente viver os acontecimentos díspares em unidade superior, exemplificado na trajetória existencial de Pedro, comparável a uma melodia ou a um poema que não se perdem numa única nota ou verso.

21. A filosofia é o singular desejo do homem, tematizado desde os gregos até a atualidade, de estar na harmonia do todo e de ver as coisas no um.

22. A filosofia, como a luz que possibilita ver a realidade em seus contornos definidos, é um saber-luz que revela o sentido secreto da realidade, criando laços com cada ente na harmonia do todo.

23. A filosofia é um saber em proveito do homem, sendo necessária, conforme Platão, uma ciência em que coincidam pensar e ser, pois de nada serviria uma capacidade ou ciência da qual não se soubesse fazer bom uso.

24. O conhecimento filosófico não deve ser concebido como retrato da realidade, mas como pensamento dela, retomando-se a definição hegeliana da filosofia como consideração pensante dos objetos, em que pensar significa sopesar o peso das coisas.

  • O pensamento filosófico não se desliga das coisas, mas imerge em seu âmago, mergulhando na vida e vivendo a realidade por dentro ao pensá-la.

25. O significado íntimo da realidade é alcançado por um pensamento já envolvido no meio das coisas, sendo a filosofia o tornar explícito aquilo que já era implicitamente vivido.

26. O filósofo é um homem engajado e mergulhado na dinâmica profunda da vida, sendo necessário participar dela e sentir-se ligado a ela por laços invisíveis, e não apenas colocar-se diante dela.

27. A vida é feita de inúmeros pequenos eventos cotidianos, e a filosofia é a arte que revela e custodia a beleza do ser, mostrando que todos os momentos são versos de um só grande poema.

28. Um exemplo é proposto para melhor ilustrar o que pretende o pensar do filósofo.

29. Pelo peso medimos o valor das coisas, servindo-nos habitualmente da balança para expressar essa avaliação em números, os quais constituem uma apreciação abstrata da coisa.

30. No caso hipotético da ausência de balança, contrapõe-se a inexperiência de quem não sabe sopesar a mercadoria à habilidade do camponês, que sopesa a coisa com o próprio corpo e sabe dizer seu peso sem instrumento.

31. Ao conferir depois na balança que o peso indicado pelo camponês estava correto, evidencia-se que o saber científico é um saber-desligado-da-coisa, enquanto o saber do camponês é um saber-ligado-à-coisa, afundado no ser e ligado à vida.

32. O sopesar do camponês não é um substitutivo rudimentar da balança, mas exemplifica dois modos de pensar: um mais radical, originário e envolvente, e outro mais objetivo, abstrato e distanciado da existência, em que o modelo abstrato acaba por fazer esquecer a coisa experienciada.

33. O filósofo vive afundado na vida, sendo a filosofia uma ciência apreciativa do ser vivido e percebido em sua radicalidade máxima.

34. Sem a conexão e a solidariedade com o ser da existência não há filosofia, a qual não é um saber justaposto ao ser, mas um saber revelador do ser.

35. A definição de propriedade dada por Saint-Exupéry exprime essa solidariedade do saber com o ser, ao afirmar que o principal de uma propriedade está naquilo que não se vê e que liga as pedras, as árvores, as cabras e o próprio homem a tudo.

36. O exemplo de Saint-Exupéry evidencia dois níveis de declaração da realidade: o nível funcional, em que se impõe uma estrutura-operativa às coisas e se fala dessa estrutura e não diretamente delas, permitindo, por exemplo, que o advogado conheça a propriedade de modo distinto do camponês.

37. O segundo nível, dito significativo, indica não um modo jurídico de posse, mas a solidariedade e a comunhão invisível entre o homem e a coisa, momento em que a coisa se revela ao homem em sua estranha beleza e se torna sua própria.

38. Exprimir essa experiência recôndita e invisível das coisas é função do filósofo, cujo saber envolve o compromisso de se aniquilar no ser para senti-lo em sua nascividade elementar antes de dizer o que ele é.

39. A filosofia se aproxima da arte, pois o artista e o filósofo mergulham, cada um a seu modo, na interioridade máxima do ser, tornando-se anunciadores do invisível, conforme citação de Heidegger sobre o poetar do poeta e o pensar do filósofo instaurando um mundo.

40. Viver é filosofar, pois o viver-humano inclui um mínimo de decisão, não sendo o ser-homem um estado já feito, mas uma decisão pela qual o homem se institui no processo de se essencializar, introduzindo o acontecimento chamado História.

41. Consciente ou inconscientemente, todo homem possui uma filosofia de vida ou concepção de mundo, ainda que aninhada nas estruturas inconscientes da mente, de onde comanda a conduta, podendo-se dizer nesse sentido que todo homem é filósofo.

42. Reserva-se, contudo, o termo filósofo, em sentido usual, àquele que deliberadamente escolhe um método, sistematiza os conhecimentos obtidos e arquiteta um sistema interpretativo da realidade, dizendo em conceitos e linguagem apropriada a experiência do ser.

43. Filosofar é um saber situar-se e perceber o existir como solidariedade íntima entre o pensar e o ser, expressa em conceitos adequados numa linguagem comunicativa.

44. Anunciam-se os três momentos a serem tratados da filosofia: o ser a dilucidar, sua dilucidação através do conhecer, e sua expressão comunicativa através da linguagem.

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