Encontro
BUZZI, Arcângelo. R. Itinerário: a clínica do humano. Petrópolis: Vozes, 1977.
I. O Encontro
1. O desejo de viver se processa em modelos de ação, em arranjos de sentir, pensar e agir que, em seu conjunto, formam o livro-diário, no qual se aprende a viver.
2. Viver é sempre diligência de busca e procura do que não se tem para melhor ser o que já se tem, a vida, sendo o livro-diário ensinamento dessa busca que conduz à questão fundamental: o encontro de nós mesmos, a confirmação do que já somos, a gratuidade da vida.
3. O livro-diário não ensina apenas a querer muitas coisas, a buscar bens que ainda não se têm, a conservar os que se têm em apreço ou a deitar fora os inúteis, mas nesse ensino aprende-se a ficar na proximidade do que já se é, o dom da vida, o louvor da existência.
4. Nos diferentes caminhos da existência, em luz de esperança, em confusão de desespero ou em banalidade entediada, somos sempre endereçados a esse encontro de silêncio em que tudo é absoluta gratuidade.
5. Os caminhos de vigília e de sono cedo ou tarde conduzem ao encontro radical, à identidade de cada ser e acontecer, em que tudo é instituído em presença no fazer de uma doação que se subtrai aos modelos de nossa propriedade, estando a existência à deriva desse encontro.
6. O encontro não é um fato entre outros nem uma situação em oposição a outras, mas o espaço de emergência e de convergência de todos os caminhos, a gratuidade.
7. No mais das vezes vive-se a situação numa atitude de suplência, procurando substituí-la por outra, o que impede saborear o encontro ou a experiência da situação.
8. A experiência bem saboreada da situação é a reflexão, que se opõe à discussão, pois na reflexão nada é acidental, já que tudo é sabor de ser (Sein), enquanto na discussão há o que é importante e o que não é importante.
9. A reflexão nada pretende, sendo o deixar ser a vida nas modulações de seu aparecer, ao passo que a discussão pretende atingir uma plataforma comum, uma combinação para superar dificuldades, atenta mais ao combinado ponto de vista da situação que à sua experiência.
10. A experiência bem saboreada até da própria burrice, como sabedoria de vida e encontro de uma estranha doação, ilustra-se na estória zen de Shuri-Handoku, discípulo desanimado de Buda que nada compreendia dos ensinamentos do mestre.
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Enviado a decorar um resumo, nada aprendeu, enquanto um pequeno pastor aprendeu a lição rapidamente, o que o desanimou a ponto de decidir abandonar o convento.
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Tocado pelo mestre, que lhe recomendou não chamar de burrice a experiência bem saboreada de sua própria burrice, pois nela reside a sabedoria acerca da dificuldade de viver, Shuri-Handoku passou a limpar os sapatos dos demais discípulos, sendo desprezado pelos companheiros.
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Nada sabendo de antemão, vazio, o último dos homens, foi declarado por Buda o mais sábio do mundo, pois quem, no vazio atento da ausculta, nada possui como domínio do próprio eu, a ele todas as coisas caem e ressoam na novidade do jamais visto e do jamais ouvido.
11. O espaço de emergência e de convergência de todos os caminhos é também a interioridade que deixa o diferente ser diferente, efetuando-se o encontro, instituindo-se a comunidade ou convivência laudatória dos diferentes, quando cada diferente supera o comum indiferente de um diário comum e retorna a esse espaço de interioridade, pura gratuidade.
12. A interioridade não diz simples interior nem mero estar dentro em oposição a estar fora, pois as pedras possuem interior e estão ao lado de outras coisas sem serem interioridade, já que com a pedra os sintagmas em, ao lado de, junto a, com, exprimem mera relação transitiva entre coisas, enquanto a interioridade exige, como condição de possibilidade, o Nada (Nichts) do Mistério, sendo abertura para a totalidade de todas as diferenças sem perda de unidade, razão pela qual só o homem é interioridade.
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Ser homem é deixar-se abrir pelo diferir da identidade em espaços de encontro com o Nada do Mistério, abertura de que advém a liberdade da verdade, a liberdade de deixar encontrarem-se as diferenças de todos os modos de ser.
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Na profundidade do viver, na presença da morte, na transcendência do Eros, na convivência pessoal, na experiência da fé, na criação artística e no pensamento radical irrompe o Nada do Mistério, de modo que nessa irrupção todos os modos de ser desabrocham na interioridade daquilo que são, sendo por ela enviados à viagem da identidade de suas diferenças.
13. O vazio do barro perfaz o vaso, o nada da casa institui a moradia, o silêncio é a experiência do nada da fala, o desconhecido é a experiência do nada do conhecido, sendo o nada a suprema conquista do caminho que deseja ser.
14. Trinta raios rodeiam um eixo, mas é onde os raios não raiam que a roda roda; vaza-se a vasa e se faz o vaso, mas é o vazio que perfaz a vasilha; casam-se paredes e se encaixam portas, mas é onde não há nada que se está em casa; falam-se palavras e se apalavram falas, mas é no silêncio que mora a linguagem; o ser presta a utilidade, mas é o não ser que empresta o sentido.
15. Os caminhos da existência superam sua indiferença e se constituem em encontro, cada vez diferente, quando houver a experiência do vazio ou do nada no percurso de todas as suas estâncias.
16. O nada ou o vazio de cada estância de experiência é a autoridade de todos os caminhos, a interioridade dos que caminham, sendo os caminhos sua pertença e os que caminham dependentes dele, à mercê de sua doação.
17. O encontro é sempre uma experiência criadora na dependência, em que o saber fazer, o poder ou caminho da existência, obedece e acolhe o mando do nada ou da ausência que se prodigaliza em presença, crescendo então a autoridade do caminho, o vigor de ser, tomando a existência consistência.
18. Para que o vigor de ser em seu crescimento não se esvaia como o grito lançado ao infinito sem repercussão e sem eco, é preciso a continência do limite, indicando Deus fez o homem de barro o comparecimento e a consistência da vida no finito do barro, instaurando-se nos limites do corpo a liberdade do espírito, festejando nas fronteiras do horizonte o panorama sua ilimitada beleza, estanciando na continência do ordinário o extraordinário.
19. O encontro é sempre um martírio, o óleo de consagração a um modo de vida, exemplo disso sendo a flor que, no limite de uma forma de ser, na consagração ao estreito caminho de seu florescer, celebra o poder e a liberdade da existência.
20. Quando a gratuidade, o nada da presença, ressoa suave e vigorosa no limite do que se faz e se sabe, perfaz-se a obra do encontro, como no poema que celebra, no silêncio claro do luar, a flor que se abre apenas branca à noite serena do céu, na espera de quem ama.
21. As palavras e a linguagem não constituem cápsulas em que as coisas se empacotam para o comércio de quem fala e escreve, mas é na palavra, na linguagem, que as coisas chegam a ser e são.
22. A palavra é sempre um horizonte de espera, e nas expressões silêncio claro, abre-se a flor apenas branca, noite serena, repercute intensamente o vazio, o nada que tudo envolve, ouvindo-se, na paciência da espera e no martírio desse limite, o advento, a chegada, o encontro do que é, nomeado na poesia como Senhor, evocação da gratuidade de tudo quanto é.
23. O encontro não é algo acrescentado às diferenças nem uma palavra acrescida a outras, mas a interioridade de todas as diferenças, a autoridade de todas as palavras, o que esplende no Cântico do Sol de Francisco de Assis, que celebra o encontro, o louvor à gratuidade, o Senhor, no comparecimento diferenciado das criaturas, presença que em si mesma é estranha ausência.
24. Consagrar-se às coisas ou às palavras da sensibilidade, da imaginação e do pensamento, recolhendo ali a sonância de sua inimaginável ausência, é a poesia do espírito, o poieín, o nada do fazer que agracia todo fazer.
25. Consentir que o toque dessa ressonância de ausência fira a palavra que se profere, a coisa que se tateia, a ideia que se medita, é comemorar, na espera desse empenho de consentimento, a unção do encontro.
26. Humanizar é celebrar a experiência de silêncio e de estranhamento do que aparece em modelos de convivência, sendo esses modelos a linguagem de sentido e de uso da realidade, nossa fala, em cujo silêncio habita o encontro.
27. Como desde o berço se é muito instruído no uso da linguagem de um convívio, para melhor compreensão do que é humanismo dever-se-ia dizer que humanizar é inaugurar, na linguagem da convivência diária, o silêncio ou o estranhamento da realidade em prestativa doação.
28. A realidade em silenciosa doação e as formas familiares de trato em que a falamos são a linguagem do humano, não sendo a linguagem em que operamos jamais a experiência definitiva do encontro, porque o saber definido das palavras nunca é a identidade definitiva das coisas, ainda que nele se inaugure incessantemente essa identidade como pura gratuidade e hino de louvação.
29. O saber de nossa linguagem humaniza quando nos restitui, nele e por ele, ao estranho não-saber da realidade em doação, sendo no conhecido que chega o desconhecido, instaurando-se um permanente processo de humanização quando houver essa implicância de saber-e-não-saber em cada palavra de convivência, sendo desumanidade não mais recolher o estranho no familiar.
30. Essa inauguração de encontro, esse processo de humanização, é a mais bela recompensa de toda porfia, dando-se o crescimento humano, celebração do prodigalizar-se da gratuidade, na diligência de todo encontro, que é sempre ascese e dom.
31. Ascese indica o exercício de nossa competência, o desempenho de saber e poder em que se está como intérprete e ator da vida, a paciência da espera, só acontecendo o encontro nos caminhos de ascese, de luta e porfia, enquanto dom indica o momento de graça, a gratuidade da vida que, subtraída à nossa competência, agracia o fervor do que somos.
32. A ascese é o ardor e a paciência da espera no exercício de alguma competência, como no poema que interroga de quem é o olhar que espreita pelos próprios olhos e quem continua vendo enquanto se pensa, por que caminhos seguem não os tristes passos, mas a realidade de se ter passos consigo.
33. Esse poema institui-se no exercício da competência de ver, e a diligência desse interesse, a ascese, ao declamar a competência, não apenas declara seu uso mas a reconduz à sua origem, à interioridade de si própria, dizendo que ela é dádiva gratuita, soando o poema como hino de louvor.
34. A ascese leva não apenas a cantar os sucessos ou lastimar os insucessos dos desempenhos, mas primordialmente a celebrar a gratuidade da existência a partir da qual se exerce todo empenho, declamando o poeta o poema da vida no desempenho do empenho de ver.
35. Declamar as palavras em sua verdade é sempre uma caminhada de declínio de poder, chegar aos encantos da interioridade, ao canto da doação que incessantemente se inaugura em todos os modos de ser, como no verso que afirma existir sempre uma medida idêntica em todos, ainda que cada um tenha suas próprias diferenças, pois cada qual só vai e chega até onde lhe é dado.
36. A ordem diversa do tempo, os passos diferentes da caminhada, o modo distinto de cada coisa ser, são versos de uma mesma balada, notas de uma mesma cantiga, movimentos de um mesmo bailado, sendo tudo em toda parte sempre encontro, reminiscência de doação, memória de uma ausência imemorial, impulso de celebração do que ainda não é no que já é.
37. Pode-se favorecer um momento ou preferir uma palavra de encontro, sendo o momento preferido e a palavra favorecida apenas ritos de memória onde se aprende a celebrar o silêncio da memória, o nada em diferentes caminhos de doação.
38. O encontro-de-amizade, o encontro-litúrgico, o encontro-com-a-inocência-de-olhar-da-criança, o encontro-com-a-serenidade-do-cadáver, são escrituras favorecidas onde a memória melhor recolhe o imemorial da gratuidade de todo poder e saber, percebendo-se nelas o surgimento de uma profundidade retraída que vigora toda escritura e dá ritmo, compasso e harmonia aos passos de quem caminha, trazendo à memória uma doação imemorial louvada pelo poeta na espantosa realidade das coisas, em que cada coisa é o que é.
39. O encontro com a espantosa realidade das coisas e sua fruição alegre começam quando se perde o sentido da vida proferido nas formas de nosso saber, encontrando-se, nessa perda, o mistério das coisas.
40. O encontro é sempre a acolhida da doação no fazer de nossas competências, soando em todo tempo organizado, em todo fazer isto ou aquilo, em todo passo bem ou mal sucedido, o mistério da gratuidade, a impossibilidade de nosso fazer, sendo acolher e celebrar essa gratuidade a obra perfeita da caminhada humana, em que a doação consuma sua identidade.
41. O só exercício de nossas competências não perfaz o encontro, que se perfaz quando, no declinar de nosso poder, nos inclinamos ao vazio ou nada da doação, sendo recolher na competência, mínima que seja, a plenitude da gratuidade, o ser-espiritual, o caminhar sempre no vigor do encontro, como se fala na escritura de Marta e Maria.
42. Na passagem evangélica, Jesus, recebido em casa de Marta, cuja irmã Maria se sentava a seus pés ouvindo sua palavra enquanto Marta se afadigava na lida da casa, responde ao pedido de ajuda que Marta se afadiga e anda inquieta com muitas coisas, quando uma só coisa é necessária, tendo Maria escolhido a melhor parte, que lhe não será tirada.
43. O texto evangélico apresenta o caminho humano no endereço à sua identidade, à doação e à acolhida de seu ser em plenitude, à obra perfeita do encontro, proferindo Marta, Maria e o Senhor três níveis de profundidade desse caminho.
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Marta está no zelo de um trabalho doméstico, no martírio de um serviço, na devoção de um fazer, aprendendo nessa ocupação o ensinamento paradigmático de todo fazer, a alegria do encontro.
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O tempo da ocupação, organizado e cronometrado, projetado em tarefas ou metas que ao serem alcançadas perdem sua capacidade de mobilizar o desenvolvimento, é sempre também o tempo da convivência, filtrando-se por entre as funções da ocupação o encontro, a experiência do acolhimento da doação.
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A ocupação que cria e usa objetos é conduzida por uma pré-ocupação de convivência não-objetiva, sendo importante na funcionalidade ocupacional não a funcionalidade, mas a convivência, cuja perda no desenvolvimento da ocupação é a decadência do humano.
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As formas de decadência da convivência não têm padrão, podendo estar cobertas pela aparência da convivência, prestando-se o mesmo padrão ocupacional tanto para a estruturação quanto para a desestruturação da convivência.
44. No interesse contínuo da lida doméstica, vendo o nada que pode, Marta sente que tudo lhe advém em doação, mantendo-se no zelo do fazer, na paciência da espera, apercebendo-se, no recolhimento do fazer, qual Maria aos pés do Senhor, em atitude de louvor à fluência graciosa do Mistério da vida.
45. Maria é sempre, na parábola evangélica, o penhor de uma conquista, o perfeito cumprimento da promessa de Marta, o dom de uma ascese, o óleo de uma consagração, resultando a dificuldade de o humano não se aperceber como doação-acolhida e como louvor do fato de não ser, na faina da vida, o ardor de Marta.
46. Marta distraída não se vê qual Maria, mas Marta recolhida na ação, na diligência de declamar seu poder, vem, no declínio de seu poder, para a interioridade de seu mistério, Maria, e institui um diálogo de queixa ao perceber que a doação lhe é dada em limite, na kénosis de uma situação.
47. Na queixa dessa dor-de-limite inclina-se ao vazio de sua competência, consagra-se mais ao desejo de servir e alcança compreender, nesse encontro com o nada de seu mistério, que a competência de ser e de fazer lhe é dada primordialmente para celebrar a gratuidade dos caminhos da existência.
48. Caminhar no exercício de um poder, Marta, para celebrar a gratuidade da vida, Maria, é escolher a melhor parte, o encontro com a identidade que jamais será tirada, pois quanto mais se dá a outrem tanto mais se tem a si mesmo, e quanto mais o outro se dá, tanto mais a si se tem.
49. O caminho de consagração devota à vida é sempre uma ocupação, um fazer, um estar junto a, e a assiduidade desse viver junto conquista a solidão, cujo desenvolvimento restitui cada diferença ao próprio de si, conquistando na acolhida da solidão as diferenças a suprema convivência, só acontecendo a convivência na imanência da solidão.
50. Os troncos vizinhos da floresta permanecem desconhecidos uns aos outros enquanto estão, cantando assim a convivência das árvores na solidão de seus troncos.
