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Tempo
BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.
A Leitura Heideggeriana de Aristóteles e a Gênese do Tempo do Relógio
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A investigação da sexta seção da segunda parte de Ser e Tempo não objetiva formular uma teoria física ou cosmológica sobre o tempo, mas descrever phenomenologicamente as condições de sua compreensão a partir do cuidado (Sorge).
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Heidegger retoma a definição clássica de Aristóteles, que baliza toda a tradição ocidental subsequente, para evidenciar como o tempo se introduz em nossa experiência fática: “Pois isto é o tempo: aquilo que é contado no movimento que se encontra no horizonte do Antes e do Depois”.
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O movimento (Kinesis) na física aristotélica refere-se a qualquer modalidade de mudança e transição, transcendendo a mera locomoção espacial.
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O recurso a um instrumento de medição como o relógio permite demarcar e quantificar a mudança sob a forma de uma sequência de “agoras” (jetzt) sucessivos e contados.
A Estrutura do Tempo do Mundo: Databilidade, Extensão e Publicidade
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A compreensão originária do tempo fundamenta-se na ocupação circunspecta cotidiana (besorgende Umsicht), na qual o ser-aí (Dasein) calcula, planeja e previne acontecimentos em seu ambiente.
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A cotidianidade do ser-aí (Dasein) expressa-se na demarcação de horizontes temporais práticos ligados ao agir: “A ocupação do senso comum circunspecto funda-se na temporalidade — de fato, sob a modalidade de um presentificar que retém e espera. Tal ocupação, como cálculo, planejamento, prevenção ou precaução concernida, sempre diz (seja audivelmente ou não) que algo deve acontecer 'então', que outra coisa deve ser tratada 'antes', que o que falhou ou nos escapou 'naquela antiga ocasião' é algo que devemos 'agora' compensar”.
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O tempo cotidiano possui a determinação essencial da databilidade (Datierbarkeit), caracterizando-se sempre como o tempo em que determinado evento ou atividade fática ocorre no mundo.
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Os eventos cotidianos estendem-se no tempo, de modo que os períodos em que transcorrem são dotados de uma extensão ou amplitude (Gespanntheit).
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O tempo do mundo é intrinsecamente dotado de significatividade (Bedeutsamidade), dividindo-se em tempos apropriados ou inapropriados para a realização de determinadas condutas sociais.
O tempo cotidiano é essencialmente público (öffentlich), possibilitando a coordenação das ações dos agentes inseridos em um horizonte de ser-com (Mitsein).-
Na publicidade do ser-com no mundo, diferentes pessoas podem pronunciar o “agora” simultaneamente, embora atribuam datas distintas a esse mesmo instante com base em suas respectivas ocupações: “No ser-com-um-outro 'mais íntimo' de várias pessoas, elas podem dizer 'agora' e dizê-lo 'juntas', embora cada uma delas atribua uma data diferente ao 'agora' que está dizendo: agora que isto ou aquilo aconteceu. […] O 'agora' expresso é dito por cada um na publicidade do ser-com-um-outro-no-mundo. Assim, o tempo que qualquer ser-aí interpretou e expressou atualmente já foi, como tal, tornado público com base no ser-extático-no-mundo desse ser-aí”.
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A faticidade do lançamento do ser-aí (Dasein) em um mundo partilhado constitui a base que torna o tempo publicamente acessível por meio do cálculo ou cômputo do tempo (Zeitrechnung): “Porque é essencial ao ser-aí que ele exista decadentemente como algo lançado, ele interpreta seu tempo de modo concernido por meio do cômputo do tempo. Nisso, o 'real' tornar-público do tempo se temporaliza, de modo que devemos dizer que a decadência lançada do ser-aí é a razão pela qual 'há' tempo publicamente”.
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A necessidade de coordenação mútua impõe o recurso a referenciais astronômicos e calendários partilhados, a começar pela alternância regular entre o dia e a noite.
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A ocupação humana apoia-se na presença constante e utilizável do sol como medida pública e estável que rege as atividades diárias: “A ocupação faz uso do 'estar-à-mão' do sol”.
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A caracterização fenomenológica completa do tempo cotidiano define-o como estruturalmente datável, estendido e público, pertencendo diretamente à constituição do próprio mundo: “Somente agora, em todo caso, o tempo com o qual nos ocupamos pode ser completamente caracterizado quanto à sua estrutura: ele é datável, estendido e público; e, tendo essa estrutura, ele pertence ao próprio mundo”.
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O tempo do mundo ou tempo-do-mundo (Weltzeit) não assume o estatuto de um ente subjetivo ou objetivo em termos tradicionais, mostrando-se mais objetivo do que qualquer objeto e mais subjetivo do que qualquer sujeito.
O Nivelamento do Tempo e a Gênese da Concepção Vulgar de Tempo
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A transição do tempo do mundo (Weltzeit) para a concepção vulgar de tempo como uma sequência infinita de “agoras” resulta das demandas práticas de cálculo e de racionamento do tempo (Sich-zeit-nehmen).
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O cálculo rigoroso exige a adoção de um padrão estável, homogêneo e universalmente acessível, o qual deve se apresentar de forma constante para todos: “A ideia de um padrão [para a medição do tempo] implica imutabilidade; isto significa que, para todos, a qualquer momento, o padrão, em sua estabilidade, deve estar presente”.
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A utilização de relógios padronizados promove a neutralização da databilidade e da significatividade originais do tempo do mundo, restando uma multiplicidade de “agoras” homogêneos interpretados na linha da simples presença (Vorhandenheit): “Este tempo que é 'universalmente' acessível nos relógios é algo com que nos deparamos como uma multiplicidade presente de Agoras, por assim dizer, embora a medição do tempo não seja direcionada tematicamente para o tempo como tal”.
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A contagem efetuada pelo acompanhamento dos ponteiros do relógio despoja os momentos de sua vinculação com as atividades fáticas, tratando-os como unidades idênticas e intercambiáveis cuja única distinção é sua posição na ordem sucessiva.
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Na ontologia tradicional, o tempo passa a ser concebido como um receptáculo ou continente abstrato que envolve as mudanças e permanências das coisas sem se misturar com elas.
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Os “agoras” passam a ser encarados sob o horizonte ontológico da presença: “Assim, os Agoras são, de certa maneira, co-presentes: isto é, os entes vêm ao encontro, e assim também o faz o Agora. Embora não seja dito explicitamente que os Agoras estão presentes da mesma maneira que as coisas, eles ainda são 'vistos' ontologicamente dentro do horizonte da ideia de presença”.
A Fuga Diante da Finitude e o Encobertamento da Temporalidade
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O encobertamento e o nivelamento (Nivellierung) das estruturas da databilidade e da significatividade do tempo possuem suas raízes na própria constituição existencial do ser-aí (Dasein) e em sua tendência à decadência (Verfall).
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Ao absorver-se na cotidianidade do impessoal (das Man), o ser-aí (Dasein) encobre a temporalidade originária e se afasta da confrontação com a morte existencial e com a finitude de seu próprio poder-ser (Seinkönnen): “No encobertamento dos caracteres de databilidade e significatividade, a constituição êxtase-horizontal da temporalidade, na qual a databilidade e a significatividade do Agora se fundam, é nivelada”.
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A tentativa de esquivar-se da finitude conduz à formulação de uma concepção de tempo infinito e interminável, evitando a percepção de que o tempo de que se dispõe é ontologicamente limitado.
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A inautenticidade do cotidiano desvia o olhar da finitude e obscurece a dimensão do futuro próprio: “Nessa fuga concernida reside uma fuga diante da morte — isto é, um desviar de olhos do fim do ser-no-mundo. Esse desviar de olhos dele é, em si mesmo, um modo daquele ser-para-o-fim que é ecstasticamente futural. A temporalidade imprópria do ser-aí cotidiano à medida que decai deve, como tal desviar de olhos da finitude, falhar em reconhecer o futuro próprio e, com isso, a temporalidade em geral. […] O impessoal nunca morre porque não pode morrer; pois a morte é, em cada caso, minha, e somente na resolução precursora ela é propriamente compreendida de modo existencial”.
O obscurecimento da identidade prática no manuseio cotidiano dos utensílios constitui um esquecimento (Vergessen) constitutivo e necessário para o êxito das tarefas práticas.-
Para que o agente possa manipular eficazmente um instrumento, seu si-mesmo deve recuar para o plano de fundo, evitando que a atenção se divida entre a execução do trabalho e a reflexão sobre a própria identidade: “Um tipo específico de esquecimento é essencial para a temporalidade que é constitutiva para deixar algo ser ocupado. O si-mesmo deve esquecer a si mesmo se, perdido no mundo dos utensílios, ele deve ser capaz de 'efetivamente' ir ao trabalho e manipular algo”.
A Explicação Fenomenológica das Propriedades do Tempo Vulgar
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As quatro características atribuídas tradicionalmente ao tempo vulgar — continuidade, infinitude, irreversibilidade e fluxo — encontram sua explicação genética e fenomenológica como derivações degradadas da temporalidade originária.
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A continuidade do tempo (ausência de lacunas) provém do caráter estendido da distensão (Erstreckung) da própria existência, que se projeta continuamente a partir de seu ter-sido em direção às suas possibilidades futuras.
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A infinitude do tempo origina-se do processo reflexivo de pensar o tempo até o fim, onde cada limite colocado sob a forma de um “agora-ainda-não” remete constitutivamente a um posterior “depois”, gerando a ilusão de uma sucessão inesgotável.
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A irreversibilidade do fluxo do tempo (a flecha do tempo) constitui o vestígio da direção existencial e teleológica da temporalidade originária, que é primariamente orientada ao futuro e caminha em direção ao seu limite extremo.
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A impossibilidade de reverter a sequência de “agoras” baseia-se na prioridade do futuro que caracteriza o cuidado (Sorge): “Na interpretação comum, a corrente do tempo é definida como uma sucessão irreversível. […] A impossibilidade desta reversão tem sua base no modo como o tempo público se origina na temporalidade, cujo temporalizar é primariamente futural e 'vai' para o seu fim ecstasticamente de tal modo que já 'é' em direção ao seu fim”.
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A metáfora do tempo como um rio que flui e passa sem poder ser detido reflete a impossibilidade de estancar a dinâmica de projeção e transição contida em cada momento da existência fática.
A Temporalidade como Tempo Originário
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A demonstração de que o tempo comum e utilizável pelo senso comum deriva das estruturas da temporalidade própria justifica a designação desta última como o tempo originário ou primordial (ursprüngliche Zeit).
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Se o tempo acessível ao entendimento cotidiano não é originário, mas provém da temporalidade autêntica, torna-se legítimo nomear a temporalidade desvelada como o tempo primordial: “Se, portanto, demonstramos que o 'tempo' que é acessível ao senso comum do ser-aí não é originário, mas surge, antes, da temporalidade própria, então, de acordo com o princípio a potiori fit denominatio, estamos justificados em designar como tempo originário a temporalidade que agora desvelamos”.
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A derivação fenomenológica da concepção vulgar de tempo a partir do tempo do mundo e da temporalidade existencial não anula a utilidade prática ou científica dos modelos de medição cronológica.
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O desenvolvimento de relógios de altíssima precisão pela física contemporânea representa a sofisticação técnica da capacidade existencial de demarcar o tempo e de pronunciar o “agora” de maneira estável no horizonte compartilhado do mundo.
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